É Carnaval!
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026Leituras diárias
“Essa tese primordial compele-nos a
supor que as diferentes formas de prática a que correspondem os diferentes
períodos ou modos de desenvolvimento sócio-psíquico determinam a formação de
processos psicológicos que se diferenciam pela sua própria estrutura, e que as
pessoas que vivem nas condições de diferentes regimes históricos diferenciam-se
não apenas pelas diferentes formas de prática e pelos diferentes conteúdos de
sua consciência, mas também pelas diferentes estruturas das formas fundamentais
da atividade consciente.
Com isso, nossa tese básica também
nos leva a presumir que as mudanças histórico-sociais significativas –
mudanças vinculadas à alteração dos regimes sócio-históricos e a transformações
culturais radicais – conduzem a mudanças radicais na estrutura dos processos
psíquicos e, em primeiro lugar, à reestruturação radical da atividade
cognitiva. Tal reestruturação implica não apenas a utilização de novos códigos
de organização da atividade cognitiva, mas também uma mudança fundamental na
correlação dos processos psíquicos com cuja ajuda essa atividade cognitiva
desencadeia a sua efetivação.”
Alexander Luria (1902-1977) psicólogo russo, pioneiro da psicologia do desenvolvimento e da neuropsicologia em A Psicologia como Ciência Histórica
Élisée Reclus
domingo, 15 de fevereiro de 2026“Dominados
pelo terror do desconhecido, bem como pela sensação de impotência na busca por
causas, os homens criaram no passado uma ou mais divindades providenciais em
seu intenso desejo, que representavam para eles, alternadamente, um ideal mais
ou menos informe e o fulcro, o eixo de todo este mundo misterioso, visível e
invisível, que os cerca. Tais fantasmas da imaginação, revestidos de
onipotência, tornaram-se aos olhos dos homens o princípio de toda justiça e
autoridade; senhores dos céus, consequentemente tinham intérpretes na terra,
magos, conselheiros, capitães, diante dos quais os homens se prostravam como se
esses seres fossem verdadeiramente emanações do alto.
Isso
era lógico; mas o homem sobrevive às suas obras, e esses deuses que ele criou não
cessaram de se transformar continuamente, como sombras projetadas no infinito.
Visíveis a princípio, impulsionados por paixões humanas, violentas e terríveis,
eles recuaram pouco a pouco para a imensidão da distância. Os deuses acabaram
se tornando abstrações, ideias sublimes que não podem ser nomeadas, até que
gradualmente passaram a ser confundidos com as próprias leis naturais do mundo e
assim retornaram ao universo material, que, segundo a lenda, haviam criado do
nada. Assim, o homem hoje se encontra sozinho na Terra, sobre a qual já havia
erguido a imagem colossal de um Deus.”
“A
crítica desrespeitosa a que o Estado é submetido é exercida igualmente contra
todas as instituições sociais. O povo não acredita, de modo algum, na origem
pura da propriedade privada, produzida, como diziam os economistas (agora não
se atrevem a repetir), unicamente pelo trabalho pessoal dos proprietários Sabe
muito bem que o trabalho individual jamais criou milhões e milhões, e que os
enriquecimentos monstruosos de nossos dias são todos consequência da falsa ordem
social, que confere a uma pessoa o direito de se apropriar do produto do
trabalho de mil outras. Esse povo respeitará o pão que o trabalhador ganhou com
o seu esforço, a cabana que construiu com as próprias mãos, a horta que
cultiva, mas certamente perderá todo o respeito pelas mil propriedades
fictícias representadas pelos papéis de todos os tipos depositados nos bancos.”
Élisée Reclus (1830-1905), geógrafo, pensador, escritor e militante anarquista francês em La Anarquia (A Anarquia)
Labels: Autores, Cultura, Jornalistas/Escritores, Política, Sociologia
O que dizem os jornalistas
sábado, 14 de fevereiro de 2026Apparício Fernando de Brinkerhoff
Torelly, também conhecido pelo falso título de nobreza de Barão
de Itararé (1895-1971), foi jornalista, escritor e pioneiro do
humorismo político brasileiro. Iniciou estudos de medicina, que mais tarde
abandona, e paralelamente começa a contribuir em jornais de seu estado, o Rio
Grande do Sul. Em 1925 muda para o Rio de Janeiro e começa a trabalhar para o
jornal O Globo. No ano seguinte passa
a escrever coluna humorística do jornal A
Manhã e ainda no mesmo ano cria seu próprio semanário, A Manha.
