
“Unicamente o presente é verdadeiro e
real: ele é o tempo efetivamente realizado, e é exclusivamente nele que reside
nossa existência. Por isso, deveríamos sempre considerá-lo digno de uma
acolhida alegre e, assim, conscientemente desfrutá-lo como tal em todo momento
suportável e livre de adversidades e dores imediatas, ou seja, não o obscurecer
com expressões amuadas devido a esperanças fracassadas no passado ou
inquietações quanto ao futuro. Pois é completamente insensato rechaçar um bom
momento presente ou arruiná-lo intencionalmente por causa de decepções do
passado ou inquietações com o porvir. É claro que se deve dedicar um certo
tempo à preocupação, sim, até mesmo ao arrependimento; depois, porém, deve-se
pensar o seguinte sobre o passado: Αλλα
τα μεν προτετυχθαι εασομεν αχνυμενοι περ . Θυμον ενι στηθεσσι φιλον δαμασαντες
αναγκῃ. [Impõe-se a nós dobrar o coração no peito. Dou fim à ira, não é
algo aceitável sempre insistir na fúria] (HOMERO. Ilíada, XIX, 65, 66). E sobre
o futuro: Ητοι ταυτα θεων εν γουνασι
κειται. [Mas tudo jaz nos joelhos de imortais] (HOMERO . Ilíada , XVII , 514
) . No entanto, sobre o presente: singulas
dies singulas vitas puta [pensa que cada dia é, por si só, uma vida] (Sêneca)
e torna esse tempo real e único o mais agradável possível.
Os únicos males futuros que podem justificadamente
nos inquietar são aqueles que são certos e cujo momento de ocorrência também é
certo. No entanto, esses são muito poucos; pois os males são ou simplesmente
possíveis, no máximo prováveis, ou são certos; mas seu momento de ocorrência é
completamente incerto. Se nos deixarmos envolver por esses dois tipos, não
teremos mais nenhum instante de sossego. Portanto, para não perdermos a
tranquilidade de nossa vida devido a males incertos e indeterminados,
precisamos nos acostumar a considerar os primeiros como se nunca fossem ocorrer,
e os segundos como se certamente não fossem ocorrer em breve. Ora, quanto menos
alguém é incomodado pelo temor, tanto mais é inquietado pelos desejos, cobiças
e pretensões. O significado verdadeiro da canção tão popular de Goethe, ich hab’ mein’ Sach’ auf nichts gestellt
[em nada depositei minhas esperanças] é que, só depois de se afastar das
pretensões e retornar para a existência nua e crua, o ser humano toma parte da
tranquilidade que constitui o fundamento da felicidade humana.
Essa tranquilidade é necessária para
considerar assimilável o presente e, desse modo, a vida inteira. Justamente com
esse propósito, deveríamos sempre ter em mente que o dia de hoje vem só uma vez
e nunca mais. Porém, supomos que retornará amanhã: mas amanhã é um novo dia que
também só virá uma vez. Nós, contudo, esquecemos que cada dia é uma parte
integrante e, por isso, insubstituível da vida, e o consideramos, antes, como
contido nela, assim como os indivíduos estão contidos no conceito de conjunto.
Também apreciaríamos e desfrutaríamos melhor o presente se, nos dias de bem-estar
e saúde, sempre estivéssemos conscientes de como, nas enfermidades e aflições, a
lembrança nos apresenta cada hora sem dor e sem privação como infinitamente
digna de inveja, como um paraíso perdido, como um amigo negligenciado. No
entanto, vivemos nossos belos dias sem percebê-los: só quando chegam os dias
ruins é que desejamos aqueles de volta. Deixamos passar milhares de horas
alegres e agradáveis, sem desfrutá-las e com rosto amuado, para depois, nos
tempos sombrios, suspirarmos por elas em vão. Em vez disso, deveríamos
reverenciar todo momento presente suportável, inclusive o mais corriqueiro, que,
indiferentes, deixamos passar e que até mesmo, impacientes, apressamos.
Deveríamos sempre ter em mente que, precisamente agora, esses momentos se
precipitam naquela apoteose do passado, na qual, a partir de então, envoltos
pelos raios de luz da perenidade, são conservados pela memória, para,
especialmente nos momentos ruins, quando essa um dia abre a cortina,
apresentarem-se como um objeto de nosso anseio mais íntimo.”
Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão em Sobre Como Lidar Consigo Mesmo