Steven Rose

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

“O pecado da grande metáfora da seleção natural é sua dedução de que os organismos são passivos, soprados de um lado para outro do ambiente pelo acaso, em vez de serem atores ativos em seu próprio destino.

Segundo, a seleção natural, a evolução, não tem o poder de prever mudanças futuras; é um processo que só reage ao aqui e agora. Não há metas, tentativas de alcançar alguma perfeição metafísica. A seleção, em qualquer ocasião, só pode funcionar nos materiais que ela tem disponíveis. A evolução opera por acréscimos, por remendo contínuo. Não é capaz de redesenhar e construir a partir do início.”

“Os peixes, anfíbios, répteis e aves sobrevivem hoje porque são inteiramente ‘aptos’ para seus ambientes e estilos de vida – pelo menos tão aptos e ‘evoluídos’ quanto os seres humanos. Os processos de evolução que deram origem a seus ancestrais lhes garantiram isso. A linha evolutiva que levou os mamíferos e daí aos primatas e seres humanos descreve apenas uma das inúmeras trajetórias evolutivas que geraram todas as atuais formas vivas e que continuam a incentivar a adaptação em reação às contingências permanentemente em mutação do meio ambiente.”

“Para um não especialista, pisar nesse campo minado é claramente um perigo, mas o consenso atual pareceria datar a divergência de pré-humanos (as formas mais primitivas são conhecidas como hominoides; as mais recentes hominídeos) de seus primos chimpanzés em uns 6 a 7 milhões de anos, enquanto o Homo sapiens apareceu como um ser diferente dos outros hominídeos por volta de 200 mil anos atrás. Hoje, o H. sapiens é o único membro sobrevivente do gênero Homo, e é um ponto de discussão saber se os diversos outros membros fósseis do gênero coexistiram em diferentes épocas durante esse período de 6 milhões de anos ou se houve uma espécie Homo de cada vez, implicando em algum tipo se progressão linear. Durante esse período, no entanto, há o que pode ser interpretado como uma mudança sequencial no desenvolvimento dos crânios; não apenas mudanças no tamanho dos cérebros, determinadas pelo volume do crânio (medida como um molde endocraniano), mas também a retração da face e das órbitas oculares sob o crânio, em vez de se projetarem para fora como em outros símios. Isso permitiu a expansão dos lobos frontais (embora a alegação de que os seres humanos têm lobos frontais desproporcionalmente expandidos quando comparados a outros símios, vista até há pouco tempo como controversa, já tenha sido contestada). Os crânios mais antigos atribuídos à condição de H. sapiens já descobertos, em Hero, na Etiópia, foram datados de cerca de 160 mil anos atrás. No entanto, para quem está de fora, poderia parecer que quase cada fóssil descoberto implica mais espécies de hominídeos (uma revisão recente inclui uns vinte) irradiando-se por um período de cerca de 4 milhões de anos, depois da diferenciação original dos ancestrais dos grandes símios de hoje.”

 

Steven Rose (1938-2025), neurocientista, pesquisador e professor inglês em O cérebro no século XXI (2005)

Fugiu

PF monitora as fronteiras para possíveis disfarces de Flávio Bolsonaro
 

(Fonte: Site The Piauí Herald)

Frases de Meio Ambiente

terça-feira, 27 de outubro de 2026


“A crítica cultural do consumismo é necessária, mas perfeitamente insuficiente. É preciso atacar o próprio modo de produção: se o problema é sistêmico, a solução tem de ser antissistêmica, isto é, anticapitalista. O projeto ecossocialista consiste em associar o "vermelho" - a crítica marxista do capital e a alternativa socialista - com o "verde", a crítica ecológica do produtivismo.”

Michael Löwy (1938-), sociólogo marxista, professor e escritor brasileiro em O que é Ecossocialismo?

Ana Holck (1977-)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site Ana Holck:

https://anaholck.com/

Giacomo Leopardi

segunda-feira, 26 de outubro de 2026


“A morte não é um mal, pois liberta o homem de todos os males e, juntamente com os bens, tira-lhe todos os desejos. A velhice é um mal extremo, pois priva o homem de todos os prazeres, deixando-lhe as vontades, e traz consigo todas as dores. A despeito disso, os homens temem a morte e desejam a velhice.” 

