“Dominados
pelo terror do desconhecido, bem como pela sensação de impotência na busca por
causas, os homens criaram no passado uma ou mais divindades providenciais em
seu intenso desejo, que representavam para eles, alternadamente, um ideal mais
ou menos informe e o fulcro, o eixo de todo este mundo misterioso, visível e
invisível, que os cerca. Tais fantasmas da imaginação, revestidos de
onipotência, tornaram-se aos olhos dos homens o princípio de toda justiça e
autoridade; senhores dos céus, consequentemente tinham intérpretes na terra,
magos, conselheiros, capitães, diante dos quais os homens se prostravam como se
esses seres fossem verdadeiramente emanações do alto.
Isso
era lógico; mas o homem sobrevive às suas obras, e esses deuses que ele criou não
cessaram de se transformar continuamente, como sombras projetadas no infinito.
Visíveis a princípio, impulsionados por paixões humanas, violentas e terríveis,
eles recuaram pouco a pouco para a imensidão da distância. Os deuses acabaram
se tornando abstrações, ideias sublimes que não podem ser nomeadas, até que
gradualmente passaram a ser confundidos com as próprias leis naturais do mundo e
assim retornaram ao universo material, que, segundo a lenda, haviam criado do
nada. Assim, o homem hoje se encontra sozinho na Terra, sobre a qual já havia
erguido a imagem colossal de um Deus.”
“A
crítica desrespeitosa a que o Estado é submetido é exercida igualmente contra
todas as instituições sociais. O povo não acredita, de modo algum, na origem
pura da propriedade privada, produzida, como diziam os economistas (agora não
se atrevem a repetir), unicamente pelo trabalho pessoal dos proprietários Sabe
muito bem que o trabalho individual jamais criou milhões e milhões, e que os
enriquecimentos monstruosos de nossos dias são todos consequência da falsa ordem
social, que confere a uma pessoa o direito de se apropriar do produto do
trabalho de mil outras. Esse povo respeitará o pão que o trabalhador ganhou com
o seu esforço, a cabana que construiu com as próprias mãos, a horta que
cultiva, mas certamente perderá todo o respeito pelas mil propriedades
fictícias representadas pelos papéis de todos os tipos depositados nos bancos.”
Élisée Reclus (1830-1905), geógrafo, pensador, escritor e militante anarquista francês em La Anarquia (A Anarquia)






























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