Investimentos em unidades de conservação

terça-feira, 28 de junho de 2011
"Cansado das discussões eternas em que se comprazem seus contemporâneos, Pirro adota a postura de responder a todas as perguntas: eu não sei nada"   -   Victor Brochard   -   Os céticos gregos

A longa e por final intensa discussão sobre a alteração do Código Florestal Brasileiro acabou despertando a atenção da imprensa para outros assuntos relacionados com a floresta. Ainda à época dos últimos debates no Congresso sobre a alteração da lei, foi constatado que os índices de desmatamento haviam aumentado repentinamente, enquanto que o número de assassinatos ligados à questão do uso da floresta e da posse da terra na região amazônica vem crescendo. Mais recentemente, um estudo coordenado pelo Centro para o Monitoramento da Conservação Mundial, do Programa da ONU para o Meio Ambiente, concluiu que numa lista de nove países – todos também dispondo de biomas de importância – o Brasil é o que menos investe na proteção de suas florestas.
Segundo dados do estudo divulgado recentemente pelo site da BBC Brasil, enquanto o país investe em média R$ 4,43 por cada hectare em suas unidades de conservação, a Argentina gasta R$ 21,37, o México R$ 39,71 e a África do Sul R$ 67,09 – quinze vezes mais. Com relação aos países desenvolvidos a diferença é maior ainda: os Estados Unidos, campeão em desembolsos para suas unidades de conservação, destina R$ 156,12 por hectare (35 vezes mais que o Brasil) e a Nova Zelândia R$ 110,39. Mesmo a Costa Rica, cuja economia é equivalente à do estado de Piauí (cerca de R$ 16 bilhões), investe mais que o Brasil na manutenção de suas áreas de conservação ambiental.
Por outro lado, o estudo “Contribuição das unidades de conservação para a economia nacional” – resultado de uma parceria entre o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Ministério do Meio Ambiente – estima que o Brasil possa gerar ao ano R$ 5,77 bilhões com o aproveitamento econômico de suas áreas de conservação. Receitas com produtos florestais (extração controlada de madeira, de castanha-do-pará, frutas e extratos vegetais), fixação de carbono, turismo ecológico, projetos de conservação de recursos hídricos, entre outras atividades, poderiam ser a fonte deste faturamento. Para que isto acontecesse, no entanto, o país teria que alocar aproximadamente R$ 900 milhões anuais nos sistemas de conservação federais e estaduais, além de R$ 1,8 bilhão na infraestrutura de turismo. Além disso, o país teria que criar uma estrutura para gestão deste sistema; o que implicaria na capacitação de pessoal compra de equipamentos e coleta e gestão de dados.
Estes estudos comentados acima apontam para dois fatos. Se por um lado é bastante incipiente nosso sistema de gestão de unidades de conservação, carecendo de recursos e pessoal qualificado, por outro somos um dos países com o maior potencial de geração de divisas a partir destas unidades – sem destruí-las. Não é por outra razão que países como os Estado Unidos, a África do Sul e a Costa Rica atraem um grande número de turistas com seus parques e florestas, o que contribui para a conservação das áreas, mais geração de postos de trabalho e de receitas.
Este é um exemplo de como o Brasil poderá aproveitar sustentavelmente seus recursos naturais. O uso sustentado da floresta (e outros biomas) proporciona um melhor padrão de vida para os habitantes da região, acabando gradualmente com as atividades meramente predatórias, que só trazem benefícios a poucos e destroem o ambiente.
(imagens: El Lissitzky)

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