A frase do dia

domingo, 6 de setembro de 2026


“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”

 

Juscelino Kubitschek (1902-1976), médico, político e presidente do Brasil (1956-1961), citado pelo site Pensador.

Minha opinião

sábado, 5 de setembro de 2026

“Assim sendo, toda ideia, obra de arte, ciência, filosofia e história estão condicionadas historicamente no sentido de que são uma resposta a problemas específicos do ponto de vista histórico e refletem as preocupações de um determinado momento.”

Marnie Hugues-Warrington, historiadora, citando o filósofo Benedetto Croce 

 

Em 1959 o físico e intelectual britânico Charles Percy Snow proferiu uma palestra na universidade de Cambridge intitulada The Two Cultures and the Scientific Revolution (As duas Culturas e a Revolução Científica). A exposição, que se transformou em livro afamado, fala da divisão existente na vida intelectual do Ocidente à época, entre as ciências e as humanidades. Snow argumenta em seu discurso que a sociedade culta estava dividida entre cientistas e intelectuais das ciências humanas. Segundo o autor, entre os dois grupos havia pouco diálogo e falta de interesse nas atividades da outra área; situação que dificultava o desenvolvimento de novas tecnologias e a elaboração conjunta de soluções para enfrentar problemas globais, como a fome e a pobreza. Tratava-se, também, de uma crítica de Snow ao sistema educacional britânico, que desde o final do século XIX havia dedicado maior peso às humanidades, em detrimento das ciências exatas. Os métodos de ensino dos Estados Unidos e da Alemanha, afirmava, preparavam melhor seus alunos, dando igual importância às ciências humanas e às ciências da natureza em seus cursos.

Sobre as ciências em geral, a língua alemã possui uma nomeclatura singular em sua divisão. Existem as ciências da natureza, as Naturwissenschaften, que incluem todas as ciências relacionadas com a natureza, como a física, a biologia, química, astronomia, geologia, etc.; e as ciências do espírito ou da cultura, as Geisteswissenschaften Kulturwissenschaften, englobando todas as ciências que se ocupam do humano, de sua cultura e suas formas de expressão, como a história, a filosofia, as ciências da religião, os estudos literários, a linguística, etc. Essa classificação das ciências, já conhecida nos meios intelectuais da Europa desde o início do século XIX, foi popularizada pelo filósofo alemão Wilhelm Dilthey em sua obra Introdução às Ciências do Espírito (1883). Posteriormente, à medida que surgiam ou se aprofundavam novas áreas de estudo, criaram-se outras classificações adicionais, como as ciências sociais (sociologia, antropologia, ciências políticas, ciências econômicas, etc.) e as ciências formais (matemática, lógica, informática, etc.). Atualmente, com o avanço e a convergência crescente de disciplinas nas área das ciências humanas e da natureza, estas divisões classificatórias vão se ampliando constantemente. 

No Brasil, tradicionalmente, o sistema de ensino enfatizava as humanidades, com menor destaque para as ciências. Grande parte dos intelectuais e políticos brasileiros, desde a época imperial, tinha formação jurídica. Daí a alcunha de “império dos bacharéis”, dada ao país em algumas obras de sociólogos brasileiros. As ciências naturais não faziam parte da tradição educacional e cultural do Brasil – os primeiros cursos específicos de formação científica datam do início do século XX. As disciplinas das ciências da natureza eram pouco estudadas nas universidades até os anos 1950 pois a maioria destas instituições ministrava o chamado "tripé profissional tradicional", formado pela medicina, o direito e a engenharia. Exceção eram os cursos superiores de engenharia, que surgiram no século XIX. Outro aspecto é que até os anos 1950 o país mantinha uma economia alicerçada na agricultura, com indústria pouco desenvolvida e tecnologia aplicada ao processo produtivo de baixa complexidade. 

Com a aceleração da industrialização, ao longo dos anos 1950 e 1960, o ensino das ciências, já no nível médio, se consolidou e tornou-se obrigatório com a Lei de Diretrizes e Base, de 1961. A partir de então as ciências – física, química, biologia – passaram a integrar o currículo escolar, igualando-se ao ensino das humanidades.  