Durante
a Revolução de 1930, propagou-se pela imprensa
que haveria uma batalha sangrenta em Itararé,
na divisa de São Paulo com o Paraná.
Mas antes que houvesse a batalha ‘mais sangrenta da América do Sul’, fizeram
acordos. Uma junta governativa assumia o poder no Rio de Janeiro e não
aconteceu nenhum conflito. O Barão de Itararé comentaria este fato mais tarde
da seguinte maneira:
‘Foi então que resolvi conceder a mim mesmo
uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito,
não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que
não houve.’
Na
verdade, em outubro de 1930, Apparicio se autodeclara ‘duque’ nas páginas de A Manha:
‘O Brasil é muito grande para tão poucos
duques. Nós temos o quê por aqui? O duque Amorim, que é o duque dançarino, que
dança bem mas não briga e o duque de Caxias que briga muito bem, mas não dança.
E agora eu, que brigo e danço conforme a música.'
Mas,
como ele próprio anunciara semanas depois, ‘como prova de modéstia, passei a
barão’.
Em
1934, fundou também o Jornal do Povo.
Nos dez dias em que durou, o jornal publicou em fascículos a história de João Cândido,
um dos marinheiros da Revolta da Chibata, de 1910. Em represália, o
barão foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha, até hoje nunca
identificados. Depois desse episódio, voltou à redação do jornal e colocou uma
placa na porta onde se lia: ‘Entre sem
bater’, mantendo o seu espírito humorístico.
O
jornal A Manha circulou até
fins de 1935, quando o Barão foi preso por ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), então
clandestino. Foi libertado em dezembro de 1936, já ostentando a volumosa barba
que cultivaria por boa parte de sua vida. Retomou o jornal por um curto
período, até que viesse nova interrupção, ao longo de todo o Estado Novo e voltando em edições
espasmódicas até 1959.
Foi
candidato em 1947 a vereador do então Distrito Federal, com o
lema ‘Mais leite! Mais água! Mas menos
água no leite’. Porém, em janeiro de 1948, os vereadores do PCB foram
cassados: ‘Um dia é da caça... os outros
da cassação’, anunciou A Manha.
No
final dos anos 1950, foi deixando o humor de lado e
passou a se interessar pela ciência, e pelo esoterismo,
estudou filosofia hermética, as pirâmides do Antigo Egito e
a astrologia,
campo no qual desenvolveu o ‘horóscopo biônico’. Faleceu, dormindo, em seu
apartamento no bairro carioca de Laranjeiras.
(Fonte do texto: adaptação de texto da Wikipedia)
Algumas
observações do Barão de Itararé:
“A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer.”
“Os homens nascem iguais, mas no dia
seguinte já são diferentes.”
“A forca é o mais desagradável dos
instrumentos de corda.”
“O tambor faz muito barulho, mas é vazio
por dentro.”
“De onde menos se espera, daí é que não
sai nada.”
“Nunca desista do seu sonho. Se acabou
numa padaria, procure em outra!”
“A moral dos políticos é como elevador:
sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona
definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.”
“Os bancos das praças estão sempre
ocupados por desocupados”
“Este mundo é redondo, mas está ficando
muito chato.”
“Tudo é relativo: o tempo que dura um
minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.”
(Fonte das frases: Site Bula Revista, Acervo O Globo e Site Cliente SA)
Frases de Meio Ambiente
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026(...)
nada pode ser mais perigoso que supor que a sustentabilidade exija a
durabilidade das organizações, e particularmente das empresas, como muitos
parecem acreditar, pois pode ocorrer exatamente o inverso. A sustentabilidade
sistêmica da sociedade pode depender justamente da intensificação do processo econômico
de destruição criativa. Como nos ecossistemas, o que está em risco é sua
resiliência , e não a durabilidade específica de seus indivíduos, ou mesmo de
suas espécies.” (Veiga, pág. 23)
José Eli da Veiga (1948-), economista, agrônomo e professor aposentado da FEA/USP em Economia Socioambiental
Dia de Charles Darwin
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026Labels: Antropologia, Autores, Ciência, Cultura, Sociologia
Outras leituras
“Aquele
otimismo que foi o destino de tantos europeus durante quatro séculos acabou. O
destino retorna à História, e, de repente, nos perguntamos para onde estamos
indo. Nos perguntamos por que as coisas nos acontecem da maneira que acontecem.
