Albert Camus e O Homem Revoltado

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

“Nietzsche não quer redenção. A alegria do devir é a alegria da aniquilação. Mas só o indivíduo é destroçado. O movimento de revolta, no qual o homem reivindica o seu próprio ser, desaparece na submissão absoluta do indivíduo ao devir. O amor fati substitui o que era um odium fati. ‘Todo indivíduo colabora com todo o ser cósmico, quer saiba ou não disso, quer queira ou não.’ O indivíduo perde-se, assim, no destino da espécie e no eterno movimento dos mundos. ‘Tudo o que foi é eterno, o mar devolve-o à beira da praia.’” 

“A insurreição humana, em suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser senão um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que encontramos, o protesto dirige-se sempre a tudo aquilo que, na criação, é dissonância, opacidade, solução de continuidade. Trata-se portanto, no essencial, de uma interminável exigência de unidade. A recusa da morte, o desejo de duração e de transparência são as molas de todas essas loucura sublimes e pueris. Trata-se somente da recusa covarde e pessoal de morrer? Não, porque muitos destes rebeldes pagaram o preço necessário para ficar à altura de suas exigências. O revoltado não exige vida, mas razões de vida. Ele rejeita as consequências que a morte traz. Se nada perdura, nada se justifica, aquilo que morre fica privado de sentido. Lutar contra a morte equivale a reinvindicar o sentido da vida, a lutar pela ordem e pela unidade.”

“Já se disse que o mundo de Proust era um mundo sem deus. Se isto for verdade, não é porque ele nunca fala em Deus, mas porque este mundo tem ambição de ser uma perfeição completa e de dar à eternidade o semblante do homem. O Tempo reencontrado, pelo menos em sua ambição, é a eternidade sem deus. A obra de Proust, a esse respeito, surge como um dos empreendimentos mais ambiciosos e mais significativos do homem diante de sua condição mortal. Ele demonstrou que a arte do romance refaz a própria criação, tal como ela nos é imposta e tal como é recusada. Pelo menos sob um de seus aspectos, esta arte consiste em preferir a criatura ao criador. No entanto, com maior perspicácia, ela alia-se à beleza do mundo ou dos seres humanos contra as forças da morte e do esquecimento. É desta forma que a revolta é criadora.” 

 

Albert Camus (1913-1960), filósofo, escritor, ensaísta, dramaturgo e jornalista franco-argelino em O Homem Revoltado (1951)

Bibliotecas

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O que será que uma monja zen budista costuma ler? Autora de dezenas de publicações, a religiosa Shingetsu Coen Röshi, conhecida como Monja Coen (nascida Claudia Dias Baptista de Souza), tem uma biblioteca bastante incomum.

Veja entrevista dada pela monja à equipe do jornal O Estado de São Paulo em agosto de 2024:

https://www.youtube.com/watch?v=hT6to0PHObc

Sempre tem um jeito

 
(Fonte: Enciclopédia Itau Cultural/Edward Munch)

...de piorar bastante o que já não era aceitável. 

E agora?

segunda-feira, 5 de outubro de 2026


 

José

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!

José, para onde?

 

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta, cronista e contista brasileiro em José, publicado em Poesias, 1942

Poesia Moderna Russa

domingo, 4 de outubro de 2026


 

Nacos de Nuvem

 

No céu flutuavam trapos

de nuvem – quatro farrapos:

 

do primeiro ao terceiro – gente;

o quarto – um camelo errante.

 

A ele, levado pelo instinto,

pé, se desgarra um elefante.

 

Um sexto salta – parece.

Susto: o grupo desaparece.

 

E em seu rasto agora se estafa

o sol – amarela girafa  

 

                                                 1917-1918

                               (Tradução de Augusto Campos)

 

 

Vladímir Maiakóvski (1893-1930), poeta e agitador cultural russo, citado em Poesia Russa Moderna, organizado por Augusto de Campos (1931-), Haroldo de Campos (1929-2003) e Boris Schnaiderman (1917-2016).

Licida Vidal (1984-)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site do Luis Maluf abaixo:

https://luismaluf.com/en/portfolio/licida-vidal/

Minha opinião

sábado, 3 de outubro de 2026

“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam esse mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível, que é o verdadeiro poder dominante do nosso país. Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formados e nossas ideias são sugeridas, em grande parte, por homens de quem nunca ouvimos falar... São eles que puxam os fios que controlam a mente pública.”

Edward Bernays (1891-1995), pioneiro das relações públicas e propaganda em seu livro Propaganda  

 

Esta é certamente, guardadas as proporções, a mais confusa fase pré-eleitoral desde a redemocratização do país, em 1985. O alvoroço é provocado pelo grande número de personagens que através das mídias sociais digitais opinam, debatem e atacam adversários no ambiente político que antecede as eleições, além das intervenções da justiça eleitoral e do Superior Tribunal Federal (STF).  O efeito que no passado as mídias convencionais – televisão, jornais e o rádio – tinham sobre a opinião pública, foi ampliado exponencialmente pela comunicação digital. Praticamente 90% da população brasileira possui telefone celular, instrumento que em muitos grupos das plataformas digitais de comunicação, como Facebook ou WhatsApp, funciona como difusor de informações verdadeiras, boatos e fake news. 

