Minha opinião

sábado, 22 de agosto de 2026

 

"A economia vai bem, mas o povo vai mal". 

General Emílio Garrastazú Médici (1905-1985), presidente do Brasil durante o período da ditadura civil-militar

 

Tomando por base a propagando do governo, a situação econômica do povo melhorou nos últimos anos, com o controle da inflação e a criação de empregos, reduzindo a taxa de desocupação para 5,4% no segundo trimestre de 2026, o patamar mais baixo da série histórica do IBGE. Quanto à alta taxa dos juros, bastante criticada quando praticada pela administração anterior, pouco se fala no governo. 

Todavia, a crise no setor varejista brasileiro reflete aspecto diferente daquela situação econômica do povo brasileiro, apresentada pelo governo. Durante o primeiro semestre de 2026, segundo o jornal eletrônico Times Brasil, 986 empresas do setor varejista se encontravam em recuperação judicial. Companhias como Marabraz, Americanas, Grupo Pão de Açúcar, Casa & Vídeo e Tok&Stok, estão nesse grupo, ao qual também se juntou a Casas Bahia em agosto último.  

Não é surpresa que isto ocorra em uma economia na qual o salário mínimo é de R$ 1.621,00 – quando segundo o DIEESE deveria ser de R$ 7.999,44 –, e a maior parte da população não dispõe de recursos para o consumo além do estritamente necessário, chegando a se endividar para poder se alimentar. Segundo dados de julho de 2026, 82% dos brasileiros têm algum tipo de dívida; 30% possuem contas em atraso e 12% declararam que não terão condições de pagar suas dívidas. Como consequência, até o setor supermercadista tem registrado retração nas vendas em meses recentes.

Em junho de 2026, o salário médio das novas vagas de trabalho foi de R$ 2.404,34 e neste período apenas 5% a 8% dos trabalhadores brasileiros ganhavam mais de R$ 7.000,00. Segundo dados do IBGE (dados de 2025) o perfil do rendimento dos brasileiros é o seguinte:

- 1% da população, cerca de 2,1 milhões de pessoas, tem renda até R$ 24,9 mil;

- 4% da população, cerca de 10,6 milhões, têm renda até R$ 9.648,00;

- 10%, cerca de 21,2 milhões, têm renda até R$ 3.590.00; e

- 50% dos brasileiros, 106,1 milhões, têm renda de R$ 1.311,00. 

Os baixos salários estão relacionados a diversos fatores, apontam os especialistas. Uma sucessão de crises econômicas desde os anos 1980; altos impostos (a carga tributária cresceu de 25% do PIB nos anos 1990 para 32,4% em 2025); baixa produtividade da economia associada à insuficiente capacitação da mão de obra e falta de investimentos em tecnologias e infraestrutura, têm sido considerados impedimentos no crescimento da economia e dos salários.

O Brasil que entre o final dos anos 1970 e início dos 1980 chegou a ser a oitava nação mais industrializada do planeta, foi gradualmente perdendo esta posição. Descontrolada abertura do mercado para produtos estrangeiros, valorização da moeda nacional, juros altos, cortes de investimentos do Estado na infraestrutura e privatizações – principais itens da receita do “Consenso de Washington”, adotado para a economia a partir dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso – foram fatores decisivos para o processo de desindustrialização do país. Nos anos 1980 a indústria participava com 23% no PIB, enquanto que em 2025 este percentual caiu para 10,8%. Assim, ao longo dos últimos quarenta anos o setor industrial perde importância, enquanto o setor financeiro, o agronegócio e o setor de serviços apresentaram crescimento acelerado.

A mudança do perfil da atividade econômica não foi vantajosa para os trabalhadores, já que o agronegócio e o setor de serviços não pagam os mesmos salários que a indústria. O setor financeiro, incluído nos serviços, só tem dispensado trabalhadores desde os anos 1990, com a informatização do sistema bancário. No processo, os profissionais que perderam seus empregos na indústria foram em parte absorvidos pelo setor de serviços (que emprega 63% da força de trabalho do país), recebendo salários comparativamente mais baixos. Neste decurso houve um achatamento geral da remuneração dos trabalhadores em toda a economia, já que excessiva oferta de mão de obra reduz o valor médio dos salários pagos pelos empregadores.

