Essa não poderia faltar

domingo, 30 de agosto de 2026

 

Pink Floyd

Echoes (1971)

https://www.youtube.com/watch?v=my2YYftkCmo&list=PLpI6XGqHb_GSjnwpef14jTrS5FcHkPsPL&index=6

Michel Onfray

sábado, 29 de agosto de 2026

 

“Diz Virgílio, taxativamente, que todo homem pode extrair lições sobre os rumos filosóficos do mundo se examinar o funcionamento de uma colmeia. Assistir ao espetáculo dos ciclos da natureza, observar uma lavoura, o eterno retorno das coisas (lavrar, semear, colher, lavrar, semear, etc.), sentir-se parte de um todo e aceitar o destino de vir da terra e para ela retornar (nascer, crescer, declinar, envelhecer, morrer, nascer, crescer, etc.), assim é que a agricultura dá à cultura lições de coisas modestas, porém determinantes. O camponês dá a matriz a todo filósofo digno deste nome. O pensador da cidade não chega aos pés do pensador do campo. Sobre uma infinidade de coisas, Sartre, que detestava a natureza, é menos certo e preciso do que era Sêneca em sua propriedade rural romana 2 mil anos antes dele.”

“O fatalismo nietzschiano, porém, resiste às lições dadas pela realidade: decerto não somos totalmente livres, como afirma a tradição espiritualista, desde a Bíblia até Sartre, passando por Descartes e Kant; é claro que não somos totalmente determinados, como proclamam os deterministas, desde o Corão até Freud, passando por Espinoza, La Mettrie, Helvetius, Holbach e Nietzsche, portanto; pois podemos construir liberdade para nós mesmos se soubermos que podemos fazê-lo e que podemos querer querendo aquilo que nos quer, pois não há nada que se possa querer além disso.”

“Depois de Copérnico, que se manteve cauteloso, mas antes de Galileu, que triunfou como cientista, depois de Epicuro, o materialista atomista, mas antes de Espinoza, o panteísta monista, Giordano Bruno, poeta e filósofo, homem de letras e artista, rebelde e dramaturgo, se vê na mira da Igreja. Esse dominicano de origem nega a virgindade de Maria, escarnece da Transubstanciação, recusa o dogma da Trindade, ataca os calvinistas, estraçalha os aristotélicos, desclassifica os adeptos da doutrina cosmológica de Ptolomeu. É detido e preso pela Inquisição, o Santo Ofício se mobiliza. Após oito anos de processo, o homem que esvaziou o céu e inventou o espaço moderno é levado à fogueira, nu, com uma mordaça na boca para impedir que falasse. Em 17 de fevereiro de 1600, no Campo dei Fiori, o filósofo visionário se desfaz em chamas. Seu cosmos é que era o certo.”

 

Michel Onfray (1959-) filósofo, escritor e professor francês em Cosmos – Uma Ontologia Materialista

Andre Dahmer

(Fonte: Folha de São Paulo/Andre Dahmer) 

Minha opinião

 

Em setembro de 2025 o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciava a intenção do governo de atrair investimentos em datacenters. Para isso, o governo preparou Medida Provisória (MP), criando o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no Brasil (ReData). A MP, substituída pelo Projeto de Lei (PL) 278/2026, visa atrair R$ 2 trilhões em investimentos para o país durante os próximos dez anos, segundo o governo.

Em todo o planeta o numero de datacenters vem crescendo rapidamente, devido ao aumento no uso da IA (inteligência artificial). Contendo grande numero de computadores de alta potência, servidores, sistemas de armazenagem e demais instalações, os datacenters processam armazenam e distribuem imensas quantidades de dados e, em rede mundial, abrigam o que se convencionou chamar de “a nuvem”.  