As mídias sociais vivem de notícias, verdadeiras ou falsas, cuja principal função na ótica das plataformas digitais das big techs como Alphabet (Google), Meta (Facebook, Whatsapp, Instagram), Microsoft (Linkedin), ByteDance (Tik Tok), etc., é gerar reações, likes. Via de regra, as plataformas não têm qualquer preocupação quanto à veracidade ou não do que é veiculado pela mídias sociais. Estas, efetivamente, são utilizadas como instrumentos de coleta de informações sobre seus usuários. As “curtidas” funcionam como meio para identificar opiniões, preferências, objetivos, receios, expectativas, etc., dos diversos usuários das comunidades virtuais. O clima pré-eleitoral brasileiro aumentou muito o número de interações e consultas nestas redes. Segundo o instituto de pesquisa Genial/Quest, as mídias sociais se tornaram fonte principal de consulta política para 39% dos eleitores. 

Este imenso volume de informações diversificadas é organizado através do sistema big data: é armazenado (data lakes), processado e transformado em dados através do data mining e inteligência artificial (IA). Ferramentas essenciais em todo este processo são a IA, no processamento e seleção do grande número de informações, e os datacenters para armazená-los. Estes dados, por sua vez, são adquiridos por empresas, partidos políticos, órgãos do governo, institutos de pesquisa, universidades, etc.; organizações ou entidades que procuram potenciais consumidores, eleitores, cidadãos em geral com determinado perfil, interesses e necessidades.

As informações, os dados adquiridos sobre os usuários das mídias sociais, são utilizados como base para o desenvolvimento de novos produtos e serviços, direcionados para um público consumidor cujos grupos já estão identificados e cujas preferências e expectativas se conhece em vários aspectos. Definido o perfil aproximado de certo grupo, a propaganda, com estratégias psicológicas e emocionais, pode criar expectativas, desejos e necessidades – antes inexistentes – para interessar o potencial consumidor para certo produto ou serviço. Este é apenas um exemplo simples da utilização da IA para influenciar grupos sociais. Mas ainda há várias outras aplicações da tecnologia, incluindo a política.

Eleições também são grande campo de utilização do big data, influenciando decisões de eleitores. Segundo dados disponíveis, a IA vem sendo utilizada para analisar as redes sociais, identificar perfis psicológicos de usuários e enviar propaganda política direcionada para estes grupos - técnica conhecida como microssegmentação de mercado. Outra forma é a montagem de deepfakes em áudios e vídeos, criando fatos falsos, afetando ou impulsionando a imagem de candidatos. Com chatbots (simulação de conversa através de IA) criaram-se discursos e diálogos falsos com grupos de eleitores customizados.

Nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, os chatbots foram usados para simular pronunciamentos defendendo candidatos e foram criadas imagens e vídeos, encenando declarações fictícias. Fatos semelhantes ocorreram nas eleições da Polônia e Canadá, em 2025 e nas eleições brasileiras em 2024. Visando diminuir estas atividades ilícitas nas mídias sociais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Senado Federal estabeleceram restrições para impedir o uso de informações falsas através da IA nas eleições de 2026.

O desenvolvimento da IA progride rapidamente e já se discute retardar o seu avanço. Grandes desenvolvedores como as empresas Anthropic, OpenAI, xAI e Google DeepMind pleiteiam uma diminuição no ritmo das pesquisas, a criação de legislação específica e a conscientização de governos a nível local e mundial. Suspeita-se que a tecnologia possa fugir do controle daqueles que a operam. Dario Amodei, CEO da Anthropic declarou recentemente na imprensa: "A IA acarreta riscos e, por ser uma tecnologia tão poderosa, esses riscos são graves". 

Será que corremos o risco de que logo mais a IA se transforme nos “homens de quem nunca ouvimos falar”, aos quais se refere Bernays no texto introdutório acima, ou seja, a entidade impessoal que controlará a humanidade? 


Ricardo E. Rose, 01/10/26

 

 

(Imagens: pinturas de George Gorsz, 1893-1959)

Daniel Dennett

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

 

“(...) Esse é um passo crucial na campanha darwinista para derrubar a visão do cosmo de Mente-primeira de Locke. Os filósofos costumam concordar, com bons motivos, que não se pode separar significado e mente, nunca poderia haver significado onde não houvesse mente, ou mente onde não houvesse significado. Intencionalidade é o termo técnico do filósofo para esse significado; é o ‘sobre o que se fala’ que pode relacionar uma coisa com outra – um nome para seu dono, um aviso de alerta para perigo que o acionou, uma palavra para seu referente, um pensamento para seu objeto. Só algumas coisas no universo manifestam intencionalidade. Um livro ou uma pintura podem ser sobre uma montanha, mas a montanha em si não é sobre nada. A intencionalidade é amplamente considerada pelos filósofos como a marca do elemento mental. De onde vem a intencionalidade? De mentes, é claro.