A bela fé de nossos pais no progresso ilimitado, que acompanhava uma vida cada
vez mais humana, desapareceu. Andamos em círculos e nem conseguimos conceber
nossas obras.”
“É
tarde demais. A História não para mais. Somos arrastados por ela, e a
inclinação de seus planos nos impede de esperar qualquer desaceleração.
Caminhamos para uma catástrofe planetária, e o universo está cheio de pessoas
que a desejam e a desejarão cada vez mais, para escapar da ordem, uma ordem
cada vez mais absurda e mantida apenas pelo preconceito da coerência e,
portanto, da humanidade humana.”
“O
mundo em que vivemos é duro, frio, sombrio, injusto e metódico. Seus
governantes são imbecis patéticos ou profundamente perversos; nenhum é mais
adequado a esta era. Somos superados, sejamos pequenos ou grandes. A
legitimidade parece inconcebível, e o poder nada mais é do que um poder de
fato, um mal menor ao qual nos resignamos. Se todas as classes dominantes
fossem exterminadas de polo a polo, nada teria mudado. A ordem estabelecida há
cinquenta séculos não seria sequer perturbada. A marcha para a morte não
pararia um único dia, e os rebeldes triunfantes não teriam escolha a não ser
serem herdeiros de tradições ultrapassadas e imperativos absurdos.”
Albert Caraco (1919-1971), filósofo, escritor, ensaísta e poeta franco-uruguaio em Breviario del Caos
Coisa No. 2 - Sérgio Mendes
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026Música brasileira
Sérgio Mendes
Álbum: The Beat of Brazil (1967)
Música: Coisa No. 2
Sérgio
Santos Mendes (1941 – 2024) foi um músico brasileiro,
conhecido internacionalmente na difusão da bossa nova,
do samba e
da MPB.
Conquistou 1 Grammy,
2 Grammy Latino,
foi indicado ao Oscar de melhor canção original e
é o recordista
brasileiro de ingressos na Billboard Hot 100.
Sérgio
Mendes começou com o Sexteto Bossa Rio,
gravando o disco Dance Moderno em
1961. Viajando pela Europa e pelos Estados
Unidos, gravou vários álbuns com
Cannonball Adderley e Herbie Mann,
chegando a tocar no Carnegie Hall.
Mudou-se para os EUA em 1964 e produziu dois álbuns sob o nome de Brasil
'64, com a Capitol Records e a Atlantic Records. Foi nos Estados Unidos
que começou o grupo Sérgio Mendes
& Brasil 66, alcançando sucesso ao lançar a canção "Mas que Nada",
de Jorge Ben Jor, em versão Bossa Nova.
Seu
reencontro com o grande público se deu em 1984, com o lançamento do
disco e sucesso Never Gonna Let You
Go, chegando a quarto lugar nas paradas. Pouco depois lançou o álbum Confetti, contendo entre outras músicas
"Olympia", feita para as Olimpíadas de 1984 em
Los Angeles. Nos anos 90, criou a banda Brasil 99, com a qual gravou o
disco Brasileiro, que, além de levá-lo de volta às paradas de sucesso,
rendeu-lhe o Grammy de 1993 na
categoria World Music.
Tem mais de trinta discos lançados, e o mais recente deles conta com
participações especiais de, entre outros, Stevie Wonder e Black Eyed
Peas. A música "Never Gonna Let You Go", de Sérgio Mendes,
tem as participações de Joe Pizzulo e Leza Miller nos
vocais.