Um datacenter de porte médio, do qual se estima existirem entre 6 a 8 mil no mundo, tem entre 2 mil e 5 mil servidores. Já um datacenter de hiperescala (hyperscale) atua com centenas de milhares de chips de alto desempenho, com GPUs (unidades de processamento gráfico) especializadas. Destes estima-se estarem operando aproximadamente 1.190 globalmente. Estas grandes unidades são utilizadas por corporações como a Meta, Google, Microsoft, Alibaba e Amazon, entre outras.

Para dar uma ideia, um datacenter de hiperescala geralmente ocupa áreas superiores a 1.000 metros quadrados e consume em média 100 megawatts (MW) de eletricidade por dia; o equivalente ao consumo de 85 a 100 mil residências. Com relação ao consumo da água usada para refrigeração do sistema, o mesmo datacenter utiliza de 2 a 19 milhões de litros de água por dia; volume suficiente para atendimento diário de uma cidade de 10 a 50 mil habitantes (dados do AI Overview do Google).

Há dezenas de projetos de construção de datacenters pequenos, médios e de hiperescala em andamento no Brasil – nos estados de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul –, com previsão de entrega entre 2026 e 2028, totalizando cerca de 660 MW de consumo de energia, segundo a revista Forbes. Com esta quantidade de energia é possível abastecer uma cidade residencial (sem indústrias) com até 6,6 milhões de habitantes. O site Click Petróleo e Gás informa que de acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2034) do Ministério das Minas e Energia, a demanda de eletricidade dos datacenters chegará a 2,5 gigawatts (GW) em 2037; o que equivale ao consumo de 25 milhões de pessoas.

Além de contar com grande disponibilidade de eletricidade e água, o investidor estrangeiro ainda deverá contar com isenção de todos os tributos federais durante 5 anos – IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação. A contrapartida exigida pelo governo é a utilização de 100% de energia limpa; investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) o equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos na construção das unidades; atender as metas de eficiência hídrica nos sistemas de resfriamento das instalações; e destinar uma mínima parte da capacidade de processamento instalada, para atendimento de demanda nacional.

Quanto ao fornecimento de água e eletricidade aos datacenters, especialistas se fazem algumas perguntas, como:

- Com a aceleração dos efeitos danosos das mudanças climáticas no regime hidrológico de várias regiões do país, como conciliar o grande consumo de água dos datacenters com as necessidades da população? Em caso de uma crise hídrica prolongada, quem terá prioridade no fornecimento (lembrando que os datacenters estão inseridos em uma rede mundial)?

- No caso de queda na disponibilidade de energia elétrica gerada pelas hidrelétricas, haveria necessidade de colocar em funcionamento as termelétricas, aumentando as emissões de gases de efeito estufa para atender os datacenters?

Há que se considerar também outros aspectos menores, mas também significativos. Além do grande consumo de água e energia elétrica, os datacenters também são fonte de geração de lixo eletrônico: os potentes servidores e GPUs são substituídos em média a cada três anos e têm componentes que contêm metais pesados como chumbo, cadmio, mercúrio e as contaminantes terras raras.

Calor é outro impacto gerado pelos datacenters. Segundo o Journal of Engineering for Sustainable Buildings and Cities, dos Estados Unidos, estes centros de processamento podem aumentar a temperatura da região do entorno da unidade em até 2 graus, em áreas situadas até 500 metros do perímetro da instalação.  Sons e infrassons (ondas de baixa frequência) também são emitidos pelos diversos tipos de equipamentos instalados nos datacenters. Segundo reportagem do jornal O Globo, moradores vizinhos a estas instalações nos Estados Unidos, relatam casos de insônia, dor de cabeça e ansiedade, causados pelo constante som de fundo.

A pouca geração de empregos durante a vida útil dos datacenters também é outro motivo de crítica. A criação de postos de trabalho ocorre principalmente na fase de construção das unidades. Segundo a empresa ZEITEC, especialista em projetos destas instalações, estabelecimentos menores demandam 1 a 3 meses de construção; já grandes unidades podem levar 6 a 18 meses até ficarem prontas. Nessa fase, os grandes empreendimentos podem empregar de 1.500 a 3.000 profissionais. Depois, em operação regular, um datacenter hyperscale emprega entre 50 e 150 trabalhadores e datacenters menores entre 30 e 50 funcionários.

