Pink
Floyd
Echoes (1971)
Qui addit scientiam, addit et leborem (Eclesiastes 1:18)
Pink
Floyd
Echoes (1971)
“Diz
Virgílio, taxativamente, que todo homem pode extrair lições sobre os rumos
filosóficos do mundo se examinar o funcionamento de uma colmeia. Assistir ao
espetáculo dos ciclos da natureza, observar uma lavoura, o eterno retorno das
coisas (lavrar, semear, colher, lavrar, semear, etc.), sentir-se parte de um
todo e aceitar o destino de vir da terra e para ela retornar (nascer, crescer,
declinar, envelhecer, morrer, nascer, crescer, etc.), assim é que a agricultura
dá à cultura lições de coisas modestas, porém determinantes. O camponês dá a
matriz a todo filósofo digno deste nome. O pensador da cidade não chega aos pés
do pensador do campo. Sobre uma infinidade de coisas, Sartre, que detestava a
natureza, é menos certo e preciso do que era Sêneca em sua propriedade rural
romana 2 mil anos antes dele.”
“O
fatalismo nietzschiano, porém, resiste às lições dadas pela realidade: decerto
não somos totalmente livres, como afirma a tradição espiritualista, desde a
Bíblia até Sartre, passando por Descartes e Kant; é claro que não somos
totalmente determinados, como proclamam os deterministas, desde o Corão até
Freud, passando por Espinoza, La Mettrie, Helvetius, Holbach e Nietzsche,
portanto; pois podemos construir
liberdade para nós mesmos se soubermos que podemos fazê-lo e que podemos
querer querendo aquilo que nos quer, pois não há nada que se possa querer além
disso.”
“Depois
de Copérnico, que se manteve cauteloso, mas antes de Galileu, que triunfou como
cientista, depois de Epicuro, o materialista atomista, mas antes de Espinoza, o
panteísta monista, Giordano Bruno, poeta e filósofo, homem de letras e artista,
rebelde e dramaturgo, se vê na mira da Igreja. Esse dominicano de origem nega a
virgindade de Maria, escarnece da Transubstanciação, recusa o dogma da
Trindade, ataca os calvinistas, estraçalha os aristotélicos, desclassifica os
adeptos da doutrina cosmológica de Ptolomeu. É detido e preso pela Inquisição,
o Santo Ofício se mobiliza. Após oito anos de processo, o homem que esvaziou o
céu e inventou o espaço moderno é levado à fogueira, nu, com uma mordaça na boca
para impedir que falasse. Em 17 de fevereiro de 1600, no Campo dei Fiori, o
filósofo visionário se desfaz em chamas. Seu cosmos é que era o certo.”
Michel Onfray (1959-) filósofo, escritor e professor francês em Cosmos – Uma Ontologia Materialista
Em setembro de 2025 o então
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciava a intenção do governo de atrair
investimentos em datacenters. Para isso, o governo preparou Medida Provisória
(MP), criando o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no
Brasil (ReData). A MP, substituída pelo Projeto de Lei (PL) 278/2026, visa atrair
R$ 2 trilhões em investimentos para o país durante os próximos dez anos,
segundo o governo.
Em todo o planeta o numero de datacenters vem crescendo rapidamente, devido ao aumento no uso da IA (inteligência artificial). Contendo grande numero de computadores de alta potência, servidores, sistemas de armazenagem e demais instalações, os datacenters processam armazenam e distribuem imensas quantidades de dados e, em rede mundial, abrigam o que se convencionou chamar de “a nuvem”.
Um datacenter de porte médio, do qual se estima existirem entre 6 a 8 mil no mundo, tem entre 2 mil e 5 mil servidores. Já um datacenter de hiperescala (hyperscale) atua com centenas de milhares de chips de alto desempenho, com GPUs (unidades de processamento gráfico) especializadas. Destes estima-se estarem operando aproximadamente 1.190 globalmente. Estas grandes unidades são utilizadas por corporações como a Meta, Google, Microsoft, Alibaba e Amazon, entre outras.
