“A mineração exigiu intercâmbio com
as Capitanias do norte e do sul, no primeiro momento de integração nacional. A
área devia importar gêneros alimentícios, artigos elaborados. O ouro provocou a
mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763. Criou uma
consciência nacional, traduzida em rebeliões contra o poder português ou em um
movimento artístico fecundo. A riqueza pouco ficava em Minas ou no Brasil; nem
mesmo em Portugal, pois ouro e diamante só passavam por Lisboa, indo para os
Países Baixos — aí se fazia a lapidação dos diamantes, ou para a Inglaterra, em
pagamento das inúmeras e dispensáveis importações. Como antes com as
especiarias e com o açúcar, o português perdia outra oportunidade. Em obras
suntuárias e não reprodutivas, na desorganização de um governo pouco lúcido
para o econômico, esvaía-se a riqueza.
Lembre-se, a propósito, o célebre Tratado de Methuen, em 1703 — quando
começa a aparecer o Ouro —, entre Portugal e Inglaterra. Em termos simples,
Portugal compromete-se 'para sempre' a importar tecidos ingleses, enquanto a
Inglaterra compromete-se a importar vinhos portugueses. É outro momento
marcante das relações entre os dois países, vindo de longe e marcado pela
desigualdade de tratamento, com a submissão portuguesa. O assunto já foi muito
estudado, aparecendo mesmo em clássicos como Montesquieu e Adam Smith.”
“É geral a impressão de
desenvolvimento. Multiplicam-se as iniciativas, não mais, como na regência de
D. João, sob o signo oficial, mas pelo investimento privado. As chamadas
fábricas nacionais encontram-se no Rio e nas províncias, para tecidos, chapéus,
sapatos, couros, vidros, rapé, cerveja, sabão. A contar de 1860, realizam-se
exposições industriais — fato significativo, apesar da modéstia do que se exibe
e sua falta de repercussão. O país parecia maduro, consolidado — os indivíduos
agiam, respirava-se confiança. Constroem-se ferrovias e instala-se o telégrafo,
em busca da integração nacional. Aparece o que o ministro da Agricultura Manuel
Buarque de Macedo, em 1880, chama ‘a nobre impaciência do amor do progresso’.
Em parte dos dirigentes nacionais desenvolve-se o gosto pelas inovações, com o
abandono da rotina, em nome de ideias novas, realizações materiais condutoras
ao enriquecimento. É a modernização para um Brasil rico, livre, realizador,
como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos.
É a ‘era Mauá’. Irineu Evangelista de
Souza — Barão e depois Visconde de Mauá — domina a década com trabalhos de industrial
ousado, banqueiro, construtor de ferrovias, empresário de navegação, introdutor
de inovações tecnológicas, político, diplomata. Sua ação estende-se por todo o
Brasil e mesmo áreas vizinhas, como o Uruguai, sem falar em participações
bancárias, como as de Montevidéu, Buenos Aires, Nova Iorque, Paris, Londres,
Manchester. É o melhor símbolo da euforia de então, quando o país parece
despertar do torpor e se lança à aventura econômica e financeira, como se fosse
a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos. Mauá tem os traços do grande empresário,
aquele que se joga no negócio com crença, entusiasmo, domínio da situação,
vencedor. É raro no Brasil, de ontem ou de hoje, essa figura que marca com
traço forte a história do capitalismo, essa psicologia do pioneiro que é
criação de um sistema.”
Francisco Iglesias (1923-1999), economista e historiador brasileiro em A Industrialização Brasileira (1985)