Mas essa ideia, perfeitamente boa à sua maneira, transforma-se em uma fonte de mistérios e confusões quando usada como um princípio metafísico, e não como um fato da história natural recente. Aristóteles chamou Deus de Motor Imóvel, fonte de todo movimento no universo, e a versão de Locke para a doutrina aristotélica, como vimos, identifica Deus como Mente, transformando o Motor Imóvel em Intenção Involuntária, fonte de toda Intencionalidade. Locke achava que estava provando dedutivamente o que a tradição já considerava óbvio: a intencionalidade surge da Mente de Deus; nós somos criaturas de Deus, e a Ele atribuímos nossa intencionalidade.” 

“Vamos agora para o extremo oposto e consideremos uma heresia que seria fatal para o darwinismo, não fosse ela uma alternativa tão confusa e, em última análise, contraditória: a tentativa do paleontólogo jesuíta, Teilhard de Chardin, de conciliar sua fé religiosa com sua crença na evolução. Ele propôs uma versão da evolução que colocava a humanidade no centro do universo, e descobriu que o cristianismo expressava a meta – ‘o ponto-ômega’ – que toda a evolução tenta alcançar. Teilhard até achou lugar para o Pecado Original (na sua versão católica, não na científica que observei no Capítulo 8). Para sua tristeza, a Igreja considerou isso uma heresia e o proibiu de ensiná-la em Paris, por isso ele passou o resto da vida estudando fósseis na China, até morrer em 1955. Seu livro The Phenomenon of Man (1959) foi publicado depois de sua morte e aclamado internacionalmente, mas as instituições científicas, e o darwinismo ortodoxo em particular, foram tão firmes quanto a Igreja ao rejeitá-lo como herege. É justo dizer  que nos anos logo após a publicação do livro, tornou-se unânime entre os cientistas que Teilhard não oferecia nenhuma alternativa séria à ortodoxia; sua ideias peculiares eram confusas, e o resto não passava de uma bombástica redescrição da ortodoxia.” 

“(...) O problema coma visão de Teilhard é simples. Ele negou com ênfase a ideia fundamental de que a evolução é um processo algorítmico, irracional, sem objetivo. Este não era um compromisso construtivo; era uma traição da ideia básica que permitia a Darwin derrubar a ideia da Mente-primeira de Locke.” 

“As pessoas querem a todo custo acreditar que nós, seres humanos, somos imensamente diferentes de todas as outras espécies – e elas estão certas! Nós somos diferentes. Somos a única espécie que tem um meio extra de preservação e comunicação de projeto: a cultura. Isso é um exagero; outras espécies também têm rudimentos de cultura, e sua capacidade de transmitir informações ‘pelo comportamento’, além de geneticamente, é em si mesma um fenômeno biológico importante (Bonner, 1980), mas essas outras espécies não desenvolveram cultura como uma forma de decolagem como nossa espécie fez. Nós temos a linguagem, o meio básico da cultura, e a linguagem nos abriu novos espaços no Espaço de Projeto aos quais só nós temos acesso. Em poucos e breves milênios – um mero instante no tempo biológico – já usamos nossos novos veículos de exploração para transformar não só o nosso planeta como o próprio processo de desenvolvimento de projetos que nos criou.” 

 

Daniel Dennett (1942-2024), filósofo, cientista cognitivo, professor estadunidense em A Perigosa Ideia de Darwin (1995)

Bolsonaro Kid

 (Fonte: Instagram/Orlando Pedroso)

Michael Shermer

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

“Isso significa que nossa intenção de fazer alguma coisa segue a onda cerebral inicial de atividade associada à ação em cerca de 300 milésimos de segundo. Ou seja, 3/10 de um segundo se passam entre o cérebro tomar uma decisão e a consciência dessa decisão. Acrescente-se a isso o tempo de processamento de outros 2/10 de segundo para agir e constata-se que ½ segundo se passa entre a intenção de fazer alguma coisa e nossa consciência de fazer realmente o que queremos. A atividade neural que precede à intenção de agir é inacessível à nossa mente consciente, e por isso temos a sensação de livre-arbítrio. Mas é uma ilusão, causada pelo fato de que não podemos identificar a causa da consciência de nossa intenção de agir. Juntos, esses estudos mostram quão profundamente a padronicidade está arraigada em nosso cérebro, estruturalmente inserida em nosso inconsciente e gerando padrões abaixo de nossa consciência.”

“Como hominídeos de cérebro maior, com um córtex desenvolvido e uma ‘teoria da mente’ – consciência de estados mentais como desejos e intenções, tanto em nós quanto nos outros –, praticamos o que chamo de acionalização: a tendência de infundir nos padrões significado, intenção e ação. Ou seja, quase sempre transmitimos ação e intenção aos padrões que encontramos e acreditamos que esses agentes intencionais controlam o mundo, às vezes de maneira invisível, de cima para baixo, e não de maneira aleatória e casual, de baixo para cima, que governa nosso mundo. Acredita-se em almas, espíritos, fantasmas, deuses demônios, anjos, extraterrestres, designers inteligentes, conspiradores políticos e todos os tipos de agentes invisíveis, dotados de força e intenção, assombrem nosso mundo e controlem nossa vida. Combinadas com nossa propensão de descobrir padrões significativos em fatos significativos e não significativos, a padronicidade e a acionalização constituem a base cognitiva do xamanismo, do paganismo, do animismo, do politeísmo, do monoteísmo e de todos os espiritualismos da velha e da nova era.”

