“Para ser aceita como
paradigma, uma teoria deve parecer melhor do que as suas concorrentes, mas não
precisa — e, de fato, nunca o faz — explicar todos os fatos com os quais pode
ser confrontada.”
Thomas Kuhn, filósofo da
ciência estadunidense
Qualquer pessoa no mundo que
disponha de um celular (quase 80% da população mundial), tendo acesso à
informação básica, sabe que a ciência e sua aplicação prática, a tecnologia,
estão sempre avançando. O progresso da ciência é algo evidente, mesmo para o
cidadão comum.
Mas nem sempre foi assim na
história humana. No passado, descobertas e invenções disseminavam-se
lentamente. O uso do arco e flecha teve seu uso identificado inicialmente na
África, há cerca de 70 mil anos. Em seguida, ao longo de milênios, provavelmente
através da troca de mercadorias, guerras e migrações, seu emprego chegou lentamente
a outras regiões – na Europa há cerca de 50 mil anos e na Ásia há 48 mil anos.
Outro exemplo é o ferro, cuja aplicação ocorreu pela primeira vez em cerca
de 2.000 AEC entre os hititas, povo que habitava a atual Turquia. Mas foi
somente cerca de 800 ou 1.000 anos depois, que a utilização deste metal se
generalizou em todo o Oriente Médio, espalhando-se através da Índia para o
restante da Ásia. O mesmo aconteceu, com o uso da roda. Inventada em cerca de
3.500 AEC na Suméria, no atual Iraque, levou de 1.000 a 2.000 anos para se disseminar na Ásia Continental e na Europa. A pólvora, inventada na China,
levou 300 a 400 para chegar à Europa. O papel demorou 1.000 anos para percorrer
o mesmo percurso.
As longas distâncias, as
guerras, os diferentes graus de desenvolvimento tecnológico e cultural, foram fatores
que dificultaram a disseminação de novas tecnologias. Somente a partir do
século XVI, quando povos europeus começaram a percorrer os mares para conhecer,
comercializar e dominar outros povos, é que se acelerou o processo de difusão de
tecnologias, culturas, produtos, hábitos alimentares, plantas, etc. Neste período
o cidadão médio das cidades da Europa, Ásia e África começa a ouvir falar de
outros povos, outras culturas, e a incorporar hábitos e tecnologias estrangeiras
(cultivo e consumo da batata, milho e tabaco, uso de especiarias, refino da
cana-de-açúcar, uso de utensílios de porcelana, consumo de chá, utilização de
novas técnicas de mineração, etc.).

Em períodos históricos
anteriores, na Antiguidade e Idade Média da Europa, a vida diária de escravos,
plebeus, clientes e patrícios do Império Romano; ou a de camponeses, religiosos
e nobres na Idade Média, pouco mudava a cada geração. Nestes períodos o mundo
dos antepassados era cultural e tecnologicamente quase o mesmo das gerações
mais novas. Novidades que chegavam eram apenas as guerras locais e regionais, e
a sucessão de patrícios e imperadores romanos, de nobres e religiosos medievais,
em seus cargos. (As classes baixas; dezenas de milhões de escravos, plebeus e
camponeses, despareceram na história sem serem registradas).
A partir do século XVIII e
início do XIX, com a industrialização, a vulgarização do ensino básico e a modernização
do ensino superior na Europa, ocorre um rápido avanço no desenvolvimento da ciência
e da tecnologia. Nas ciências teóricas surgem a moderna teoria atômica (1808); as
geometrias não euclidianas (1830-1832); lei da termodinâmica (1850); teoria da evolução
das espécies (1859); teoria microbiana das doenças (1880); teoria da hereditariedade
(1865); teoria da unificação de Maxwell (1865); a moderna psicologia (1879),
entre as mais importantes. Baseados nas teorias científicas, atendendo demandas
práticas, os inventos se sucedem: motor a vapor (1777); telégrafo (1837); motor
elétrico (1837); fotografia (1839); fertilizantes químicos (1842); concreto
armado (1849); produção em massa de aço (1856); dinamite (1867); telefone
(1876); motor a explosão (1876); lâmpada incandescente (1879); foram algumas
das novas tecnologias criadas nesse período.