Recomeça assim o círculo vicioso: quem ganha pouco consome menos, reduzindo a demanda e inibindo investimentos produtivos. O empresário não faz novos investimentos quando seu mercado não demonstra potencial crescimento da demanda. É mais provável que aplique seus recursos no mercado financeiro, onde a alta taxa dos juros remunera mais seu capital. Não investindo em novas unidades fabris ou comerciais, o empreendedor deixa de criar novos empregos, o que mantêm o nível dos salários baixos ou aumenta o desemprego.

Essa situação na qual se encontra o trabalhador brasileiro pode explicar porque quase 25% da população têm pouco ou nenhum interesse nas próximas eleições. Há uma impressão, baseada em experiências passadas, de que pouca coisa deve mudar no aspecto econômico da vida das pessoas, qualquer que seja o candidato que vencer, como já vem acontecendo há algum tempo. As propagandas dos partidos e dos políticos prometendo melhorias, novos projetos, tentando transmitir uma expectativa otimista, a muitos já não entusiasmam mais.

Enquanto governos continuarem priorizando setores como o financeiro, o agronegócio, a exploração mineral e grandes empreendedores, sem iniciarem projetos de desenvolvimento com a melhoria do padrão de vida, a maior parte da população vai continuar sem perspectivas quanto ao seu futuro.

O número daqueles que começam a perceber isso só tende a aumentar.


 

Ricardo E. Rose, 21/08/26

 

(Imagens: desenhos de Käthe Kollwitz, 1867-1945)

Robert Anton Wilson

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

“Nem todos vivemos no mesmo universo. Milhões vivem em um universo muçulmano e têm muita dificuldade em compreender pessoas que vivem em um universo cristão. Milhões de outros vivem em um universo marxista. A maioria dos americanos parece bastante feliz em um universo misto, capitalista do século XIX e cristão do século XIII, mas a intelectualidade literária vive em um universo freudiano/marxista do início do século XX, e alguns cientistas bem informados evidentemente vivem em um universo de 1997 (o texto foi escrito em 1997). A elaboração de tais realidades êmicas ou túneis da realidade pode atingir extremos de criatividade, nos quais uma pessoa ‘inventa’ uma interpretação totalmente nova e individualizada de toda a existência. Tais grandes criadores ou ganharão prêmios Nobel (de arte ou ciência) ou serão internados em ‘hospitais psiquiátricos’, dependendo de sua habilidade em vender sua nova visão aos outros.

Alguns chegam a ser internados em hospícios e, mais tarde, são reconhecidos como grandes pioneiros da ciência — por exemplo, Semmelweis, o primeiro médico a sugerir que os cirurgiões lavassem as mãos antes de operar. Ezra Pound (escritor) teve a peculiar distinção de ganhar um prêmio da Biblioteca do Congresso por escrever o melhor poema do ano, em 1948, enquanto psiquiatras do governo insistiam que ele ‘era’ louco.”

 

Robert Anton Wilson (1932-2007), escritor, psicólogo, filósofo e futurista anarquista em Quantum Psychology: How Brain Software Programs You and Your World (Psicologia Quântica: Como o Software do Cérebro Programa Você e o Seu Mundo, 1990)

Paulo Werneck (1907-1987)

Conheça mais sobre a vida e obra do artista no site abaixo:

Essa não poderia faltar

quinta-feira, 20 de agosto de 2026


 Spirogyra

The Furthest Point (1973)

https://www.youtube.com/watch?v=XqLp2X0pBKM

Como sempre, trabalhando pelo país!

