"Nimirum
insanus paucis videatur, eo quod
Máxima
pars hominum morbo jactatur eodem"
(No
entanto poucos os julgam loucos,
porque
quase todos padecem do mesmo mal) - Horácio - Sátiras
Política
é a prática e o conhecimento utilizados na administração de um Estado ou
organização humana, com objetivos determinados. Toda instituição humana está
sujeita a regras, mesmo que estas não tenham sido escritas. Estas regras foram
estabelecidas por grupos ou indivíduos e reflete a política – a maneira de
gerir – que rege cada organização. Clubes, igrejas, empresas, condomínios,
associações, sindicatos, times de futebol, municípios e estados; todos têm as
suas regras e suas políticas. A palavra tem origem na língua grega, na qual o termo
politiká é uma derivação da palavra polis que designa aquilo que é público.
Marilena Chauí apresenta três significados distintos para a palavra política:
“1. O significado de governo,
entendido como direção e administração do poder público, na forma de Estado. O
senso comum social tende a identificar governo e Estado, mas governo e Estado
são diferentes, pois o primeiro diz respeito a programas e projetos que uma
parte da sociedade propõe para o todo que a compõe, enquanto o segundo é
formado por um conjunto de instituições permanentes que permitem a ação dos
governos.” (CHAUÍ, 2006, p. 346)
“2. O significado de atividade
realizada por especialistas (os administradores) e profissionais (políticos),
pertencentes a um certo tipo de organização sociopolítica (os partidos), que
disputam o direito de governar, ocupando cargos e postos no Estado.” (Ibidem, p. 347)
“3. O significado, derivado do
anterior, de conduta duvidosa, não muito confiável, um tanto secreta, cheia de
interesses particulares dissimulados e frequentemente contrários aos interesses
gerais da sociedade e obtidos por meios ilícitos ou ilegítimos.” (Ibidem p. 347).
A
política em sua forma mais simples não é atividade exclusivamente humana. O
primatólogo holandês Frans de Waal, autor de diversas publicações sobre o
comportamentos de macacos – principalmente chimpanzés e bonobos – descreve
várias situações onde já se encontra uma primitiva prática política. Esta,
portanto, não é exclusiva da espécie homo
sapiens, mas provavelmente influiu e foi influenciada pelo comportamento
gregário humano, tendo sido aprimorada através dos variados processos
culturais.
A
filosofia política é a disciplina da filosofia que envolve o estudo dos
fenômenos políticos. A disciplina surgiu quando os estudos filosóficos passaram
a se concentrar no ser humano, enfocando suas atividades e convivência com os
outros. Esta atenção aos temas humanos apareceu pela primeira vez na filosofia
da Grécia antiga, no final do 5º século a.C., com os filósofos da escola
sofista. O primeiro e mais famoso pensador a tratar exclusivamente dos temas
humanos foi o ateniense Sócrates (470 – 399 a.C.), mestre de Platão. Este último foi o
primeiro filósofo a se ocupar especificamente da política; da administração de
um estado. Seus escritos estabeleceram a filosofia política (ou filosofia da
política) como disciplina específica dentro do estudo da filosofia.
Segundo
o filósofo Norberto Bobbio (1909-2004), existem quatro caracterizações
principais da filosofia política. A primeira é aquela que busca a melhor forma
de governar. Nesta categoria se incluem todos os pensadores que procuraram
construir ou imaginar um estado ideal, como Platão, Thomas Morus, Thomas
Müntzer, entre outros. Platão foi o primeiro filósofo a apresentar o quadro de
um estado ideal (em sua avaliação), cujo principal objetivo era promover uma
convivência harmônica entre os homens, submetendo-os às leis e dividindo-os em
hierarquias. Segundo alguns autores, esta ordenação do Estado platônico é na
realidade uma metáfora da alma humana: as três classes representam tendências
inatas no homem que levam a alma para o desejo, para a ira e para a sabedoria.
Sob esta ótica, a obra A República,
apesar dos detalhes quanto ao governo que apresenta, é uma analogia sobre a
vida humana, sob a ótica das Idéias. Sobre este ponto escreve o historiador
alemão Werner Jaeger:
“O
Estado de Platão versa, em última análise, sobre a Alma do Homem. O que ele nos
diz do Estado como tal e da sua estrutura, a chamada concepção orgânica do
Estado, onde muitos vêem a medula da República platônica, não tem outra função
senão apresentar-nos a “imagem reflexa ampliada” da alma e da sua estrutura
respectiva. E nem é nunca atitude primariamente teórica que Platão se situa
diante do problema da alma, mas antes numa atitude prática: na atitude do
modelador de almas. A formação da alma é a alavanca com a qual ele faz o seu
Sócrates mover todo o Estado.” (Jaeger: 2003, p. 752).
As
diversas formas de governo, Platão trata mais profundamente em suas obras A Política e As Leis. Nestes escritos Platão considera a hipótese – bastante
real, aliás – de que nem todos os Estados teriam governantes perfeitos como a
sua República.
