Outras leituras

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 

“É possível elevar muito os preços e extrair mais lucros quando há pouca concorrência. (Warren) Buffett tinha lá sua razão. O estudo de Grullon descobriu que a estratégia de comprar os setores de maior concentração e vender empresas em setores menos concentrados garantia retornos superiores à média do mercado. Nenhum estudo é perfeito, mas a mensagem central é inconfundível: a competição decresceu muito nos Estados Unidos. Recentemente, John Kwoka, um dos nomes mais respeitados nas áreas de economia industrial, regulamentos antitruste e regulações, apresentou uma conclusão sombria baseada em todas as pesquisas disponíveis: a ‘totalidade desse corpus de trabalhos fornece um retrato abrangente do aumento de concentração nos grandes segmentos da economia do país durante os últimos vinte anos’. 

Dezenas de estudos têm mostrado que os resultados de maior concentração industrial são lucros maiores para as corporações, preços mais altos para os consumidores, redução da criação de startups, menor produtividade, salários mais baixos e aumento da desigualdade. Ainda assim, os CEOs continuam devorando outras empresas. Na superfície, nossos problemas atuais podem parecer um simples caso de CEOs gananciosos e investidores desprovidos de ética que se uniram para arruinar a economia em benefício próprio, no entanto há algo mais profundo acontecendo. Edward Queen, diretor do Programa Turner de Ética e Liderança Laboral da Universidade Emory, descobriu que , quando confrontados com um dilema ético, de 20 a 30 % dos estudantes de administração são incapazes de identificar o problema. Na visão de Queen, ‘no mundo todo, uma parcela muito ampla da liderança corporativa está nas mãos de pessoas com poucos escrúpulos morais e de formação muito superior à sua capacidade de julgamento’. Queen argumenta que, nas últimas seis décadas, os discípulos do prêmio Nobel de Economia Milton Friedman vêm enfatizando que o único dever de uma corporação é gerar lucros e retornos para os investidores. E essas lições, inculcadas em diversas gerações de alunos das faculdades de administração, estão sendo aplicadas em grande escala.” 

 

“O arrocho salarial é ainda maior nas pequenas cidades, onde os pequenos mercados de trabalho precisam competir com as corporações. Os monopsônios (um só comprador/contratante da força de trabalho) deixam os trabalhadores com pouca escolha e pouco poder. A Amazon é uma das principais empregadoras do estado de Ohio, e 10 % dos trabalhadores da empresa precisam de auxílio governamental para comprar alimentos. Walmart e McDonald’s também figuram entre os principais culpados: mais de 10 mil funcionários de cada um também são dependentes desse auxílio, segundo o mesmo estudo feito pelo Policy Matters Ohio. O crescente desequilíbrio de poder das corporações que são compradoras únicas explica por que os tão prejudiciais contratos de não concorrência se tornaram mais comuns, e também por que os salários andam tão perigosamente baixos, por que os trabalhadores aceitam a imposição da arbitragem em caso de desavença com os empregadores e abdicam do seu direito a ações judiciais coletivas. 

Deixados à própria sorte, eles não têm condições de negociar com monopolistas ou oligopolistas. A fraqueza dos trabalhadores em relação a seus empregadores (empresas grandes de setores com alta concentração) fica ainda mais evidente com o crescimento do trabalho temporário. Os números são esmagadores: 40 % dos trabalhadores estadunidenses podem ser enquadrados na categoria que chamamos de precarizados. Um trabalho é considerado precarizado se qualquer uma das seguintes características se aplica a ele:

• O empregado não recebe quando não pode ir trabalhar.

• O empregado não tem vínculo empregatício padrão.

• Sua renda semanal e horas de trabalho são instáveis.

• O empregado trabalha por demanda ou não tem acesso prévio à sua grade horária.

• O empregado é pago em dinheiro vivo.

• O emprego é temporário.

• O empregado não tem direito a nenhum benefício.

• O empregado tem pouca voz ou pouco poder de negociação no trabalho. Empregos estáveis e de turno integral com direito a benefícios estão se tornando uma relíquia histórica. Isso pode ser atribuído a diversos fatores interligados, como a globalização, a migração da produção para o exterior e a ascensão da ‘gig economy’, ou ‘economia de bicos’, dentre outros. Mas a compreensão desses fatores não altera o fato de que o número de trabalhadores temporários nos Estados Unidos se encontra em seu ápice histórico.”