(Fonte: Charge Online/Pelicano)

Leituras diárias

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

“Na cosmologia budista o universo não experimenta uma destruição singular e final. Em vez disso, opera em vastos ciclos de criação, preservação e dissolução. Essa natureza cíclica, incorporada no conceito de saṃsāra, descreve a existência como um ciclo infinito de nascimento, morte e renascimento — não apenas de seres sencientes, mas do próprio cosmos. Textos como o Aggañña Sutta e o Satta Suriya Sutta retratam vividamente esses ciclos cósmicos: ‘O universo se expande (Vivaṭṭa Kappa), permanece estável por eras, depois se contrai (Saṁvaṭṭa Kappa) em dissolução — apenas para ressurgir. Como o ritmo da respiração, o cosmos inspira e expira ao longo dos kalpas (imensos períodos cósmicos).’ “

 

“A cosmologia contemporânea oferece diversas hipóteses dominantes para o destino final do universo, que ressoam de forma intrigante com as ideias cíclicas budistas:

O Grande Congelamento (Morte Térmica): O universo continua se expandindo para sempre até que as estrelas esgotem seu combustível, deixando um cosmos frio, diluído e entrópico. Isso ecoa as noções budistas de ‘resfriamento’ cósmico e cessação, semelhantes ao nirvana como o fim do sofrimento.

O Big Crunch: A gravidade reverte a expansão, fazendo com que o universo colapse de volta em uma singularidade quente e densa — paralelo ao conceito budista de contração cósmica (Saṁvaṭṭa Kappa).

O Big Rip: A expansão acelerada impulsionada pela energia escura eventualmente despedaça galáxias, estrelas, planetas e até átomos. Essa destruição pelo ‘vento’ espelha de perto as alegorias budistas de dispersão e dissolução.

Modelos Cíclicos (oscilatórios): Alguns físicos, como Roger Penrose com sua Cosmologia Cíclica Conforme, propõem uma sucessão infinita de ‘éons’ ou ciclos Big Bang – Big Crunch — fortemente reminiscentes dos kalpas na cosmologia budista. A ciência e o budismo reconhecem a impermanência de todas as coisas — seja explicada pela entropia da termodinâmica ou pela profecia dos sete sóis da cosmologia budista.”

 

Nantakan Imphong, em Buddhist Cosmology Meets Modern Science: A Comparative Study of Thai Buddhist and Scientific Perspectives on the Universe (A Cosmologia Budista Encontra a Ciência Moderna: Um Estudo Comparativo das Perspectivas Budista Tailandesa e Científica sobre o Universo)

A frase do dia

 

“Todos os partidos são variantes do absolutismo. Não fundaremos mais partidos; o Estado é o seu estado de espírito”.

 

Raul Seixas (1945-1989), cantor, compositor, produtor musical e agitador cultural brasileiro citado pelo site Pensador

Thomas Mann

terça-feira, 18 de agosto de 2026

“Sabe-se a que ponto toda a psicologia da civilização de Freud se explica pelos destinos dos impulsos, e qual o papel que nela desempenham os conceitos de sublimação e de recalque. A análise, aplicada à vida psíquica normal, torna claro que ‘os mesmos componentes sexuais que se deixam desviar de suas metas mais imediatas e conduzir para outras são os que proporcionam as contribuições mais importantes para as realizações culturais do indivíduo e da comunidade’. Por recalque, no entanto, ela entende a censura do escrúpulo moral que impede impulsos arcaicos ou socialmente impossíveis de aceder à consciência, seu amordaçamento no inconsciente, processo que é menos criador do que condicionador da civilização, pois a civilização somente é possível sob a pressão de determinadas proibições, mantidas graças a dispositivos morais e físicos de poder; e como uma introjeção efetiva e autêntica dessas proibições, que significaria liberdade, não pôde ser alcançada na maioria dos homens comuns nem mesmo pela santificação religiosa, a consequência é um estado de hipocrisia cultural, favorecido pela lei de silêncio antianalítica que a sociedade impõe no que se refere aos pressupostos sobre os quais está baseada a civilização. ‘A civilização humana’, diz Freud, ‘repousa sobre dois apoios, o primeiro é o domínio sobre as forças da natureza, o segundo, a limitação de nossos impulsos. Escravos acorrentados carregam o trono da soberana. Em meio aos componentes impulsivos tornados assim tão servis, os dos impulsos sexuais – no sentido estrito – se destacam por sua força e selvageria. Ai dela se eles se libertam; o trono seria virado de ponta-cabeça, e a soberana, pisoteada. A sociedade sabe disso – e não quer que se fale desse assunto. ‘Por que não? Porque ela, responde Freud, tem má consciência em mais de um sentido. ‘Em primeiro lugar, ela estabeleceu um ideal elevado de moralidade – moralidade é restrição do impulso – cuja observância ela exige de todos os seus membros, e não se preocupa com o quão difícil essa obediência possa ser para o indivíduo.”