 

Michael Shermer (1954-), historiador da ciência, escritor divulgador da ciência e diretor da The Skeptics Society em Cérebro & Crença (2011)

A filosofia Carvaka

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 

“Os Carvakas são, por vezes, comparados aos filósofos gregos. As crenças heterodoxas atribuídas aos Carvakas evocam imediatamente semelhanças com os filósofos gregos Demócrito e Epicuro. Elas também demonstram afinidade com o filósofo e poeta romano Lucrécio.”

 

“Para os Lokayatikas (Carvaka), a totalidade da existência neste mundo reduz-se, em última análise, a quatro elementos: ar, fogo, água e terra. Tudo surge da combinação desses quatro elementos, e o seu fim (morte e dissolução) consiste na separação deles. Esse ponto poderia ser facilmente aceito por oponentes — tanto heterodoxos (jainismo e budismo) quanto ortodoxos (Nyaya-Vaisheshika, Samkhya-Yoga e Mimamsa) — no que diz respeito a objetos materiais, os quais podem ser resultado de uma combinação de elementos materiais, embora alguns desses oponentes possam acrescentar o akasha (éter) como um quinto elemento. O verdadeiro conflito surge quando o Carvaka afirma que até mesmo o ‘eu’ (a personalidade humana), com suas propriedades de vida e consciência, é um produto resultante de tal combinação. Ao defender um empirismo realista e racionalista e não admitir a existência de nada além da natureza, o Carvaka naturalmente sustenta — como todos os materialistas — que a questão do ‘porquê’ do universo é irrelevante. Não encontramos qualquer ‘propósito’ no universo. A natureza é indiferente à ‘vontade’ de um Ser supremo, cuja própria existência é posta em dúvida pelo Carvaka. A natureza perdura e existe por si mesma; não precisamos de nada além dela para explicá-la. A cosmologia Carvaka, portanto, rejeita a atuação de um Ser inteligente (Deus) como causa do universo.

O mundo, segundo o Carvaka, é resultado de um desenvolvimento a partir da combinação dos quatro elementos em proporções variadas, dando origem a uma diversidade de coisas, objetos e seres (animais, humanos, etc.), cada qual com sua própria natureza. Trata-se de uma doutrina de "naturalismo", o Svabhavavada. O Carvaka não acredita na doutrina da criação e, por isso, não necessita de um Criador ou de uma força criadora. Ele não apenas rejeita a agência de Deus, mas também a do ‘invisível’ (adrsta), da ‘ação’ (karma), do ‘destino’ (niyati), do ‘tempo’ (kala) e do ‘acaso’ (yadrccha), substituindo todos eles pela ‘natureza’ (svabhava). É a própria dinâmica interna da matéria que explica o surgimento e o desaparecimento das coisas, segundo ele.”

 

Bhupender Heera (1976-) filósofo e professor indiano em Uniqueness of Carvaka Philosophy in Traditional Indian Thought, 2011 (A Singularidade da Filosofia Carvaka no Pensamento Indiano Tradicional)

Lembrete para Flavio B.

(Fonte: Quebrando o Tabu/Facebook)

Essa não poderia faltar

terça-feira, 29 de setembro de 2026

 

Spock´s Beard

Stream Of Unconsciousness (2006)

https://www.youtube.com/watch?v=DEyXTaIJdjk&list=PL3ZOG5V0OqAZScXb47AvlwF5weD3l9eeI&index=14

Eu te ofereço...

(Fonte: A Terra e Redonda/Quino)

A frase do dia

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

“Não posso dizer se as coisas vão melhorar se mudarmos; o que posso dizer é que elas precisam mudar para melhorar.”

 

Georg Christoph Lichtenberg (1742-1799), físico, satírico e pensador alemão, citado por Goodreads

A justiça tarda...

(Fonte: humortadela.com.br)

Lev Shestov

domingo, 27 de setembro de 2026


“Mas, a partir de nossas próprias mentes e de nossa própria experiência, não podemos deduzir nada que nos sirva de base para estabelecer sequer o menor limite ao comportamento arbitrário da própria natureza. Se o que acontece agora tivesse acontecido de forma completamente diferente, não nos pareceria, portanto, minimamente natural. Em outras palavras, embora possa haver um elemento de inevitabilidade em nossos julgamentos humanos a respeito dos fenômenos naturais, nunca fomos capazes, e provavelmente nunca seremos, de separar o grão do inevitável da palha da verdade acidental e casual. Além disso, nem sequer sabemos o que é mais essencial e importante, o inevitável ou o casual.

Portanto, somos forçados à conclusão de que a filosofia deve abandonar sua tentativa de encontrar as veritates aeternae (verdades eternas). A função da filosofia é ensinar o homem a viver na incerteza — o homem que tem um medo supremo da incerteza e que está sempre se escondendo atrás deste ou daquele dogma. Mais resumidamente, a função da filosofia não é tranquilizar as pessoas, mas perturbá-las.”