“Nisso os homens têm uma desculpa, pois é raro alguém que tenha realmente mais do que precisa; e as necessidades dependem quase principalmente de hábitos, e as despesas, em geral, são proporcionais às riquezas e, muitas vezes, maiores. Os poucos que acumulam sem gastar têm essa necessidade de acumular para seus projetos ou para necessidades futuras ou temidas. Não importa que essa ou aquela necessidade seja imaginária, pois demasiado poucas são as coisas da vida que não consistem totalmente, ou em grande parte, de algo imaginado.” 

 

“Rindo de nossos males encontro algum conforto e procuro levá-lo a outrem do mesmo modo. Se não consigo, tenho como certo que o rir de nossos males é o único proveito que se possa tirar e o único remédio que nele se possa achar. Dizem os poetas que o desespero tem sempre um sorriso na boca. Não deves pensar que eu não me condoa da infelicidade humana. Mas não podendo defender-se dela com força ou com arte alguma, nem indústria ou pacto algum, julgo muito mais digno do homem, e de um desespero magnânimo, rir dos males comuns do que pôr-me a suspirar, a chorar e a clamar com os outros ou incitá-los a fazer o mesmo.”

 

Giacomo Leopardi (1798-1837), ensaísta, filólogo, filósofo e um dos maiores poetas da língua italiana em Pensamentos e Opúsculos Morais, 1992

A frase do dia

domingo, 25 de outubro de 2026

 

“Não pergunte o que você pode fazer pelo seu país. Pergunte o que há para o almoço.”

 

George Orson Welles (1915-1985) ator, diretor e produtor de cinema estadunidense, considerado um dos diretores mais aclamados de todos os tempos. Citado por Goodreads

Essa não poderia faltar

 

The Who

Young Man Blues (1970)

https://www.youtube.com/watch?v=gdZrZO-qEkI

Marcelo Leite

sábado, 24 de outubro de 2026

 

“O cerne da razão sociobiológica é a suposição de que os comportamentos humanos encontrem sua explicação profunda na biologia (seleção natural) e, portanto, tenham fundamento genético. Embora o termo em si tenha surgido somente em 1975, com a publicação de um livro controverso de Edward O. Wilson, Sociobiology: The new synthesis (Sociobiologia a nova síntese), como programa intelectual sua história se confunde com a da eugenia e dos estudos sobre a hereditariedade da inteligência. Nas duas ou três primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, ainda sob o impacto das atrocidades nazistas e em meio a um clima de reconstrução, essa perspectiva permaneceu eclipsada e prevaleceu o otimismo ambiental, ‘nurturista’, segundo o qual tudo poderia ser inventado no domínio da cultura, nurture tinha precedência óbvia sobre nature e se inaugurava uma ‘era da psicologia’ (Keller, 1983, p. 285), mas sementes poderosas haviam sido lançadas e permaneciam dormentes no solo. Desde a década de 1930, por exemplo, a Rockfeller Foundation patrocinava sob a rubrica ‘Ciência do Homem’ uma linha de pesquisa, no estilo do que viria a se chamar de biologia molecular, voltada para o estudo do comportamento e para seu controle (Kay, 2000, p.45).”

“A sociobiologia de Wilson compõe um tipo peculiar de determinismo biológico, pois não chega a ser experimental e nem mesmo genético (Sarkar, 1999, p.191n); pressupõe que tanto os universais do comportamento (‘natureza humana’) quanto suas variações e desvios individuais tenham substrato em genes, mas não se propõe a identificar as correspondentes sequências de DNA ou trechos de cromossomos equivalentes, contentando-se com combinar observações selecionadas de etologia e antropologia com engenhosas hipóteses sobre o conteúdo adaptativo de tipos comportamentais no passado remoto da espécie, do altruísmo à divisão sexual do trabalho. Do outro lado do Atlântico, a obra inaugural da sociobiologia foi The Selfish Gene (O Gene egoísta), de Richard Dawkins, que, mesmo sem deixar o campo especulativo característico da doutrina sociobiológica, chega mais perto do determinismo genético propriamente dito. Afinal, poucas obras foram tão enfáticas ao conferir um papel de primazia para o DNA nos labores da evolução, alçando os genes à condição de protagonistas (na condição de replicators) e rebaixando organismo à de meros veículos (interactors) para multiplicação daqueles.”