 

Thomas Mann (1875-1955) romancista, ensaísta, contista e crítico social alemão em Ensaios & Escritos - Pensadores modernos: Freud, Nietzsche, Wagner e Schopenhauer

Ivan Lessa

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Jornalista, escritor, correspondente internacional de vários jornais e um dos principais colaboradores do semanário O Pasquim, Ivan Lessa viveu parte de sua vida em Londres.

Em 2001 foi entrevistado pelo jornalista Alberto Dines (1932-2018) para o programa Observatório da Imprensa

Lessa e Dines foram verdadeiros marcos na história do jornalismo crítico brasileiro. Veja a entrevista abaixo:

Dia do Filósofo

domingo, 16 de agosto de 2026

(Fonte: UNIFAP)

“Nada é, tudo está em processo de se tornar.”

Heráclito de Éfeso (aprox. 500-450 aec), filósofo grego

Estado ainda investe pouco em Saúde!

(Fonte: Revista Partes/Jean Galvão)

Minha opinião

sábado, 15 de agosto de 2026

 

O principal e na prática o único tema da política nacional até o mês de novembro próximo são as eleições. O que interessa à quase totalidade dos políticos no momento, são as alianças entre os partidos, o apoio mútuo de candidatos, os repasses do vultoso Fundo Eleitoral a serem recebidos e as distribuições de cargos para apoiadores e seus cabos eleitorais. Enquanto ocorre esta frenética atividade, todos permanecem de olho nas pesquisas eleitorais semanais, cuja tendência de subida ou de queda de candidatos pode mudar apoios e alianças.

Os programas dos partidos, em sua maioria, limitam-se a trivialidades, retomando temas de eleições passadas, prometendo providências óbvias e inconsistentes – “controle dos gastos públicos”, “combater a criminalidade”, “menos impostos”, “apoiar a família brasileira”, “combate às desigualdades”, “defender o meio ambiente”, etc. – ad nauseam. Desgastadas propostas, que os mais velhos já ouvem há pelo menos quarenta anos. Vale observar que nenhum partido ou candidato – excetuando os da chamada esquerda radical – fala em “arcabouço fiscal” ou “taxação de grandes fortunas”.

Tudo isso, mesmo com 30 partidos concorrendo às eleições, entre os quais serão distribuídos 5 bilhões de reais do Fundo Eleitoral. Sobre essa quantia, diz a AI Overview do Google: “Com R$ 5 bilhões, é possível construir entre 40 e 50 hospitais de médio porte (com cerca de 60 a 100 leitos e alto padrão tecnológico), ou até 3 unidades de ponta ultra tecnológicas e inteligentes — como o primeiro grande hospital público inteligente planejado para o Complexo do Hospital das Clínicas em São Paulo, orçado em R$ 1,7 bilhão”.

Já os candidatos, estes precisam apresentar uma imagem mais concreta, mais palatável, ao gosto do eleitor de cada tendência política. Apresentam-se iniciativas e projetos – mesmo sabendo serem praticamente irrealizáveis – que de alguma maneira despertem o interesse (ou pelo menos a curiosidade) do potencial eleitor e que ajudem a tirá-lo de seu sono, durante o horário eleitoral obrigatório na TV. 

Ajudam também os coordenadores de campanha, as assessorias de marketing, os psicólogos e os especialistas em media training, contratados a peso de ouro com os recursos do Fundo Eleitoral, para burilar e tornar mais simpática a desgastada imagem de muitos candidatos. São investimentos necessários que podem trazer um grande retorno: um cargo público. Além disso, é preciso levar em conta que, segundo pesquisas recentes (Datafolha e Quaest), 63% dos brasileiros não confiam em políticos e 82% relatam desconfiança em relação ao Congresso Nacional.  

