O sonho de cada um

terça-feira, 15 de setembro de 2026

(Fonte: Quinho/A Terra e Redonda)

Oswald de Andrade


 

SAL O MAY

 

Os cabarés de São Paulo são longínquos

Como virtudes

 

Automóveis

E o pisca-pisca inteligente das estradas

Um soldado só para policiar minha pátria inteira

 

E o gru-gru dos grilos grelam gaitas

E os sapos sapeiam sapas sopas

 

No alfabeto escuro dos brejos

Vogais

 

Lampiões lamparinas

E tu surges através de um fox-trot errado e da lenda

 

Delenda linda Salomé

Ó dançarina cafajeste

Cheia de moscas ignorantes e de boas intenções

 

A javá é uma polca porca com poeira azul

Mas o roxo arroxa a procissão de cortinas cor de rosa.

 

- Eu não ligo

- Eu quero saber que negócio é esse de esperar com revolver na estrada

- Aquele capanga preto mandou o braço e a mulher levou um pontapé

- Na barriga

O saxofone obstina uma dor de dentes delirantes

 

Que o maxixe espasma

Entre tipos e gorjetas

 

Mas o escapamento aberto escapa

Na noite penitenciária

- Senhor dai-nos o pão-de-ló iluminado da redenção

 

O Tietê rola rumas de tijolos

Cor de água cor de rosa

 

 

Oswald de Andrade (1890-1954), poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro em Memórias Sentimentais de João Miramar. Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, marco na cultura brasileira.

E por falar em privatizações...

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Assista ao documentário "Privatizações: A Distopia do Capital" do cineasta, documentarista, historiador e professor brasileiro Silvio Tendler (1950-2025). O documentário apresenta uma gênese do processo de privatização no Brasil, desde o governo Fernando Collor de Melo.

Tendo sido rodado em 2014, o documentário tem valor histórico, possibilitando compreender o processo de entrega do patrimônio público ao setor privado nacional e internacional. Todavia, a película mantêm sua atualidade, já que os problemas abordados há 12 anos continuam sendo os de hoje. 

Em todos os governos desde 1990 - Fernando Collor; Itamar Franco; Fernando Henrique Cardoso 1; Fernando Henrique Cardoso 2; Lula 1; Lula 2; Dilma 1; Dilma 2; Temer; Bolsonaro e Lula 3, - o processo de privatização dos bens públicos tem continuado, em detrimento dos interesses do povo e do futuro do país. 

"Privatizações: A Distopia do Capital" está disponível no canal Caliban I cinema e conteúdo abaixo:  

https://www.youtube.com/watch?v=A8As8mFaRGU 

Outras leituras

domingo, 13 de setembro de 2026

 

“A questão de saber se o capitalismo global permitia espaço autônomo para o desenvolvimento dos países pobres ou se impunha restrições estruturais que perpetuavam a desigualdade gerou amplo debate. A teoria da dependência, desenvolvida principalmente por acadêmicos latino-americanos nas décadas de 1960 e 1970, argumentava que o subdesenvolvimento não era uma condição original, mas era ativamente produzido pela integração dos países pobres ao capitalismo global em termos subordinados. Os países ricos no ‘núcleo’ extraíam excedentes dos países pobres na ‘periferia’ por meio de trocas desiguais, repatriação de lucros e poder estrutural.

O desenvolvimento, portanto, exigia a desvinculação do capitalismo global ou, pelo menos, a alteração substancial dos termos da integração. A teoria dos sistemas-mundo, associada particularmente a Immanuel Wallerstein, estendeu essa análise histórica e globalmente. Wallerstein argumentava que o capitalismo sempre fora um sistema mundial, não algo contido dentro de fronteiras nacionais. Esse sistema era hierárquico, com zonas centrais, periféricas e semiperiféricas desempenhando papéis diferentes nos processos de acumulação. A mobilidade entre zonas era possível, mas difícil, e enfrentava resistência dos países centrais que se beneficiavam da hierarquia existente. Compreender o desenvolvimento, portanto, exigia analisar o sistema mundial como uma totalidade, em vez de tratar os países individualmente como se tivessem se desenvolvido isoladamente.