O desenvolvimento
teórico-tecnológico do século XIX foi o maior até então registrado pela
história. O avanço foi tal que alguns cientistas acreditavam não restarem novos
descobrimentos a serem feitos na física. “Não
há mais nada para descobrir na física. Tudo o que resta é fazer medições cada
vez mais precisas”, segundo frase atribuída ao físico Lorde Kelvin
(1824-1907). Esta forma de compreender a ciência, especialmente a física, como
se esta tivesse as respostas finais para todos os fenômenos físicos do
universo, deu origem ao cientificismo e ao positivismo; ideologias que
sustentam que as ciências naturais são a única maneira de se obter conhecimento
válido sobre o mundo, que seria absoluto ou infalível.
O universo, felizmente, é mais
complexo do que imaginavam os cientistas do final do século XIX. Basta lembrar
as duas teorias científicas que revolucionaram e se tornaram a base de toda a
física moderna – a teoria da relatividade (1905 e 1915) e a mecânica quântica
(1900-1925). Em outras áreas científicas os avanços também ultrapassaram o que
se considerava como definitivo e o que se conhecia até o século XIX, por
exemplo, a teoria da deriva continental (1915), a teoria do Big Bang (1920) e a estrutura do DNA
(1953). O imenso avanço tecnológico no século XX e início do XXI – informática,
internet, celulares, TV, antibióticos, ansiolíticos, insulina, energia nuclear,
viagens espaciais, moderna medicina hospitalar, etc. – ocorreu, em grande
parte, baseado em novas teorias científicas desenvolvidas no início do século
XX.
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Ao longo do século XX pensadores
como Bachelard, Canguilhem, Morin, Feyerabend, Kuhn, Popper, Japiassu, entre
outros, desenvolveram análises críticas sobre a atividade científica. Esta não
é um processo de “encontrar a verdade”, mas a tentativa de desenvolver teorias
que cada vez melhor expliquem um fenômeno. Cada nova descoberta sobre o
fenômeno, se não prevista ou explicada pela teoria científica, cria a
necessidade de refutá-la ou reformulá-la. Desta forma, a ciência não tem
teorias definitivas, finais. A teoria da gravitação universal de Newton
continua válida para aplicações físicas comuns, mas, como demonstrou a teoria
da relatividade de Einstein, não se aplica às necessidades da astronomia e
cosmologia, envolvendo velocidades próximas à da luz. As explicações da ciência sobre
o universo, as teorias científicas, são, por assim dizer, tentativas de
explicar certo fenômeno. No entanto, esta visão proporcionada pela ciência não
é uma “fotografia”, mesmo que temporária, do universo. Ela é a explicação
condicionada pelas limitações técnicas (instrumentos), culturais (informações,
teorias preexistentes, condicionamentos históricos) de uma determinada espécie
(homo sapiens) a analisar o fenômeno.
Trata-se, portanto, de uma visão parcial e limitada, mas que aplicada à
realidade explica o fenômeno por hora. Em algum tempo, com novas descobertas,
será necessário reformular o pressuposto – como tem acontecido ao longo da
história da ciência nos últimos 500 anos.
A ciência, de certa maneira,
tem um olhar cético sobre suas teorias; sempre há de se encontrar situações nas
quais a teoria possa (e precise) ser falseada/refutada. Assim, a ciência tem
começo, mas não tem fim, é um processo. Como escreveu o filósofo cético Sexto
Empírico (160-210 EC): "Não
afirmamos nada com certeza absoluta; apenas relatamos como cada coisa nos
aparece no momento."
Ricardo E. Rose, 23/09/26
(Imagens: pinturas de
Gustave Caillebotte, 1848-1894)