 

Lev Shestov (1866-1938), filósofo existencialista russo em All Things Are Possible, 1919 (Todas as coisas são possíveis)

Minha opinião

sábado, 26 de setembro de 2026

“Para ser aceita como paradigma, uma teoria deve parecer melhor do que as suas concorrentes, mas não precisa — e, de fato, nunca o faz — explicar todos os fatos com os quais pode ser confrontada.”

Thomas Kuhn, filósofo da ciência estadunidense 

 

Qualquer pessoa no mundo que disponha de um celular (quase 80% da população mundial), tendo acesso à informação básica, sabe que a ciência e sua aplicação prática, a tecnologia, estão sempre avançando. O progresso da ciência é algo evidente, mesmo para o cidadão comum.

Mas nem sempre foi assim na história humana. No passado, descobertas e invenções disseminavam-se lentamente. O uso do arco e flecha teve seu uso identificado inicialmente na África, há cerca de 70 mil anos. Em seguida, ao longo de milênios, provavelmente através da troca de mercadorias, guerras e migrações, seu emprego chegou lentamente a outras regiões – na Europa há cerca de 50 mil anos e na Ásia há 48 mil anos. Outro exemplo é o ferro, cuja aplicação ocorreu pela primeira vez em cerca de 2.000 AEC entre os hititas, povo que habitava a atual Turquia. Mas foi somente cerca de 800 ou 1.000 anos depois, que a utilização deste metal se generalizou em todo o Oriente Médio, espalhando-se através da Índia para o restante da Ásia. O mesmo aconteceu, com o uso da roda. Inventada em cerca de 3.500 AEC na Suméria, no atual Iraque, levou de 1.000 a 2.000 anos para se disseminar na Ásia Continental e na Europa. A pólvora, inventada na China, levou 300 a 400 para chegar à Europa. O papel demorou 1.000 anos para percorrer o mesmo percurso.

As longas distâncias, as guerras, os diferentes graus de desenvolvimento tecnológico e cultural, foram fatores que dificultaram a disseminação de novas tecnologias. Somente a partir do século XVI, quando povos europeus começaram a percorrer os mares para conhecer, comercializar e dominar outros povos, é que se acelerou o processo de difusão de tecnologias, culturas, produtos, hábitos alimentares, plantas, etc. Neste período o cidadão médio das cidades da Europa, Ásia e África começa a ouvir falar de outros povos, outras culturas, e a incorporar hábitos e tecnologias estrangeiras (cultivo e consumo da batata, milho e tabaco, uso de especiarias, refino da cana-de-açúcar, uso de utensílios de porcelana, consumo de chá, utilização de novas técnicas de mineração, etc.).

Em períodos históricos anteriores, na Antiguidade e Idade Média da Europa, a vida diária de escravos, plebeus, clientes e patrícios do Império Romano; ou a de camponeses, religiosos e nobres na Idade Média, pouco mudava a cada geração. Nestes períodos o mundo dos antepassados era cultural e tecnologicamente quase o mesmo das gerações mais novas. Novidades que chegavam eram apenas as guerras locais e regionais, e a sucessão de patrícios e imperadores romanos, de nobres e religiosos medievais, em seus cargos. (As classes baixas; dezenas de milhões de escravos, plebeus e camponeses, despareceram na história sem serem registradas).

A partir do século XVIII e início do XIX, com a industrialização, a vulgarização do ensino básico e a modernização do ensino superior na Europa, ocorre um rápido avanço no desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Nas ciências teóricas surgem a moderna teoria atômica (1808); as geometrias não euclidianas (1830-1832); lei da termodinâmica (1850); teoria da evolução das espécies (1859); teoria microbiana das doenças (1880); teoria da hereditariedade (1865); teoria da unificação de Maxwell (1865); a moderna psicologia (1879), entre as mais importantes. Baseados nas teorias científicas, atendendo demandas práticas, os inventos se sucedem: motor a vapor (1777); telégrafo (1837); motor elétrico (1837); fotografia (1839); fertilizantes químicos (1842); concreto armado (1849); produção em massa de aço (1856); dinamite (1867); telefone (1876); motor a explosão (1876); lâmpada incandescente (1879); foram algumas das novas tecnologias criadas nesse período.

O desenvolvimento teórico-tecnológico do século XIX foi o maior até então registrado pela história. O avanço foi tal que alguns cientistas acreditavam não restarem novos descobrimentos a serem feitos na física. “Não há mais nada para descobrir na física. Tudo o que resta é fazer medições cada vez mais precisas”, segundo frase atribuída ao físico Lorde Kelvin (1824-1907). Esta forma de compreender a ciência, especialmente a física, como se esta tivesse as respostas finais para todos os fenômenos físicos do universo, deu origem ao cientificismo e ao positivismo; ideologias que sustentam que as ciências naturais são a única maneira de se obter conhecimento válido sobre o mundo, que seria absoluto ou infalível.  