Esses debates teóricos tinham implicações práticas. Se os teóricos da dependência estivessem certos, as estratégias de desenvolvimento precisavam priorizar a autonomia e as necessidades internas em detrimento da integração aos mercados globais. Se os teóricos da modernização, que argumentavam que todos os países poderiam seguir caminhos de desenvolvimento semelhantes, estivessem certos, a integração ao capitalismo global e a adoção de políticas comprovadas seriam o caminho para a prosperidade. O registro empírico era ambíguo o suficiente para sustentar diferentes interpretações, embora, no início do século XXI, parecesse claro que dicotomias simples entre Estado e mercado, ou entre autonomia e integração, eram inadequadas. O desenvolvimento bem-sucedido exigiu capacidade estatal, qualidade institucional, investimento em capital humano e engajamento estratégico com os mercados globais, em vez de apenas um ou outro.”

 

“O fato de o capitalismo ter dominado por vários séculos não significa que ele dominará ou deva dominar para sempre. A história não é uma marcha predeterminada em direção a qualquer destino específico, mas é moldada pela ação humana operando dentro de restrições estruturais que, por sua vez, resultam de ações humanas anteriores. Em segundo lugar, o capitalismo sempre dependeu do poder estatal e nunca se assemelhou aos mercados livres idealizados da teoria econômica. Empresas com carta patente exerciam autoridade soberana apoiada pela força militar. Tarifas protegiam indústrias nascentes. Governos garantiam os direitos de propriedade, reprimiam movimentos trabalhistas, construíam infraestrutura, regulavam o comércio, forneciam educação, financiavam pesquisas e intervinham massivamente durante crises. A ‘mão invisível’ do mercado sempre operou ao lado do punho bem visível do poder estatal. Debates sobre a relação adequada do capitalismo com o governo frequentemente ignoram essa realidade histórica, tratando alguma economia de mercado idealizada como a base contra a qual as intervenções são medidas, quando, na verdade, o capitalismo sempre foi constituído e sustentado politicamente.”

 

Alejandra Lucia, Uma História Global do Capitalismo: Mercados, Impérios e Resistência — Como Comerciantes, Estados e Comunidades Remodelaram a Vida Econômica, de 1450 até o Presente (A Global History of Capitalism: Markets, Empires, and Resistance—How Merchants, States, and Communities Reshaped Economic Life, 1450–Present)

Minha opinião

sábado, 12 de setembro de 2026

“Se um político descobrisse que havia canibais entre seus eleitores, ele lhes prometeria missionários para o jantar.”

H. L. Mencken (1880-1956), jornalista e escritor estadunidense

 

“Por mais hábil que seja, o político acaba sempre cometendo alguma sinceridade.”

Millôr Fernandes (1923-2012), jornalista, escritor e humorista brasileiro

 

“Prometa tudo a todos... as pessoas ficarão muito mais irritadas com um candidato que se recusa a fazer promessas do que com um que, uma vez eleito, as quebra."

Quinto Tulio Cícero (102-43 aec), general e político romano

 

 

“A eleição é a festa da democracia”, diz o redundante lugar-comum da comunicação de massa. Mas uma festa cara, paga com recursos do Estado, que poderia utilizar sua maior parte para outros fins mais prementes para os brasileiros. O site do Senado informa que o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), votado pelo Congresso e destinado a financiar as campanhas políticas nas eleições de 2026, tem exatamente R$ 4.961.519.777,00 em recursos para divisão entre os partidos. Destes, 5% são distribuídos em partes iguais a todos os concorrentes e outros 95% são repartidos de maneira proporcional ao número de votos obtidos por cada partido para a Câmara de Deputados, nas últimas eleições gerais (2022). As maiores quotas destes recursos serão destinadas ao Partido Liberal (PL) (R$ 881 milhões) e ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Aspecto interessante e por vezes bizarro da “festa” são os personagens que se apresentam para participar. Estes perfazem um total de 20.828 candidatos a diversos cargos eletivos – deputado estadual, federal, senador, governador e presidente –, representando 30 partidos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Pode-se conhecê-los diariamente, principalmente através da Propaganda Eleitoral Gratuita obrigatória na TV aberta e no rádio, onde os concorrentes aos cargos políticos tentam convencer o eleitor de que são os candidatos ideais; representando interesses, ideologias, crenças e grupos sociais variados.