Para os candidatos o esforço concentrado nesse período pré-eleitoral vale a pena – pelos seus resultados futuros. Por isso não sobra tempo para votar projetos importantes que beneficiariam o povo brasileiro, aquele do qual os candidatos esperam receber seus votos. Sistema de saúde precário, segurança pública ruim, catástrofes climáticas, baixos salários, juros altos, corrupção em todos os níveis do governo, falta de moradias, transporte público de baixa qualidade, baixo nível da educação, falta de saneamento, incipiente incentivo à cultura, justiça lenta, revogar a escala 6 por 1, etc., são temas que ficam para 2027. 

Se for o caso.

 

Ricardo E. Rose, 13/08/26

 

(Imagens: personagens de desenhos animados - Os sobrinhos do capitão, o Pica Pau e Mr. Magoo)

Um super El Niño associado à crise climática

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

(Fonte: CNN International/Getty Imagens/Alexandros Maragos) 

Um El Niño mais violento anuncia mudanças no clima da Terra e pode significar o prenúncio de uma aceleração do fenômeno da crise climática.

Governos de todo o planeta - inclusive do Brasil - não estão dando a devida atenção ao que o planeta deverá enfrentar dos próximos meses.

Leia artigo "Exame do super El Niño e do que ele revela", do jornalista-pesquisador-ativista Patrick Mazza, publicado no jornal online Outras Palavras em 11/08/26:

https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/exame-do-super-el-nino-e-do-que-ele-revela/

Ambrose Bierce

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

 

“Admite-se que o ilhéu dos Mares do Sul, em estado de natureza, é excessivamente apegado à prática de comer carne humana, mas a respeito disso afirmo: primeiro, que ele gosta; segundo, que aqueles que lhe fornecem carne humana estão, em sua maioria, mortos. É de seus inimigos que ele se alimenta, e estes ele mataria de qualquer maneira, como nós matamos os nossos. Em países civilizados, esclarecidos e cristãos, onde o canibalismo ainda não se estabeleceu, as guerras são tão frequentes e destrutivas quanto entre os canibais. O selvagem sem título sabe pelo menos por que sai matando, enquanto nosso soldado raso geralmente desconhece completamente a causa aparente da disputa — a causa real, sempre. Suas partes nos frutos da vitória são quase iguais, pois o chefe fica com todos os mortos, o general com toda a glória.” 

“As instituições republicanas têm esta desvantagem: pelas mudanças incessantes no pessoal do governo — para não falar do tipo de homens que as bases eleitorais ignorantes elegem; e todas as bases eleitorais são ignorantes — não atingimos princípios e padrões fixos. Não existe aqui uma ciência da política, porque não é do interesse de ninguém fazer da política o estudo de sua vida. Nada é definitivo; nenhuma verdade encontra aceitação geral. O que fazemos em um ano, desfazemos no ano seguinte e fazemos novamente no ano subsequente. Nossa energia é desperdiçada e nossa prosperidade sofre com experimentos repetidos infinitamente. Todo patriota acredita que seu país é melhor do que qualquer outro. Ora, eles não podem ser todos os melhores. Na verdade, apenas um pode ser o melhor, e segue-se que os patriotas de todos os outros se deixaram enganar por um mero sentimento, caindo na irracionalidade cega.”

 

Ambrose  Bierce (1842-1914), autor satírico, jornalista e poeta estadunidense em A Cynic Looks at Life (Um cínico olha para a vida, obra póstuma 1927)

Conceição dos Bugres (Conceição Freitas da Silva, 1914-1984)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no blog Arte Popular no Brasil abaixo:

https://artepopularbrasil.blogspot.com/2016/08/conceicao-dos-bugres.html

Leituras diárias

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

“O jornalismo tem se revelado modesto e mesquinho demais ao definir seu objetivo apenas como a fiscalização de certos tipos de poder. Essa é uma definição prejudicial, uma vez que se mostra tão acanhada na própria concepção de jornalismo e do seu papel na sociedade. Ele não é apenas um ramo de facto da polícia ou do sistema fiscal. Na verdade, é, ou deveria ser, um governo no exílio que examina todas as questões da vida nacional com o objetivo de sugerir maneiras de construir um país melhor.