(Fonte do texto: Wikipedia)
Stefan Zweig
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026“Talvez seja difícil para a geração de hoje, que cresceu entre catástrofes, derrocadas e crises, para quem a guerra é uma possibilidade permanente e uma expectativa quase diária, descrever o otimismo e a confiança no mundo que nos animavam, a nós jovens, naquela virada do século. Quarenta anos de paz tinham fortalecido o organismo econômico dos países, a técnica acelerara o ritmo das vidas, as descobertas científicas deram altivez ao espírito daquela geração; começou um impulso que podia ser sentido em todos o países da Europa. As cidades ficavam a cada ano mais bonitas e mais povoadas, a Berlim de 1905 não parecia mais a que eu conhecera em 1901, a cidade-residência tornara-se uma cidade cosmopolita, e já estava sendo grandiosamente superada pela Berlim de 1910. Viena, Milão, Paris, Londres e Amsterdã – a cada retorno ficava-se espantado e feliz; as ruas estavam mais largas e luxuosas, mais imponentes os edifícios públicos, e as lojas mostravam mais bom gosto. Em tudo sentia-se que a riqueza crescia e se espalhava; mesmo nós escritores notávamos isso nas edições que triplicavam, quintuplicavam, ficaram dez vezes maiores naquele lapso de dez anos.
Por toda parte surgiam novos teatros, bibliotecas,
museus; confortos como banheiro e telefone, antes privilégios de pequenos
círculos, entravam nos meios pequeno-burgueses, e, como a jornada de trabalho
fora reduzida, o proletariado ascendia para participar pelo menos nas pequenas
alegrias e comodidades da vida. Por toda parte, progresso. Quem ousasse,
ganhava. Quem comprava uma casa, um quadro, um livro raro via o seu valor
subir, quanto mais audacioso e generoso fora um empreendimento tanto mais certo
o lucro. Uma maravilhosa despreocupação tomara conta do mundo por causa disso,
pois o interromperia essa ascensão, o que inibiria o entusiasmo que se
fortalecia com seu próprio impulso? Nunca a Europa estivera mais forte, mais
rica, mais bela, nunca acreditou mais intensamente num futuro ainda melhor;
ninguém, além de alguns anciãos já engelhados, continuava lamentando ‘os bons
velhos tempos’.” (Zweig, págs. 235 e 236).
Stefan Zweig (1881-1942) escritor austríaco em O mundo que eu vi
Leituras diárias
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026“Meus colegas argumentam que os
critérios de beleza são baseados na experiência. As teorias mais fundamentais
que temos atualmente — o modelo padrão da física de partículas e a relatividade
geral de Albert Einstein — são belas de maneiras específicas. Concordo que
valeu a pena tentar assumir que teorias mais fundamentais são belas de maneiras
semelhantes. Mas, bem, tentamos e não funcionou. No entanto, os físicos
continuam a selecionar teorias com base nos mesmos três critérios de beleza:
simplicidade, naturalidade e elegância.
Com simplicidade, não me refiro à navalha
de Occam, que exige que, entre duas teorias que alcançam o mesmo objetivo,
você escolha a mais simples. Não, quero dizer simplicidade absoluta: uma teoria
deve ser simples, ponto final. Quando as teorias não são simples o suficiente
para o gosto dos meus colegas, eles tentam torná-las mais simples — unificando
várias forças ou postulando novas simetrias que combinam partículas em
conjuntos ordenados. O segundo critério é a naturalidade. Naturalidade é uma
tentativa de se livrar do elemento humano, exigindo que uma teoria não use
suposições que pareçam escolhidas a dedo. Esse critério é mais frequentemente
aplicado aos valores de constantes sem unidades, como as razões das massas das
partículas elementares. A naturalidade exige que tais números sejam próximos de
um ou, se não for o caso, a teoria explique por que não é assim. Depois, há a
elegância, o terceiro e mais elusivo aspecto da beleza. É frequentemente
descrita como uma combinação de simplicidade e surpresa que, em conjunto,
revela novas conexões. Encontramos elegância no ‘efeito Aha!’, o momento de
percepção em que as coisas se encaixam. Os físicos atualmente consideram uma
teoria promissora se ela for bela, de acordo com esses três critérios. Isso os
levou a prever, por exemplo, que os prótons deveriam ser capazes de decair.