O que não falta a todos os postulantes, do cargo de presidente ao de deputado estadual, são promessas de todos os tipos. Desde a revisão do arcabouço fiscal, a proteção ao trabalho e investimentos em infraestrutura (candidato Lula); até o combate severo ao crime organizado, a redução dos gastos públicos e corte de impostos (candidato Flavio Bolsonaro). Os demais pretendentes ao cargo máximo do executivo têm propostas parecidas, variando alguns temas de acordo com a orientação ideológica de seus partidos; uns mais à direita e outros à esquerda. Mas não há novidades; os projetos, de uma forma ou de outra, já foram expostos aos brasileiros há anos, durante várias eleições; as mesmas proposições até por candidatos de partidos e tendências políticas divergentes; é mais do mesmo.

Entre os aspirantes aos cargos de deputado estadual e federal os objetivos – na prática são promessas, pois não há plano algum – são mais simples: tolerância zero com o crime; proteção da família; apoio ao trabalhador; por mais proteção às gestantes; por mais cultura; por uma proteção ao meio ambiente, etc., etc. As frases proferidas geralmente começam com a preposição “por” ou por um substantivo; “proteção”, “apoio”, para causarem mais efeito no curto espaço de tempo que cada candidato tem para se apresentar.

De uma maneira geral, o que os candidatos mostram são promessas, compromissos retóricos, na maior parte dos casos sem praticabilidade técnica ou orçamento previsto. Uma das razões para isso é que a maior parte dos partidos, especialmente aqueles politicamente mais à direita, não têm uma linha de atuação partidária claramente definida baseada em orientação ideológica. Isso também não significa que agremiações políticas de esquerda necessariamente tenham proposições mais concretas. Uma efetiva proposta política é um projeto técnico-administrativo realizável, incluído no plano de governo e na linha de atuação ideológica do partido, contanto com previsão de recursos para sua implementação.

Apesar de tudo o eleitor, otimista político, ainda acredita nas promessas dos candidatos. Prova disso é que em 2022, os votos válidos para presidente ficaram acima dos 90%; para governador acima de 88% e para senador acima dos 77%, segundo dados do TRE. Os números mostram que a maior parte dos votantes ainda tem a esperança de que seus candidatos cumpram, pelo menos em parte, aquilo que prometeram. Assim, continuam votando, muitas vezes nos mesmos. A realidade do país, no entanto, é a prova de que a maioria das promessas não foi cumprida e que pouca coisa mudou.

Mas será esta a verdadeira “festa da democracia”? Apertar “confirma” e, esperançosamente, aguardar que os candidatos cumpram o prometido até a próxima vez, quando novamente aperta-se o botão “confirma”? Sem cobranças, sem qualquer pressão sobre os candidatos, sem protestos? Acreditar, confirmar, esperar e então voltar a acreditar, voltar a confirmar e esperar novamente... Tudo isso, sem que nada mude?

 

Ricardo E. Rose, 09/09/2026

 

 

(Imagens: pinturas de Vilhelm Hammershøi, 1864-1916)

A frase do dia

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

“A literatura exige um hábito mental que desapareceu. Requer silêncio, alguma forma de isolamento e concentração sustentada na presença de algo enigmático.”

 

Philip Roth (1933-2018), escritor estadunidense citado por Goodreads

Justiça (novamente)

(Fonte: Blog Correio Brasiliense/Alpino)

George Bataille

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

“Essa determinação religiosa da economia não é surpreendente: e até mesmo define a religião. A religião é a aprovação que uma sociedade dá ao uso das riquezas excedentes: ao uso, ou melhor, à destruição, pelo menos de seu valor útil. É o que dá às religiões seu rico aspecto material, que só deixa de ser vistoso quando uma vida espiritual emaciada retira do trabalho um tempo que poderia ter sido empregado para produzir. O único ponto é a ausência de utilidade, a gratuidade dessas determinações coletivas. Em certo sentido servem, é verdade, na medida em que homens atribuem a essas atividades gratuitas consequências de ordem de uma eficácia sobrenatural. Mas, justamente, elas só servem nesse plano com a condição de serem gratuitas, de serem antes de tudo consumações úteis de riqueza.”

 

Georges Bataille (1897-1962) intelectual francês atuando nas áreas da filosofia, literatura, sociologia, antropologia e história da arte em A parte maldita (1949)

Essa não poderia faltar

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

King Gizzard & The Lizard Wizard

Polygondwanaland (2017)

https://www.youtube.com/watch?v=RxIjUy6_u-I

Honoré de Balzac

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

Art.1º : Nunca desconfie de seu vizinho da esquerda, que usa camisa de tecido grosso, uma gravata branca, e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta, maneira desenvolta de falar; é este quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.”