A situação mudou completamente durante o regime ditatorial (1964-1985), quando o ensino das ciências humanas se tornou secundário, tendo prioridade a formação técnica, que começa a ser requisitada num mercado de trabalho com grande oferta de postos de trabalho no setor industrial. A filosofia e a sociologia foram excluídas do ensino no nível médio também pelo fato de que, na avaliação dos governos do período, estas disciplinas estimulavam no estudante o questionamento da organização social e da reflexão política, podendo representar uma ameaça ao poder e à ordem. Pela Lei 5692/1971 a disciplina da história também ficou sujeita a mais controle, tendo sua carga horária reduzida e sendo combinada com a geografia, formando uma nova matéria escolar batizada de Estudos Sociais. Em 1974, apesar do descontentamento da população e de movimentos de contestação internos, ficou famosa a frase do presidente general Ernesto Geisel (1907-1996) que afirmava: "O Brasil é uma ilha de tranquilidade num mar de turbulências.”

Com a redemocratização do país e a promulgação da Constituição de 1988, a sociedade voltou a discutir livremente temas antes proibidos pelo regime, o que contribuiu para que o ensino das ciências humanas voltasse a tomar força na década de 1990. Depois, com a Lei 11.684/2008, tornou-se novamente obrigatório o ensino da filosofia, da sociologia e história no ensino médio.

Uma nova mudança ocorre com a promulgação da Lei 13415/2017, durante o governo de Michel Temer, que implantou nova reforma do ensino, integrando as disciplinas (filosofia, sociologia) na área das chamadas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, reduzindo o tempo de aula e eliminando a obrigatoriedade de que fossem ministradas como matérias isoladas. Logo depois, durante o governo Bolsonaro (2019-2023) as disciplinas da filosofia e da sociologia foram novamente desvalorizadas pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, declarando que cursos como filosofia eram voltados para as elites, e que a função do Estado seria garantir o aprendizado básico, enfatizando o que já previa a reforma do ensino iniciada no governo anterior, de Michel Temer. A reabilitação das disciplinas no ensino médio ocorreu durante o governo Lula, iniciado em 2023, que promulgou a Lei 14945/2024, que entre outras mudanças voltou a assegurar a obrigatoriedade do ensino das matérias.

As constantes mudanças nas diretrizes do ensino, principalmente no nível médio, período na vida do estudante em que começa a se consolidar sua visão de mundo como cidadão, mostram que a orientação e a importância dada às matérias, sejam na área de humanas, exatas ou biociências, estão sujeitas à ideologia política dos governos do momento. Regimes liberais ou sociais-democratas geralmente dão importância a uma formação abrangente do aluno, procurando equilibrar a carga horária entre as humanidades e ciências. Administrações de orientação direitista priorizam as ciências exatas e, principalmente, a formação técnica, pouco valorizando ou até dificultando o ensino das ciências humanas – especialidades que, supostamente, podem induzir o aluno a questionar a organização da estrutura social, a política ou as relações produtivas da sociedade onde vive.

Observam os especialistas que estudam o assunto, que o modelo de ensino que se impôs nas últimas décadas no país, está cada vez mais orientado para atender as necessidades do mercado de trabalho, ou seja, da economia capitalista. É fato que um modelo que pouco peso dá à cultura geral, adquirida em matérias como história, filosofia, sociologia, literatura, geografia, artes, etc., limita a capacidade de análise do aluno e tem como objetivo velado preparar pessoas que executam, ao invés de pessoas que analisam e, eventualmente, critiquem ou apresentem alternativas, seja para o que for. Um dos argumentos dos grupos sociais conservadores, defensores da exótica ideia da “escola sem partidos”, é que estas disciplinas são o ambiente de doutrinação política de esquerda dos alunos.    

Em suma hoje, no Brasil, já não existe mais – se é que alguma vez existiu – o antagonismo entre as ciências da natureza e as humanas, tanto no meio intelectual quanto no ensino. A impressão que se tem é que as disciplinas humanas, no ensino e na sociedade em geral, são considerados adereços, sem função prática numa sociedade voltada apenas para a realização do lucro, onde o conhecimento, se não tiver aplicações pecuniárias imediatas, é desvalorizado. A ideia de uma cultura humanística (a Bildung da cultura alemã) como parte da formação do indivíduo, foi esquecida no passado e hoje parece ser exclusividade das escolas das classes abastadas. Ao povo impinge-se o ideário de que o conhecimento que não pode transformar-se em mercadoria (qualquer coisa vendável no "mercado") tem pouco valor. Essa a  ideologia das empresas, dos meios de comunicação, do sistema. Os objetivos que se colocam para o jovem são “arranjar um emprego” ou "tornar-se empreendedor" (quando isso é possível) e, a muito custo, sobreviver para consumir e se endividar. Voos mais altos, na área das humanidades ou das artes, são reservados às elites, que não precisam se preocupar prementemente com a sobrevivência.

O filósofo e economista Karl Marx (1818-1883), no entanto, via as humanidades e as ciências humanas não como ocupação abstrata de diletantes longe da prática, mas como ferramentas de análise, compreensão e mudança da realidade social -  e não para eternizá-la. Talvez por isso sejam depreciadas por muitos.