Nos Estados Unidos, onde funcionam cerca de 4.700 datacenters – o país concentra entre 38% e 45% de toda a capacidade instalada global – mais de 14 estados estudam ou já aplicam restrições e/ou paralizações temporárias na construção destas instalações. O estado de Nova York está impondo a primeira moratória na construção de novas unidades e outros estados estão reduzindo incentivos e restringindo recursos.

No Brasil, na região de Campinas, onde está prevista a construção de um grande datacenter, entidades se organizam e promovem manifestações e abaixo-assinados contra o projeto, dada a escassez de água na região. No Pará, o Ministério Público Estadual (MPPA) abriu inquérito para investigar ausência de consulta prévia e estudos de impacto socioambiental, do projeto a ser instalado na cidade de Barcarena.

Nas décadas 1970 e 1980 ficou conhecido o fenômeno da “exportação da poluição” para os “paraísos de poluição” (chamados em inglês de pollution havens). Indústrias das áreas de siderurgia, metalurgia, papel e celulose, química e petroquímica; poluidoras e com tecnologia defasada, transferiram sua atividades para países menos desenvolvidos (chamados então de “subdesenvolvidos”). Pressionadas pela opinião pública, legislação ambiental restritiva e por altos impostos, a solução mais econômica e simples era, então, transferirem suas fábricas para países onde praticamente não havia pressão popular (muitos governos eram ditatoriais), quase nenhuma legislação ambiental, insumos e mão de obra baratos e, em muitos casos, até isenção de impostos.

À época (anos 1970) o então ministro da Fazenda do Brasil, Antonio Delfim Netto, informado que indústrias poderiam deixar a Europa devido às restrições ambientais, declarou: “Venham para o Brasil porque temos espaço bastante para a poluição e é mais importante fazer aço; da poluição cuidamos depois.” Outros tempos, nos quais o país tinha outras prioridades.  

Em visita aos Estados Unidos em maio de 2025, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que vinha para escutar as grandes empresas de tecnologia digital sobre o projeto dos datacenters do governo brasileiro: "Queremos trazer os data centers para o Brasil para prover o serviço a preços baratos para os brasileiros, para as empresas, para as universidades brasileiras, para o SUS.

Será que é isso mesmo?

 

 

Ricardo E. Rose, 28/08/2026

 

 

(Imagens: pinturas de Edward Hopper, 1882-1967)

Yukata Toyota (1931-)

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Conheça mais sobre a vida e obra do artista no site Guia das Artes abaixo:

https://www.guiadasartes.com.br/yutaka-toyota

O que eles pensam


O Brasil não deu certo


“Uma boa definição de tragédia não é a história em que as coisas simplesmente dão errado – mortes, pobreza, traições –, mas aquela em que as oportunidades para um final feliz estavam presentes e, ainda assim, os personagens fizeram escolhas que os conduziram ao desastre.

É uma maneira de olhar para o Brasil. O potencial estava lá, mas escolhemos a mediocridade. E continuamos escolhendo. Nossa tragédia não é a catástrofe ou a crise aguda, mas a estagnação e o baixíssimo crescimento (...)”

 

Trecho do artigo O Brasil não deu certo, publicado no jornal Valor em 27/08/2026, dos autores Pedro Cavalcanti Ferreira, professor da EPGE-FGV e diretor da FGV e Renato Fragelli Cardoso, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE-FGV).

Manoel de Barros

quinta-feira, 27 de agosto de 2026


 

XIX

 

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a

imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás

de casa.