 

“A escroqueria pressupõe uma inteligência aguda, uma sutileza de espírito, uma certa habilidade. É necessário fazer um plano, ter recursos. Chega a ser interessante.

Os escroques são as pessoas feitas sob medida para o mundo dos ladrões de salão; não causam repulsa ao olhar; adotam a maneira de vestir do homem honrado, têm boas maneiras, um linguajar estudado. Costumam introduzir-se nas casas de várias formas, estão sempre nos cafés, têm um apartamento e raramente usam os dez dedos a não ser para assinar. Há alguns que se aposentam e se transformam em pessoas honestas, quando ficam ricos.”

 

Art. 23º : De maneira geral, fuja de tudo o que é barato; é necessário conhecer muito bem a mercadoria para não ser enganado. As velas de dois francos são de sebo; o tecido de 15 francos é tingido e bem penteado. No entanto, Paris está coberta de anúncios e todos os dias alguém cai no conto do vigário.

Não se esqueça de que há uma multidão de crédulos, e de que, neste mundo sujo, a metade do que se faz é pensado neles. Ora, você não é crédulo, a prova é que aprecia este livro.”

 

"Art. 70º : Há pouco a dizer contra os médicos; não toca aos vivos queixarem-se deles. No entanto, os médicos também arranjam várias maneiras de dar lucro aos boticários. Observe que, a cada ano, há um produto específico preferido: numa época, foi o sagu; noutra, o salepo: tudo o que comia vinha acompanhado de salepo ou de sagu. A araruta destronou o sagu; mas, com Walter Scott, veio o líquen da Islândia; depois as sanguessugas locais combinadas com água do Sena; enfim, o bom purgativo etc.; sempre esses bons remédios custam mais caro quando estão na moda; e, no fundo, são como essas reimpressões que os autores fazem e acabam pondo em nossas mãos algo que já conhecemos. Basta observar os sumários.” 

 


Honoré de Balzac (1799-1850), escritor francês em Código dos Homens Honestos (2005)

Eu prometo!


Eu prometo, você vota.
Eu me dou bem no cargo, arrumo minha vida, e você fica com tua vida na mesma.

É assim há mais de 40 anos! 

Compreendendo a economia brasileira

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

(Fonte: Diário do Comércio)
Aproveite o feriado e tire um tempo para entender melhor a economia brasileira e o mitos que nos contam sobre ela.

O entrevistado de Breno Altman, do canal Opera Mundi, é Pedro Rossi, Professor Livre-Docente do Instituto de Economia da Unicamp, economista chefe do Global Fund for a New Econonomy e fundador do Transforma Unicamp. Formado em economia na UFRJ com mestrado e doutorado na Unicamp.

A entrevista foi realizada em 03/09/2026 e está no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=-FDigV1i5zg&t=1709s

Nadia Taquary (1967-)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site abaixo:

https://www.sescsp.org.br/editorial/honrar-caminhos-com-nadia-taquary/

Leituras diárias

domingo, 6 de setembro de 2026

 

“Essa perspectiva sobre a riqueza também esclarece por que a desigualdade importa economicamente e não apenas moralmente. Em um modelo mecânico, a distribuição da riqueza é amplamente irrelevante para o funcionamento do sistema — um dólar é um dólar, independentemente de em cujo bolso esteja, e a economia segue seu curso de acordo com suas leis fixas, quer a riqueza esteja concentrada ou dispersa. Mas em um modelo biológico, a distribuição importa imensamente porque afeta a saúde e a capacidade de adaptação de todo o organismo. A desigualdade extrema é uma espécie de doença circulatória no corpo econômico. Quando vastos recursos se acumulam nas mãos de uma pequena elite enquanto a maioria luta para suprir as necessidades básicas, várias patologias emergem simultaneamente. Primeiro, a demanda agregada sofre porque os indivíduos ricos só podem consumir até certo ponto — o bilionário pode possuir dez casas, mas ainda assim faz apenas três refeições por dia, enquanto mil famílias de classe média consumiriam coletivamente muito mais se tivessem acesso aos mesmos recursos. 