O único objetivo honesto do empenho de revelar o erro é fazer com que seja menos disseminado. Diante da corrupção, da estupidez e da mediocridade, em vez de permanecer no nível da exultante denúncia dos erros do presente, o noticiário deveria sempre tentar propiciar mais competência no futuro. Por mais satisfatório e importante que seja derrubar os poderosos, a investigação jornalística deveria partir de um objetivo um pouco diferente e nem sempre conflitante: o desejo de tentar melhorar as coisas.” 

 

Alain de Botton (1969-), filósofo, editor e produtor cultural suíço em Notícias – Manual do Usuário

Emergência climática? Deixa rolar!

(Fonte: Cartuns.Alpino/Instagram)

Essa não poderia faltar

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Deep Purple

Bloodsucker (1970)

https://www.youtube.com/watch?v=JC2OKriMNyA&list=PLIKpCFu8FpmmAtaNvqeGMBl7f4hjWkqbz&index=2

Manoel de Barros

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Veja entrevista do poeta Manoel de Barros (1916-2014) para o programa Gente de Expressão, de Bruna Lombardi

Detentor de vários prêmios literários, Manoel de Barros é autor de livros como Memórias Inventadas I, II e III, O Livro das Ignorãças, Livro sobre Nada, entre outros. 

A entrevista está no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=D7Cggy85LY4

É assim.


Willard Van Orman Quine

domingo, 9 de agosto de 2026

 

“A aparentemente fundamental indagação filosófica: ‘Quanto de nossa ciência é mera contribuição da linguagem e quanto é um reflexo genuíno da realidade?’ talvez seja uma falsa pergunta, que surge, ela própria, inteiramente de certo tipo particular de linguagem. Certamente, nos colocaremos em uma situação difícil se tentarmos responder à pergunta porque, para isso, temos de falar sobre o mundo tanto quanto sobre a linguagem, e, para falar sobre o mundo, já temos de impor ao mundo algum esquema conceitual peculiar à nossa própria linguagem específica.

Apesar disso, não devemos cair a conclusão fatalista de que estamos condenados ao esquema conceitual em que fomos educados. Nós podemos muda-lo pouco a pouco, peça por peça, embora, nesse meio tempo, não haja nada para nos levar em frente a não ser o próprio esquema conceitual em evolução. A tarefa do filósofo foi corretamente comparada por Neurath à de um marinheiro que tem de reconstruir seu navio em alto mar.”

 

Willard Van Orman Quine (1908-2000), filósofo e professor estadunidense em De Um Ponto de Vista Lógico

Minha opinião

sábado, 8 de agosto de 2026

 

Mudanças climáticas, crise climática, emergência climática... Fenômeno que até há pouco era classificado por muitos como “alarmismo climático” ou “narrativa política da esquerda”, parece estar afetando o mundo – inclusive os negacionistas de todas as tendências – mais rapidamente do que até a ciência esperava.

Incêndios florestais na Europa e Estados Unidos, chuvas torrenciais na Ásia e secas na África, passaram de acontecimentos excepcionais para ocorrências constantes em poucas décadas. O mesmo vale para a Região Sul e parte do Sudeste do Brasil, onde além das fortíssimas chuvas, os ciclones bomba e os tornados são os fenômenos climáticos bem recentes.

A crise climática, dizem os cientistas, está apenas em seu início. Depois do aquecimento da atmosfera – e principalmente dos oceanos – causada pelas atividades humanas, decorrerão décadas ou séculos, segundo alguns, para que o sistema volte ao seu estado de equilíbrio pré-revolução industrial, quando, segundo a ciência, as emissões de gases de efeito estufa de origem antrópica começaram efetivamente a aumentar.

Enquanto isso, o quadro do “paciente Terra” (e de seus passageiros humanos) deve piorar. Períodos de secas em certas regiões, excesso de chuva e enchentes em outras, calor e frio excessivos, além de todos os efeitos destes fenômenos nas atividades humanas – os exemplos de todas as partes do planeta nos são apresentados diariamente e devem aumentar exponencialmente.

E os governos o que fazem? Além de atuações pontuais para problemas específicos e urgentes, muito pouco. Basta ver os pífios resultados de todas as COPs – Conferências sobre o Clima, realizadas pela ONU – das quais a última foi realizada em novembro de 2025 em Belém, no Brasil. Ninguém quer assumir compromissos definitivos, principalmente os maiores causadores do aquecimento global; os países ricos e industrializados e suas grandes empresas.