Experimentos têm procurado isso desde a década de 1980, mas até agora ninguém
viu um próton decair. Os teóricos também previram que seríamos capazes de
detectar partículas de matéria escura, como áxions ou partículas massivas de
interação fraca (WIMPs). Encomendamos dezenas de experimentos, mas não
encontramos nenhuma das partículas hipotéticas – pelo menos até agora. Os
mesmos critérios de simetria e naturalidade levaram muitos físicos a acreditar
que o Grande Colisor de Hádrons (LHC) deveria ver algo novo além do bóson de
Higgs, por exemplo, as chamadas partículas 'supersimétricas' ou
dimensões adicionais do espaço. Mas nenhuma foi encontrada até agora." (Hossenfelder, págs. 16 e 17).
"Minha conclusão a partir dessa longa
série de resultados nulos é que, quando a física tenta retificar uma falta de
beleza percebida, perdemos tempo com problemas que não são realmente problemas.
Os físicos devem repensar seus métodos agora – antes de começarmos a discutir
se o mundo precisa de um próximo colisor de partículas maior ou de mais uma
busca por matéria escura. A resposta não pode ser que tudo vale, é claro. A
ideia de que novas teorias devem resolver problemas existentes é boa em
princípio – só que, atualmente, os próprios problemas não são formulados com
precisão suficiente para que esse critério seja útil. A base conceitual e
filosófica do raciocínio nos fundamentos da física é fraca, e isso precisa
melhorar. Não adianta, e não é uma boa prática científica exigir que a natureza
se conforme aos nossos ideais de beleza. Devemos deixar que as evidências abram
caminho para novas leis da natureza. Tenho certeza de que a beleza nos
aguardará lá.” (Hossenfelder, págs. 19 e 20).
Sabine Hossenfelder (1976-), física teórica e divulgadora científica alemã no artigo Beauty is truth, truth is beauty, and other lies of physics (Beleza é verdade, verdade é beleza e outras mentiras da física), publicado em Cognition Switch # 2 – Jan 2019 (sem tradução)
A frase do dia
domingo, 8 de fevereiro de 2026“As
ciências não tentam explicar, dificilmente tentam interpretar; elas criam
principalmente modelos. Por modelo entende-se uma construção matemática que,
com a adição de certas interpretações verbais, descreve fenômenos observados. A
justificativa de tal construção matemática é única e precisamente a de que se
espera que ela funcione.”
John von Neumann (1903-1957), matemático, físico, cientista da computação e engenheiro húngaro, citado em Goodreads
Steven Weinberg
sábado, 7 de fevereiro de 2026“Assim,
o mundo opera sobre nós como uma máquina pedagógica, dando momentos de
satisfação como reforço positivo a nossas boas ideias. Depois de séculos,
aprendemos quais são os tipos possíveis de entendimento e como podemos chegar a
eles. Aprendemos a não nos preocupar com finalidades, pois essas preocupações
nunca levam ao tipo de prazer que buscamos. Aprendemos a abandonar a busca de
certeza, porque os entendimentos que nos deixam felizes nunca são certos.
Aprendemos a fazer experimentos, sem nos preocupar com a artificialidade de
nossas montagens. Desenvolvemos um senso estético que nos fornece pistas sobre
teorias que funcionarão, o que aumenta ainda mais nosso prazer quando elas
realmente funcionam. Nossos entendimentos são cumulativos. Não é algo
planejado, é imprevisível, mas leva ao conhecimento confiável e nos dá alegria
ao longo do caminho.”
Steven Weinberg (1933-2021), físico teórico e Prêmio
Nobel de Física estadunidense em Para
Explicar o Mundo – A descoberta da ciência moderna
Genesco Murta (1885-1967)
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026O que eles pensam
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026Antipolítica desgovernativa
“Essa
concepção antipolítica e antidemocrática da política definiu aqui o nervo de
uma cultura política desconstrutiva. A política já não como ato de governar,
mas de desgovernar, de desmontar o governo. Essa política é desgovernativa.
A
trama de direita no Brasil ganhou, em consequência, um perfil peculiar e notoriamente
patológico. Uma grande massa de pessoas que votam eleitoralmente, mas não votam
politicamente, passou a caracterizar a possibilidade de uma maioria com grande
chance de se tornar governo para desgovernar.
É
significativo o número de evangélicos, sobretudo de igrejas pentecostais, mas
não só delas, que compõe essa massa identificada com o propósito de ter um
governo que não governa, apenas administra as manobras políticas que
despolitizam o Estado e o governo. Que distribui migalhas e benefícios de
governo entre grupos de interesse, facções de várias motivações, grupos
religiosos. Política já se tornou entre nós a arte de desgovernar.”