 

Marcelo Leite, jornalista, doutor em sociologia e divulgador científico brasileiro em Promessas do Genoma (2006).

Voto crítico

sexta-feira, 23 de outubro de 2026
(Fonte: Opinião Socialista)

Leituras diárias

 

"Falamos como se houvesse um eu unificador que nos sustenta ao longo da vida, ou dia após dia, mas, na verdade, quando olhamos sinceramente para dentro de nós mesmos, não encontramos nada além desse fluxo mental; a introspecção honesta não revela a suposta substância metafísica do eu simples e contínuo. Não há nada disso lá dentro. Há um pensamento perturbador, porque nos faz parecer muito menos substanciais do que presumíamos: não há solidez no eu, apenas uma espécie de conjunto perpetuamente móvel de estados psicológicos. A noção de eu parece se dissolver diante de nossos olhos, como um pedaço de gelo derretendo em um líquido. O corpo é uma entidade sólida, visivelmente duradoura ao longo do tempo e dotada de integridade material em qualquer momento dado, mas aquilo que nos agrada chamar de eu é como uma mistura variável de percepções distintas. Em termos simples, não existe um eu, pelo menos não da forma como ingenuamente supomos; e isso, segundo Hume, torna-se evidente assim que começamos a buscá-lo de forma introspectiva.

Hume não afirma isso explicitamente, mas a mesma observação pode ser feita sobre a noção de caráter ou personalidade. Se pensarmos que cada pessoa possui algo chamado caráter que define sua identidade – que a torna a pessoa que é – então devemos nos perguntar se tal coisa pode ser encontrada por meio da introspecção. Mas certamente nunca encontramos tal entidade; encontramos apenas ocorrências conscientes particulares – sensações, emoções, pensamentos e assim por diante. O que chamamos de caráter não é um dado da consciência, mas uma espécie de construção hipotética: supõe-se que de alguma forma ‘esteja por trás’ do que ocorre em nossa consciência, embora não seja ela própria um constituinte da consciência.”

 

Colin McGinn (1950-) filósofo inglês em Shakepeare’s Philosophy – Discovering the Meaning Behind the Plays (A Filosofia de Shakespeare – Descobrindo o Sentido por Trás das Peças Teatrais)

O que eles pensam

quinta-feira, 22 de outubro de 2026


 

Cortes de Flávio Bolsonaro podem levar o Brasil à recessão

 

A proposta de Flávio Bolsonaro de cortar gastos públicos em até 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) pode levar o Brasil à recessão, ampliar a desigualdade e comprometer a renda de trabalhadores e pequenos empreendedores.

A avaliação é da economista Laura Carvalho, professora da Universidade de São Paulo (USP), e do Nobel de Economia Joseph E. Stiglitz, em artigo publicado pelo site Project Syndicate.

 

Trecho de artigo publicado na revista eletrônica IHU Online em 22/10/2026

Música de vanguarda


 

Edgar Varèse



https://www.youtube.com/watch?v=DhpMBedBJ0k&list=PLwCr9cqVvxlZWNQuOxt_hT-rxerOlA_9U&index=11


Edgar(d) Victor Achille Charles Varèse (Paris, 22 de dezembro de 1883 — Nova Iorque, em  6 de novembro de 1965) foi um compositor francês naturalizado estadunidense. É amplamente reconhecido como um dos pioneiros da música eletrônica e da música contemporânea, tendo influenciado profundamente a estética sonora e conceitual da música erudita moderna.

(...) Sua primeira grande criação em solo americano foi escrita entre 1918 e concluída em 1921, Amériques. A peça, composta para grande orquestra, rompe com estruturas tradicionais, propondo uma nova morfologia sonora baseada em timbres contrastantes, massas em transformação e um espaço acústico em constante mutação. Para isso, Verèse desenvolveu o que chamou de matéria sonora proteiforme, palavra criada a partir do mito grego de Proteu, onde há a descrição de uma divindade com poder de se metamorfosear, e criou o conceito de campo sonoro, influenciado pela teoria quântica de campos e na relatividade geral de Albert Einstein, de 1915. Contudo, a obra foi estreada apenas em 1926, interpretada pela Orquestra da Filadélfia, sob regência de Leopold Stokowski.