O universo, felizmente, é mais complexo do que imaginavam os cientistas do final do século XIX. Basta lembrar as duas teorias científicas que revolucionaram e se tornaram a base de toda a física moderna – a teoria da relatividade (1905 e 1915) e a mecânica quântica (1900-1925). Em outras áreas científicas os avanços também ultrapassaram o que se considerava como definitivo e o que se conhecia até o século XIX, por exemplo, a teoria da deriva continental (1915), a teoria do Big Bang (1920) e a estrutura do DNA (1953). O imenso avanço tecnológico no século XX e início do XXI – informática, internet, celulares, TV, antibióticos, ansiolíticos, insulina, energia nuclear, viagens espaciais, moderna medicina hospitalar, etc. – ocorreu, em grande parte, baseado em novas teorias científicas desenvolvidas no início do século XX.

Ao longo do século XX pensadores como Bachelard, Canguilhem, Morin, Feyerabend, Kuhn, Popper, Japiassu, entre outros, desenvolveram análises críticas sobre a atividade científica. Esta não é um processo de “encontrar a verdade”, mas a tentativa de desenvolver teorias que cada vez melhor expliquem um fenômeno. Cada nova descoberta sobre o fenômeno, se não prevista ou explicada pela teoria científica, cria a necessidade de refutá-la ou reformulá-la. Desta forma, a ciência não tem teorias definitivas, finais. A teoria da gravitação universal de Newton continua válida para aplicações físicas comuns, mas, como demonstrou a teoria da relatividade de Einstein, não se aplica às necessidades da astronomia e cosmologia, envolvendo velocidades próximas à da luz.  

As explicações da ciência sobre o universo, as teorias científicas, são, por assim dizer, tentativas de explicar certo fenômeno. No entanto, esta visão proporcionada pela ciência não é uma “fotografia”, mesmo que temporária, do universo. Ela é a explicação condicionada pelas limitações técnicas (instrumentos), culturais (informações, teorias preexistentes, condicionamentos históricos) de uma determinada espécie (homo sapiens) a analisar o fenômeno. Trata-se, portanto, de uma visão parcial e limitada, mas que aplicada à realidade explica o fenômeno por hora. Em algum tempo, com novas descobertas, será necessário reformular o pressuposto – como tem acontecido ao longo da história da ciência nos últimos 500 anos.

A ciência, de certa maneira, tem um olhar cético sobre suas teorias; sempre há de se encontrar situações nas quais a teoria possa (e precise) ser falseada/refutada. Assim, a ciência tem começo, mas não tem fim, é um processo. Como escreveu o filósofo cético Sexto Empírico (160-210 EC): "Não afirmamos nada com certeza absoluta; apenas relatamos como cada coisa nos aparece no momento." 

 

Ricardo E. Rose, 23/09/26 

 

 

(Imagens: pinturas de Gustave Caillebotte, 1848-1894)

Ladislau Dowbor e o capitalismo tardio

sexta-feira, 25 de setembro de 2026


Veja entrevista do economista, professor e consultor internacional Ladislau Dowbor (1941-). Professor na pós-graduação da PUC/SP, é autor de importantes obras sobre a economia brasileira e mundial, como A Formação do Capitalismo Dependente no Brasil; A Formação do Terceiro Mundo; O que é Capital?; A Era do Capital Improdutivo – A nova arquitetura do poder, sob dominação financeira, sequestro da democracia e destruição do planeta; entre outros.

No vídeo abaixo, do canal da revista Carta Capital, gravado em 23/09/26, Dowbor fala da economia brasileira e mundial, da financeirização, da economia chinesa, entre outros temas:

https://www.youtube.com/watch?v=olNWFEB_2Jw&t=2178s

Outras leituras

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 

“É possível elevar muito os preços e extrair mais lucros quando há pouca concorrência. (Warren) Buffett tinha lá sua razão. O estudo de Grullon descobriu que a estratégia de comprar os setores de maior concentração e vender empresas em setores menos concentrados garantia retornos superiores à média do mercado. Nenhum estudo é perfeito, mas a mensagem central é inconfundível: a competição decresceu muito nos Estados Unidos. Recentemente, John Kwoka, um dos nomes mais respeitados nas áreas de economia industrial, regulamentos antitruste e regulações, apresentou uma conclusão sombria baseada em todas as pesquisas disponíveis: a ‘totalidade desse corpus de trabalhos fornece um retrato abrangente do aumento de concentração nos grandes segmentos da economia do país durante os últimos vinte anos’. 

Dezenas de estudos têm mostrado que os resultados de maior concentração industrial são lucros maiores para as corporações, preços mais altos para os consumidores, redução da criação de startups, menor produtividade, salários mais baixos e aumento da desigualdade. Ainda assim, os CEOs continuam devorando outras empresas. Na superfície, nossos problemas atuais podem parecer um simples caso de CEOs gananciosos e investidores desprovidos de ética que se uniram para arruinar a economia em benefício próprio, no entanto há algo mais profundo acontecendo. Edward Queen, diretor do Programa Turner de Ética e Liderança Laboral da Universidade Emory, descobriu que , quando confrontados com um dilema ético, de 20 a 30 % dos estudantes de administração são incapazes de identificar o problema. Na visão de Queen, ‘no mundo todo, uma parcela muito ampla da liderança corporativa está nas mãos de pessoas com poucos escrúpulos morais e de formação muito superior à sua capacidade de julgamento’. Queen argumenta que, nas últimas seis décadas, os discípulos do prêmio Nobel de Economia Milton Friedman vêm enfatizando que o único dever de uma corporação é gerar lucros e retornos para os investidores. E essas lições, inculcadas em diversas gerações de alunos das faculdades de administração, estão sendo aplicadas em grande escala.” 