 

 

Ricardo E. Rose, 3/09/2026

 

 

(Imagens: Leonard Koscianski Contemporary Art)

O Barquinho - João Gilberto

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Música brasileira


João Gilberto 

Álbum: João Gilberto (1961)

Música: O Barquinho (composição de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli)



https://www.youtube.com/watch?v=XUmur-FJwpM&list=RDXUmur-FJwpM&start_radio=1


João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, mais conhecido como João Gilberto (19312019), foi um cantor, violonista e compositor brasileiro. Considerado um artista genial por musicólogos e jornalistas especializados, revolucionou a música brasileira ao criar uma nova batida de violão para tocar samba: a "Bossa Nova". O seu jeito suave de cantar também influenciou muitos dos cantores da MPB. Para a revista Rolling Stone Brasil, foi um dos 30 maiores ícones brasileiros da guitarra e do violão e também o segundo maior artista brasileiro de todos os tempos, seguindo Tom Jobim (também músico e o compositor e arranjador dos maiores sucessos da carreira de João Gilberto).

Desde o lançamento do compacto que continha Chega de Saudade e Bim Bom, munido apenas da voz e do violão, começou uma revolução na música mundial. Dono de uma sonoridade original e moderna, João Gilberto levou a música popular brasileira ao mundo, principalmente para os Estados Unidos, Europa e Japão. Tido como um dos músicos mais influentes no jazz americano do século XX, ganhou prêmios importantes nos Estados Unidos e na Europa, como o Grammy, em meio à beatlemania.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

Aldous Huxley

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

“Comecemos pela ecologia e suas aplicações práticas nas técnicas de conservação, gestão de recursos, controle de pragas, melhoramento de linhagens resistentes, hibridização e todas as outras artes por meio das quais o homem tenta manter ou, se ainda não existe, criar uma relação satisfatória com seu ambiente natural. Essas artes e os fatos acumulados e teorias científicas em que se baseiam não são apenas interessantes por si só; são também profundamente significativos por suas implicações éticas e filosóficas. À luz do que agora sabemos sobre superpopulação, agricultura ruinosa, silvicultura insensata e pastoreio destrutivo, sobre poluição da água, poluição do ar e a esterilização ou perda total de solos antes produtivos, tornou-se abundantemente claro que a Regra de Ouro se aplica não apenas às relações dos indivíduos e sociedades humanas entre si, mas também às suas relações com outras criaturas vivas e com o planeta sobre o qual todos viajamos através do espaço e do tempo. ’Faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você.’ Gostaríamos de ser bem tratados pela Natureza? Então devemos tratar bem a Natureza.

A desumanidade do homem para com o homem sempre foi condenada; e, por algumas religiões, o mesmo ocorre com a desumanidade do homem para com a Natureza. Por meio delas, a desumanidade do homem para com a Natureza é implicitamente tolerada. Os animais, diziam os teólogos da ortodoxia católica, não têm alma e, portanto, podem ser usados ​​como se fossem coisas. As implicações éticas e filosóficas da ciência moderna são mais budistas do que cristãs, mais totemistas do que pitagóricas e platônicas. Para o ecologista, a desumanidade do homem para com a Natureza merece uma condenação quase tão forte quanto a desumanidade do homem para com o homem.”

 

Aldous Huxley (1894-1963), filósofo, escritor, ensaísta e crítico literário inglês em Literature and Science (Literatura e Ciência, 1963)

Outras leituras

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

“Os costumes sociais tendem a complicar inutilmente a vida, afastando o homem da natureza, que é a fonte única de sua felicidade. O supérfluo e o frívolo, disfarçados com frequência com o nome de refinamentos, aumentam de hora em hora a quantidade de sacrifícios estéreis que não servem para intensificar o ser. O homem, incentivado por paixões ambiciosas e egoístas, dá menos de si à comunidade e nela não encontra a cooperação moral que o estimularia a empreender grandes coisas, belas e desinteressadas.

O mundo particular dos políticos profissionais inspira terror. Como é possível que o interesse de reuniões, isentas de moral e de ideais progressivos, possa ser sobreposto ao interesse de toda a nação, de toda a sociedade? E é inadmissível que certos homens, não sendo os mais ilustrados nem os mais morais, tenham o direito de administrar os frutos da inteligência e do trabalho de todos, como se a sociedade tivesse que continuar pagando um imposto feudal a esse bando de bandidos que abandonaram os caminhos e as montanhas para refugiarem-se nas cidades? E não prova uma incapacidade moral do maior número, essa mesma possibilidade de que uns poucos maliciosos possam sobrepor sua atividade maléfica à necessidade social de encaminharmos à solidariedade, por meio do estudo e do trabalho?”