Passou um homem depois e disse: Essa volta que o

rio faz por trás de sua casa se chama enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que

fazia uma volta atrás de casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

 

Manoel de Barros (1916-2014), poeta brasileiro em O Livro das Ignorãças

Da série: "Quando Jesus voltou"

                                                     (Fonte: Pinterest/Andre Dahmer) 

Camisa de Vênus - Só o Fim

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 Música brasileira


Camisa de Vênus

Álbum: Correndo o Risco (1986)

Música: Só o Fim




https://www.youtube.com/watch?v=Vd3AmJ4MMlw


Camisa de Vênus é uma banda brasileira de rock formada em Salvador em 1980 e encontra-se em atividade até hoje. Fez grande sucesso no cenário brasileiro dos anos 80, sendo uma banda tida como mais "suja" do que as outras pelo seu nome (na época era muito utilizado como sinônimo de preservativo) e pelos palavrões nas letras.

A banda foi formada em 1980 quando Marcelo Nova, que trabalhava na FM Aratu em Salvador, conheceu Robério Santana, que trabalhava na TV Aratu. Conversando sobre música os dois descobriram que tinham gostos em comum e decidiram montar uma banda. Marcelo Nova seria o vocalista e Robério Santana o baixista. Robério resolveu chamar seu amigo Karl Hummel para assumir a guitarra base e este, por sua vez, chamou seu amigo Gustavo Adolpho Souza Mullem para tocar bateria. Se juntou ao grupo o guitarrista solo Eugênio Soares.

Nos ensaios, as pessoas que compareciam diziam que o som da banda era muito incômodo. Por isso, Marcelo Nova sugeriu o nome de Camisa de Vênus, por achar preservativo uma coisa muito incômoda.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

A frase do dia

(Fonte: A Terra é Redonda/Quino)

Leituras diárias

terça-feira, 25 de agosto de 2026

“Na autocompreensão do século XXI o capitalismo parece pertencer à natureza interna dos seres humanos, como a alimentação, a bebida, o sono e a procriação, isto é, o metabolismo com a natureza exterior (ciclos de nutrição, de alojamento, mas também de estética da natureza e da arte), a comunicação entre as pessoas e o modo de funcionamento da natureza interior do ser humano. Fosse esse entendimento correto, o capitalismo seria uma condition humaine (André Malraux) transmitida de uma geração a outra. Nesse caso seria apenas coerente tender à opinião de que a história estaria no fim quando o capitalismo, com o seu sistema de instituições econômicas, sociais e políticas, bem como a cultura conexa, tivesse amadurecido até o florescimento e as alternativas depois da ‘vitória grandiosa da Guerra Fria’ tivessem desaparecido no vórtice do esquecimento histórico.

Permanece, porém, um sentimento de insatisfação. No ‘fim da história’ surge a desesperança, pois em primeiro lugar os primórdios continuam sem esclarecimento se no fim da história tudo permanece como antes – embora saibamos alguma coisa sobre as sociedades pré-capitalistas e a evolução do ser humano desde o Paleolítico. Faz parte do conhecimento comprovado que a humanidade trabalhou e viveu mais de 99% de sua história em condições não capitalistas. O capitalismo saiu de outros modos de produção (na Europa da ordem feudal); outros haverão de substituí-lo.”

 

Elmar Altvater (1938-2018), cientista social e professor alemão em O fim do capitalismo como o conhecemos (2005)

Nise da Silveira

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Nise da Silveira (1905-1999) foi médica psiquiatra, tendo contribuído para a revolução no tratamento das doenças mentais no Brasil por meio de técnicas que incluem a arte, a livre expressão e a afetividade.

Manifestou-se radicalmente contra os tratamentos comuns na psiquiatria manicomial até a década de 1950, como o eletrochoque, a insulinoterapia, o coma insulínico e a lobotomia.

Sua técnica, baseada no uso das artes - pintura, escultura, teatro, música, entre outros - com os pacientes, antecedeu os movimentos de renovação psiquiátrica na Europa, nos anos 1960 e 1970. 

Nise teve seu trabalho reconhecido internacionalmente e foi pioneira na introdução da psicologia junguiana (Carl Gustav Jung, 1875-1961) no Brasil.

As obras de arte de parte dos inúmeros pacientes atendidos pelo Dra. Nise da Silveira, encontram-se no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.