 

“Em parte, devemos agradecer a Walt Disney pelo estado lamentável das leis de patente dos Estados Unidos. Embora Mickey Mouse já tenha quase nove décadas e devesse ter caído em domínio público há muitos anos, sempre que os direitos sobre Mickey estão prestes a vencer a Disney gasta milhões com lobby no Congresso para ampliá-los. Ao longo dos anos, a vida útil dos direitos autorais foi se tornando cada vez maior. O último julgamento ocorreu em 1998, quando o Congresso apoiou a Lei de Extensão de Vigência dos Direitos Autorais, aumentando a propriedade de 75 para 95 anos. A lei ficou conhecida como Lei de Proteção ao Mickey Mouse. A ironia suprema é que, enquanto a Disney ganha ampliações perpétuas da legislação de direitos autorais, mais de cinquenta de seus próprios filmes vêm de contos e histórias em domínio público: Alice no País das Maravilhas, Aladim, Frozen e O Rei Leão. Se Hans Christian Andersen pudesse fazer lobby no Congresso, ele também teria ganhado extensões infinitas sobre seus direitos. 

As extensões intermináveis de patentes e direitos autorais impõem um fardo à sociedade. Nas palavras de Brink Lindsey e Steven M. Teles, que escreveram muito a respeito dos efeitos da lei de direitos autorais, ‘o atual estado da lei de propriedade intelectual pode ser ruim para o crescimento da economia como um todo, mas é muito eficiente em canalizar riqueza para uns poucos favorecidos’. Eles apontam que, ‘nos setores farmacêutico, de softwares e de entretenimento, o poder de monopólio criado pelas proteções de patentes e direitos autorais estimula a concentração e infla os lucros corporativos. Como resultado, a renda e a riqueza ficam ainda mais concentradas no topo do que ocorreria em outro cenário’. É impossível exagerar o custo imposto à sociedade pelo abuso de patentes e direitos autorais. Os Estados Unidos gastam mais de 3 trilhões de dólares por ano com saúde, e 10 % desse montante é despendido com remédios. O estadunidense médio lidera os gastos internacionais em medicamentos, com mais de mil dólares por ano — valor 40 % maior que o do segundo lugar na lista, o Canadá, e o dobro do índice alemão.” 

 

Jonathan Tepper e Denise Hearn em O Mito do Capitalismo: Monopólios e o Fim da Concorrência 

Carl Sagan

quarta-feira, 23 de setembro de 2026


Carl Sagan (1934-1996) foi um cientista planetário, astrônomo, astrobiólogo, astrofísico e escritor de ciência estadunidense. 

Grande divulgador do pensamento científico, Carl Sagan publicou vários livros de divulgação científica e é o autor do livro e da famosa série "Cosmos".

Em sua última entrevista para o programa do jornalista Charlie Rose, Sagan fala sobre ciência, crenças religiosas e sobre a relação entre as duas.

Veja a entrevista (legendada) no canal Abra seus Olhos, Abra sua Mente no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=QvBK-_eHAK8

Música de vanguarda

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 


George Rochberg



https://www.youtube.com/watch?v=zsH7YC9H_tg

George Rochberg (1918 – 2005) foi um compositor estadunidense de música clássica contemporânea.

Depois de um longo período de composição usando a técnica do serialismo, Rochberg finalmente abandonou após a morte de seu filho adolescente em 1964, dizendo que o serialismo estava vazio de expressão emotiva e era inadequado para expressar seu pesar e sua raiva.  Nos anos 70, ele tornou-se controverso pelo uso de passagens tonais em suas músicas. Seu uso da tonalidade tornou-se amplamente conhecido através do String Quartet No. 3 (1972) (Quarteto de Cordas No. 3), que inclui um conjunto inteiro de variações que são no estilo de Beethoven. 

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

Leituras diárias

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 

“O ‘Absurdo’ não é o próprio universo, nem o desejo humano por significado. Em vez disso, como articulou o filósofo franco-argelino Albert Camus em meados do século XX, o Absurdo é a colisão inevitável entre essas duas forças: o grito desesperado do ser humano por significado e o silêncio irracional do mundo.” 

“O ‘Absurdista’ caminha por uma linha tênue e poderosa entre a apatia e o utopismo. O ‘Utópico’ acredita que, se votarmos na pessoa certa ou aprovarmos as leis certas, podemos corrigir permanentemente a natureza humana e construir uma sociedade perfeita. Quando isso inevitavelmente falha, o Utópico é esmagado pelo desespero.

O ‘Niilista’ acredita que o mundo está condenado, nada pode ser consertado e, portanto, o ativismo ou o engajamento político são uma perda de tempo. Ele se refugiam em um isolamento apático.

O ‘Rebelde Absurdo’ rejeita ambos. O Rebelde sabe que a humanidade é inerentemente falha, o universo é caótico e uma utopia perfeita é matematicamente impossível. Sempre haverá sofrimento, ganância e tragédia. A pedra do progresso humano sempre rolará de volta ladeira abaixo. Mas o Rebelde a empurra mesmo assim.