Para dar uma ideia, um
datacenter de hiperescala geralmente ocupa áreas superiores a 1.000 metros
quadrados e consume em média 100 megawatts (MW) de eletricidade por dia; o
equivalente ao consumo de 85 a 100 mil residências. Com relação ao consumo da
água usada para refrigeração do sistema, o mesmo datacenter utiliza de 2 a 19
milhões de litros de água por dia; volume suficiente para atendimento diário de
uma cidade de 10 a 50 mil habitantes (dados do AI Overview do Google).
Há dezenas de projetos de
construção de datacenters pequenos, médios e de hiperescala em andamento no
Brasil – nos estados de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul –, com
previsão de entrega entre 2026 e 2028, totalizando cerca de 660 MW de consumo
de energia, segundo a revista Forbes.
Com esta quantidade de energia é possível abastecer uma cidade residencial (sem
indústrias) com até 6,6 milhões de habitantes. O site Click Petróleo e Gás informa que de acordo com o Plano Decenal de
Expansão de Energia (PDE 2034) do Ministério das Minas e Energia, a demanda de eletricidade
dos datacenters chegará a 2,5 gigawatts (GW) em 2037; o que equivale ao consumo
de 25 milhões de pessoas.
Além de contar com grande
disponibilidade de eletricidade e água, o investidor estrangeiro ainda deverá
contar com isenção de todos os tributos federais durante 5 anos – IPI, PIS/Cofins e Imposto de
Importação. A contrapartida exigida pelo governo é a utilização de 100% de
energia limpa; investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) o
equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos na construção das unidades; atender
as metas de eficiência hídrica nos sistemas de resfriamento das instalações; e
destinar uma mínima parte da capacidade de processamento instalada, para
atendimento de demanda nacional.
Quanto ao fornecimento de
água e eletricidade aos datacenters, especialistas se fazem algumas perguntas,
como:
- Com a aceleração dos
efeitos danosos das mudanças climáticas no regime hidrológico de várias regiões
do país, como conciliar o grande consumo de água dos datacenters com as
necessidades da população? Em caso de uma crise hídrica prolongada, quem terá
prioridade no fornecimento (lembrando que os datacenters estão inseridos em uma
rede mundial)?
- No caso de queda na disponibilidade
de energia elétrica gerada pelas hidrelétricas, haveria necessidade de colocar
em funcionamento as termelétricas, aumentando as emissões de gases de efeito
estufa para atender os datacenters?
Há que se considerar também outros
aspectos menores, mas também significativos. Além do grande consumo de água e
energia elétrica, os datacenters também são fonte de geração de lixo eletrônico:
os potentes servidores e GPUs são substituídos em média a cada três anos e têm componentes
que contêm metais pesados como chumbo, cadmio, mercúrio e as contaminantes
terras raras.
Calor é outro impacto gerado
pelos datacenters. Segundo o Journal of
Engineering for Sustainable Buildings and Cities, dos Estados Unidos, estes centros de processamento podem
aumentar a temperatura da região do entorno da unidade em até 2 graus, em áreas
situadas até 500 metros do perímetro da instalação. Sons e infrassons (ondas de baixa frequência)
também são emitidos pelos diversos tipos de equipamentos instalados nos
datacenters. Segundo reportagem do jornal O
Globo, moradores vizinhos a estas instalações nos Estados Unidos, relatam
casos de insônia, dor de cabeça e ansiedade, causados pelo constante som de
fundo.
A pouca geração de empregos durante a vida útil dos datacenters também é outro motivo de crítica. A criação de postos de trabalho ocorre principalmente na fase de construção das unidades. Segundo a empresa ZEITEC, especialista em projetos destas instalações, estabelecimentos menores demandam 1 a 3 meses de construção; já grandes unidades podem levar 6 a 18 meses até ficarem prontas. Nessa fase, os grandes empreendimentos podem empregar de 1.500 a 3.000 profissionais. Depois, em operação regular, um datacenter hyperscale emprega entre 50 e 150 trabalhadores e datacenters menores entre 30 e 50 funcionários.
Nos Estados Unidos, onde funcionam
cerca de 4.700 datacenters – o país concentra entre 38% e 45% de toda a
capacidade instalada global – mais de 14 estados estudam ou já aplicam restrições
e/ou paralizações temporárias na construção destas instalações. O estado de
Nova York está impondo a primeira moratória na construção de novas unidades e
outros estados estão reduzindo incentivos e restringindo recursos.