Este documentário mostra algumas desta imagens, enquanto discorre sobre a vida e obra desta grande brasileira:

https://www.youtube.com/watch?v=AtUhmbHqeXM

Ler

(Fonte: Frank Rivera on Marvel D.C. / Pinterest)

Não perca tempo na vida. Leia!

Música de vanguarda

domingo, 23 de agosto de 2026


 

Pierre Schaeffer



https://www.youtube.com/watch?v=R7oNlvA8S9Q&list=PLGO5JffxZdiBbbmTYPqEZv4Iw5lkxNk52&index=12


Pierre Henri Marie Schaeffer (1910-1995) foi um compositor e teórico da música nascido na França, conhecido por ter inventado a música concreta (musique concrète, no original francês).

Schaeffer estudou na École Polytechnique, e começou a trabalhar em 1936 na Office de Radiodiffusion Télévision Française (ORTF) em Paris. Lá ele começou a experimentar a gravação de sons, convencendo a gerência da estação de rádio a autorizá-lo a utilizar os equipamentos. Ele tentava tocar os sons no sentido inverso, mais lento, mais rápido e sobreposto a outros sons, técnicas desconhecidas até então. Sua primeira peça completa foi um resultado desses experimentos, e foi intitulada Étude aux chemins de fer (1948).

Na época, Schaeffer fundou o grupo Jeune France, que tinha interesses em teatro e artes visuais, assim como música. Em 1942, ele co-fundou o Studio d'Essai (posteriormente conhecido como Club d'Essai). Em 1949, Schaeffer conheceu Pierre Henry, e os dois fundaram o Groupe de Recherche de Musique Concrète (GRMC) que recebeu reconhecimento oficial da ORTF dois anos após. A empresa forneceu ao compositor um novo estúdio, que incluía um magnetofone.

Schaeffer é reconhecido como o primeiro compositor a utilizar fitas magnéticas. Seus experimentos resultaram na publicação de A la recherche d'une musique concrète ("À busca por uma música concreta") em 1952, um sumário de seus métodos de trabalho até então.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

Promessas...

(Fonte: Ranking dos Políticos/Facebook)

Minha opinião

sábado, 22 de agosto de 2026

 

"A economia vai bem, mas o povo vai mal". 

General Emílio Garrastazú Médici (1905-1985), presidente do Brasil durante o período da ditadura civil-militar

 

Tomando por base a propagando do governo, a situação econômica do povo melhorou nos últimos anos, com o controle da inflação e a criação de empregos, reduzindo a taxa de desocupação para 5,4% no segundo trimestre de 2026, o patamar mais baixo da série histórica do IBGE. Quanto à alta taxa dos juros, bastante criticada quando praticada pela administração anterior, pouco se fala no governo. 

Todavia, a crise no setor varejista brasileiro reflete aspecto diferente daquela situação econômica do povo brasileiro, apresentada pelo governo. Durante o primeiro semestre de 2026, segundo o jornal eletrônico Times Brasil, 986 empresas do setor varejista se encontravam em recuperação judicial. Companhias como Marabraz, Americanas, Grupo Pão de Açúcar, Casa & Vídeo e Tok&Stok, estão nesse grupo, ao qual também se juntou a Casas Bahia em agosto último.  

Não é surpresa que isto ocorra em uma economia na qual o salário mínimo é de R$ 1.621,00 – quando segundo o DIEESE deveria ser de R$ 7.999,44 –, e a maior parte da população não dispõe de recursos para o consumo além do estritamente necessário, chegando a se endividar para poder se alimentar. Segundo dados de julho de 2026, 82% dos brasileiros têm algum tipo de dívida; 30% possuem contas em atraso e 12% declararam que não terão condições de pagar suas dívidas. Como consequência, até o setor supermercadista tem registrado retração nas vendas em meses recentes.