 

José Ingenieros (1877-1925), médico, psiquiatra, filósofo, sociólogo e professor argentino em Para uma Moral sem Dogmas (2009)

A Justiça

(Fonte: Duke)
 

O que eles pensam

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 

(...) “O New York times publicou uma alarmada entrevista com Bill Gates, que defende que a IA pode nos destruir e discuti-la é 1.000% mais essencial do que o debate nuclear. Gates propõe novas taxas, uma reserva de trabalhos apenas humanos e critérios claros para restringir os riscos extremos.

Os todo-poderoso magnatas tecnológicos são os novos imperadores, e as mudanças disruptivas que impõem, acontecem em uma velocidade vertiginosa, com a IA generativa a desbravar caminhos que ninguém mais entende, nem mesmo os programadores que a desenharam.”

 

Trecho do artigo Alguém precisa parar os ‘tech bros’, da jornalista portuguesa Mafalda Anjos (1975), publicado no jornal Folha de São Paulo em 31/08/2026

A frase do dia

“A validez universal é, invariavelmente, a conclusão falsa que tiramos, aplicando aos demais homens o que vale para nós.”

 

Oswald Spengler (1880-1936), historiador e filósofo alemão em A Decadência do Ocidente 

Leituras diárias

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

“O psicólogo de Harvard, Dan Wegner, escreveu um dos melhores relatos sobre por que desenvolvemos a experiência vívida do livre-arbítrio. Wegner argumenta que temos um cérebro que interpreta ações em termos de uma experiência de ‘achamos que fizemos isso’, como uma maneira muito útil de acompanhar decisões e ações. Isso ocorre porque as múltiplas influências e processos conscientes ou inconscientes que levam a essas escolhas são muito complexos ou ocultos para serem monitorados, mas podemos acompanhar o resultado como uma sensação de que tomamos a decisão. Por exemplo, podemos estar em uma festa e querer impressionar alguns convidados. Pense em todos os motivos pelos quais podemos sentir a necessidade de fazer isso – ansiedade social, medo da rejeição, necessidade de ser o centro das atenções e assim por diante. O que fazemos? Confiamos em nossa experiência de situações passadas para elaborar uma estratégia: decidimos contar uma piada. Monitoramos o resultado e o armazenamos como referência para festas futuras. Contamos uma piada, mas tínhamos a liberdade de fazer diferente? Claro, sentimos que tomamos a decisão, mas havia uma infinidade de experiências anteriores, bem como normas sociais vigentes e regras que influenciaram nossa escolha. Quando nossos comportamentos dão errado ou cometemos uma gafe, nos sentimos constrangidos e envergonhados e, em particular, nos perguntamos: 'O que eu estava pensando?'

Ter uma experiência de livre arbítrio sobre nossos pensamentos e ações nos vincula a eles como instigadores dessas decisões, mesmo quando esse pode não ser o caso. Dessa forma, uma sensação de livre arbítrio pode nos ajudar a acompanhar o que fizemos, o que não fizemos e o que podemos ou não fazer no futuro. Contanto que nossas intenções conscientes pareçam preceder nossas ações, é natural presumir que as desejamos.” 

“Esse princípio fundamental opera em todo o sistema nervoso, desde os simples movimentos oculares até todo o repertório de pensamentos e comportamentos humanos – as mesmas atividades que dão origem ao eu. É por isso que o eu é uma ilusão. Ele não se manifestou repentinamente em nossa mente no nosso segundo ou terceiro aniversário. Ele vem emergindo lentamente – esculpido a partir da riqueza da atividade e interação humanas. Nosso eu é produto da mente, que por sua vez é produto do cérebro trabalhando em conjunto com outros cérebros. À medida que o cérebro se desenvolve, o eu também se desenvolve. À medida que o cérebro se deteriora, o mesmo deve acontecer com o eu.” 

“A ilusão do eu depende de informações armazenadas que foram adquiridas ao longo da vida. Essas são as nossas memórias, construídas à medida que interpretamos o mundo. Essa interpretação é guiada por mecanismos que buscam certas informações no mundo, mas também por aqueles ao nosso redor que nos ajudam a dar sentido a tudo. Dessa forma, somos continuamente moldados por aqueles que nos cercam. Sendo a espécie com a maior proporção de vida passada na fase juvenil dependente de outros, as crianças humanas são particularmente evoluídas para a interação social, e grande parte do que nossos cérebros processam, parece ser dedicada a informações socialmente relevantes. Na ausência de interação social no início do desenvolvimento, as crianças podem ficar permanentemente incapacitadas socialmente, mesmo que seu intelecto esteja intacto.”