Ele não luta contra as mudanças climáticas porque acredita que salvará o planeta perfeitamente para a eternidade. O sol eventualmente engolirá a Terra de qualquer maneira. Ele luta pelo meio ambiente porque ama as árvores que estão aqui agora e quer que seus semelhantes respirem ar puro agora. Ele não se envolve na política porque acha que pode construir o paraíso na Terra. Se envolve porque quer diminuir o sofrimento de seus vizinhos hoje. O Absurdista age localmente e com ferocidade. Luta contra a peste (como o Dr. Rieux fez no romance de Camus) não para derrotar a morte permanentemente, mas simplesmente para roubar alguns dias a mais de saúde para as pessoas ao seu redor.

Como seu ativismo não está ligado à ilusão da vitória final, mas também não se desesperara com a derrota final. Luta com a alegria rancorosa de alguém que sabe que o jogo é manipulado, mas se recusa a entregar a partida.”

 

Miguel S. Albert, filósofo e autor em Understanding Absurdism: a Modern Guide (Entendendo o Absurdismo: Um Guia Moderno)

Peter Schjeldahl

domingo, 20 de setembro de 2026

 

“Câncer de pulmão, desenfreado. Nenhuma surpresa. Fumo desde os 16 anos, quando ia atrás das arquibancadas do campo de futebol americano do colégio, em Northfield, Minnesota. Me constrangia a ideia de morrer jovem e pensar que as pessoas comentariam com ar de sabedoria: ‘Ele fumava, sabia?’ Mas, aos 77 anos, estou na fase em que a morte já não é uma surpresa.”   

“Estranhamente, ou não, penso menos sobre a morte do que costumava fazer antes. Pensei estar me enganando em minhas reflexões sobre o assunto enquanto minha vida se estendia à minha frente rumo a um horizonte invisível. Mas não. O pensar abriu caminhos pelos quais hoje trilho. Eles envolvem aceitação. Por que eu? Por que não eu? Na verdade, eu. É a minha vez de observar a vida da margem distante da morte, que se aproxima cada vez mais.” 

 “A vida não continua. Não vai a lugar algum, além de ir embora. A morte continua. Seguir em frente é o que a morte faz para viver. O segredo para sobreviver no universo é estar morto.”

“Levem a morte para dar uma volta em suas mentes, pessoal. Ou vocês ficarão felizes por terem feito isso, ou, se caírem duros de repente, não terão perdido nada.”

 

Peter Schjeldahl (1942-2022), poeta, escritor, crítico de arte e professor estadunidense em A Arte de Morrer (2026), citado no blog Raul e a Literatura

Minha opinião

sábado, 19 de setembro de 2026

“A função da educação é ensinar a pensar de forma intensa e crítica. Inteligência e caráter: esse é o objetivo de uma verdadeira educação.”

Martin Luther King Jr., pastor batista e ativista político estadunidense


A Educação sempre foi uma das maiores preocupações dos eleitores nos últimos 30 anos, segundo pesquisa recente do Datafolha. Entre os eleitores jovens e com mais escolaridade, a Educação é o fator mais citado. Em um país com um total de 46 milhões de cidadãos matriculados no ensino básico – 79% dos quais na rede pública – a educação influencia, com razão, o voto de 71% da população, segundo pesquisa recente.

A instrução pública tem sido o principal fator de avanço intelectual, cultural e social da humanidade desde sua instituição no início do século XVIII na Europa e sua consolidação no Ocidente no início do século XIX. Os avanços materiais e culturais alcançados pela Europa, Estados Unidos, Japão e, mais recentemente, pela China e outras nações asiáticas, só foram possíveis com planejamento, significativos investimentos e gestão de longo prazo. No Brasil, a questão do ensino público se tornou tema de preocupação do Estado e da sociedade durante o governo provisório de Getúlio Vargas (1930-1934) e com a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932.

A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) recomenda em seu Marco de Ação da Educação 2030 (Declaração de Incheon) que os países invistam 4% a 6% de seu PIB em Educação. Depois da crise da Covid (2020-2023) a instituição sugeriu um segundo parâmetro, segundo o qual as nações deveriam destinar 15% a 20% dos gastos públicos totais ao setor educacional – meta ainda não alcançada pela maioria dos países.

O Brasil investe 5% a 5,5% de seu PIB na Educação. O Plano Nacional de Educação (PNE 2026) recomenda que o percentual do orçamento destinado ao setor seja ampliado para 7,5% a 10% do PIB. No entanto, pressionado pelas metas financeiras estabelecidas pelo próprio governo através do Arcabouço Fiscal em 2024, cujo objetivo é cortar despesas para atender metas de endividamento público, foi estabelecido um Novo Gatilho Fiscal que prevê para 2027 a retirada de R$ 16,6 bilhões da Saúde e Educação, além de redução na oferta de bolsas de estudo e vagas no ensino superior. Adicionalmente, com a revisão de gastos de longo prazo, o governo também planeja corte de mais R$ 42,3 bilhões com a Reformulação do Ensino Integral, até 2030. Estas as metas estabelecidas pelo governo Lula, para atender os discutíveis objetivos do Arcabouço Fiscal, substituto do Teto de Gastos estabelecido no governo Temer. O candidato Flávio Bolsonaro, se eleito, planeja maior participação do setor privado na Educação – o que implica também em redução do orçamento da Educação.

