“Durante
a Idade Média, o pensamento humano estava acorrentado, interna e externamente,
aos dogmas da Igreja; Espinosa, por meio de seu tratado (Tratado Teológico-Político), libertou a razão da compulsão infernal
da palavra bíblica; ele foi o primeiro a criticar toda a teologia. Na conquista
do medo e na crítica bíblica, ele foi superado por pessoas corajosas que o
seguiram; mas na libertação da moralidade humana da teologia, ele permanece
insuperável até hoje, pois sua crítica moral é ainda mais pura e atemporal do
que a doutrina desonrosa que nós (seguindo as brilhantes declarações de
Nietzsche) costumamos chamar de amoralidade ou desenvolvimento histórico da
moralidade. Em Espinosa, essa critica não é espirituosa ou zombeteira; é tão
simples e necessária quanto a imagem multicolorida do sol em uma gota de
orvalho.
Trata-se
de sua concepção sobre a necessidade incondicional de todos os eventos; o que
acontece em Deus ou na Natureza é necessário, não é livre. Deus (a Natureza)
não tem vontade nem intelecto; o homem tem um pouco de intelecto, mas nenhum
livre-arbítrio, que permita que suas ações sejam avaliadas moralmente; não há
espaço em todo o mundo humano para o que se chama de moralidade. O bem e o mal
são meramente conceitos humanos. No entanto, deve haver
indivíduos do bem, porque Espinosa viveu da forma que a moral cristã esperaria que
vivesse um santo – como até seus inimigos foram obrigados a reconhecer.
Como
o homem não obedece a um dever imposto quando é bom – porque é necessariamente de um jeito ou de outro
(bom ou mau no conceito humano), o homem também não tem o direito de esperar
que Deus ou a Natureza o amem em retorno.”
Fritz
Mauthner (1849-1923), filósofo, jornalista e escritor austríaco em Espinosa – Biografia, Filosofia e Teologia
(Spinoza – Lebensgeschichte, Philosophie
und Theologie, em alemão no original)
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