 

Bruce Hood, psicólogo, filósofo e pesquisador canadense em The Self Illusion (2012) (A Ilusão do Eu)

Cranio (Fábio de Oliveira Parnaíba, 1982-)

Conheça mais sobre a vida e obra do artista no site Guia das Artes:

https://www.guiadasartes.com.br/cranio/quem-e

Essa não poderia faltar

domingo, 30 de agosto de 2026

 

Pink Floyd

Echoes (1971)

https://www.youtube.com/watch?v=my2YYftkCmo&list=PLpI6XGqHb_GSjnwpef14jTrS5FcHkPsPL&index=6

Michel Onfray

sábado, 29 de agosto de 2026

 

“Diz Virgílio, taxativamente, que todo homem pode extrair lições sobre os rumos filosóficos do mundo se examinar o funcionamento de uma colmeia. Assistir ao espetáculo dos ciclos da natureza, observar uma lavoura, o eterno retorno das coisas (lavrar, semear, colher, lavrar, semear, etc.), sentir-se parte de um todo e aceitar o destino de vir da terra e para ela retornar (nascer, crescer, declinar, envelhecer, morrer, nascer, crescer, etc.), assim é que a agricultura dá à cultura lições de coisas modestas, porém determinantes. O camponês dá a matriz a todo filósofo digno deste nome. O pensador da cidade não chega aos pés do pensador do campo. Sobre uma infinidade de coisas, Sartre, que detestava a natureza, é menos certo e preciso do que era Sêneca em sua propriedade rural romana 2 mil anos antes dele.”

“O fatalismo nietzschiano, porém, resiste às lições dadas pela realidade: decerto não somos totalmente livres, como afirma a tradição espiritualista, desde a Bíblia até Sartre, passando por Descartes e Kant; é claro que não somos totalmente determinados, como proclamam os deterministas, desde o Corão até Freud, passando por Espinoza, La Mettrie, Helvetius, Holbach e Nietzsche, portanto; pois podemos construir liberdade para nós mesmos se soubermos que podemos fazê-lo e que podemos querer querendo aquilo que nos quer, pois não há nada que se possa querer além disso.”

“Depois de Copérnico, que se manteve cauteloso, mas antes de Galileu, que triunfou como cientista, depois de Epicuro, o materialista atomista, mas antes de Espinoza, o panteísta monista, Giordano Bruno, poeta e filósofo, homem de letras e artista, rebelde e dramaturgo, se vê na mira da Igreja. Esse dominicano de origem nega a virgindade de Maria, escarnece da Transubstanciação, recusa o dogma da Trindade, ataca os calvinistas, estraçalha os aristotélicos, desclassifica os adeptos da doutrina cosmológica de Ptolomeu. É detido e preso pela Inquisição, o Santo Ofício se mobiliza. Após oito anos de processo, o homem que esvaziou o céu e inventou o espaço moderno é levado à fogueira, nu, com uma mordaça na boca para impedir que falasse. Em 17 de fevereiro de 1600, no Campo dei Fiori, o filósofo visionário se desfaz em chamas. Seu cosmos é que era o certo.”

 

Michel Onfray (1959-) filósofo, escritor e professor francês em Cosmos – Uma Ontologia Materialista

Andre Dahmer

(Fonte: Folha de São Paulo/Andre Dahmer) 

Minha opinião

 

Em setembro de 2025 o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciava a intenção do governo de atrair investimentos em datacenters. Para isso, o governo preparou Medida Provisória (MP), criando o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no Brasil (ReData). A MP, substituída pelo Projeto de Lei (PL) 278/2026, visa atrair R$ 2 trilhões em investimentos para o país durante os próximos dez anos, segundo o governo.

Em todo o planeta o numero de datacenters vem crescendo rapidamente, devido ao aumento no uso da IA (inteligência artificial). Contendo grande numero de computadores de alta potência, servidores, sistemas de armazenagem e demais instalações, os datacenters processam armazenam e distribuem imensas quantidades de dados e, em rede mundial, abrigam o que se convencionou chamar de “a nuvem”.  

Um datacenter de porte médio, do qual se estima existirem entre 6 a 8 mil no mundo, tem entre 2 mil e 5 mil servidores. Já um datacenter de hiperescala (hyperscale) atua com centenas de milhares de chips de alto desempenho, com GPUs (unidades de processamento gráfico) especializadas. Destes estima-se estarem operando aproximadamente 1.190 globalmente. Estas grandes unidades são utilizadas por corporações como a Meta, Google, Microsoft, Alibaba e Amazon, entre outras.