José de Souza Martins (1938-), sociólogo, professor emérito da USP e da universidade de Cambridge. Pesquisador do CNPQ e membro da Academia Paulista de Letras. Trecho do artigo “O equívoco de ser qualquer um”, publicado no jornal Valor de 23/01/2026.
Determinismo Tecnológico
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026“No século XXI, uma nova forma de determinismo tomou forma — uma que não se origina das leis naturais da física ou da vontade divina, mas de sistemas criados pelo homem. O determinismo tecnológico é a ideia de que, uma vez desenvolvidas certas tecnologias, elas inevitavelmente moldam a sociedade de maneiras específicas. Quando combinado com a ascensão da inteligência artificial e do big data, isso evoluiu para o determinismo algorítmico, em que sistemas automatizados influenciam e preveem cada vez mais o comportamento humano.”
“No final do século XX e início do século XXI, a ascensão da internet e das tecnologias digitais levou isso a um novo patamar. Pensadores como Marshall McLuhan argumentaram que ‘o meio é a mensagem’, o que significa que a forma de uma tecnologia pode ser tão influente quanto seu conteúdo. De acordo com essa visão, as tecnologias não atendem apenas às necessidades humanas — elas mudam a maneira como os humanos pensam, se comunicam e até mesmo percebem a realidade. O determinismo algorítmico leva isso adiante. Algoritmos — conjuntos de instruções codificadas que processam dados e produzem saídas — agora desempenham um papel central na vida cotidiana. Eles decidem quais notícias aparecem no seu feed de mídia social, quais filmes são recomendados para você e quais anúncios você vê online. Eles são usados em processos de contratação, pontuação de crédito, sentenças criminais e até mesmo policiamento preditivo. Uma característica fundamental dos sistemas algorítmicos é sua capacidade de aprender com grandes quantidades de dados — um processo conhecido como aprendizado de máquina. Isso lhes permite identificar padrões e fazer previsões sobre o comportamento humano com notável precisão. Por exemplo, plataformas de streaming podem prever com alto grau de confiabilidade quais programas você provavelmente assistirá em seguida. Embora essas previsões possam parecer convenientes, elas também levantam questões importantes sobre autonomia. Se nossas escolhas são continuamente moldadas por recomendações algorítmicas, estamos realmente decidindo por nós mesmos?”
“O desafio reside no fato de que o
determinismo algorítmico é amplamente invisível. As pessoas podem não perceber
o quanto de sua experiência online é
controlada por sistemas invisíveis. Essa falta de transparência pode dificultar
a compreensão — e, portanto, o questionamento — das influências que moldam
nossas decisões. No contexto mais amplo do determinismo, a tecnologia adiciona
uma nova camada de causalidade às nossas vidas. Nossas preferências, oportunidades
e até mesmo crenças podem ser moldadas por sistemas projetados não para nos
controlar diretamente, mas para otimizar certos resultados, muitas vezes
impulsionados por incentivos comerciais ou políticos. Se essa influência é
vista como benigna, manipuladora ou inevitável depende da perspectiva de cada
um.”
The Practical Atlas, Understanding Determinism: How Cause, Choice, and Consequence Shape Our Lives and the Universe (O Atlas Prático, Compreendendo o Determinismo: Como Causa, Escolha e Consequência Moldam Nossas Vidas e o Universo)
Labels: Antropologia, Assim se vive no Brasil, Ciência, Cultura, Sociologia
Essa não poderia faltar
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026November Song (1973)
https://www.youtube.com/watch?v=wH4NefZVYns&list=RDwH4NefZVYns&start_radio=1
Maringoni
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026Leituras diárias
“A visão
de conjunto – ressalve-se – é sempre provisória e nunca pode pretender esgotar
a realidade a que ele se refere. A realidade é sempre mais rica do que o
conhecimento que temos dela. Há sempre algo que escapa às nossas sínteses;
isso, porém, não nos dispensa do esforço de elaborar sínteses, se quisermos
entender melhor a nossa realidade. A síntese é a visão de conjunto que permite
ao homem descobrir a estrutura significativa da realidade com que se defronta,
numa situação dada. E é essa estrutura significativa – que a visão de conjunto
proporciona – que é chamada de totalidade.