No Brasil, na região de
Campinas, onde está prevista a construção de um grande datacenter, entidades se
organizam e promovem manifestações e abaixo-assinados contra o projeto, dada a
escassez de água na região. No Pará, o Ministério Público Estadual (MPPA) abriu
inquérito para investigar ausência de consulta prévia e estudos de impacto
socioambiental, do projeto a ser instalado na cidade de Barcarena.
Nas décadas 1970 e 1980
ficou conhecido o fenômeno da “exportação da poluição” para os “paraísos de
poluição” (chamados em inglês de pollution
havens). Indústrias das áreas de siderurgia, metalurgia, papel e celulose,
química e petroquímica; poluidoras e com tecnologia defasada, transferiram sua
atividades para países menos desenvolvidos (chamados então de “subdesenvolvidos”).
Pressionadas pela opinião pública, legislação ambiental restritiva e por altos
impostos, a solução mais econômica e simples era, então, transferirem suas
fábricas para países onde praticamente não havia pressão popular (muitos
governos eram ditatoriais), quase nenhuma legislação ambiental, insumos e mão de obra baratos e, em muitos
casos, até isenção de impostos.
À época (anos 1970) o então
ministro da Fazenda do Brasil, Antonio Delfim Netto, informado que indústrias poderiam
deixar a Europa devido às restrições ambientais, declarou: “Venham para o Brasil porque temos espaço
bastante para a poluição e é mais importante fazer aço; da poluição cuidamos
depois.” Outros tempos, nos quais o país tinha outras prioridades.
Em visita aos Estados Unidos em maio de 2025, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que vinha para escutar as grandes empresas de tecnologia digital sobre o projeto dos datacenters do governo brasileiro: "Queremos trazer os data centers para o Brasil para prover o serviço a preços baratos para os brasileiros, para as empresas, para as universidades brasileiras, para o SUS."
Será que é isso mesmo?
Ricardo E. Rose, 28/08/2026
(Imagens: pinturas de Edward
Hopper, 1882-1967)
O Brasil não deu certo
“Uma
boa definição de tragédia não é a história em que as coisas simplesmente dão
errado – mortes, pobreza, traições –, mas aquela em que as oportunidades para
um final feliz estavam presentes e, ainda assim, os personagens fizeram
escolhas que os conduziram ao desastre.
É
uma maneira de olhar para o Brasil. O potencial estava lá, mas escolhemos a
mediocridade. E continuamos escolhendo. Nossa tragédia não é a catástrofe ou a
crise aguda, mas a estagnação e o baixíssimo crescimento (...)”
Trecho do artigo O Brasil não deu certo, publicado no jornal Valor em 27/08/2026, dos autores Pedro Cavalcanti Ferreira, professor da EPGE-FGV e diretor da FGV e Renato Fragelli Cardoso, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE-FGV).
XIX
O
rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem
de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de
casa.
Passou
um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz
por trás de sua casa se chama enseada.
Não
era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia
uma volta atrás de casa.
Era
uma enseada.
Acho
que o nome empobreceu a imagem.
Manoel de Barros (1916-2014), poeta brasileiro em O Livro das Ignorãças
Música brasileira
Camisa de Vênus
Álbum: Correndo o Risco (1986)
Música: Só o Fim
A
banda foi formada em 1980 quando Marcelo Nova,
que trabalhava na FM Aratu em Salvador, conheceu Robério Santana, que
trabalhava na TV Aratu. Conversando sobre música os dois descobriram que
tinham gostos em comum e decidiram montar uma banda. Marcelo Nova seria o vocalista e
Robério Santana o baixista.
Robério resolveu chamar seu amigo Karl Hummel para
assumir a guitarra base
e este, por sua vez, chamou seu amigo Gustavo
Adolpho Souza Mullem para tocar bateria. Se juntou ao grupo o guitarrista
solo Eugênio Soares.
Nos
ensaios, as pessoas que compareciam diziam que o som da banda era muito
incômodo. Por isso, Marcelo Nova sugeriu o nome de Camisa de Vênus, por achar preservativo uma
coisa muito incômoda.