Para dar uma ideia, um datacenter de hiperescala geralmente ocupa áreas superiores a 1.000 metros quadrados e consume em média 100 megawatts (MW) de eletricidade por dia; o equivalente ao consumo de 85 a 100 mil residências. Com relação ao consumo da água usada para refrigeração do sistema, o mesmo datacenter utiliza de 2 a 19 milhões de litros de água por dia; volume suficiente para atendimento diário de uma cidade de 10 a 50 mil habitantes (dados do AI Overview do Google).

Há dezenas de projetos de construção de datacenters pequenos, médios e de hiperescala em andamento no Brasil – nos estados de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul –, com previsão de entrega entre 2026 e 2028, totalizando cerca de 660 MW de consumo de energia, segundo a revista Forbes. Com esta quantidade de energia é possível abastecer uma cidade residencial (sem indústrias) com até 6,6 milhões de habitantes. O site Click Petróleo e Gás informa que de acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2034) do Ministério das Minas e Energia, a demanda de eletricidade dos datacenters chegará a 2,5 gigawatts (GW) em 2037; o que equivale ao consumo de 25 milhões de pessoas.

Além de contar com grande disponibilidade de eletricidade e água, o investidor estrangeiro ainda deverá contar com isenção de todos os tributos federais durante 5 anos – IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação. A contrapartida exigida pelo governo é a utilização de 100% de energia limpa; investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) o equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos na construção das unidades; atender as metas de eficiência hídrica nos sistemas de resfriamento das instalações; e destinar uma mínima parte da capacidade de processamento instalada, para atendimento de demanda nacional.

Quanto ao fornecimento de água e eletricidade aos datacenters, especialistas se fazem algumas perguntas, como:

- Com a aceleração dos efeitos danosos das mudanças climáticas no regime hidrológico de várias regiões do país, como conciliar o grande consumo de água dos datacenters com as necessidades da população? Em caso de uma crise hídrica prolongada, quem terá prioridade no fornecimento (lembrando que os datacenters estão inseridos em uma rede mundial)?

- No caso de queda na disponibilidade de energia elétrica gerada pelas hidrelétricas, haveria necessidade de colocar em funcionamento as termelétricas, aumentando as emissões de gases de efeito estufa para atender os datacenters?

Há que se considerar também outros aspectos menores, mas também significativos. Além do grande consumo de água e energia elétrica, os datacenters também são fonte de geração de lixo eletrônico: os potentes servidores e GPUs são substituídos em média a cada três anos e têm componentes que contêm metais pesados como chumbo, cadmio, mercúrio e as contaminantes terras raras.

Calor é outro impacto gerado pelos datacenters. Segundo o Journal of Engineering for Sustainable Buildings and Cities, dos Estados Unidos, estes centros de processamento podem aumentar a temperatura da região do entorno da unidade em até 2 graus, em áreas situadas até 500 metros do perímetro da instalação.  Sons e infrassons (ondas de baixa frequência) também são emitidos pelos diversos tipos de equipamentos instalados nos datacenters. Segundo reportagem do jornal O Globo, moradores vizinhos a estas instalações nos Estados Unidos, relatam casos de insônia, dor de cabeça e ansiedade, causados pelo constante som de fundo.

A pouca geração de empregos durante a vida útil dos datacenters também é outro motivo de crítica. A criação de postos de trabalho ocorre principalmente na fase de construção das unidades. Segundo a empresa ZEITEC, especialista em projetos destas instalações, estabelecimentos menores demandam 1 a 3 meses de construção; já grandes unidades podem levar 6 a 18 meses até ficarem prontas. Nessa fase, os grandes empreendimentos podem empregar de 1.500 a 3.000 profissionais. Depois, em operação regular, um datacenter hyperscale emprega entre 50 e 150 trabalhadores e datacenters menores entre 30 e 50 funcionários.

Nos Estados Unidos, onde funcionam cerca de 4.700 datacenters – o país concentra entre 38% e 45% de toda a capacidade instalada global – mais de 14 estados estudam ou já aplicam restrições e/ou paralizações temporárias na construção destas instalações. O estado de Nova York está impondo a primeira moratória na construção de novas unidades e outros estados estão reduzindo incentivos e restringindo recursos.

No Brasil, na região de Campinas, onde está prevista a construção de um grande datacenter, entidades se organizam e promovem manifestações e abaixo-assinados contra o projeto, dada a escassez de água na região. No Pará, o Ministério Público Estadual (MPPA) abriu inquérito para investigar ausência de consulta prévia e estudos de impacto socioambiental, do projeto a ser instalado na cidade de Barcarena.