Em junho de 2026, o salário médio das novas vagas de trabalho foi de R$ 2.404,34 e neste período apenas 5% a 8% dos trabalhadores brasileiros ganhavam mais de R$ 7.000,00. Segundo dados do IBGE (dados de 2025) o perfil do rendimento dos brasileiros é o seguinte:

- 1% da população, cerca de 2,1 milhões de pessoas, tem renda até R$ 24,9 mil;

- 4% da população, cerca de 10,6 milhões, têm renda até R$ 9.648,00;

- 10%, cerca de 21,2 milhões, têm renda até R$ 3.590.00; e

- 50% dos brasileiros, 106,1 milhões, têm renda de R$ 1.311,00. 

Os baixos salários estão relacionados a diversos fatores, apontam os especialistas. Uma sucessão de crises econômicas desde os anos 1980; altos impostos (a carga tributária cresceu de 25% do PIB nos anos 1990 para 32,4% em 2025); baixa produtividade da economia associada à insuficiente capacitação da mão de obra e falta de investimentos em tecnologias e infraestrutura, têm sido considerados impedimentos no crescimento da economia e dos salários.

O Brasil que entre o final dos anos 1970 e início dos 1980 chegou a ser a oitava nação mais industrializada do planeta, foi gradualmente perdendo esta posição. Descontrolada abertura do mercado para produtos estrangeiros, valorização da moeda nacional, juros altos, cortes de investimentos do Estado na infraestrutura e privatizações – principais itens da receita do “Consenso de Washington”, adotado para a economia a partir dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso – foram fatores decisivos para o processo de desindustrialização do país. Nos anos 1980 a indústria participava com 23% no PIB, enquanto que em 2025 este percentual caiu para 10,8%. Assim, ao longo dos últimos quarenta anos o setor industrial perde importância, enquanto o setor financeiro, o agronegócio e o setor de serviços apresentaram crescimento acelerado.

A mudança do perfil da atividade econômica não foi vantajosa para os trabalhadores, já que o agronegócio e o setor de serviços não pagam os mesmos salários que a indústria. O setor financeiro, incluído nos serviços, só tem dispensado trabalhadores desde os anos 1990, com a informatização do sistema bancário. No processo, os profissionais que perderam seus empregos na indústria foram em parte absorvidos pelo setor de serviços (que emprega 63% da força de trabalho do país), recebendo salários comparativamente mais baixos. Neste decurso houve um achatamento geral da remuneração dos trabalhadores em toda a economia, já que excessiva oferta de mão de obra reduz o valor médio dos salários pagos pelos empregadores.

Recomeça assim o círculo vicioso: quem ganha pouco consome menos, reduzindo a demanda e inibindo investimentos produtivos. O empresário não faz novos investimentos quando seu mercado não demonstra potencial crescimento da demanda. É mais provável que aplique seus recursos no mercado financeiro, onde a alta taxa dos juros remunera mais seu capital. Não investindo em novas unidades fabris ou comerciais, o empreendedor deixa de criar novos empregos, o que mantêm o nível dos salários baixos ou aumenta o desemprego.

Essa situação na qual se encontra o trabalhador brasileiro pode explicar porque quase 25% da população têm pouco ou nenhum interesse nas próximas eleições. Há uma impressão, baseada em experiências passadas, de que pouca coisa deve mudar no aspecto econômico da vida das pessoas, qualquer que seja o candidato que vencer, como já vem acontecendo há algum tempo. As propagandas dos partidos e dos políticos prometendo melhorias, novos projetos, tentando transmitir uma expectativa otimista, a muitos já não entusiasmam mais.

Enquanto governos continuarem priorizando setores como o financeiro, o agronegócio, a exploração mineral e grandes empreendedores, sem iniciarem projetos de desenvolvimento com a melhoria do padrão de vida, a maior parte da população vai continuar sem perspectivas quanto ao seu futuro.

O número daqueles que começam a perceber isso só tende a aumentar.


