Arte na Idade Média e no Renascimento

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
"Afinal, numa sociedade dominada por um discurso, aquele do capitalista, em que a mortalidade deve ser ocultada, senão negada, em favor das possibilidades de consumo, a história metapsicologicamente subvencionada pode dar voz a esse recalcado. E o faz, simbolizando a angústia e desconstruindo a expectativa, simultaneamente infantil e obsessiva, de que uma pílula ou uma promessa de eternidade deem sentido à vida."  -  Clovis Pereira  - Thânatos e civilização 

Há uma grande diferença entre a visão da arte no período medieval e no renascentista. Na Idade Média, principalmente no primeiro milênio, a arte era completamente influenciada pela religião cristã. Os temas dos afrescos, que se desenvolveram em Bizâncio e depois foram incorporados pelo cristianismo ocidental, giravam basicamente em torno de pinturas retratando os santos da Igreja, Jesus e Maria. Alguns textos importantes foram ilustrados com iluminuras (ilustrações em manuscritos feitos por monges copistas), mas de pouca sofisticação pictórica. Na arquitetura, imperava o estilo românico, a partir do século X, até pelo menos até o início do século XIII. O estilo era uma arquitetura eclesiástica, que havia herdado muitas técnicas de estilo e construção dos antigos templos romanos e simbolizava o poder das ordens monásticas que dominavam o universo da cultura medieval desde o século VI. As igrejas românicas eram geralmente construídas junto a mosteiros e faziam parte de uma sociedade estática e fechada em si.
O estilo gótico (nome pejorativo, dado pelos intelectuais renascentistas a este estilo) foi gradualmente substituindo o românico, a partir dos séculos XIII e XIV. As catedrais góticas eram construídas em cidades com grandes recursos financeiros – já que sua construção era cada e requeria muitos anos de investimento –, geralmente provenientes de fundos arrecadados com festas religiosas e pelo fato das cidades serem locais de peregrinação. A cidade de Colônia, por exemplo, era famosa por possuir as ossadas dos três reis magos, o que atraiam anualmente milhares de peregrinos. A catedral gótica era o centro da vida da comunidade. Abrigava geralmente uma escola e uma biblioteca e, por vezes, era usada como câmara municipal. A catedral gótica, segundo Burns é “expressão do novo espírito secular, que resultara do crescimento das cidades e do progresso do esclarecimento” (Burns, 1971, p. 388).
Convêm lembrar que a Idade Média não é um período uniforme, que se estende por cerca de 1000 anos entre o século V e o século XV. A partir do século X, a cultura ocidental sofre uma série de transformações – algumas delas têm origem no século VIII com o renascimento carolíngio – que implicam mudanças sócias, econômicas e culturais. O comércio e as comunicações entre as comunidades voltam a crescer, depois de séculos de paralisia. A cultura volta a expandir-se com a proliferação das escolas dominicais dos mosteiros e a fundação das primeiras universidades. É neste período que a doutrina da Igreja começa a tomar corpo, com a instituição da eleição do papa por um grupo de cardeais (século XI), da criação dos sete sacramentos, da Inquisição e do Purgatório (século XIII).
Estas mudanças culturais e sociais também provocam alterações nas artes. A partir do século XIII podemos observar uma arte ainda tipicamente medieval, convivendo com o início do humanismo na Itália (que em seguida daria origem ao Renascimento). Este movimento tem suas origens nas cidades de Florença, Pisa, Gênova e Veneza, que desde o século XII viviam um intenso crescimento do comércio e da cultura. Sobre este período escreve Luc Benoit: “Por outro lado, a clientela dos artistas modificava-se e a riqueza tinha mudado de mãos. A Igreja perdera sua autoridade e seu poder. A aristocracia feudal arruinada pela guerra foi substituída por chefes de bandos (condittieri), por banqueiros, por grandes burgueses que tinham suas fontes de receita nas cidades livres alemãs e italianas. Em Veneza, em 1407, fundou-se a Casa di San Giorgio, o primeiro banco público da Europa. A arte encaminhou-se para os palácios particulares, para os palacetes dos burgueses enriquecidos pelo comércio, de que resultou do quadro feito à medida das habitações urbanas.” (Benoist, s/d, p.49).
Sintetizando, poderíamos caracterizar a visão artística do período medieval e renascentista da seguinte maneira:
Idade Médial:
- Universo cultural dominado pela religião e a preocupação com o além;
- Desvalorização do corpo, do prazer e da curiosidade intelectual;
- Universo estático, dominado pela vontade divina;
- Sociedade hierarquizada em três classes: nobres, religiosos e servos;
- Quase não havia apoio à arte, só fomentada pela igreja;
- Pouca tradição artística (afrescos e iluminuras) e poucos artistas (monges geralmente);
Renascimento:
- Preocupação com este mundo, humanismo, naturalismo;
- Valorização e reinterpretação do corpo, curiosidade intelectual, pesquisa científica;
- Universo dinâmico, antropocêntrico, heliocentrismo, universo infinito (G. Bruno);
- Sociedade em transformação, formação da burguesia comercial, queda do feudalismo;
- Apoio à arte nas cidades, mecenas, igreja apóia a nova arte de influência clássica;
- Escolas de artistas, artistas famosos (Michelângelo, da Vinci, Rafael, Dürer), desenvolvimento das artes plásticas, poesia e literatura.
Esta divisão é apenas uma generalização, já que a arte na Idade Média foi encarada de várias maneiras e a passagem para o Renascimento também não se deu abruptamente. Por outro lado, não é possível abstrair a arte do ambiente social e econômico, como Friedrich Engels já havia escrito.
Bibliografia:
ECO, Umberto. Arte e Beleza na Estética Medieval. Rio de Janeiro. Editora Globo: 1989, 224 p.
BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental Vol I. Porto Alegre. Editora Globo: 1971, 581 p.
BENOIST, Luc. História da Pintura. Lisboa. Publicações Europa-América: s/d, 115 p.
ROMEIRO, Artieres E.; DALLA VECCHIA, Ricardo B.; KRASTANOV, Stefan V. Estética. Batatais. CEUCLAR, 2007, 100 p.
(Imagens: fotografias de Wiiliam Gedney)

1 comentários:

Ruan Freitas disse...

Genial, adorei a matéria, muito obrigado.

Postar um comentário