Nas décadas 1970 e 1980 ficou conhecido o fenômeno da “exportação da poluição” para os “paraísos de poluição” (chamados em inglês de pollution havens). Indústrias das áreas de siderurgia, metalurgia, papel e celulose, química e petroquímica; poluidoras e com tecnologia defasada, transferiram sua atividades para países menos desenvolvidos (chamados então de “subdesenvolvidos”). Pressionadas pela opinião pública, legislação ambiental restritiva e por altos impostos, a solução mais econômica e simples era, então, transferirem suas fábricas para países onde praticamente não havia pressão popular (muitos governos eram ditatoriais), quase nenhuma legislação ambiental, insumos e mão de obra baratos e, em muitos casos, até isenção de impostos.

À época (anos 1970) o então ministro da Fazenda do Brasil, Antonio Delfim Netto, informado que indústrias poderiam deixar a Europa devido às restrições ambientais, declarou: “Venham para o Brasil porque temos espaço bastante para a poluição e é mais importante fazer aço; da poluição cuidamos depois.” Outros tempos, nos quais o país tinha outras prioridades.  

Em visita aos Estados Unidos em maio de 2025, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que vinha para escutar as grandes empresas de tecnologia digital sobre o projeto dos datacenters do governo brasileiro: "Queremos trazer os data centers para o Brasil para prover o serviço a preços baratos para os brasileiros, para as empresas, para as universidades brasileiras, para o SUS.

Será que é isso mesmo?

 

 

Ricardo E. Rose, 28/08/2026

 

 

(Imagens: pinturas de Edward Hopper, 1882-1967)

Yukata Toyota (1931-)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Conheça mais sobre a vida e obra do artista no site Guia das Artes abaixo:

https://www.guiadasartes.com.br/yutaka-toyota

O que eles pensam


O Brasil não deu certo


“Uma boa definição de tragédia não é a história em que as coisas simplesmente dão errado – mortes, pobreza, traições –, mas aquela em que as oportunidades para um final feliz estavam presentes e, ainda assim, os personagens fizeram escolhas que os conduziram ao desastre.

É uma maneira de olhar para o Brasil. O potencial estava lá, mas escolhemos a mediocridade. E continuamos escolhendo. Nossa tragédia não é a catástrofe ou a crise aguda, mas a estagnação e o baixíssimo crescimento (...)”

 

Trecho do artigo O Brasil não deu certo, publicado no jornal Valor em 27/08/2026, dos autores Pedro Cavalcanti Ferreira, professor da EPGE-FGV e diretor da FGV e Renato Fragelli Cardoso, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE-FGV).

Manoel de Barros

quinta-feira, 27 de agosto de 2026


 

XIX

 

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a

imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás

de casa.

Passou um homem depois e disse: Essa volta que o

rio faz por trás de sua casa se chama enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que

fazia uma volta atrás de casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

 

Manoel de Barros (1916-2014), poeta brasileiro em O Livro das Ignorãças

Da série: "Quando Jesus voltou"

                                                     (Fonte: Pinterest/Andre Dahmer) 

Camisa de Vênus - Só o Fim

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 Música brasileira


Camisa de Vênus

Álbum: Correndo o Risco (1986)

Música: Só o Fim




https://www.youtube.com/watch?v=Vd3AmJ4MMlw


Camisa de Vênus é uma banda brasileira de rock formada em Salvador em 1980 e encontra-se em atividade até hoje. Fez grande sucesso no cenário brasileiro dos anos 80, sendo uma banda tida como mais "suja" do que as outras pelo seu nome (na época era muito utilizado como sinônimo de preservativo) e pelos palavrões nas letras.

A banda foi formada em 1980 quando Marcelo Nova, que trabalhava na FM Aratu em Salvador, conheceu Robério Santana, que trabalhava na TV Aratu. Conversando sobre música os dois descobriram que tinham gostos em comum e decidiram montar uma banda. Marcelo Nova seria o vocalista e Robério Santana o baixista. Robério resolveu chamar seu amigo Karl Hummel para assumir a guitarra base e este, por sua vez, chamou seu amigo Gustavo Adolpho Souza Mullem para tocar bateria. Se juntou ao grupo o guitarrista solo Eugênio Soares.