Há décadas a Educação tem sido prioridade de uma sucessão de administrações – pelo menos nos Planos de Governo elaborados pelos marqueteiros dos então candidatos. Na prática quase tudo é diferente. Exemplo disso é a diminuição no número de novos professores do ensino médio ao longo dos últimos anos. Dados do Instituto SEMESP indicam que o grupo de professores até 24 anos teve uma redução de 17, 3 mil para 11,9 mil em dez anos (2015/2025). No mesmo período o número de professores com mais de 60 anos – educadores que em alguns anos estarão aposentados – cresceu em mais de 50%, passando de 18,2 mil para 37,3 mil. A previsão do instituto é que em 2040 o país terá um déficit de 235 mil docentes (atualmente o país tem um total de cerca de 2,4 milhões de professores). 

Se a profissão de professor perdeu sua atratividade para muitos jovens, suas causas estão nas condições criadas pelos próprios governos. Na China a profissão tem prestígio social e é comparada às de médico ou engenheiro, enquanto que no Brasil alguns governos estaduais e municipais se utilizam de artifícios fiscais para não pagarem o Piso Salarial Nacional do Magistério. Em Singapura o Estado seleciona os melhores alunos do ensino médio para direcioná-los ao magistério, custeando sua formação, inclusive a continuada, pagando salários competitivos e garantindo progressão na carreira. Enquanto isso, “no país do futuro e das promessas”, o professor recebe um salário baixo, sofre forte desgaste físico e mental devido às condições de trabalho cada vez mais sujeitas a formas precárias de admissão, com os contratos temporários. Na Finlândia os professores do ensino fundamental têm mestrado pago pelo Estado, salários equivalentes aos de altos funcionários públicos, pouca burocracia administrativa e bastante liberdade em sala de aula. O professor brasileiro precisa enfrentar atrasos e parcelamento nos baixos salários, infraestrutura de ensino precária, culpabilização pelo fracasso da Educação, discursos de perseguição (leia-se “escola sem partido”) e vários outros empecilhos. É até admirável o que os professores do ensino público conseguem alcançar, dadas as condições em que precisam atuar.

A outra face da educação é seu resultado prático, ou seja, os benefícios auferidos com o conhecimento e habilidades adquiridas no ensino. Neste aspecto a realidade também é diferente daquela apresentada pela propaganda do governo, já que dados recentes mostram que a população não vê seu aumento no grau de escolaridade se refletir na sua renda. Segundo matéria publicada no jornal Valor em 17/09/26, uma pesquisa realizada em 10 capitais brasileiras mostra que 73% da população dizem ser mais escolarizados que seus pais. Desses, apenas 43% declaram ter renda superior à geração anterior e somente 51% afirmam terem melhores condições de moradia.

Nem sempre há relação direta entre o nível educacional e a melhoria das condições de vida – renda e moradia – porque não há número suficiente de empregos melhor remunerados. Mais decepcionante ainda é a situação daqueles estudantes que tiveram que optar pelo FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e, terminando o curso superior, não encontram emprego condizente, ainda com um financiamento escolar por pagar. Como existem poucos postos de trabalho de mais alta remuneração, as melhores posições são ocupadas pelos melhor preparados; aqueles que puderam estudar mais, originários de grupos sociais mais abastados. Com isso acabam se eternizando as divisões socioeconômicas. Segundo o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, extratos 25% mais pobres da população têm apenas 8,3% de probabilidade de estar entre os mais ricos na vida adulta e apenas 1,3% consegue chegar aos 10% mais ricos (renda entre R$ 4.500,00 a R$ 5.000,00 por pessoa em 2026). As chances de os mais pobres permanecerem em seu grupo são de 48%.

A situação ainda tem outro aspecto: a maioria dos estudantes que fez o ensino básico no Brasil e consegue cursar faculdade no exterior não retorna ao país. Segundo recente pesquisa realizada pela associação Brazilian Student Association (Brasa), 70% dos brasileiros estudando fora do país têm disposição para retornar, mas apenas 37% efetivamente o fazem. Mais oportunidades de trabalho, melhor qualidade de vida e diferença salarial, são os principais motivos de não retornarem ao Brasil.

