“Darwin mostrou, através da seleção natural, que havia outra maneira que não a existência de um Fabricante de Relógios, uma maneira pela qual era possível uma enorme ordem surgir de um mundo natural mais desordenado sem a interferência de nenhum Fabricante de Relógios com inicial maiúscula. Era a seleção natural.”
“Em terceiro lugar, há a ideia dos muito mundos, ou muitos universos. E era isso que eu tinha em mente quando a princípio falei de história. Quer dizer, se a cada microinstante de tempo o universo se divide em universos alternativo, em que as coisas acontecem de modo diferente, e se existe no mesmo momento uma série imensamente grande, talvez infinitamente grande de outros universos com outras leis da natureza e outras constantes, então nossa existência não é tão impressionante assim. Existem todos estes outros universos em que não há vida. Só calhamos, por acidente, de estar em um que tenha. É um pouco como uma mão vencedora no bridge. A chance de, digamos, receber doze cartas de espadas é uma probabilidade absurdamente pequena. Mas é tão provável como receber qualquer outra combinação de cartas, portanto, se jogarmos tempo suficiente, algum universo terá que ter nossas leis naturais.”
“Assim,
conforme a ciência avança, parece haver cada vez menos coisas para Deus fazer.
É um universo enorme, é claro, portanto Ele, ou Ela, poderia ter utilidade em
muitos lugares. Mas o que claramente vem acontecendo é que está evoluindo
diante de nós um Deus das Lacunas; isto , o que não conseguimos explicar é
atribuído a Deus. Depois de um tempo, achamos a explicação, e a coisa deixa de
fazer parte do domínio divino. Os teólogos abrem mão dela, que, na divisão de
tarefas, passa para o lado da ciência.
Já vimos
isso acontecer muitas vezes. Então o que aconteceu foi que Deus mudou – se existe
mesmo um Deus do tipo ocidental, estou, é claro, falando apenas metaforicamente
–, Deus evoluiu para o que os franceses chamam de um roi fainéant – um rei que não faz nada –, que cria o universo,
estabelece as leis da natureza e aí se aposenta, indo para algum outro lugar.
Isso não está muito distante da ideia aristotélica do primeiro motor imóvel,
exceto pelo fato de que Aristóteles tinha dúzias de primeiros motores imóveis,
e ele achava que se tratava de um argumento a favor do politeísmo, o que hoje é
frequentemente negligenciado.”
Carl Sagan (1934-1996), astrônomo, cientista
planetário e divulgador científico em Variedades
da Experiência Científica – Uma visão pessoal da busca por Deus






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