Nos ensaios, as pessoas que compareciam diziam que o som da banda era muito incômodo. Por isso, Marcelo Nova sugeriu o nome de Camisa de Vênus, por achar preservativo uma coisa muito incômoda.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

A frase do dia

(Fonte: A Terra é Redonda/Quino)

Leituras diárias

terça-feira, 25 de agosto de 2026

“Na autocompreensão do século XXI o capitalismo parece pertencer à natureza interna dos seres humanos, como a alimentação, a bebida, o sono e a procriação, isto é, o metabolismo com a natureza exterior (ciclos de nutrição, de alojamento, mas também de estética da natureza e da arte), a comunicação entre as pessoas e o modo de funcionamento da natureza interior do ser humano. Fosse esse entendimento correto, o capitalismo seria uma condition humaine (André Malraux) transmitida de uma geração a outra. Nesse caso seria apenas coerente tender à opinião de que a história estaria no fim quando o capitalismo, com o seu sistema de instituições econômicas, sociais e políticas, bem como a cultura conexa, tivesse amadurecido até o florescimento e as alternativas depois da ‘vitória grandiosa da Guerra Fria’ tivessem desaparecido no vórtice do esquecimento histórico.

Permanece, porém, um sentimento de insatisfação. No ‘fim da história’ surge a desesperança, pois em primeiro lugar os primórdios continuam sem esclarecimento se no fim da história tudo permanece como antes – embora saibamos alguma coisa sobre as sociedades pré-capitalistas e a evolução do ser humano desde o Paleolítico. Faz parte do conhecimento comprovado que a humanidade trabalhou e viveu mais de 99% de sua história em condições não capitalistas. O capitalismo saiu de outros modos de produção (na Europa da ordem feudal); outros haverão de substituí-lo.”

 

Elmar Altvater (1938-2018), cientista social e professor alemão em O fim do capitalismo como o conhecemos (2005)

Nise da Silveira

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Nise da Silveira (1905-1999) foi médica psiquiatra, tendo contribuído para a revolução no tratamento das doenças mentais no Brasil por meio de técnicas que incluem a arte, a livre expressão e a afetividade.

Manifestou-se radicalmente contra os tratamentos comuns na psiquiatria manicomial até a década de 1950, como o eletrochoque, a insulinoterapia, o coma insulínico e a lobotomia.

Sua técnica, baseada no uso das artes - pintura, escultura, teatro, música, entre outros - com os pacientes, antecedeu os movimentos de renovação psiquiátrica na Europa, nos anos 1960 e 1970. 

Nise teve seu trabalho reconhecido internacionalmente e foi pioneira na introdução da psicologia junguiana (Carl Gustav Jung, 1875-1961) no Brasil.

As obras de arte de parte dos inúmeros pacientes atendidos pelo Dra. Nise da Silveira, encontram-se no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.

Este documentário mostra algumas desta imagens, enquanto discorre sobre a vida e obra desta grande brasileira:

https://www.youtube.com/watch?v=AtUhmbHqeXM

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(Fonte: Frank Rivera on Marvel D.C. / Pinterest)

Não perca tempo na vida. Leia!

Música de vanguarda

domingo, 23 de agosto de 2026


 

Pierre Schaeffer



https://www.youtube.com/watch?v=R7oNlvA8S9Q&list=PLGO5JffxZdiBbbmTYPqEZv4Iw5lkxNk52&index=12


Pierre Henri Marie Schaeffer (1910-1995) foi um compositor e teórico da música nascido na França, conhecido por ter inventado a música concreta (musique concrète, no original francês).

Schaeffer estudou na École Polytechnique, e começou a trabalhar em 1936 na Office de Radiodiffusion Télévision Française (ORTF) em Paris. Lá ele começou a experimentar a gravação de sons, convencendo a gerência da estação de rádio a autorizá-lo a utilizar os equipamentos. Ele tentava tocar os sons no sentido inverso, mais lento, mais rápido e sobreposto a outros sons, técnicas desconhecidas até então. Sua primeira peça completa foi um resultado desses experimentos, e foi intitulada Étude aux chemins de fer (1948).

Na época, Schaeffer fundou o grupo Jeune France, que tinha interesses em teatro e artes visuais, assim como música. Em 1942, ele co-fundou o Studio d'Essai (posteriormente conhecido como Club d'Essai). Em 1949, Schaeffer conheceu Pierre Henry, e os dois fundaram o Groupe de Recherche de Musique Concrète (GRMC) que recebeu reconhecimento oficial da ORTF dois anos após. A empresa forneceu ao compositor um novo estúdio, que incluía um magnetofone.

Schaeffer é reconhecido como o primeiro compositor a utilizar fitas magnéticas. Seus experimentos resultaram na publicação de A la recherche d'une musique concrète ("À busca por uma música concreta") em 1952, um sumário de seus métodos de trabalho até então.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)