O antropólogo, sociólogo, escritor e ministro da Educação Darcy Ribeiro (1922-1997) escreveu em sua obra “Sobre o Óbvio” (1986): “A crise educacional do Brasil da qual tanto se fala, não é uma crise, é um programa. Um programa em curso, cujos frutos, amanhã, falarão por si mesmos”. A frase ficou famosa e continua sendo utilizada por vários intelectuais, muitas vezes sem citar a fonte, e representa a situação na qual o “país do futuro e das promessas” se encontra depois de tantos anos. Apesar do idealismo de educadores que marcaram o Ensino do país, como Anísio Teixeira, Paulo Freire, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Maria Nilde Masceillani e Fernando de Azevedo, entre tantos outros que tinham entre seus objetivos a democratização do ensino, a formação educacional de qualidade ainda continua sendo exclusividade de grupo reduzido de cidadãos. Apesar das práticas positivas em alguns estados, como no Ceará, Pernambuco e Piauí, os últimos resultados da pontuação do Brasil no PISA (Programme for International Student Assessment) de 2025, mostram que o país pouco avançou nos últimos 10 anos.

Até quando continuaremos sendo “o país do futuro e das promessas”, no qual os mesmos grupos continuam estabelecendo as metas de toda a sociedade em todas as áreas?

 

Ricardo E. Rose, 17/09/2026

 

 

 

(Ilustrações: Erich Heckel, 1883-1970)

Emília Viotti da Costa

sexta-feira, 18 de setembro de 2026


Emília Viotti da Costa (1928-2017) foi historiadora, pesquisadora e professora universitária brasileira, especializada em história social e econômica de perspectiva marxista.  

Em 1969, com o endurecimento do regime ditatorial militar, foi forçada a se exilar nos Estados Unidos, onde passou a lecionar em diversas universidades. 

Emília Viotti da Costa é autora de clássicos do pensamento histórico e político brasileiro, como Da Senzala à Colônia, A Abolição, A Monarquia e a República no Brasil, História do Trabalho no Brasil, entre outros.

A entrevista abaixo foi realizada pelo programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo em 2001 e ainda guarda toda sua atualidade. Vale a pena assistir a toda a entrevista!

Como as perspectivas de progresso na vida do povo brasileiro praticamente não mudaram em 25 anos! 

https://www.youtube.com/watch?v=KRELCvaqCrY

Trio Curupira - No Depois

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 Música brasileira


Trio Curupira

Música: No Depois (2013)

Álbum: Janela




https://www.youtube.com/watch?v=tTcBCezxgwQ&list=PLWyDykdJWUSFvghXk0Ck-eA4P2wHHbmOG&index=3


Trio Curupira é um renomado grupo brasileiro de música instrumental formado em São Paulo em 1996. Conhecido por fundir diversos ritmos brasileiros (como choro, baião e maracatu) com uma roupagem de jazz contemporâneo, o grupo é formado por André Marques (piano/teclados), Cleber Almeida (bateria/percussão) e Fábio Gouvêa (guitarra/baixo).

O trio nasceu do encontro de músicos experientes e pesquisadores da autêntica música brasileira. Alguns de seus principais marcos incluem: destaque internacional com apresentação no Rock in Rio - Lisboa em 2004, indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música de Raiz em Língua Portuguesa pelo disco "Pés no Brasil, Cabeça no Mundo" (2008) e finais no Prêmio Visa de Música Instrumental (2004).

O grupo tem forte presença na cena instrumental com cinco álbuns lançados:  Curupira (2000); Desinventado (2003); Pés no Brasil, Cabeça no Mundo (2008); Janela (2013) e Vinte (2016).

 

(Fonte do texto: AI Overview)

Criação

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)

Nicolina Vaz de Assis (1874-1941)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site do Centro Cultural Delfos abaixo:

https://www.elfikurten.com.br/2014/05/nicolina-vaz-de-assis-escultora-da.html

O sonho de cada um

terça-feira, 15 de setembro de 2026

(Fonte: Quinho/A Terra e Redonda)

Oswald de Andrade


 

SAL O MAY

 

Os cabarés de São Paulo são longínquos

Como virtudes

 

Automóveis

E o pisca-pisca inteligente das estradas

Um soldado só para policiar minha pátria inteira

 

E o gru-gru dos grilos grelam gaitas

E os sapos sapeiam sapas sopas

 

No alfabeto escuro dos brejos

Vogais

 

Lampiões lamparinas

E tu surges através de um fox-trot errado e da lenda

 

Delenda linda Salomé

Ó dançarina cafajeste

Cheia de moscas ignorantes e de boas intenções

 

A javá é uma polca porca com poeira azul

Mas o roxo arroxa a procissão de cortinas cor de rosa.