Varèse influenciou diversos músicos e compositores modernos inclusive da área do rock progressivo e jazz, como o compositor, guitarrista e arranjador estadunidense Frank Zappa.

 

(Fonte do texto: Wikipedia e editor do blog) 

"Flavinho-bomba" no Brasil?

(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)

Em 18/10, manifestantes bolsonaristas na avenida Paulista fizeram uma imitação de um foguete, com as palavras "Trump jogue uma bomba atômica no Brasil!". 

Ruy Mauro Marini

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

 

Assista ao documentário sobre a vida e obra de Ruy Mauro Marini (1932-1997) Ruy Mauro Marini e a dialética da dependência do canal Expressão Popular.

Ruy Mauro Marini foi cientista social e um dos elaboradores da Teoria da Dependência. Exilado do país durante os anos da ditadura militar, Marini foi professor no Chile e no México. 

De volta ao Brasil em 1980, dedica-se à pesquisa e ao ensino. Conheça detalhes sobre suas atividades e ideias no vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=ww4_HoY-UYA

A frase do dia

terça-feira, 20 de outubro de 2026

 

(Em relação ao "Deus, pátria e família")

“Onde quer que a moral se baseie na teologia, onde quer que o que é justo seja tornado dependente de uma autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser justificadas e estabelecidas.”

 

Ludwig Feuerbach (1804-1872), filósofo e antropólogo alemão em A Essência do Cristianismo

Maria Villares (1940-)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site Maria Villares abaixo:

https://mariavillares.art.br/

Bibliotecas

segunda-feira, 19 de outubro de 2026


Pra quem gosta de ler e de livros. A biblioteca de Christian Dunker, psicanalista, professor da USP e autor de livros nas áreas da psicologia e psicanálise.

O vídeo foi produzido pelo jornal O Estado de São Paulo:

Adivinhe!

(Fonte: Instagram/Bancarios Rio)

Pousada - Lou Borges

domingo, 18 de outubro de 2026

 Música brasileira


Lou Borges (1952-2025)

Música: Pousada (2026 - lançamento póstumo)

Álbum: A Estrada




https://www.youtube.com/watch?v=ZDCNPrwsFuI&list=PLTiej1LIy3djYnQEk9l5HU5U72BB_F-oU&index=1


A Estrada é o álbum póstumo de Lô Borges e chega como reflexo de um dos períodos mais férteis de sua trajetória artística. O disco é o oitavo lançado em oito anos, marca que evidencia uma fase de intensa produtividade criativa e reafirma a vitalidade de um compositor que permaneceu ativo, inquieto e profundamente comprometido com a canção até seus últimos trabalhos.

 

(Fonte do texto: Site Phono)

Leituras diárias

sábado, 17 de outubro de 2026

 

“Uma crença inabalável no progresso contínuo está no cerne da maior parte da teoria econômica moderna, notadamente naquilo que é considerado o paradigma econômico atual: o neoliberalismo. A expectativa de progresso tornou-se tão arraigada no público em geral — após uma experiência histórica tão prolongada de avanços tecnológicos que levaram a uma qualidade de vida cada vez melhor (pelo menos no Ocidente) — que raramente questionamos esse princípio ou as teorias que o sustentam. Quaisquer vozes que o questionem — como ambientalistas ou teóricos do ‘decrescimento’, por exemplo —, embora ouvidas com o devido respeito, não refletem o sentimento da maioria. 

Uma economia em expansão é considerada a norma em nosso cotidiano. É isso que todos os governos se empenham em proporcionar, cientes de que sua popularidade depende disso. Partidos políticos que defendem o oposto — talvez propondo a implementação de políticas de decrescimento caso eleitos — dificilmente conquistam muito apoio. O otimismo neoliberal quanto aos efeitos benéficos do livre mercado — também conhecido como ‘fundamentalismo de mercado’ — parece imune a quaisquer evidências em contrário. Discordo profundamente dessa posição. Para pessimistas como eu, parece simplesmente irrealista afirmar que a crise de crédito de 2007-2008 — em grande parte inesperada e não prevista pela maioria dos economistas convencionais — será a última do gênero. Basta um olhar superficial sobre a história econômica para perceber que ciclos de expansão e retração não são a exceção, mas a regra geral. Isso deveria suscitar certo grau de ceticismo. Para o historiador econômico Charles P. Kindleberger, a história econômica moderna pode ser mais bem descrita como uma sucessão de ‘manias, pânicos e quebras’, como se observa em fenômenos como a infame Bolha dos Mares do Sul, no início do século XVIII, ou a especulação desenfreada com bulbos de tulipa na Holanda do século XVII.” 