(Fonte do texto: Wikipedia)
“Na
autocompreensão do século XXI o capitalismo parece pertencer à natureza interna
dos seres humanos, como a alimentação, a bebida, o sono e a procriação, isto é,
o metabolismo com a natureza exterior (ciclos de nutrição, de alojamento, mas
também de estética da natureza e da arte), a comunicação entre as pessoas e o
modo de funcionamento da natureza interior do ser humano. Fosse esse
entendimento correto, o capitalismo seria uma condition humaine (André Malraux) transmitida de uma geração a
outra. Nesse caso seria apenas coerente tender à opinião de que a história
estaria no fim quando o capitalismo, com o seu sistema de instituições
econômicas, sociais e políticas, bem como a cultura conexa, tivesse amadurecido
até o florescimento e as alternativas depois da ‘vitória grandiosa da Guerra
Fria’ tivessem desaparecido no vórtice do esquecimento histórico.
Permanece,
porém, um sentimento de insatisfação. No ‘fim da história’ surge a
desesperança, pois em primeiro lugar os primórdios continuam sem esclarecimento
se no fim da história tudo permanece como antes – embora saibamos alguma coisa
sobre as sociedades pré-capitalistas e a evolução do ser humano desde o
Paleolítico. Faz parte do conhecimento comprovado que a humanidade trabalhou e
viveu mais de 99% de sua história em condições não capitalistas. O capitalismo
saiu de outros modos de produção (na Europa da ordem feudal); outros haverão de
substituí-lo.”
Elmar Altvater (1938-2018), cientista social e professor alemão em O fim do capitalismo como o conhecemos (2005)
Nise da Silveira (1905-1999) foi médica psiquiatra, tendo contribuído para a revolução no tratamento das doenças mentais no Brasil por meio de técnicas que incluem a arte, a livre expressão e a afetividade.
Manifestou-se radicalmente contra os tratamentos comuns na psiquiatria manicomial até a década de 1950, como o eletrochoque, a insulinoterapia, o coma insulínico e a lobotomia.
Sua técnica, baseada no uso das artes - pintura, escultura, teatro, música, entre outros - com os pacientes, antecedeu os movimentos de renovação psiquiátrica na Europa, nos anos 1960 e 1970.
Nise teve seu trabalho reconhecido internacionalmente e foi pioneira na introdução da psicologia junguiana (Carl Gustav Jung, 1875-1961) no Brasil.
As obras de arte de parte dos inúmeros pacientes atendidos pelo Dra. Nise da Silveira, encontram-se no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.
Este documentário mostra algumas desta imagens, enquanto discorre sobre a vida e obra desta grande brasileira:
Pierre Schaeffer
Pierre
Henri Marie Schaeffer (1910-1995) foi um compositor e
teórico da música nascido na França,
conhecido por ter inventado a música concreta (musique concrète, no original francês).
Schaeffer
estudou na École Polytechnique, e começou a trabalhar
em 1936 na Office de Radiodiffusion Télévision
Française (ORTF) em Paris. Lá ele começou a
experimentar a gravação de sons, convencendo a gerência da estação de rádio a
autorizá-lo a utilizar os equipamentos. Ele tentava tocar os sons no sentido
inverso, mais lento, mais rápido e sobreposto a outros sons, técnicas
desconhecidas até então. Sua primeira peça completa foi um resultado desses
experimentos, e foi intitulada Étude
aux chemins de fer (1948).
Na época,
Schaeffer fundou o grupo Jeune
France, que tinha interesses em teatro e artes visuais, assim como música.
Em 1942, ele co-fundou o Studio d'Essai (posteriormente conhecido
como Club d'Essai). Em 1949,
Schaeffer conheceu Pierre Henry, e os dois fundaram o Groupe de Recherche de Musique Concrète (GRMC)
que recebeu reconhecimento oficial da ORTF dois anos após. A empresa forneceu
ao compositor um novo estúdio, que incluía um magnetofone.
Schaeffer
é reconhecido como o primeiro compositor a utilizar fitas magnéticas. Seus
experimentos resultaram na publicação de A la recherche d'une musique concrète ("À busca por uma
música concreta") em 1952, um sumário de seus métodos de trabalho até
então.
(Fonte do texto: Wikipedia)
"A economia vai bem, mas o povo vai mal".