 

Ricardo E. Rose, 21/08/26

 

(Imagens: desenhos de Käthe Kollwitz, 1867-1945)

Robert Anton Wilson

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

“Nem todos vivemos no mesmo universo. Milhões vivem em um universo muçulmano e têm muita dificuldade em compreender pessoas que vivem em um universo cristão. Milhões de outros vivem em um universo marxista. A maioria dos americanos parece bastante feliz em um universo misto, capitalista do século XIX e cristão do século XIII, mas a intelectualidade literária vive em um universo freudiano/marxista do início do século XX, e alguns cientistas bem informados evidentemente vivem em um universo de 1997 (o texto foi escrito em 1997). A elaboração de tais realidades êmicas ou túneis da realidade pode atingir extremos de criatividade, nos quais uma pessoa ‘inventa’ uma interpretação totalmente nova e individualizada de toda a existência. Tais grandes criadores ou ganharão prêmios Nobel (de arte ou ciência) ou serão internados em ‘hospitais psiquiátricos’, dependendo de sua habilidade em vender sua nova visão aos outros.

Alguns chegam a ser internados em hospícios e, mais tarde, são reconhecidos como grandes pioneiros da ciência — por exemplo, Semmelweis, o primeiro médico a sugerir que os cirurgiões lavassem as mãos antes de operar. Ezra Pound (escritor) teve a peculiar distinção de ganhar um prêmio da Biblioteca do Congresso por escrever o melhor poema do ano, em 1948, enquanto psiquiatras do governo insistiam que ele ‘era’ louco.”

 

Robert Anton Wilson (1932-2007), escritor, psicólogo, filósofo e futurista anarquista em Quantum Psychology: How Brain Software Programs You and Your World (Psicologia Quântica: Como o Software do Cérebro Programa Você e o Seu Mundo, 1990)

Paulo Werneck (1907-1987)

Conheça mais sobre a vida e obra do artista no site abaixo:

Essa não poderia faltar

quinta-feira, 20 de agosto de 2026


 Spirogyra

The Furthest Point (1973)

https://www.youtube.com/watch?v=XqLp2X0pBKM

Como sempre, trabalhando pelo país!

(Fonte: Charge Online/Pelicano)

Leituras diárias

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

“Na cosmologia budista o universo não experimenta uma destruição singular e final. Em vez disso, opera em vastos ciclos de criação, preservação e dissolução. Essa natureza cíclica, incorporada no conceito de saṃsāra, descreve a existência como um ciclo infinito de nascimento, morte e renascimento — não apenas de seres sencientes, mas do próprio cosmos. Textos como o Aggañña Sutta e o Satta Suriya Sutta retratam vividamente esses ciclos cósmicos: ‘O universo se expande (Vivaṭṭa Kappa), permanece estável por eras, depois se contrai (Saṁvaṭṭa Kappa) em dissolução — apenas para ressurgir. Como o ritmo da respiração, o cosmos inspira e expira ao longo dos kalpas (imensos períodos cósmicos).’ “

 

“A cosmologia contemporânea oferece diversas hipóteses dominantes para o destino final do universo, que ressoam de forma intrigante com as ideias cíclicas budistas:

O Grande Congelamento (Morte Térmica): O universo continua se expandindo para sempre até que as estrelas esgotem seu combustível, deixando um cosmos frio, diluído e entrópico. Isso ecoa as noções budistas de ‘resfriamento’ cósmico e cessação, semelhantes ao nirvana como o fim do sofrimento.

O Big Crunch: A gravidade reverte a expansão, fazendo com que o universo colapse de volta em uma singularidade quente e densa — paralelo ao conceito budista de contração cósmica (Saṁvaṭṭa Kappa).

O Big Rip: A expansão acelerada impulsionada pela energia escura eventualmente despedaça galáxias, estrelas, planetas e até átomos. Essa destruição pelo ‘vento’ espelha de perto as alegorias budistas de dispersão e dissolução.