“Na Grécia clássica, acreditava-se que os deuses podiam controlar os acontecimentos no mundo humano. Os seres humanos eram, assim, meros joguetes em seus planos, e a mensagem clara era a de que não tínhamos — nem jamais poderíamos ter — pleno controle sobre nossos próprios destinos. Por fim, os indivíduos se viam diante de probabilidades adversas, independentemente de quanto sucesso tivessem alcançado anteriormente. Em ‘Édipo Rei’, de Sófocles, testemunhamos os eventos trágicos que podem ocorrer quando nosso destino escapa ao nosso controle. A história é muito conhecida e deu origem ao conceito freudiano de ‘complexo de Édipo’, que mantém vivos os seus temas no mundo moderno. Ela também tem sido fonte de fascínio e inspiração para gerações de artistas e compositores desde a Antiguidade clássica (a adaptação do texto em forma de oratório por Igor Stravinsky, com libreto de Jean Cocteau, é um exemplo notável do século XX).” 

 

Stuart Sim, professor, crítico literário e crítico social inglês em A Philosophy of Pessimism, 2015 (Uma Filosofia do Pessimismo)

Assim será Brasília?

(Fonte: A Terra é Redonda/Quino)

Jessé de Souza

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

“Como o que denominamos de economia se refere à forma específica como a produção e distribuição de bens materiais e simbólicos são viabilizados, a questão aqui é sobre quem fica com muito e quem fica com pouco ao fim e ao cabo desse processo. Essa questão, que é o núcleo da economia, não é nem técnica nem ‘econômica’; é ‘moral’ (e política) e é respondida pela forma dominante com que dada sociedade ‘escolhe’ quem merece o acesso privilegiado aos bens econômicos.

A economia é, portanto, sempre e em todos os casos, uma ‘economia política’. Afinal, o que decide para privilégio de quem a economia funciona é uma questão moral e política e não econômica. O ‘espírito’ do capitalismo é uma questão moral e política e não econômica. O ‘espírito’ do capitalismo como sistema econômico remete, portanto, à necessidade inevitável de uma construção moral que o legitima a partir de ‘fora’, ainda que de modo imperceptível enquanto tal. Em outras palavras, a economia funciona melhor quanto mais invisível for a base moral que a legitima e que permite a reprodução no tempo da atividade econômica.” 

“Essa opacidade da justificação moral no capitalismo é constitutiva do capitalismo, ou seja, um recurso sem o qual ele não funcionaria. A explicação para isso é simples. Pode-se obrigar as pessoas a ir ao seu local de trabalho e, se houver controle e vigilância constantes (o que envolve custos crescentes), também obriga-las a realizar suas funções porque necessitam do salário no final do mês para aplacar a fome. Mas isso seria pouco. Como qualquer sistema de dominação eficiente e que pretende se reproduzir no tempo, o capitalismo necessita se legitimar, ou seja, fazer com que as pessoas acreditem no que fazem e que, se possível, se empenhem o máximo possível. O sucesso do capitalismo nem sequer pode ser compreendido sem o trabalho de legitimação prévio no sentido de ganhar a boa vontade, a adesão ativa e o comprometimento de seus participantes.” 

“Como explicação totalizante hegemônica da história do país, no entanto, é a elite que seleciona tudo o que o povo vai ver na imprensa e na indústria cultural. Assim, por sua força e pregação diária, imaginamos que somos mais corruptos que os outros povos e por isso imbecilizados a ponto de entregar de bandeja a Petrobrás e a Odebrecht aos americanos, posto que seriam, ao contrário de nossos políticos, honestos, produtivos e confiáveis. A mesma ideia vai explicar também por que toda corrupção estaria só no Estado e na política. Com uma mesma ideia é possível matar dois coelhos: culpa-se a política e o Estado por tudo de ruim, o que fragiliza a política como um todo e apequena a participação popular; e aproveita os golpes também para ‘privatizar’ – um eufemismo do saque sobre a riqueza pública – as empresas estatais lucrativas e produtivas a preço de banana.” 