 

- Eu não ligo

- Eu quero saber que negócio é esse de esperar com revolver na estrada

- Aquele capanga preto mandou o braço e a mulher levou um pontapé

- Na barriga

O saxofone obstina uma dor de dentes delirantes

 

Que o maxixe espasma

Entre tipos e gorjetas

 

Mas o escapamento aberto escapa

Na noite penitenciária

- Senhor dai-nos o pão-de-ló iluminado da redenção

 

O Tietê rola rumas de tijolos

Cor de água cor de rosa

 

 

Oswald de Andrade (1890-1954), poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro em Memórias Sentimentais de João Miramar. Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, marco na cultura brasileira.

E por falar em privatizações...

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Assista ao documentário "Privatizações: A Distopia do Capital" do cineasta, documentarista, historiador e professor brasileiro Silvio Tendler (1950-2025). O documentário apresenta uma gênese do processo de privatização no Brasil, desde o governo Fernando Collor de Melo.

Tendo sido rodado em 2014, o documentário tem valor histórico, possibilitando compreender o processo de entrega do patrimônio público ao setor privado nacional e internacional. Todavia, a película mantêm sua atualidade, já que os problemas abordados há 12 anos continuam sendo os de hoje. 

Em todos os governos desde 1990 - Fernando Collor; Itamar Franco; Fernando Henrique Cardoso 1; Fernando Henrique Cardoso 2; Lula 1; Lula 2; Dilma 1; Dilma 2; Temer; Bolsonaro e Lula 3, - o processo de privatização dos bens públicos tem continuado, em detrimento dos interesses do povo e do futuro do país. 

"Privatizações: A Distopia do Capital" está disponível no canal Caliban I cinema e conteúdo abaixo:  

https://www.youtube.com/watch?v=A8As8mFaRGU 

Outras leituras

domingo, 13 de setembro de 2026

 

“A questão de saber se o capitalismo global permitia espaço autônomo para o desenvolvimento dos países pobres ou se impunha restrições estruturais que perpetuavam a desigualdade gerou amplo debate. A teoria da dependência, desenvolvida principalmente por acadêmicos latino-americanos nas décadas de 1960 e 1970, argumentava que o subdesenvolvimento não era uma condição original, mas era ativamente produzido pela integração dos países pobres ao capitalismo global em termos subordinados. Os países ricos no ‘núcleo’ extraíam excedentes dos países pobres na ‘periferia’ por meio de trocas desiguais, repatriação de lucros e poder estrutural.

O desenvolvimento, portanto, exigia a desvinculação do capitalismo global ou, pelo menos, a alteração substancial dos termos da integração. A teoria dos sistemas-mundo, associada particularmente a Immanuel Wallerstein, estendeu essa análise histórica e globalmente. Wallerstein argumentava que o capitalismo sempre fora um sistema mundial, não algo contido dentro de fronteiras nacionais. Esse sistema era hierárquico, com zonas centrais, periféricas e semiperiféricas desempenhando papéis diferentes nos processos de acumulação. A mobilidade entre zonas era possível, mas difícil, e enfrentava resistência dos países centrais que se beneficiavam da hierarquia existente. Compreender o desenvolvimento, portanto, exigia analisar o sistema mundial como uma totalidade, em vez de tratar os países individualmente como se tivessem se desenvolvido isoladamente.

Esses debates teóricos tinham implicações práticas. Se os teóricos da dependência estivessem certos, as estratégias de desenvolvimento precisavam priorizar a autonomia e as necessidades internas em detrimento da integração aos mercados globais. Se os teóricos da modernização, que argumentavam que todos os países poderiam seguir caminhos de desenvolvimento semelhantes, estivessem certos, a integração ao capitalismo global e a adoção de políticas comprovadas seriam o caminho para a prosperidade. O registro empírico era ambíguo o suficiente para sustentar diferentes interpretações, embora, no início do século XXI, parecesse claro que dicotomias simples entre Estado e mercado, ou entre autonomia e integração, eram inadequadas. O desenvolvimento bem-sucedido exigiu capacidade estatal, qualidade institucional, investimento em capital humano e engajamento estratégico com os mercados globais, em vez de apenas um ou outro.”

 

“O fato de o capitalismo ter dominado por vários séculos não significa que ele dominará ou deva dominar para sempre. A história não é uma marcha predeterminada em direção a qualquer destino específico, mas é moldada pela ação humana operando dentro de restrições estruturais que, por sua vez, resultam de ações humanas anteriores. Em segundo lugar, o capitalismo sempre dependeu do poder estatal e nunca se assemelhou aos mercados livres idealizados da teoria econômica. Empresas com carta patente exerciam autoridade soberana apoiada pela força militar. Tarifas protegiam indústrias nascentes. Governos garantiam os direitos de propriedade, reprimiam movimentos trabalhistas, construíam infraestrutura, regulavam o comércio, forneciam educação, financiavam pesquisas e intervinham massivamente durante crises. A ‘mão invisível’ do mercado sempre operou ao lado do punho bem visível do poder estatal. Debates sobre a relação adequada do capitalismo com o governo frequentemente ignoram essa realidade histórica, tratando alguma economia de mercado idealizada como a base contra a qual as intervenções são medidas, quando, na verdade, o capitalismo sempre foi constituído e sustentado politicamente.”