Modelos Cíclicos (oscilatórios): Alguns físicos, como Roger Penrose com sua Cosmologia Cíclica Conforme, propõem uma sucessão infinita de ‘éons’ ou ciclos Big Bang – Big Crunch — fortemente reminiscentes dos kalpas na cosmologia budista. A ciência e o budismo reconhecem a impermanência de todas as coisas — seja explicada pela entropia da termodinâmica ou pela profecia dos sete sóis da cosmologia budista.”

 

Nantakan Imphong, em Buddhist Cosmology Meets Modern Science: A Comparative Study of Thai Buddhist and Scientific Perspectives on the Universe (A Cosmologia Budista Encontra a Ciência Moderna: Um Estudo Comparativo das Perspectivas Budista Tailandesa e Científica sobre o Universo)

A frase do dia

 

“Todos os partidos são variantes do absolutismo. Não fundaremos mais partidos; o Estado é o seu estado de espírito”.

 

Raul Seixas (1945-1989), cantor, compositor, produtor musical e agitador cultural brasileiro citado pelo site Pensador

Thomas Mann

terça-feira, 18 de agosto de 2026

“Sabe-se a que ponto toda a psicologia da civilização de Freud se explica pelos destinos dos impulsos, e qual o papel que nela desempenham os conceitos de sublimação e de recalque. A análise, aplicada à vida psíquica normal, torna claro que ‘os mesmos componentes sexuais que se deixam desviar de suas metas mais imediatas e conduzir para outras são os que proporcionam as contribuições mais importantes para as realizações culturais do indivíduo e da comunidade’. Por recalque, no entanto, ela entende a censura do escrúpulo moral que impede impulsos arcaicos ou socialmente impossíveis de aceder à consciência, seu amordaçamento no inconsciente, processo que é menos criador do que condicionador da civilização, pois a civilização somente é possível sob a pressão de determinadas proibições, mantidas graças a dispositivos morais e físicos de poder; e como uma introjeção efetiva e autêntica dessas proibições, que significaria liberdade, não pôde ser alcançada na maioria dos homens comuns nem mesmo pela santificação religiosa, a consequência é um estado de hipocrisia cultural, favorecido pela lei de silêncio antianalítica que a sociedade impõe no que se refere aos pressupostos sobre os quais está baseada a civilização. ‘A civilização humana’, diz Freud, ‘repousa sobre dois apoios, o primeiro é o domínio sobre as forças da natureza, o segundo, a limitação de nossos impulsos. Escravos acorrentados carregam o trono da soberana. Em meio aos componentes impulsivos tornados assim tão servis, os dos impulsos sexuais – no sentido estrito – se destacam por sua força e selvageria. Ai dela se eles se libertam; o trono seria virado de ponta-cabeça, e a soberana, pisoteada. A sociedade sabe disso – e não quer que se fale desse assunto. ‘Por que não? Porque ela, responde Freud, tem má consciência em mais de um sentido. ‘Em primeiro lugar, ela estabeleceu um ideal elevado de moralidade – moralidade é restrição do impulso – cuja observância ela exige de todos os seus membros, e não se preocupa com o quão difícil essa obediência possa ser para o indivíduo.”

 

Thomas Mann (1875-1955) romancista, ensaísta, contista e crítico social alemão em Ensaios & Escritos - Pensadores modernos: Freud, Nietzsche, Wagner e Schopenhauer

Ivan Lessa

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Jornalista, escritor, correspondente internacional de vários jornais e um dos principais colaboradores do semanário O Pasquim, Ivan Lessa viveu parte de sua vida em Londres.

Em 2001 foi entrevistado pelo jornalista Alberto Dines (1932-2018) para o programa Observatório da Imprensa

Lessa e Dines foram verdadeiros marcos na história do jornalismo crítico brasileiro. Veja a entrevista abaixo:

Dia do Filósofo

domingo, 16 de agosto de 2026

(Fonte: UNIFAP)

“Nada é, tudo está em processo de se tornar.”

Heráclito de Éfeso (aprox. 500-450 aec), filósofo grego

Estado ainda investe pouco em Saúde!

(Fonte: Revista Partes/Jean Galvão)