 

Jessé de Souza (1960-) sociólogo, advogado, professor e escritor brasileiro em Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la, 2025.

Paul M. Churchland

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“Se realmente existe uma entidade distinta, na qual o raciocínio, as emoções e a consciência têm lugar, e se essa entidade depende do cérebro unicamente para experiências sensoriais, como entrada de dados, e para execuções da vontade, como saída, então seria de esperar que a razão, a emoção e a consciência fossem relativamente invulneráveis ao controle direto ou às patologias resultantes da manipulação ou de danos ao cérebro. Mas, de fato, é exatamente o oposto que ocorre. O álcool, os narcóticos ou a degeneração senil de tecidos nervosos danificam, incapacitam ou mesmo destroem a capacidade de pensamento racional de uma pessoa. A psiquiatria conhece centenas de produtos químicos que controlam as emoções (o lítio, a cloropromazina, a anfetamina, a cocaína, e assim por diante), que entram em ação ao ser transportados até o cérebro. A vulnerabilidade da consciência aos anestésicos, à cafeína e a algo tão simples quanto uma pancada forte na cabeça mostra sua dependência muito estreita com relação à atividade neural no cérebro. Tudo isso faz plenamente sentido se a razão, as emoções e a consciência forem atividades do próprio cérebro. Mas faz muito pouco sentido se elas forem puramente atividades de alguma outra coisa.” 

“Como todos os organismos, exceto os mais simples, nós temos um sistema nervoso. E pela mesma razão: um sistema nervoso torna possível uma orientação discriminativa do comportamento. Mas um sistema nervoso é apenas uma ativa matriz de células, e uma célula é apenas uma ativa matriz de moléculas. Somos extraordinários apenas porque nosso sistema nervoso é mais complexo e potente que o das outras criaturas à nossa volta. Nossa natureza interior difere da de criaturas mais simples apenas em grau, mas não em gênero.” 

“Se essa é a descrição correta de nossas origens, então não parece haver necessidade, nem espaço, para a introdução de substâncias ou propriedades não-físicas em nossa explicação teórica de nós mesmos. Somos criaturas da matéria. E deveríamos aprender a conviver com esse fato.”

 

Paul M. Churchland (1942-), filósofo especializado em neurofilosofia e filosofia da mente canadense em Matéria e Consciência (2004)

Dia do professor

(Fonte: Blog Jorge Zanoni)

Os cortes de Flavinho

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

(Fonte: Instagram/leonardobarchini)
 

Essa não poderia faltar


 The Flower Kings

The Bridge (2019)

https://www.youtube.com/watch?v=vXIAau3A6rM&list=PLPRRD-TPe2tCJDY3Te5P28ZvbmZyWa6Si&index=5

Queremos teu voto!

terça-feira, 13 de outubro de 2026

(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)
 

A frase do dia

 

“Cada vez mais acredito que Deus não pode ser julgado por este mundo. É um estudo mal-acabado dele.”

 

Vincent van Gogh (1853-1890), pintor pós-impressionista holandês, considerado um dos mais influentes na moderna arte ocidental, citado por Albert Camus em O Homem Revoltado

O que eles pensam

segunda-feira, 12 de outubro de 2026



Votar em Bolsonaro é um desastre 

(...) “Flávio Bolsonaro nega o aquecimento global, vê o meio ambiente como um entrave ao desenvolvimento econômico e tripudia da ciência. É discípulo da cartilha ecocida de seu pai, Jair, que nos legou o maior conjunto de retrocessos socioambientais e humanitários da história. Na herança deixada estão a explosão do desmatamento na Amazônia (60% a mais em relação à média dos quatro anos anteriores), maior alta nas emissões dos gases de efeito estufa em 19 anos, recorde nas invasões de Terras Indígenas, perseguição a povos e comunidades tradicionais, congelamento de mecanismos de financiamento, como o Fundo Clima e Fundo Amazônia, e boicote à ação climática brasileira. O impacto foi negativo para o clima e para o país, incluindo o agronegócio.”