 

Alejandra Lucia, Uma História Global do Capitalismo: Mercados, Impérios e Resistência — Como Comerciantes, Estados e Comunidades Remodelaram a Vida Econômica, de 1450 até o Presente (A Global History of Capitalism: Markets, Empires, and Resistance—How Merchants, States, and Communities Reshaped Economic Life, 1450–Present)

Minha opinião

sábado, 12 de setembro de 2026

“Se um político descobrisse que havia canibais entre seus eleitores, ele lhes prometeria missionários para o jantar.”

H. L. Mencken (1880-1956), jornalista e escritor estadunidense

 

“Por mais hábil que seja, o político acaba sempre cometendo alguma sinceridade.”

Millôr Fernandes (1923-2012), jornalista, escritor e humorista brasileiro

 

“Prometa tudo a todos... as pessoas ficarão muito mais irritadas com um candidato que se recusa a fazer promessas do que com um que, uma vez eleito, as quebra."

Quinto Tulio Cícero (102-43 aec), general e político romano

 

 

“A eleição é a festa da democracia”, diz o redundante lugar-comum da comunicação de massa. Mas uma festa cara, paga com recursos do Estado, que poderia utilizar sua maior parte para outros fins mais prementes para os brasileiros. O site do Senado informa que o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), votado pelo Congresso e destinado a financiar as campanhas políticas nas eleições de 2026, tem exatamente R$ 4.961.519.777,00 em recursos para divisão entre os partidos. Destes, 5% são distribuídos em partes iguais a todos os concorrentes e outros 95% são repartidos de maneira proporcional ao número de votos obtidos por cada partido para a Câmara de Deputados, nas últimas eleições gerais (2022). As maiores quotas destes recursos serão destinadas ao Partido Liberal (PL) (R$ 881 milhões) e ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Aspecto interessante e por vezes bizarro da “festa” são os personagens que se apresentam para participar. Estes perfazem um total de 20.828 candidatos a diversos cargos eletivos – deputado estadual, federal, senador, governador e presidente –, representando 30 partidos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Pode-se conhecê-los diariamente, principalmente através da Propaganda Eleitoral Gratuita obrigatória na TV aberta e no rádio, onde os concorrentes aos cargos políticos tentam convencer o eleitor de que são os candidatos ideais; representando interesses, ideologias, crenças e grupos sociais variados.

O que não falta a todos os postulantes, do cargo de presidente ao de deputado estadual, são promessas de todos os tipos. Desde a revisão do arcabouço fiscal, a proteção ao trabalho e investimentos em infraestrutura (candidato Lula); até o combate severo ao crime organizado, a redução dos gastos públicos e corte de impostos (candidato Flavio Bolsonaro). Os demais pretendentes ao cargo máximo do executivo têm propostas parecidas, variando alguns temas de acordo com a orientação ideológica de seus partidos; uns mais à direita e outros à esquerda. Mas não há novidades; os projetos, de uma forma ou de outra, já foram expostos aos brasileiros há anos, durante várias eleições; as mesmas proposições até por candidatos de partidos e tendências políticas divergentes; é mais do mesmo.

Entre os aspirantes aos cargos de deputado estadual e federal os objetivos – na prática são promessas, pois não há plano algum – são mais simples: tolerância zero com o crime; proteção da família; apoio ao trabalhador; por mais proteção às gestantes; por mais cultura; por uma proteção ao meio ambiente, etc., etc. As frases proferidas geralmente começam com a preposição “por” ou por um substantivo; “proteção”, “apoio”, para causarem mais efeito no curto espaço de tempo que cada candidato tem para se apresentar.

De uma maneira geral, o que os candidatos mostram são promessas, compromissos retóricos, na maior parte dos casos sem praticabilidade técnica ou orçamento previsto. Uma das razões para isso é que a maior parte dos partidos, especialmente aqueles politicamente mais à direita, não têm uma linha de atuação partidária claramente definida baseada em orientação ideológica. Isso também não significa que agremiações políticas de esquerda necessariamente tenham proposições mais concretas. Uma efetiva proposta política é um projeto técnico-administrativo realizável, incluído no plano de governo e na linha de atuação ideológica do partido, contanto com previsão de recursos para sua implementação.