 

“O arrocho salarial é ainda maior nas pequenas cidades, onde os pequenos mercados de trabalho precisam competir com as corporações. Os monopsônios (um só comprador/contratante da força de trabalho) deixam os trabalhadores com pouca escolha e pouco poder. A Amazon é uma das principais empregadoras do estado de Ohio, e 10 % dos trabalhadores da empresa precisam de auxílio governamental para comprar alimentos. Walmart e McDonald’s também figuram entre os principais culpados: mais de 10 mil funcionários de cada um também são dependentes desse auxílio, segundo o mesmo estudo feito pelo Policy Matters Ohio. O crescente desequilíbrio de poder das corporações que são compradoras únicas explica por que os tão prejudiciais contratos de não concorrência se tornaram mais comuns, e também por que os salários andam tão perigosamente baixos, por que os trabalhadores aceitam a imposição da arbitragem em caso de desavença com os empregadores e abdicam do seu direito a ações judiciais coletivas. 

Deixados à própria sorte, eles não têm condições de negociar com monopolistas ou oligopolistas. A fraqueza dos trabalhadores em relação a seus empregadores (empresas grandes de setores com alta concentração) fica ainda mais evidente com o crescimento do trabalho temporário. Os números são esmagadores: 40 % dos trabalhadores estadunidenses podem ser enquadrados na categoria que chamamos de precarizados. Um trabalho é considerado precarizado se qualquer uma das seguintes características se aplica a ele:

• O empregado não recebe quando não pode ir trabalhar.

• O empregado não tem vínculo empregatício padrão.

• Sua renda semanal e horas de trabalho são instáveis.

• O empregado trabalha por demanda ou não tem acesso prévio à sua grade horária.

• O empregado é pago em dinheiro vivo.

• O emprego é temporário.

• O empregado não tem direito a nenhum benefício.

• O empregado tem pouca voz ou pouco poder de negociação no trabalho. Empregos estáveis e de turno integral com direito a benefícios estão se tornando uma relíquia histórica. Isso pode ser atribuído a diversos fatores interligados, como a globalização, a migração da produção para o exterior e a ascensão da ‘gig economy’, ou ‘economia de bicos’, dentre outros. Mas a compreensão desses fatores não altera o fato de que o número de trabalhadores temporários nos Estados Unidos se encontra em seu ápice histórico.”

 

“Em parte, devemos agradecer a Walt Disney pelo estado lamentável das leis de patente dos Estados Unidos. Embora Mickey Mouse já tenha quase nove décadas e devesse ter caído em domínio público há muitos anos, sempre que os direitos sobre Mickey estão prestes a vencer a Disney gasta milhões com lobby no Congresso para ampliá-los. Ao longo dos anos, a vida útil dos direitos autorais foi se tornando cada vez maior. O último julgamento ocorreu em 1998, quando o Congresso apoiou a Lei de Extensão de Vigência dos Direitos Autorais, aumentando a propriedade de 75 para 95 anos. A lei ficou conhecida como Lei de Proteção ao Mickey Mouse. A ironia suprema é que, enquanto a Disney ganha ampliações perpétuas da legislação de direitos autorais, mais de cinquenta de seus próprios filmes vêm de contos e histórias em domínio público: Alice no País das Maravilhas, Aladim, Frozen e O Rei Leão. Se Hans Christian Andersen pudesse fazer lobby no Congresso, ele também teria ganhado extensões infinitas sobre seus direitos. 

As extensões intermináveis de patentes e direitos autorais impõem um fardo à sociedade. Nas palavras de Brink Lindsey e Steven M. Teles, que escreveram muito a respeito dos efeitos da lei de direitos autorais, ‘o atual estado da lei de propriedade intelectual pode ser ruim para o crescimento da economia como um todo, mas é muito eficiente em canalizar riqueza para uns poucos favorecidos’. Eles apontam que, ‘nos setores farmacêutico, de softwares e de entretenimento, o poder de monopólio criado pelas proteções de patentes e direitos autorais estimula a concentração e infla os lucros corporativos. Como resultado, a renda e a riqueza ficam ainda mais concentradas no topo do que ocorreria em outro cenário’. É impossível exagerar o custo imposto à sociedade pelo abuso de patentes e direitos autorais. Os Estados Unidos gastam mais de 3 trilhões de dólares por ano com saúde, e 10 % desse montante é despendido com remédios. O estadunidense médio lidera os gastos internacionais em medicamentos, com mais de mil dólares por ano — valor 40 % maior que o do segundo lugar na lista, o Canadá, e o dobro do índice alemão.” 

 

Jonathan Tepper e Denise Hearn em O Mito do Capitalismo: Monopólios e o Fim da Concorrência, 2024

Carl Sagan

quarta-feira, 23 de setembro de 2026


Carl Sagan (1934-1996) foi um cientista planetário, astrônomo, astrobiólogo, astrofísico e escritor de ciência estadunidense. 