A segunda categoria de filosofia política, segundo
Bobbio, é aquela que procura identificar o fundamento último do poder. Nesta
categoria se incluem todos os pensadores que se preocuparam com a origem do
Estado, como Hobbes, Locke e Rousseau. Para Thomas Hobbes (1588-1679), o Estado
é efetivamente a única possibilidade de os homens poderem viver de uma maneira
relativamente aceitável sobre a Terra. Em seu estado natural, utilizando seu
direito natural a tudo que querem, os homens necessariamente viveriam em
constante guerra entre si. Decididos a abrirem mão de parte de seus direitos
naturais em benefício de outras vantagens, os homens fundam o Estado para
garantir a paz e a possibilidade de alcançar os seus outros objetivos. Nesse
processo, segundo Hobbes, restringirmos nossa liberdade natural, nos submetendo
a um poder soberano, formado por um indivíduo (monarquia), um grupo
(aristocracia) ou todo um povo (democracia). Hobbes não é necessariamente
defensor de uma monarquia absolutista, mas de um estado, seja de que tipo for,
com força para manter a coesão social.

A
terceira categoria de filosofia política refere-se a todos os pensadores que se
perguntam sobre características peculiares da política, ou seja, o que
distingue esta atividade humana das outras. Entre os filósofos representantes
desta escola distinguem-se o italiano Benedetto Croce (1866-1952) e o alemão
Carl Schmitt (1888-1985).
A
quarta classificação de filosofia política, segundo Bobbio, interpreta a
filosofia política como uma ciência destinada ao estudo das linguagens e dos
métodos da ciência política. Alguns pensadores desta escola interpretaram a
filosofia política como tendo função de pesquisa descritiva, baseada nos
critérios do empirismo, isenta completamente de valores. Sobre esta corrente de
pensamento da filosofia política, escreve Abbagnano:
“Nascida como teoria do ‘bem viver’
e como ‘ciência coordenadora e arquitetônica’ da convivência humana, a
filosofia política acabou assim por reduzir-se a um filosofar asséptico e
metateórico sobre a política e sobre suas estruturas linguísticas e
conceituais.” (Abbagnano, 2007, p. 906)
À
parte a classificação elaborada pelo pensador Norberto Bobbio, a filosofia
política teve vários temas como foco central de suas preocupações, ao longo de
sua bimilenar história. Assim, associado a determinados assuntos, podemos
alencar filósofos que sobre eles escreveram:
-
O tema do “bem comum”, característica da filosofia política de Aristóteles (384
– 322 a.C.;
-
A “servidão voluntária” (a irracionalidade da submissão a um poder absoluto)
analisada por Etienne de La Boétie (1530-1563);
-
Os limites da organização do Estado frente ao indivíduos, analisada por
pensadores como Hobbes, John Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755) e Jean
Jacques Rousseau (1712-1778);
-
As relações entre a economia, o Estado e a Moral, que aparece nas obras de Nicolau Maquiavel (1469-1527) e Augusto Comte
(1798-1857);
-
A questão da liberdade individual, tema nos trabalhos de John Stuart Mill
(1806-1873), Raymond Aron (1905-1983) e Norberto Bobbio;
-
Os temas da justiça e do direito, discutidos por Immanuel Kant (1724-1804),
Georg W.F. Hegel (1770-1831), John Rawls (1921-2002) e Jürgen Habermas (1929-).
No
século XX, sob influência de pensadores como Hanna Arendt, Jürgen Habermas,
Norberto Bobbio e, principalmente, John Rawls, a filosofia política deixou de
ser disciplina descritiva e voltou a se preocupar com os grandes temas. A
questão da liberdade política, da justiça social, dos direitos individuais, da
autonomia dos povos, das relações internacionais, entre outros, são assuntos
discutidos pela moderna filosofia política. Sob a égide da ética e da
epistemologia, filósofos discutem a natureza das leis, dos governos, a origem
da organização social e a melhor forma de convivência entre os indivíduos e os
povos.
O
mais destacado pensador da moderna filosofia política é o americano John Rawls,
autor da obra Uma teoria da justiça (1971)
que influenciou profundamente todos os pensadores que posteriormente vieram a
falar sobre o tema. Rawls, influenciado por Kant é um grande defensor da
liberdade para o indivíduo e da igualdade de oportunidades (sociais, econômicas
e políticas) para todos. O individualismo e o liberalismo econômico implícitos
na filosofia de Rawls têm sido motivo de crítica de várias correntes
(marxistas, anarquistas) ao longo dos últimos anos.
Referências:
Abbagnano,
Nicola. Dicionário de filosofia. São
Paulo. Editora Martim Fontes: 2007, 1210 p.
Chauí,
Marilena. Convite à filosofia. São
Paulo. Editora Àtica: 2006, 424 p.
Jaeger,
Werner. Paidéia. São Paulo. Martins
Fontes: 2003, 1413 p.
Primatas
têm algo próximo ao senso de justiça humano. Disponível em:
(Imagens: fotografias de Max Penson)