A
totalidade é mais do que a soma das partes que a constituem. No trabalho, por
exemplo, dez pessoas bem entrosadas produzem mais do que a soma das produções
individuais de cada uma delas, isoladamente considerada. Na maneira de se
articularem e de constituírem uma totalidade, os elementos individuais assumem
características que não teriam, caso permanecessem fora do conjunto. Há
totalidades mais abrangentes e totalidades menos abrangentes: as menos
abrangentes, é claro, fazem parte das outras. A maior ou menor abrangência de
uma totalidade depende do nível de generalização do pensamento dos objetivos
concretos dos homens em cada situação dada.
Para
trabalhar dialeticamente com o conceito de totalidade, é muito importante
sabermos qual é o nível de totalização exigido pelo conjunto de problemas com
que estamos nos defrontando; e é muito importante, também, nunca esquecermos
que a totalidade é apenas um momento de um processo de totalização (que,
conforme já advertimos, nunca alcança uma etapa definitiva e acabada). Afinal,
a dialética – maneira de pensar elaborada em função da necessidade de
reconhecermos a constante emergência do novo na realidade humana – negar-se-ia
a si mesma, caso cristalizasse ou coagulasse suas sínteses, recusando-se a
revê-las, mesmo em face de situações modificadas.”
Leandro Konder (1936-2014), filósofo brasileiro em O que é dialética
Amazônia em 1918
domingo, 1 de fevereiro de 2026Veja imagens da região amazônica, sua floresta, seus habitantes e cidades no início do século XX, no link para o filme abaixo:
Labels: Antropologia, Artigo técnico, Assim se vive no Brasil, Ciência, Cultura, Gestão de recursos, Sociologia
Bruce Hood
sábado, 31 de janeiro de 2026“Nós
observamos as galáxias mais distantes exploramos os mistérios subatômicos por
meio da nossa ciência. A ciência deveria ser a base do nosso conhecimento e
sabedoria. Mesmo assim, a crença no sobrenatural – crenças que não são naturais
ou científicas – ainda são bem comuns.
Se a
ciência faz tanto sucesso, por que a maioria das pessoas ignora o que ela tem a
dizer em relação ao sobrenatural? Por que o público como um todo não dá ouvidos
aos cientistas que dizem que tais crenças são infundadas? Nesse ponto, eu
gostaria de chamar a atenção para o fato de que as crenças sobrenaturais geralmente
aparecem em duas formas diferentes. Há crenças sobrenaturais religiosas (Deus,
anjos, demônios, reencarnação, céu, inferno e assim por diante) e crenças
sobrenaturais seculares (como telepatia, clarividência, percepção
extrassensorial). Todas as religiões são baseadas em crenças sobrenaturais, mas
nem todas as crenças sobrenaturais são baseadas em religião. Essa é uma
distinção importante, pois existem argumentos e grupos de interesse muito
poderosos envolvidos na diferenciação entre religião, ciência e
sobrenaturalismo.”
Bruce Hood, psicólogo e filósofo canadense em Supersentido – Por que acreditamos no inacreditável
Labels: Antropologia, Autores, Cultura, Filosofia, Filósofos, Sociologia
Bye bye Brasil - Chico Buarque
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026Música brasileira
Chico Buarque
Álbum: Vida (1980)
Música: Bye bye Brasil
https://www.youtube.com/watch?v=jyvexkKMH6c&list=RDjyvexkKMH6c&index=1
"Bye Bye Brasil" é uma famosa canção
de Chico
Buarque, composta em parceria com Roberto Menescal em 1979 para o filme homônimo dirigido por Cacá Diegues. A música retrata as transformações e a
modernização do Brasil, misturando nostalgia e uma visão crítica social através
de imagens do cotidiano. A letra de "Bye bye Brasil" narra basicamente a história de um personagem
que, por um telefone público, conta suas aventuras errantes para a namorada.
Como
Chico Buarque havia preparado uma
letra muito maior do que se poderia encaixar no filme, Cacá Diegues decidiu sobre o corte final da canção. O diretor
chegou a pedir que o compositor fizesse pequenas alterações, entre as quais, o
verso 'tem um japonês trás de mim' - o diretor receava que pudesse
aludir a Shigeaki Ueki, ministro das Minas e Energia do
governo Geisel.