Grande divulgador do pensamento científico, Carl Sagan publicou vários livros de divulgação científica e é o autor do livro e da famosa série "Cosmos".

Em sua última entrevista para o programa do jornalista Charlie Rose, Sagan fala sobre ciência, crenças religiosas e sobre a relação entre as duas.

Veja a entrevista (legendada) no canal Abra seus Olhos, Abra sua Mente no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=QvBK-_eHAK8

Música de vanguarda

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 


George Rochberg



https://www.youtube.com/watch?v=zsH7YC9H_tg

George Rochberg (1918 – 2005) foi um compositor estadunidense de música clássica contemporânea.

Depois de um longo período de composição usando a técnica do serialismo, Rochberg finalmente abandonou após a morte de seu filho adolescente em 1964, dizendo que o serialismo estava vazio de expressão emotiva e era inadequado para expressar seu pesar e sua raiva.  Nos anos 70, ele tornou-se controverso pelo uso de passagens tonais em suas músicas. Seu uso da tonalidade tornou-se amplamente conhecido através do String Quartet No. 3 (1972) (Quarteto de Cordas No. 3), que inclui um conjunto inteiro de variações que são no estilo de Beethoven. 

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

Leituras diárias

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 

“O ‘Absurdo’ não é o próprio universo, nem o desejo humano por significado. Em vez disso, como articulou o filósofo franco-argelino Albert Camus em meados do século XX, o Absurdo é a colisão inevitável entre essas duas forças: o grito desesperado do ser humano por significado e o silêncio irracional do mundo.” 

“O ‘Absurdista’ caminha por uma linha tênue e poderosa entre a apatia e o utopismo. O ‘Utópico’ acredita que, se votarmos na pessoa certa ou aprovarmos as leis certas, podemos corrigir permanentemente a natureza humana e construir uma sociedade perfeita. Quando isso inevitavelmente falha, o Utópico é esmagado pelo desespero.

O ‘Niilista’ acredita que o mundo está condenado, nada pode ser consertado e, portanto, o ativismo ou o engajamento político são uma perda de tempo. Ele se refugiam em um isolamento apático.

O ‘Rebelde Absurdo’ rejeita ambos. O Rebelde sabe que a humanidade é inerentemente falha, o universo é caótico e uma utopia perfeita é matematicamente impossível. Sempre haverá sofrimento, ganância e tragédia. A pedra do progresso humano sempre rolará de volta ladeira abaixo. Mas o Rebelde a empurra mesmo assim.

Ele não luta contra as mudanças climáticas porque acredita que salvará o planeta perfeitamente para a eternidade. O sol eventualmente engolirá a Terra de qualquer maneira. Ele luta pelo meio ambiente porque ama as árvores que estão aqui agora e quer que seus semelhantes respirem ar puro agora. Ele não se envolve na política porque acha que pode construir o paraíso na Terra. Se envolve porque quer diminuir o sofrimento de seus vizinhos hoje. O Absurdista age localmente e com ferocidade. Luta contra a peste (como o Dr. Rieux fez no romance de Camus) não para derrotar a morte permanentemente, mas simplesmente para roubar alguns dias a mais de saúde para as pessoas ao seu redor.

Como seu ativismo não está ligado à ilusão da vitória final, mas também não se desesperara com a derrota final. Luta com a alegria rancorosa de alguém que sabe que o jogo é manipulado, mas se recusa a entregar a partida.”

 

Miguel S. Albert, filósofo e autor em Understanding Absurdism: a Modern Guide (Entendendo o Absurdismo: Um Guia Moderno)

Peter Schjeldahl

domingo, 20 de setembro de 2026

 

“Câncer de pulmão, desenfreado. Nenhuma surpresa. Fumo desde os 16 anos, quando ia atrás das arquibancadas do campo de futebol americano do colégio, em Northfield, Minnesota. Me constrangia a ideia de morrer jovem e pensar que as pessoas comentariam com ar de sabedoria: ‘Ele fumava, sabia?’ Mas, aos 77 anos, estou na fase em que a morte já não é uma surpresa.”   

“Estranhamente, ou não, penso menos sobre a morte do que costumava fazer antes. Pensei estar me enganando em minhas reflexões sobre o assunto enquanto minha vida se estendia à minha frente rumo a um horizonte invisível. Mas não. O pensar abriu caminhos pelos quais hoje trilho. Eles envolvem aceitação. Por que eu? Por que não eu? Na verdade, eu. É a minha vez de observar a vida da margem distante da morte, que se aproxima cada vez mais.” 

 “A vida não continua. Não vai a lugar algum, além de ir embora. A morte continua. Seguir em frente é o que a morte faz para viver. O segredo para sobreviver no universo é estar morto.”

“Levem a morte para dar uma volta em suas mentes, pessoal. Ou vocês ficarão felizes por terem feito isso, ou, se caírem duros de repente, não terão perdido nada.”

 

Peter Schjeldahl (1942-2022), poeta, escritor, crítico de arte e professor estadunidense em A Arte de Morrer (2026), citado no blog Raul e a Literatura