“Na verdade, sequer começamos a pensar sobre como nossas vidas poderiam ser se a tecnologia fosse realmente ordenada para se adequar às necessidades humanas. Quantas horas de fato precisaríamos trabalhar para manter uma sociedade funcional – isto é, se nos livrássemos de todos os cargos inúteis ou destrutivos, como operadores de telemarketing, advogados, carcereiros, analistas financeiros, relações-públicas, burocratas e políticos; desviássemos nossas melhores mentes científicas do desenvolvimento de armas espaciais ou de sistemas de mercado acionário para a mecanização de tarefas perigosas ou perturbadoras, como extração de carvão ou limpeza de banheiros; e distribuíssemos o trabalho restante igualmente entre todos? Cinco horas por dia? Quatro? Três? Duas? Ninguém sabe, porque ninguém sequer faz este tipo de pergunta. Os anarquistas creem que estas são justamente as perguntas que deveríamos estar fazendo.”
“Tudo indica que chegamos a um impasse. O capitalismo, como o conhecemos, parece estar ruindo. Porém, enquanto instituições financeiras cambaleiam e se desfazem, não há alternativa evidente. A resistência organizada mostra-se dispersa e incoerente; o movimento pela justiça global, uma sombra de sua antiga essência. Temos boas razões para crer que, dentro de aproximadamente uma geração, o capitalismo terá deixado de existir: pelo simples motivo de que é impossível manter uma máquina de crescimento perpétuo em um planeta finito. Em face dessa perspectiva, a reação instantânea – mesmos dos ‘progressistas’ – é, muitas vezes, de temor, de aferrar-se ao capitalismo por simplesmente não conseguir imaginar uma alternativa que não fosse ainda pior.”
David Graeber (1961-2020), antropólogo e ativista político anarquista estadunidense em O Anarquismo no século XXI e outros ensaios


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