“A solidariedade é algo muito
perigoso. Do ponto de vista dos senhores da humanidade, você só deve cuidar de
si mesmo e não dos outros. É uma visão muito diferente daquela das pessoas que
eles alegam considerar seus heróis, como (o filósofo e economista pioneiro do
liberalismo econômico) Adam Smith, que baseou todo o seu enfoque à economia no
princípio de que a simpatia é um traço fundamental da personalidade humana, mas,
para os nossos senhores, isso tem que ser extirpado de nossas cabeças. Você tem
que se preocupar apenas consigo mesmo e seguir a máxima vil — ‘não se importar
com os outros’ —, atitude normal para os ricos e poderosos, mas devastadora para
todo o restante da humanidade. Tem sido necessário muito esforço para apagar
esse tipo de sentimento da cabeça das pessoas.
Vemos isso na elaboração de políticas
públicas — por exemplo, no ataque contra a Previdência Social. Tem-se falado
muito na crise da Previdência Social, mas ela simplesmente não existe. A
Previdência está em muito boa situação — tão boa quanto sempre esteve. O
sistema de Previdência Social é uma instituição muito eficiente e não tem custo
administrativo quase nenhum. E, embora exista a possibilidade de uma crise
daqui a algumas décadas, dispomos de uma maneira fácil de vencê-la. No entanto,
debates em torno de políticas públicas se concentram nela sobretudo porque os
senhores não querem que exista — eles sempre a odiaram, pois ela beneficia o
povo de uma forma geral. Contudo, existe outro motivo que os faz odiá-la. A
Previdência Social se baseia em um princípio. É baseada no princípio de
solidariedade.
Solidariedade: interesse e cuidado
para com os outros. Previdência Social significa o seguinte: ‘Eu pago encargos
sociais para que a viúva do outro lado da cidade tenha algo com que possa
sobreviver.’ No que se refere à maior parte da população, é assim que funciona.
Como a Previdência não tem nenhuma utilidade para os muito ricos, existe então
um plano sistemático para destruí-la. Uma das possíveis formas para se fazer
isso é cortar verbas destinadas a ela. Ora, você quer destruir um sistema? A
primeira coisa a fazer é cortar suas verbas. Feito isso, não funcionará mais.
As pessoas ficarão revoltadas e depois vão querer outra coisa que a substitua.
É uma técnica padrão, a que se costuma recorrer para se conseguir a
privatização de um determinado sistema.” (Chomsky, págs. 75 e 76).
“E isso acontece bem diante de nossos
olhos. Vejam, por exemplo, os Estados Unidos — aqui, martelam na cabeça da
maior parte da população o princípio de que ela tem de ‘deixar o mercado
comandar os rumos da economia’. Portanto, que as autoridades tratem de cortar o
número de benefícios sociais, de reduzir a previdência social ou acabar com ela
de uma vez, de diminuir ainda mais o limitado serviço de saúde pública, enfim,
deixem o livre mercado comandar tudo. Mas não para os ricos. Para estes, o
Estado deve ser uma entidade poderosa, sempre pronta para intervir e resgatá-los
sempre que se meterem em apuros financeiros.
Tomemos o exemplo de Reagan, um ícone
do neoliberalismo, do livre mercado entre outras coisas. Ele foi o presidente
mais protecionista na história do pós-guerra americano, tendo dobrado as
barreiras de importação, na tentativa de proteger os incompetentes dirigentes
americanos da superioridade dos produtos japoneses. Assim, mais uma vez, ele
socorreu bancos, em vez de deixá-los arcar com seus custos. Na verdade a
economia americana cresceu durante o governo Reagan, tornando-se um ícone do
neoliberalismo. Devo acrescentar que seu programa ‘Guerra nas Estrelas’ foi
abertamente propagandeado no mundo dos negócios como um incentivo do governo,
como uma espécie de profícua vaca-leiteira em cujas tetas eles podiam mamar.
Mas isso era apenas para os ricos. Já no caso dos pobres, que deixassem que os
princípios do livre mercado conduzissem os rumos da economia e que não
esperassem nenhum auxílio do governo.” (Chomsky, págs. 99 e 100).
Noam Chomsky (1926-), linguista, filósofo, sociólogo,
cientista cognitivo e ativista político estadunidense em Réquiem para o sonho americano: Os dez princípios de concentração de
renda e poder