Mesmo tendo sido o organizador do evento, são poucas as ações do governo brasileiro no combate aos efeitos das mudanças do clima. Houve, efetivamente, uma redução do desmatamento na Amazônia (mas não no Cerrado) e cresceu o uso de energias renováveis no matriz energética, além de ações pontuais no âmbito da eficiência energética.

Mas o que está sendo feito no enfrentamento de enchentes, destruição da infraestrutura, inundação de bairros, falta frequente e demorada de energia elétrica em grande parte das cidades, interrupção dos sistemas de transportes e das atividades econômicas – agricultura, indústria e comércio?  

Ao que parece, bem pouco. Na maior parte dos médios e pequenos municípios brasileiros faltam verbas para medidas de combate aos efeitos das mudanças climáticas e, principalmente, do recente fenômeno El Niño. No caso deste último, os recursos já deveriam estar disponíveis e providências já deveriam ter sido tomadas há meses, quando a ameaça já estava anunciada. Algo foi feito?

Manter, capacitar e equipar unidades da Defesa Civil, implantar obras para enfrentar enchentes – como manutenção e organização de abrigos, construção de bueiros e canais, desassoreamento de rios, contenção de encostas, realocamento de populações de áreas de enchentes, contenção de marés, entre outras, são providências que extrapolam os orçamentos anuais da maioria dos municípios brasileiros. Isso sem falar na necessidade de obras de reurbanização e ampliação da infraestrutura viária e de saneamento em muitas cidades, com o aumento das tempestades.

A resposta a estas necessidades é a de sempre: faltam verbas e gestão. O Estado, em todos os níveis – federal, estadual e municipal – já não consegue arcar devidamente com os compromissos regulares previstos em orçamento (Educação, Saúde, Segurança, etc.), quanto mais atender demandas emergenciais, como no caso do fenômeno El Niño e da emergência climática.

Tome-se como exemplo áreas ambientalmente muito mais prementes do que a das mudanças climáticas, nas quais as políticas governamentais também não avançaram. Faltaram verbas gestão e, principalmente, vontade política para a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), criada em 2010 com o objetivo de fomentar a reciclagem de materiais e a eliminação dos lixões. Segundo matéria do Jornal Valor de 27/02/26, ainda persiste o descarte irregular de resíduos em nove de cada dez municípios do país e estima-se que 41% do lixo urbano são descartados irregularmente. A cidade de São Paulo, segundo artigo recente do Jornal da USP, recicla menos de 3% de seu lixo – e isto 15 anos após a implantação da PNRS. No setor do saneamento básico a situação também é preocupante. Dados (2024) do Painel Saneamento Brasil informam que 15,9% da população brasileira não têm acesso à água potável; 43,3% não têm coleta de esgoto e 51,8% não têm esgoto tratado. Apenas dois exemplos das duas áreas mais importantes da política ambiental urbana: a gestão de resíduos e o saneamento básico.

Pelo andar da carruagem, não é possível antever mudanças significativas no lento ritmo de avanço dos temas ambientais no Brasil. Os futuros governos federais, estaduais ou municipais – seja de que orientação política forem – sempre se haverão com dificuldades de recursos, interferência de interesses políticos e pressão dos grupos privados defendendo suas prioridades.

 


Ricardo E. Rose, 07/08/26 

(Imagens: humoristas do cinema estadunidense dos anos 1920 e 1930)

Para que serve o Fundo Eleitoral?

sexta-feira, 7 de agosto de 2026
(Fonte: Nani Humor)

Charles Darwin

 

(Darwin no Rio de Janeiro)

“Enquanto permaneci nessa propriedade, fiquei tão próximo que pude testemunhar uma das atrocidades que só poderiam acontecer em um país escravocrata. Devido a um desentendimento, o proprietário estava disposto a tirar todas as mulheres e filhos dos negros e vendê-los, separadamente, em um leilão no Rio. Lucros, e não qualquer sentimento de compaixão, evitaram que ele perpetrasse tal ato. De fato, eu não acredito que a desumanidade de separar trinta famílias, que haviam vivido juntas por muitos anos, sequer tenha passado pela cabeça do fazendeiro. Eu poderia dar minha palavra de que, em bons sentimentos e humanidade, ele estava acima dos seus pares. Mas é preciso dizer que não existe limite para a cegueira do lucro e dos hábitos egoístas.”