Trecho da nota do Observatório do Clima (https://oc.eco.br/) Votar em Bolsonaro é um desastre, publicada em 08/10/2026

Ler

                                     Incrível Hulk       (Fonte: Lordgray/X.com)   

Não perca tempo na vida! Leia!

Provocações com Paulo Ghiraldelli

domingo, 11 de outubro de 2026
Veja entrevista com o filósofo, professor e escritor Paulo Ghiraldelli para o programa Provocações.

Educação, sexualidade, vida cotidiana, a filosofia e seu ensino, política, são temas da entrevista que foi ao ar em 2012:

O "Jesus" de Flávio?











(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)

Minha opinião

sábado, 10 de outubro de 2026

O meio ambiente parece ter saído de moda no Brasil. Os temas ambientais praticamente desapareceram dos noticiários, dos jornais, das mídias sociais e das conversas entre as pessoas. Até na política temas de ecologia são cada vez mais raros e muitas candidaturas nem falam na questão. Apesar da obrigatoriedade de seu ensino, a matéria tornou-se transversal e assim perdeu em grande parte seu foco nas escolas.

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1990, a reciclagem de materiais, a poluição atmosférica, o saneamento, a proteção dos biomas originais, eram assuntos correntes no dia a dia da população. Nos congressos nacionais e internacionais empresários, especialistas e cientistas discutiam temas relacionados à sustentabilidade. Em 2000 a ONU promovia a Cúpula do Milênio da Organização das Nações Unidas, reunindo 189 países para assinarem a Declaração do Milênio, que estabelecia oito objetivos a serem alcançado até 2015: 1. Erradicar a pobreza extrema e fome; 2. Alcançar educação primária universal; 3. Promover igualdade entre sexos e autonomia das mulheres; 4. Reduzir a mortalidade infantil; 5. Melhorar a saúde materna; 6. Combater HIV/AIDS, a malária e outras doenças; 7. Garantir a sustentabilidade ambiental; 8. Estabelecer uma parceria global para o desenvolvimento.

Guerras localizadas, relações assimétricas entre nações ricas e pobres, crises econômicas e impactos ambientais, foram os principais fatores que fizeram com que Os Objetivos da Declaração do Milênio não fossem alcançados. Outro aspecto que influenciou negativamente a implementação da agenda da Declaração do Milênio foi a crise da economia mundial em 2007-2008, que teve origem no mercado das hipotecas de alto risco (subprimes) dos Estados Unidos. Com a crise, o empenho das empresas em temas ambientais diminuiu ou desapareceu. É sintomático que neste período muitos empresários descontinuaram projetos ambientais mantidos com ONGs, programas internos de qualidade ambiental e de responsabilidade social corporativa (RSC), limitando-se, estritamente, a cumprir a legislação ambiental da região onde atuam.

No Brasil temos outro quadro. Se na década de 1990 o tema dominante na agenda da sustentabilidade, tanto para o setor privado quanto para o governo, era essencialmente a preservação do meio ambiente, na década de 2000 adquirem importância maior as questões ligadas às energias renováveis, em suas diversas aplicações, como energia eólica, solar (térmica e fotovoltaica), pequenas centrais hidrelétricas (PCH), energia de biomassa, de biogás, células de combustível e uso em grande escala do biodiesel, entre outros. É deste período a instalação dos primeiros geradores eólicos no Nordeste, a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), a criação do Programa Nacional de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA) entre outras inciativas privadas e governamentais.

Apesar de não ter sido imediatamente afetada pela crise de 2007-2008, a economia brasileira começa a sentir seus efeitos ao longo dos anos seguintes, notadamente a partir de 2012. Com a crise que se avizinha, o governo federal e governos estaduais reduzem seus investimentos na área da infraestrutura, o que acaba impactando ramos do setor ambiental, como o tratamento de esgotos, a construção de aterros sanitários, a criação de áreas de proteção ambiental, etc. O setor privado, também atingido pela diminuição da atividade econômica, reduz seus aportes em programas considerados não essenciais, como a implantação de programas de qualidade ambiental, produção mais limpa (P+L), análise de ciclo de vida de produto, etc.. Limita-se a cumprir a legislação enquanto que apenas os grandes grupos empresariais continuam mantendo iniciativas ambientais e sociais que agreguem valor à imagem da companhia.

