“É possível elevar muito os preços e extrair mais lucros quando há pouca concorrência. (Warren) Buffett tinha lá sua razão. O estudo de Grullon descobriu que a estratégia de comprar os setores de maior concentração e vender empresas em setores menos concentrados garantia retornos superiores à média do mercado. Nenhum estudo é perfeito, mas a mensagem central é inconfundível: a competição decresceu muito nos Estados Unidos. Recentemente, John Kwoka, um dos nomes mais respeitados nas áreas de economia industrial, regulamentos antitruste e regulações, apresentou uma conclusão sombria baseada em todas as pesquisas disponíveis: a ‘totalidade desse corpus de trabalhos fornece um retrato abrangente do aumento de concentração nos grandes segmentos da economia do país durante os últimos vinte anos’.
Dezenas de estudos têm mostrado que os resultados de maior concentração industrial são lucros maiores para as corporações, preços mais altos para os consumidores, redução da criação de startups, menor produtividade, salários mais baixos e aumento da desigualdade. Ainda assim, os CEOs continuam devorando outras empresas. Na superfície, nossos problemas atuais podem parecer um simples caso de CEOs gananciosos e investidores desprovidos de ética que se uniram para arruinar a economia em benefício próprio, no entanto há algo mais profundo acontecendo. Edward Queen, diretor do Programa Turner de Ética e Liderança Laboral da Universidade Emory, descobriu que , quando confrontados com um dilema ético, de 20 a 30 % dos estudantes de administração são incapazes de identificar o problema. Na visão de Queen, ‘no mundo todo, uma parcela muito ampla da liderança corporativa está nas mãos de pessoas com poucos escrúpulos morais e de formação muito superior à sua capacidade de julgamento’. Queen argumenta que, nas últimas seis décadas, os discípulos do prêmio Nobel de Economia Milton Friedman vêm enfatizando que o único dever de uma corporação é gerar lucros e retornos para os investidores. E essas lições, inculcadas em diversas gerações de alunos das faculdades de administração, estão sendo aplicadas em grande escala.”
“O arrocho salarial é ainda maior nas pequenas cidades, onde os pequenos mercados de trabalho precisam competir com as corporações. Os monopsônios (um só comprador/contratante da força de trabalho) deixam os trabalhadores com pouca escolha e pouco poder. A Amazon é uma das principais empregadoras do estado de Ohio, e 10 % dos trabalhadores da empresa precisam de auxílio governamental para comprar alimentos. Walmart e McDonald’s também figuram entre os principais culpados: mais de 10 mil funcionários de cada um também são dependentes desse auxílio, segundo o mesmo estudo feito pelo Policy Matters Ohio. O crescente desequilíbrio de poder das corporações que são compradoras únicas explica por que os tão prejudiciais contratos de não concorrência se tornaram mais comuns, e também por que os salários andam tão perigosamente baixos, por que os trabalhadores aceitam a imposição da arbitragem em caso de desavença com os empregadores e abdicam do seu direito a ações judiciais coletivas.
Deixados à própria sorte, eles não têm condições de negociar com
monopolistas ou oligopolistas. A fraqueza dos trabalhadores em relação a seus
empregadores (empresas grandes de setores com alta concentração) fica ainda
mais evidente com o crescimento do trabalho temporário. Os números são
esmagadores: 40 % dos trabalhadores estadunidenses podem ser enquadrados na categoria
que chamamos de precarizados. Um
trabalho é considerado precarizado se qualquer uma das seguintes características
se aplica a ele:
• O empregado não recebe quando não
pode ir trabalhar.
• O empregado não tem vínculo empregatício
padrão.
• Sua renda semanal e horas de
trabalho são instáveis.
• O empregado trabalha por demanda ou
não tem acesso prévio à sua grade horária.
• O empregado é pago em dinheiro vivo.
• O emprego é temporário.
• O empregado não tem direito a
nenhum benefício.
• O empregado tem pouca voz ou pouco poder de negociação no trabalho. Empregos estáveis e de turno integral com direito a benefícios estão se tornando uma relíquia histórica. Isso pode ser atribuído a diversos fatores interligados, como a globalização, a migração da produção para o exterior e a ascensão da ‘gig economy’, ou ‘economia de bicos’, dentre outros. Mas a compreensão desses fatores não altera o fato de que o número de trabalhadores temporários nos Estados Unidos se encontra em seu ápice histórico.”
“Em parte, devemos agradecer a Walt Disney pelo estado lamentável das leis de patente dos Estados Unidos. Embora Mickey Mouse já tenha quase nove décadas e devesse ter caído em domínio público há muitos anos, sempre que os direitos sobre Mickey estão prestes a vencer a Disney gasta milhões com lobby no Congresso para ampliá-los. Ao longo dos anos, a vida útil dos direitos autorais foi se tornando cada vez maior. O último julgamento ocorreu em 1998, quando o Congresso apoiou a Lei de Extensão de Vigência dos Direitos Autorais, aumentando a propriedade de 75 para 95 anos. A lei ficou conhecida como Lei de Proteção ao Mickey Mouse. A ironia suprema é que, enquanto a Disney ganha ampliações perpétuas da legislação de direitos autorais, mais de cinquenta de seus próprios filmes vêm de contos e histórias em domínio público: Alice no País das Maravilhas, Aladim, Frozen e O Rei Leão. Se Hans Christian Andersen pudesse fazer lobby no Congresso, ele também teria ganhado extensões infinitas sobre seus direitos.
As extensões intermináveis de patentes e direitos autorais impõem um fardo à sociedade. Nas palavras de Brink Lindsey e Steven M. Teles, que escreveram muito a respeito dos efeitos da lei de direitos autorais, ‘o atual estado da lei de propriedade intelectual pode ser ruim para o crescimento da economia como um todo, mas é muito eficiente em canalizar riqueza para uns poucos favorecidos’. Eles apontam que, ‘nos setores farmacêutico, de softwares e de entretenimento, o poder de monopólio criado pelas proteções de patentes e direitos autorais estimula a concentração e infla os lucros corporativos. Como resultado, a renda e a riqueza ficam ainda mais concentradas no topo do que ocorreria em outro cenário’. É impossível exagerar o custo imposto à sociedade pelo abuso de patentes e direitos autorais. Os Estados Unidos gastam mais de 3 trilhões de dólares por ano com saúde, e 10 % desse montante é despendido com remédios. O estadunidense médio lidera os gastos internacionais em medicamentos, com mais de mil dólares por ano — valor 40 % maior que o do segundo lugar na lista, o Canadá, e o dobro do índice alemão.”
Jonathan Tepper e Denise Hearn em O Mito do Capitalismo: Monopólios e o Fim da Concorrência

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