Em segundo lugar, o potencial humano permanece subdesenvolvido porque indivíduos talentosos de origem humilde não têm a educação e as oportunidades necessárias para desenvolver plenamente suas capacidades, o que representa um enorme desperdício do recurso mais precioso da sociedade. Em terceiro lugar, as instituições políticas e sociais se corrompem à medida que a riqueza concentrada se traduz em poder concentrado, levando à captura de políticas e à erosão da governança democrática que permite o funcionamento eficaz dos mercados. Em quarto lugar, a coesão social se fragmenta à medida que as experiências vividas pelas diferentes classes econômicas divergem tão radicalmente que elas habitam realidades efetivamente distintas, minando a confiança e a cooperação que tornam possível a complexa coordenação econômica. Marshall testemunhou todas essas patologias na Inglaterra vitoriana e compreendeu que combatê-las não era uma questão de caridade ou nobreza de espírito, mas de necessidade econômica. Uma sociedade que tolera que grande parte de sua população viva em condições de degradação não está apenas sendo cruel; está sendo estúpida." 

 

“Essa percepção se conecta à compreensão de Marshall sobre o progresso econômico como fundamentalmente relacionado ao desenvolvimento do caráter e das capacidades, e não à acumulação de bens. Ele acreditava que o objetivo final da melhoria econômica deveria ser a criação de condições sob as quais as pessoas pudessem desenvolver suas faculdades superiores — suas capacidades intelectuais, morais e criativas. A pobreza extrema é economicamente destrutiva não apenas porque reduz o consumo e a produção, mas também porque esmaga o espírito humano, tornando as pessoas desesperadas, míopes e incapazes de investir em seu próprio desenvolvimento ou no de seus filhos. Pessoas presas em um mero modo de sobrevivência não podem se dar ao luxo de pensar em educação, desenvolvimento de habilidades ou planejamento a longo prazo. Elas não podem assumir riscos em empreendimentos empresariais ou ideias inovadoras. Não podem participar plenamente da vida cívica ou contribuir para o avanço cultural.”  

 

M. Josh, Os Princípios de Economia de Alfred Marshall em Termos Simples: Decifrando o Pai da Microeconomia (original inglês Alfred Marshall's Principles of Economics in Layman's Terms: Decoding the Father of Microeconomics)

A frase do dia


“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”

 

Juscelino Kubitschek (1902-1976), médico, político e presidente do Brasil (1956-1961), citado pelo site Pensador.

Minha opinião

sábado, 5 de setembro de 2026

“Assim sendo, toda ideia, obra de arte, ciência, filosofia e história estão condicionadas historicamente no sentido de que são uma resposta a problemas específicos do ponto de vista histórico e refletem as preocupações de um determinado momento.”

Marnie Hugues-Warrington, historiadora, citando o filósofo Benedetto Croce 

 

Em 1959 o físico e intelectual britânico Charles Percy Snow proferiu uma palestra na universidade de Cambridge intitulada The Two Cultures and the Scientific Revolution (As duas Culturas e a Revolução Científica). A exposição, que se transformou em livro afamado, fala da divisão existente na vida intelectual do Ocidente à época, entre as ciências e as humanidades. Snow argumenta em seu discurso que a sociedade culta estava dividida entre cientistas e intelectuais das ciências humanas. Segundo o autor, entre os dois grupos havia pouco diálogo e falta de interesse nas atividades da outra área; situação que dificultava o desenvolvimento de novas tecnologias e a elaboração conjunta de soluções para enfrentar problemas globais, como a fome e a pobreza. Tratava-se, também, de uma crítica de Snow ao sistema educacional britânico, que desde o final do século XIX havia dedicado maior peso às humanidades, em detrimento das ciências exatas. Os métodos de ensino dos Estados Unidos e da Alemanha, afirmava, preparavam melhor seus alunos, dando igual importância às ciências humanas e às ciências da natureza em seus cursos.