General Emílio Garrastazú Médici
(1905-1985), presidente do Brasil durante o período da ditadura civil-militar
Tomando por base a propagando do governo, a situação econômica do povo melhorou nos últimos anos, com o controle da inflação e a criação de empregos, reduzindo a taxa de desocupação para 5,4% no segundo trimestre de 2026, o patamar mais baixo da série histórica do IBGE. Quanto à alta taxa dos juros, bastante criticada quando praticada pela administração anterior, pouco se fala no governo.
Todavia, a crise no setor varejista
brasileiro reflete aspecto diferente daquela situação econômica do povo
brasileiro, apresentada pelo governo. Durante o primeiro semestre de 2026,
segundo o jornal eletrônico Times Brasil, 986 empresas do setor
varejista se encontravam em recuperação judicial. Companhias como Marabraz,
Americanas, Grupo Pão de Açúcar, Casa &
Vídeo e Tok&Stok, estão nesse grupo, ao qual também se juntou a
Casas Bahia em agosto último.
Não é surpresa que isto ocorra em uma
economia na qual o salário mínimo é de R$ 1.621,00 – quando segundo o DIEESE deveria
ser de R$ 7.999,44 –, e a maior parte da população não dispõe de recursos para
o consumo além do estritamente necessário, chegando a se endividar para poder
se alimentar. Segundo dados de julho de 2026, 82% dos brasileiros têm algum
tipo de dívida; 30% possuem contas em atraso e 12% declararam que não terão
condições de pagar suas dívidas. Como consequência, até o setor
supermercadista tem registrado retração nas vendas em meses recentes.
Em junho de 2026, o salário médio das
novas vagas de trabalho foi de R$ 2.404,34 e neste período apenas 5% a 8% dos
trabalhadores brasileiros ganhavam mais de R$ 7.000,00. Segundo dados do IBGE (dados
de 2025) o perfil do rendimento dos brasileiros é o seguinte:
- 1% da população, cerca de 2,1 milhões
de pessoas, tem renda até R$ 24,9 mil;
- 4% da população, cerca de 10,6
milhões, têm renda até R$ 9.648,00;
- 10%, cerca de 21,2 milhões, têm renda
até R$ 3.590.00; e
- 50% dos brasileiros, 106,1 milhões, têm renda de R$ 1.311,00.
Os baixos salários estão relacionados a
diversos fatores, apontam os especialistas. Uma sucessão de crises econômicas
desde os anos 1980; altos impostos (a carga tributária cresceu de 25% do PIB
nos anos 1990 para 32,4% em 2025); baixa produtividade da economia associada à
insuficiente capacitação da mão de obra e falta de investimentos em
tecnologias e infraestrutura, têm sido considerados impedimentos no crescimento
da economia e dos salários.
O Brasil que entre o final dos anos
1970 e início dos 1980 chegou a ser a oitava nação mais industrializada do
planeta, foi gradualmente perdendo esta posição. Descontrolada abertura do
mercado para produtos estrangeiros, valorização da moeda nacional, juros altos,
cortes de investimentos do Estado na infraestrutura e privatizações –
principais itens da receita do “Consenso de Washington”, adotado para a
economia a partir dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso – foram
fatores decisivos para o processo de desindustrialização do país. Nos anos 1980
a indústria participava com 23% no PIB, enquanto que em 2025 este percentual
caiu para 10,8%. Assim, ao longo dos últimos quarenta anos o setor industrial
perde importância, enquanto o setor financeiro, o agronegócio e o setor de
serviços apresentaram crescimento acelerado.
A mudança do perfil da atividade
econômica não foi vantajosa para os trabalhadores, já que o agronegócio e o
setor de serviços não pagam os mesmos salários que a indústria. O setor
financeiro, incluído nos serviços, só tem dispensado trabalhadores desde os
anos 1990, com a informatização do sistema bancário. No processo, os
profissionais que perderam seus empregos na indústria foram em parte absorvidos
pelo setor de serviços (que emprega 63% da força de trabalho do país),
recebendo salários comparativamente mais baixos. Neste decurso houve um
achatamento geral da remuneração dos trabalhadores em toda a economia, já que excessiva
oferta de mão de obra reduz o valor médio dos salários pagos pelos
empregadores.