Sem jamais ter confirmado tampouco negado a suposta referência, o compositor
manteve o verso.
(Fonte
do texto: AI Overview e Wikipedia)
Leda Catunda (1961-)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026O que eles pensam
Oportunistas e seus
cúmplices
“Não é sempre que um sociólogo tem a
oportunidade de observar ao vivo um processo de transição social tão radical
como este que agora se dá a ver na contradição reveladora do que fizeram
conosco. E, também, do que é o poder da ignorância, da facilidade com que se
aproveitaram de nossa inocência.
Quando nos demos conta, na lentidão do
período que chega ao fim, uma família de oportunistas profissionais tinha se
apoderado do país, fez-se acompanhar de uma multidão de agregados e cúmplices,
gente que se não fossem as fake news sobre adversários, as manipulações de
impressões e de informações sobre pessoas e realidades, jamais chegaria ao
poder.”
José de Souza
Martins (1938-) sociólogo, escritor e professor aposentado da USP em
artigo Estado do paciente, publicado no jornal Valor em
9/01/2026
Leituras diárias
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026“Petrarca, o grande poeta, escritor e estudioso, é, portanto, uma figura ambígua e transitória quando julgada por seu papel na história do pensamento filosófico. Seu pensamento é aspirações e não ideias desenvolvidas, mas essas aspirações foram desenvolvidas por pensadores posteriores e, com o tempo, transformadas em ideias mais elaboradas. Seu programa intelectual pode ser resumido na fórmula que ele usa às vezes no tratado Sobre Sua Ignorância: sabedoria platônica, dogma cristão, eloquência ciceroniana. Sua cultura clássica, sua fé cristã e seu ataque à escolástica são todos pessoais e, de certa forma, modernos. Ao mesmo tempo, tudo o que ele diz é permeado por suas fontes clássicas e, frequentemente, pelos vestígios remanescentes do pensamento medieval. O antigo e o novo estão inextricavelmente interligados, e devemos evitar enfatizar apenas um lado ou outro, como frequentemente se faz. Não podemos sequer dizer que, em termos de seu próprio pensamento, o antigo é acidental e apenas o novo é essencial. Se quisermos fazer-lhe justiça e compreender sua peculiar estrutura mental, devemos aceitar o antigo e o novo como componentes igualmente essenciais de seu pensamento e perspectiva. Nesse aspecto, e em tantos outros, Petrarca é um representante típico de sua época e do movimento humanista. Podemos até ir um passo além: Petrarca não apenas antecipou os desenvolvimentos posteriores do Renascimento por ser excepcionalmente talentoso ou um filósofo (e político) profético; ele foi um daqueles que previram o futuro porque ajudou a torná-lo realidade.” (Kristeller, págs. 33 e 34).
“Por fim, os humanistas trouxeram para a filosofia sua preferência por determinados problemas e temas. Se é difícil vê-los concordando em opiniões filosóficas específicas, é fácil notar sua orientação comum em alguns de seus tópicos favoritos, bem como em seu classicismo e estilo de apresentação. A ênfase em problemas morais e humanos, especialmente no que diz respeito à dignidade do homem e seu lugar no universo, parece intimamente relacionada ao credo central dos humanistas. Eles também estavam invariavelmente preocupados com os problemas do livre-arbítrio, do destino e da sorte, com os direitos de mérito e nascimento no julgamento do valor de uma pessoa, e com as questões atuais da ética antiga. Quando se aventuraram fora da ética, em outros ramos da filosofia tradicional, interessavam-se por tratar o assunto com a maior clareza e simplicidade, e em conformidade com suas autoridades (pensadores) antigas preferidas. Ao mesmo tempo, conseguiram fazer algumas contribuições originais, especialmente no campo da lógica.” (Kristeller, págs. 40 e 41).
Paul Oskar Kristeller (1905-1999), historiador e professor teuto-estadunidense
em Ocho filósofos del Renacimiento
italiano (Oito filósofos do Renascimento italiano)

.jpg)





