Sobre as ciências em geral, a língua alemã possui uma nomeclatura singular em sua divisão. Existem as ciências da natureza, as Naturwissenschaften, que incluem todas as ciências relacionadas com a natureza, como a física, a biologia, química, astronomia, geologia, etc.; e as ciências do espírito ou da cultura, as Geisteswissenschaften Kulturwissenschaften, englobando todas as ciências que se ocupam do humano, de sua cultura e suas formas de expressão, como a história, a filosofia, as ciências da religião, os estudos literários, a linguística, etc. Essa classificação das ciências, já conhecida nos meios intelectuais da Europa desde o início do século XIX, foi popularizada pelo filósofo alemão Wilhelm Dilthey em sua obra Introdução às Ciências do Espírito (1883). Posteriormente, à medida que surgiam ou se aprofundavam novas áreas de estudo, criaram-se outras classificações adicionais, como as ciências sociais (sociologia, antropologia, ciências políticas, ciências econômicas, etc.) e as ciências formais (matemática, lógica, informática, etc.). Atualmente, com o avanço e a convergência crescente de disciplinas nas área das ciências humanas e da natureza, estas divisões classificatórias vão se ampliando constantemente. 

No Brasil, tradicionalmente, o sistema de ensino enfatizava as humanidades, com menor destaque para as ciências. Grande parte dos intelectuais e políticos brasileiros, desde a época imperial, tinha formação jurídica. Daí a alcunha de “império dos bacharéis”, dada ao país em algumas obras de sociólogos brasileiros. As ciências naturais não faziam parte da tradição educacional e cultural do Brasil – os primeiros cursos específicos de formação científica datam do início do século XX. As disciplinas das ciências da natureza eram pouco estudadas nas universidades até os anos 1950 pois a maioria destas instituições ministrava o chamado "tripé profissional tradicional", formado pela medicina, o direito e a engenharia. Exceção eram os cursos superiores de engenharia, que surgiram no século XIX. Outro aspecto é que até os anos 1950 o país mantinha uma economia alicerçada na agricultura, com indústria pouco desenvolvida e tecnologia aplicada ao processo produtivo de baixa complexidade. 

Com a aceleração da industrialização, ao longo dos anos 1950 e 1960, o ensino das ciências, já no nível médio, se consolidou e tornou-se obrigatório com a Lei de Diretrizes e Base, de 1961. A partir de então as ciências – física, química, biologia – passaram a integrar o currículo escolar, igualando-se ao ensino das humanidades.  

A situação mudou completamente durante o regime ditatorial (1964-1985), quando o ensino das ciências humanas se tornou secundário, tendo prioridade a formação técnica, que começa a ser requisitada num mercado de trabalho com grande oferta de postos de trabalho no setor industrial. A filosofia e a sociologia foram excluídas do ensino no nível médio também pelo fato de que, na avaliação dos governos do período, estas disciplinas estimulavam no estudante o questionamento da organização social e da reflexão política, podendo representar uma ameaça ao poder e à ordem. Pela Lei 5692/1971 a disciplina da história também ficou sujeita a mais controle, tendo sua carga horária reduzida e sendo combinada com a geografia, formando uma nova matéria escolar batizada de Estudos Sociais. Em 1974, apesar do descontentamento da população e de movimentos de contestação internos, ficou famosa a frase do presidente general Ernesto Geisel (1907-1996) que afirmava: "O Brasil é uma ilha de tranquilidade num mar de turbulências.”

Com a redemocratização do país e a promulgação da Constituição de 1988, a sociedade voltou a discutir livremente temas antes proibidos pelo regime, o que contribuiu para que o ensino das ciências humanas voltasse a tomar força na década de 1990. Depois, com a Lei 11.684/2008, tornou-se novamente obrigatório o ensino da filosofia, da sociologia e história no ensino médio.

Uma nova mudança ocorre com a promulgação da Lei 13415/2017, durante o governo de Michel Temer, que implantou nova reforma do ensino, integrando as disciplinas (filosofia, sociologia) na área das chamadas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, reduzindo o tempo de aula e eliminando a obrigatoriedade de que fossem ministradas como matérias isoladas. Logo depois, durante o governo Bolsonaro (2019-2023) as disciplinas da filosofia e da sociologia foram novamente desvalorizadas pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, declarando que cursos como filosofia eram voltados para as elites, e que a função do Estado seria garantir o aprendizado básico, enfatizando o que já previa a reforma do ensino iniciada no governo anterior, de Michel Temer. A reabilitação das disciplinas no ensino médio ocorreu durante o governo Lula, iniciado em 2023, que promulgou a Lei 14945/2024, que entre outras mudanças voltou a assegurar a obrigatoriedade do ensino das matérias.