Recomeça assim o círculo vicioso: quem
ganha pouco consome menos, reduzindo a demanda e inibindo investimentos
produtivos. O empresário não faz novos investimentos quando seu mercado não demonstra
potencial crescimento da demanda. É mais provável que aplique seus recursos no
mercado financeiro, onde a alta taxa dos juros remunera mais seu capital. Não
investindo em novas unidades fabris ou comerciais, o empreendedor deixa de
criar novos empregos, o que mantêm o nível dos salários baixos ou aumenta o
desemprego.
Essa situação na qual se encontra o
trabalhador brasileiro pode explicar porque quase 25% da população têm pouco ou
nenhum interesse nas próximas eleições. Há uma impressão, baseada em
experiências passadas, de que pouca coisa deve mudar no aspecto econômico da vida das pessoas,
qualquer que seja o candidato que vencer, como já vem acontecendo há algum
tempo. As propagandas dos partidos e dos políticos prometendo melhorias, novos projetos,
tentando transmitir uma expectativa otimista, a muitos já não entusiasmam mais.
Enquanto governos continuarem
priorizando setores como o financeiro, o agronegócio, a exploração mineral e
grandes empreendedores, sem iniciarem projetos de desenvolvimento com a melhoria
do padrão de vida, a maior parte da população vai continuar sem perspectivas
quanto ao seu futuro.
O número daqueles que começam a
perceber isso só tende a aumentar.
Ricardo E. Rose, 21/08/26
(Imagens: desenhos de Käthe Kollwitz, 1867-1945)
“Nem
todos vivemos no mesmo universo. Milhões vivem em um universo muçulmano e têm
muita dificuldade em compreender pessoas que vivem em um universo cristão.
Milhões de outros vivem em um universo marxista. A maioria dos americanos
parece bastante feliz em um universo misto, capitalista do século XIX e cristão
do século XIII, mas a intelectualidade literária vive em um universo
freudiano/marxista do início do século XX, e alguns cientistas bem informados
evidentemente vivem em um universo de 1997 (o
texto foi escrito em 1997). A elaboração de tais realidades êmicas ou
túneis da realidade pode atingir extremos de criatividade, nos quais uma pessoa
‘inventa’ uma interpretação totalmente nova e individualizada de toda a
existência. Tais grandes criadores ou ganharão prêmios Nobel (de arte ou
ciência) ou serão internados em ‘hospitais psiquiátricos’, dependendo de sua
habilidade em vender sua nova visão aos outros.
Alguns
chegam a ser internados em hospícios e, mais tarde, são reconhecidos como
grandes pioneiros da ciência — por exemplo, Semmelweis, o primeiro médico a
sugerir que os cirurgiões lavassem as mãos antes de operar. Ezra Pound (escritor) teve a peculiar distinção de
ganhar um prêmio da Biblioteca do Congresso por escrever o melhor poema do ano,
em 1948, enquanto psiquiatras do governo insistiam que ele ‘era’ louco.”
Robert Anton Wilson (1932-2007), escritor, psicólogo, filósofo e futurista anarquista em Quantum Psychology: How Brain Software Programs You and Your World (Psicologia Quântica: Como o Software do Cérebro Programa Você e o Seu Mundo, 1990)
“Na
cosmologia budista o universo não experimenta uma destruição singular e final.
Em vez disso, opera em vastos ciclos de criação, preservação e dissolução. Essa
natureza cíclica, incorporada no conceito de saṃsāra, descreve a existência como um ciclo infinito de
nascimento, morte e renascimento — não apenas de seres sencientes, mas do
próprio cosmos. Textos como o Aggañña
Sutta e o Satta Suriya Sutta
retratam vividamente esses ciclos cósmicos: ‘O universo se expande (Vivaṭṭa Kappa), permanece estável por
eras, depois se contrai (Saṁvaṭṭa Kappa)
em dissolução — apenas para ressurgir. Como o ritmo da respiração, o cosmos
inspira e expira ao longo dos kalpas
(imensos períodos cósmicos).’ “
“A
cosmologia contemporânea oferece diversas hipóteses dominantes para o destino
final do universo, que ressoam de forma intrigante com as ideias cíclicas
budistas:
O
Grande Congelamento (Morte Térmica): O universo continua se expandindo para
sempre até que as estrelas esgotem seu combustível, deixando um cosmos frio,
diluído e entrópico. Isso ecoa as noções budistas de ‘resfriamento’ cósmico e
cessação, semelhantes ao nirvana como o fim do sofrimento.