Apesar de tudo o eleitor, otimista político, ainda acredita nas promessas dos candidatos. Prova disso é que em 2022, os votos válidos para presidente ficaram acima dos 90%; para governador acima de 88% e para senador acima dos 77%, segundo dados do TRE. Os números mostram que a maior parte dos votantes ainda tem a esperança de que seus candidatos cumpram, pelo menos em parte, aquilo que prometeram. Assim, continuam votando, muitas vezes nos mesmos. A realidade do país, no entanto, é a prova de que a maioria das promessas não foi cumprida e que pouca coisa mudou.

Mas será esta a verdadeira “festa da democracia”? Apertar “confirma” e, esperançosamente, aguardar que os candidatos cumpram o prometido até a próxima vez, quando novamente aperta-se o botão “confirma”? Sem cobranças, sem qualquer pressão sobre os candidatos, sem protestos? Acreditar, confirmar, esperar e então voltar a acreditar, voltar a confirmar e esperar novamente... Tudo isso, sem que nada mude?

 

Ricardo E. Rose, 09/09/2026

 

 

(Imagens: pinturas de Vilhelm Hammershøi, 1864-1916)

A frase do dia

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

“A literatura exige um hábito mental que desapareceu. Requer silêncio, alguma forma de isolamento e concentração sustentada na presença de algo enigmático.”

 

Philip Roth (1933-2018), escritor estadunidense citado por Goodreads

Justiça (novamente)

(Fonte: Blog Correio Brasiliense/Alpino)

George Bataille

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

“Essa determinação religiosa da economia não é surpreendente: e até mesmo define a religião. A religião é a aprovação que uma sociedade dá ao uso das riquezas excedentes: ao uso, ou melhor, à destruição, pelo menos de seu valor útil. É o que dá às religiões seu rico aspecto material, que só deixa de ser vistoso quando uma vida espiritual emaciada retira do trabalho um tempo que poderia ter sido empregado para produzir. O único ponto é a ausência de utilidade, a gratuidade dessas determinações coletivas. Em certo sentido servem, é verdade, na medida em que homens atribuem a essas atividades gratuitas consequências de ordem de uma eficácia sobrenatural. Mas, justamente, elas só servem nesse plano com a condição de serem gratuitas, de serem antes de tudo consumações úteis de riqueza.”

 

Georges Bataille (1897-1962) intelectual francês atuando nas áreas da filosofia, literatura, sociologia, antropologia e história da arte em A parte maldita (1949)

Essa não poderia faltar

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

King Gizzard & The Lizard Wizard

Polygondwanaland (2017)

https://www.youtube.com/watch?v=RxIjUy6_u-I

Honoré de Balzac

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

“Art.1º : Nunca desconfie de seu vizinho da esquerda, que usa camisa de tecido grosso, uma gravata branca, e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta, maneira desenvolta de falar; é este quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.”

 

“A escroqueria pressupõe uma inteligência aguda, uma sutileza de espírito, uma certa habilidade. É necessário fazer um plano, ter recursos. Chega a ser interessante.

Os escroques são as pessoas feitas sob medida para o mundo dos ladrões de salão; não causam repulsa ao olhar; adotam a maneira de vestir do homem honrado, têm boas maneiras, um linguajar estudado. Costumam introduzir-se nas casas de várias formas, estão sempre nos cafés, têm um apartamento e raramente usam os dez dedos a não ser para assinar. Há alguns que se aposentam e se transformam em pessoas honestas, quando ficam ricos.”

 

“Art. 23º : De maneira geral, fuja de tudo o que é barato; é necessário conhecer muito bem a mercadoria para não ser enganado. As velas de dois francos são de sebo; o tecido de 15 francos é tingido e bem penteado. No entanto, Paris está coberta de anúncios e todos os dias alguém cai no conto do vigário.

Não se esqueça de que há uma multidão de crédulos, e de que, neste mundo sujo, a metade do que se faz é pensado neles. Ora, você não é crédulo, a prova é que aprecia este livro.”

 

"Art. 70º : Há pouco a dizer contra os médicos; não toca aos vivos queixarem-se deles. No entanto, os médicos também arranjam várias maneiras de dar lucro aos boticários. Observe que, a cada ano, há um produto específico preferido: numa época, foi o sagu; noutra, o salepo: tudo o que comia vinha acompanhado de salepo ou de sagu. A araruta destronou o sagu; mas, com Walter Scott, veio o líquen da Islândia; depois as sanguessugas locais combinadas com água do Sena; enfim, o bom purgativo etc.; sempre esses bons remédios custam mais caro quando estão na moda; e, no fundo, são como essas reimpressões que os autores fazem e acabam pondo em nossas mãos algo que já conhecemos. Basta observar os sumários.” 

 


Honoré de Balzac (1799-1850), escritor francês em Código dos Homens Honestos (2005)