As constantes mudanças nas diretrizes do ensino, principalmente no nível médio, período na vida do estudante em que começa a se consolidar sua visão de mundo como cidadão, mostram que a orientação e a importância dada às matérias, sejam na área de humanas, exatas ou biociências, estão sujeitas à ideologia política dos governos do momento. Regimes liberais ou sociais-democratas geralmente dão importância a uma formação abrangente do aluno, procurando equilibrar a carga horária entre as humanidades e ciências. Administrações de orientação direitista priorizam as ciências exatas e, principalmente, a formação técnica, pouco valorizando ou até dificultando o ensino das ciências humanas – especialidades que, supostamente, podem induzir o aluno a questionar a organização da estrutura social, a política ou as relações produtivas da sociedade onde vive.

Observam os especialistas que estudam o assunto, que o modelo de ensino que se impôs nas últimas décadas no país, está cada vez mais orientado para atender as necessidades do mercado de trabalho, ou seja, da economia capitalista. É fato que um modelo que pouco peso dá à cultura geral, adquirida em matérias como história, filosofia, sociologia, literatura, geografia, artes, etc., limita a capacidade de análise do aluno e tem como objetivo velado preparar pessoas que executam, ao invés de pessoas que analisam e, eventualmente, critiquem ou apresentem alternativas, seja para o que for. Um dos argumentos dos grupos sociais conservadores, defensores da exótica ideia da “escola sem partidos”, é que estas disciplinas são o ambiente de doutrinação política de esquerda dos alunos.    

Em suma hoje, no Brasil, já não existe mais – se é que alguma vez existiu – o antagonismo entre as ciências da natureza e as humanas, tanto no meio intelectual quanto no ensino. A impressão que se tem é que as disciplinas humanas, no ensino e na sociedade em geral, são considerados adereços, sem função prática numa sociedade voltada apenas para a realização do lucro, onde o conhecimento, se não tiver aplicações pecuniárias imediatas, é desvalorizado. A ideia de uma cultura humanística (a Bildung da cultura alemã) como parte da formação do indivíduo, foi esquecida no passado e hoje parece ser exclusividade das escolas das classes abastadas. Ao povo impinge-se o ideário de que o conhecimento que não pode transformar-se em mercadoria (qualquer coisa vendável no "mercado") tem pouco valor. Essa a  ideologia das empresas, dos meios de comunicação, do sistema. Os objetivos que se colocam para o jovem são “arranjar um emprego” ou "tornar-se empreendedor" (quando isso é possível) e, a muito custo, sobreviver para consumir e se endividar. Voos mais altos, na área das humanidades ou das artes, são reservados às elites, que não precisam se preocupar prementemente com a sobrevivência.

O filósofo e economista Karl Marx (1818-1883), no entanto, via as humanidades e as ciências humanas não como ocupação abstrata de diletantes longe da prática, mas como ferramentas de análise, compreensão e mudança da realidade social -  e não para eternizá-la. Talvez por isso sejam depreciadas por muitos.

 

 

Ricardo E. Rose, 3/09/2026

 

 

(Imagens: Leonard Koscianski Contemporary Art)

O Barquinho - João Gilberto

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Música brasileira


João Gilberto 

Álbum: João Gilberto (1961)

Música: O Barquinho (composição de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli)



https://www.youtube.com/watch?v=XUmur-FJwpM&list=RDXUmur-FJwpM&start_radio=1


João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, mais conhecido como João Gilberto (19312019), foi um cantor, violonista e compositor brasileiro. Considerado um artista genial por musicólogos e jornalistas especializados, revolucionou a música brasileira ao criar uma nova batida de violão para tocar samba: a "Bossa Nova". O seu jeito suave de cantar também influenciou muitos dos cantores da MPB. Para a revista Rolling Stone Brasil, foi um dos 30 maiores ícones brasileiros da guitarra e do violão e também o segundo maior artista brasileiro de todos os tempos, seguindo Tom Jobim (também músico e o compositor e arranjador dos maiores sucessos da carreira de João Gilberto).