 

Charles Darwin (1809-1882), naturalista, geólogo e biólogo inglês conhecido por sua contribuição à teoria da evolução através de sua obra seminal A Origem das Espécies. Esta citação consta de seu livro A viagem a bordo do HMS Beagle pela América do Sul  

Pequena Suite para Violão Solo: Toada - Vitor Garbelotto

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 Música brasileira


Vitor Garbelotto (composição de Radamés Gnattali)

Álbum: Vitor Garbelotto - Radamés Gnattali Integral para Violão Solo (2010)

Música: Toada 






Vitor Garbelotto nasceu em Crisciuma (SC) em 1981. Iniciou os estudos musicais ainda na infância de forma autodidata, influenciado pelo irmão mais velho que tocava violão. Cursou bacharelado em música popular na Unicamp (Universidade de Campinas), onde teve como professor de violão Ulisses Rocha – o que mudaria a vida de Vitor Garbelotto para sempre.

Ao ouvir Yamandu Costa solar a Brasilianas 13, de Radamés Gnattali, se apaixonou pela obra do compositor. Começou então um trabalho de pesquisa com partituras, livros e contatos musicais por meio dos festivais de violão voltados à obra de quem considerava o mestre.

 

Radamés Gnattali (Porto Alegre27 de janeiro de 1906 — Rio de Janeiro13 de fevereiro de 1988) foi um arranjadorcompositor e pianista brasileiro.



(Fonte dos textos: Site Violão Brasileiro e Wikipedia)

A frase do dia

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

 

“A felicidade sempre parece pequena enquanto a seguramos nas mãos. Mas deixe-a ir e você perceberá imediatamente o quão grande e preciosa ela é.”

 

Maxim Gorky (1868-1936), escritor, romancista, dramaturgo, contista e ativista político russo em Os Abismos e Outras Peças, citado por Goodreads

Nina Horikawa (1994-)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site da AM Galeria:

https://amgaleria.com.br/artista/17910/

Como nasceu o neoliberalismo?

terça-feira, 4 de agosto de 2026

(Fonte: Canadian Dimension)

Como surgiu o neoliberalismo, fase atual do desenvolvimento do sistema econômico capitalista. Por que o "Estado de Bem-Estar" não é mais possível no contexto neoliberal? Quem ganha e quem perde com o neoliberalismo?

Veja abaixo vídeo do canal Opera Mundi, no qual o jornalista Breno Altman explica o desenvolvimento da ideologia e economia neoliberal:

Guy Debord

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 

“Essa constante da economia capitalista que é a baixa tendencial do valor de uso desenvolve uma nova forma de privação dentro da sobrevivência ampliada. Esta não se torna liberada da antiga penúria, pois exige a participação da grande maioria dos homens, como trabalhadores assalariados, na busca infinita de seu esforço; todos sabem que devem submeter-se a ela ou morrer. É a realidade dessa chantagem: o uso sob sua forma mais pobre (comer, morar) já não existe a não ser aprisionado na riqueza ilusória da sobrevivência ampliada, que é a base real de aceitação da ilusão geral no consumo das mercadorias modernas. O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é sua manifestação geral.” 

“A ideologia é a base de pensamento de uma sociedade de classes, no curso conflitante da história. Os fatos ideológicos nunca foram simples quimeras, mas a consciência deformada das realidades, e, como tais, fatores reais que exercem uma real ação deformante; tanto mais que a materialização da ideologia provocada pelo êxito concreto da produção econômica autonomizada, na forma do espetáculo, praticamente confunde com a realidade social uma ideologia que conseguiu recortar todo o real de acordo com seu modelo.”

 

Guy Debord (1931-1994), filósofo marxista, crítico social e cineasta francês em A Sociedade do Espetáculo – Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo (1967).