Em 2015 a ONU lança os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda sucessora dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, lançada durante a Conferência Rio+20 em 2012, no Rio de Janeiro. Os ODS contemplam 17 objetivos, divididos em 169 metas, basicamente abrangendo temas importantes para a humanidade, como “pessoas”, “planeta”, “prosperidade”, “paz” e “parcerias”. Estas iniciativas da ONU são essencialmente propositivas e não têm caráter mandatório. A implantação das metas acordadas pelos países depende das condições de desenvolvimento político, social, econômico e tecnológico de cada nação. Por isso a diferença nos padrões ambientais de países como, por exemplo, a Suécia e a Bolívia, ambos signatários de todas estas iniciativas ambientais da ONU.

Fatores econômicos, governos que pouca atenção deram à questão ambiental, falta de discussão do tema, contribuíram para que diminuíssem os investimentos em meio ambiente, fazendo com que a questão perdesse em importância na sociedade brasileira em geral. Associada à falta de recursos, ocorre também uma diminuição dos repasses destinados aos órgãos de controle ambiental – IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Secretarias do Meio Ambiente, agências estaduais de controle ambiental –, impossibilitando compra de equipamentos, contratações de funcionários e diminuindo o número de operações de fiscalização.

Com isso, o Brasil entrou em um verdadeiro retrocesso no que diz respeito à proteção ambiental. Apesar de todo o ufanismo que governo e empresas expressam em sua propaganda, ainda temos graves deficiências em áreas ambientais básicas. Empresas continuam poluindo e provocando grandes desastres ambientais, cujos processos se arrastam na justiça, sem que os afetados sejam devidamente indenizados. Nos novos temas ambientais, como o das mudanças climáticas e da transição energética, na prática, as ações do governo tem se restringido à redução do desmatamento na Amazônia e em zonas de agricultura, e à substituição de combustíveis. Ao planejamento, já encaminhado, falta seguir a prática, a depender de recursos.

O Brasil ainda tem muito por fazer na área da proteção/preservação ambiental. Ainda não resolvemos o baixo índice do saneamento e a gestão de resíduos urbanos, necessidades básicas em toda sociedade civilizada. Na falta de recursos públicos, o governo tem aumentado o número de projetos de concessão e privatização, soluções que nem sempre deram certo aqui e no exterior. Os gases de efeito estufa (GEE), causadores das mudanças climáticas, são gerados principalmente pelo desmatamento (42%) e pelo setor agropecuário (29%), que representam interesses de latifundiários, grileiros, do agronegócio, investidores e do setor financeiro. Os próximos governos precisarão de muita vontade e força política para cobrar medidas de redução de emissões destes grupos econômicos.

À medida que o ambiente urbano e natural se tornar cada vez mais degradado pela ação da poluição, do esgotamento dos recursos naturais ou até pelos efeitos das mudanças do clima, perceberemos, finalmente, que ações de correção e preservação ambiental são urgentes. Mas será que haverá vontade – coragem política – dos futuros governantes de implantá-las?

 

Ricardo E. Rose, 09/10/26

 

 

(Imagens: pinturas de Francisco Goya, 1746-1828)

Frases de Meio Ambiente

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

“A natureza é ordenada. O que parece caótico na natureza é apenas um tipo de ordem mais complexo.”


Gary Snyder (1930-), poeta, ensaísta, linguista e antropólogo estadunidense, citado por Goodreads

Ler

(Fonte: X/Star Treck Fan & Scifi Writer)

Não perca tempo na vida. Leia!
 

Blue Riviera - Sá, Rodrix & Guarabira

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 Música brasileira 


Sá, Rodrix & Guarabira 

Música: Blue Riviera

Álbum: Terra (1973)




https://www.youtube.com/watch?v=aq1LghBRl5Y&list=PLBEzm76YUYg7z8r5o4frty48HKWf5JMGU&index=4


Sá, Rodrix & Guarabyra foi um trio musical brasileiro formado por Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guttemberg Guarabyra. Surgiu em 1971. Se notabilizou pela criação do chamado “rock rural”, em que se mesclavam diversas influências musicais, do rock à música sertaneja. Em 1973, Zé Rodrix se desligou do trio, que passou a ser um duo (Sá e Guarabyra). Em 1999, Zé Rodrix reuniu-se novamente ao duo, permanecendo até sua morte, em 2009.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)