Desde o lançamento do compacto que continha Chega de Saudade e Bim Bom, munido apenas da voz e do violão, começou uma revolução na música mundial. Dono de uma sonoridade original e moderna, João Gilberto levou a música popular brasileira ao mundo, principalmente para os Estados Unidos, Europa e Japão. Tido como um dos músicos mais influentes no jazz americano do século XX, ganhou prêmios importantes nos Estados Unidos e na Europa, como o Grammy, em meio à beatlemania.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

Aldous Huxley

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

“Comecemos pela ecologia e suas aplicações práticas nas técnicas de conservação, gestão de recursos, controle de pragas, melhoramento de linhagens resistentes, hibridização e todas as outras artes por meio das quais o homem tenta manter ou, se ainda não existe, criar uma relação satisfatória com seu ambiente natural. Essas artes e os fatos acumulados e teorias científicas em que se baseiam não são apenas interessantes por si só; são também profundamente significativos por suas implicações éticas e filosóficas. À luz do que agora sabemos sobre superpopulação, agricultura ruinosa, silvicultura insensata e pastoreio destrutivo, sobre poluição da água, poluição do ar e a esterilização ou perda total de solos antes produtivos, tornou-se abundantemente claro que a Regra de Ouro se aplica não apenas às relações dos indivíduos e sociedades humanas entre si, mas também às suas relações com outras criaturas vivas e com o planeta sobre o qual todos viajamos através do espaço e do tempo. ’Faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você.’ Gostaríamos de ser bem tratados pela Natureza? Então devemos tratar bem a Natureza.

A desumanidade do homem para com o homem sempre foi condenada; e, por algumas religiões, o mesmo ocorre com a desumanidade do homem para com a Natureza. Por meio delas, a desumanidade do homem para com a Natureza é implicitamente tolerada. Os animais, diziam os teólogos da ortodoxia católica, não têm alma e, portanto, podem ser usados ​​como se fossem coisas. As implicações éticas e filosóficas da ciência moderna são mais budistas do que cristãs, mais totemistas do que pitagóricas e platônicas. Para o ecologista, a desumanidade do homem para com a Natureza merece uma condenação quase tão forte quanto a desumanidade do homem para com o homem.”

 

Aldous Huxley (1894-1963), filósofo, escritor, ensaísta e crítico literário inglês em Literature and Science (Literatura e Ciência, 1963)

Outras leituras

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

“Os costumes sociais tendem a complicar inutilmente a vida, afastando o homem da natureza, que é a fonte única de sua felicidade. O supérfluo e o frívolo, disfarçados com frequência com o nome de refinamentos, aumentam de hora em hora a quantidade de sacrifícios estéreis que não servem para intensificar o ser. O homem, incentivado por paixões ambiciosas e egoístas, dá menos de si à comunidade e nela não encontra a cooperação moral que o estimularia a empreender grandes coisas, belas e desinteressadas.

O mundo particular dos políticos profissionais inspira terror. Como é possível que o interesse de reuniões, isentas de moral e de ideais progressivos, possa ser sobreposto ao interesse de toda a nação, de toda a sociedade? E é inadmissível que certos homens, não sendo os mais ilustrados nem os mais morais, tenham o direito de administrar os frutos da inteligência e do trabalho de todos, como se a sociedade tivesse que continuar pagando um imposto feudal a esse bando de bandidos que abandonaram os caminhos e as montanhas para refugiarem-se nas cidades? E não prova uma incapacidade moral do maior número, essa mesma possibilidade de que uns poucos maliciosos possam sobrepor sua atividade maléfica à necessidade social de encaminharmos à solidariedade, por meio do estudo e do trabalho?”

 

José Ingenieros (1877-1925), médico, psiquiatra, filósofo, sociólogo e professor argentino em Para uma Moral sem Dogmas (2009)

A Justiça

(Fonte: Duke)
 

O que eles pensam

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 

(...) “O New York times publicou uma alarmada entrevista com Bill Gates, que defende que a IA pode nos destruir e discuti-la é 1.000% mais essencial do que o debate nuclear. Gates propõe novas taxas, uma reserva de trabalhos apenas humanos e critérios claros para restringir os riscos extremos.

Os todo-poderoso magnatas tecnológicos são os novos imperadores, e as mudanças disruptivas que impõem, acontecem em uma velocidade vertiginosa, com a IA generativa a desbravar caminhos que ninguém mais entende, nem mesmo os programadores que a desenharam.”

 

Trecho do artigo Alguém precisa parar os ‘tech bros’, da jornalista portuguesa Mafalda Anjos (1975), publicado no jornal Folha de São Paulo em 31/08/2026