O
Big Crunch: A gravidade reverte a expansão, fazendo com que o universo colapse
de volta em uma singularidade quente e densa — paralelo ao conceito budista de
contração cósmica (Saṁvaṭṭa Kappa).
O
Big Rip: A expansão acelerada impulsionada pela energia escura eventualmente
despedaça galáxias, estrelas, planetas e até átomos. Essa destruição pelo ‘vento’
espelha de perto as alegorias budistas de dispersão e dissolução.
Modelos
Cíclicos (oscilatórios): Alguns físicos, como Roger Penrose com sua Cosmologia
Cíclica Conforme, propõem uma sucessão infinita de ‘éons’ ou ciclos Big Bang –
Big Crunch — fortemente reminiscentes dos kalpas
na cosmologia budista. A ciência e o budismo reconhecem a impermanência de
todas as coisas — seja explicada pela entropia da termodinâmica ou pela
profecia dos sete sóis da cosmologia budista.”
Nantakan Imphong, em Buddhist Cosmology Meets Modern Science: A Comparative Study of Thai Buddhist and Scientific Perspectives on the Universe (A Cosmologia Budista Encontra a Ciência Moderna: Um Estudo Comparativo das Perspectivas Budista Tailandesa e Científica sobre o Universo)
“Todos os partidos são variantes do
absolutismo. Não fundaremos mais partidos; o Estado é o seu estado de espírito”.
Raul Seixas (1945-1989), cantor, compositor, produtor musical e agitador cultural brasileiro citado pelo site Pensador
“Sabe-se a que ponto toda a psicologia da civilização de Freud se explica pelos destinos dos impulsos, e qual o papel que nela desempenham os conceitos de sublimação e de recalque. A análise, aplicada à vida psíquica normal, torna claro que ‘os mesmos componentes sexuais que se deixam desviar de suas metas mais imediatas e conduzir para outras são os que proporcionam as contribuições mais importantes para as realizações culturais do indivíduo e da comunidade’. Por recalque, no entanto, ela entende a censura do escrúpulo moral que impede impulsos arcaicos ou socialmente impossíveis de aceder à consciência, seu amordaçamento no inconsciente, processo que é menos criador do que condicionador da civilização, pois a civilização somente é possível sob a pressão de determinadas proibições, mantidas graças a dispositivos morais e físicos de poder; e como uma introjeção efetiva e autêntica dessas proibições, que significaria liberdade, não pôde ser alcançada na maioria dos homens comuns nem mesmo pela santificação religiosa, a consequência é um estado de hipocrisia cultural, favorecido pela lei de silêncio antianalítica que a sociedade impõe no que se refere aos pressupostos sobre os quais está baseada a civilização. ‘A civilização humana’, diz Freud, ‘repousa sobre dois apoios, o primeiro é o domínio sobre as forças da natureza, o segundo, a limitação de nossos impulsos. Escravos acorrentados carregam o trono da soberana. Em meio aos componentes impulsivos tornados assim tão servis, os dos impulsos sexuais – no sentido estrito – se destacam por sua força e selvageria. Ai dela se eles se libertam; o trono seria virado de ponta-cabeça, e a soberana, pisoteada. A sociedade sabe disso – e não quer que se fale desse assunto. ‘Por que não? Porque ela, responde Freud, tem má consciência em mais de um sentido. ‘Em primeiro lugar, ela estabeleceu um ideal elevado de moralidade – moralidade é restrição do impulso – cuja observância ela exige de todos os seus membros, e não se preocupa com o quão difícil essa obediência possa ser para o indivíduo.”
Thomas Mann (1875-1955) romancista, ensaísta, contista e crítico social alemão em Ensaios & Escritos - Pensadores modernos: Freud, Nietzsche, Wagner e Schopenhauer
“Nada
é, tudo está em processo de se tornar.”
Heráclito
de Éfeso (aprox.
500-450 aec), filósofo grego