A frase do dia
“O talento de falar de
maneira diferente, mais que o de argumentar bem, é o principal instrumento da
transformação cultural.”
Richard Rorty (1931-2007) filósofo e professor estadunidense , citado por Stephen Batchelor em Budismo sem Crenças
José de Alcântara Machado Oliveira
domingo, 15 de março de 2026(A casa do bandeirante na cidade)
“Pouco, na verdade, os que restam desse
tempo. Alheio à preocupação da beleza, o construtor não tem sequer a ânsia
profundamente humana de duração. Despreza o granito, os elementos nobres.
Aplica sem discernimento materiais que não suportam o clima, nem resistem ao
tempo. No século XVIII se torna forçosa a reconstrução de quase todos os
templos primitivos.
A pobreza da vila é de explicação
facílima. Resulta da supremacia inconteste do meio rural sobre o meio urbano,
supremacia que não entra a declinar senão mais tarde, com o advento do
Império.”
“Na cidade o fazendeiro tem apenas a
sua casa para descansar alguns dias, liquidar um ou outro negócio, assistir as
festas civis ou religiosas. Um pouco. Nada mais. Só nos dias santos é que há
gente na vila, e por isso mesmo são eles os escolhidos para o praceamento
dos bens de órfãos.”
(a casa no campo)
"Representa em suma a habitação
permanente, o centro da atividade social, o solar da família. A outra, a da
vila, de proporções modestas é apenas um teto destinado a abrigar o dono
durante alguns dias ou semanas, e que, tirante ocasiões, permanece deserta e
silenciosa, a entristecer o povoado.”
José de Alcântara Machado Oliveira (1875-1941), jurista, historiador, escritor, professor e político brasileiro em Vida e Morte do Bandeirante
Leituras diárias
sábado, 14 de março de 2026“Há
uma série de afirmações sobre as quais os budistas podem ser descritos como
céticos, como a afirmação de que existe um Ishvara (Deus pessoal).
Eles não são, no entanto, céticos quanto à existência de um eu: afirmam que podemos
saber que tal coisa não existe. Mas nenhum budista indiano é cético quanto a
outro assunto que muitos diriam estar além das capacidades do conhecimento
humano: a existência de carma e renascimento. Isso deveria, creio eu, nos fazer
refletir ao considerar se algum budista endossa o tipo de ceticismo praticado
pelos pirrônicos (filósofos céticos gregos do século IV AEC). Certamente Sexto
Empírico veria a crença na ideologia do carma-renascimento como um obstáculo à
tranquilidade (ataraxia).”
Mark Siderits (1946-), filósofo e professor de Filosofia do Budismo na Universidade do Havaí e Universidade de Yale em Buddhism and Scepticism (Budismo e ceticismo), organizado por Oren Hanner, filósofo e professor de Estudos sobre o Budismo na Universidade Duke
O perigo dos data centers
sexta-feira, 13 de março de 2026Em todo planeta, países estão discutido e avaliando com bastante precaução a instalação dos data centers em seus territórios.
Sabe-se que as promessas de criação de muitos empregos nem sempre são realizadas, e que estas instalações têm um colossal consumo de água e de eletricidade.
O atual governo brasileiro está criando uma série de facilidades para a instalação de vários data centers no país. Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR) Rio de Janeiro (RJ) e Uberlândia (MG), deverão ter os primeiros centros instalados.
Somente estes primeiros data centers de inteligência artificial, poderão ter um consumo de energia equivalente a 16,4 milhões de casas (conforme site G1). Para se ter uma ideia, na cidade de São Paulo com cerca de 12 milhões de habitantes, o número de domicílios permanentes ocupados é de pouco mais de 4 milhões (conforme AI Overview).
Apesar do impacto ambiental e da pouca geração de empregos, projeto recentemente aprovado pelo Congresso isenta os data centers de impostos durante cinco anos.
Valerá a pena facilitar tanto a vinda destes data centers ao país? Veja todos os aspectos desta situação nos links abaixo:
https://idec.org.br/dicas-e-direitos/data-centers-no-brasil-meio-ambiente-ia
https://idec.org.br/publicacao/nao-somos-quintal-de-data-centers
Labels: Artigo técnico, Assim se vive no Brasil, Direito do consumidor, Economia, Energia, Gestão Ambiental, Gestão de recursos, Política
Tá difícil!
quinta-feira, 12 de março de 2026Sinfonia em Re - Marconi Notaro
Música brasileira
Marconi Notaro
Álbum: No Reino dos Metazoários (1973)
Música: Sinfonia em Re
https://www.youtube.com/watch?v=KdixOBZboeY&list=PLm7VTe8bokHGJqTll5KNi5l4Me2_AXQSQ&index=9
Marconi
Notaro (1949-2000)
foi um poeta e músico brasileiro.
Como
poeta escreveu sete livros. Como músico, foi um representante da cena musical psicodélica recifense da década de
1970, junto com Ave Sangria, Flaviola, Zé Ramalho, Lula Côrtes, Lailson, Robertinho de Recife e outros. Seu
trabalho mais conhecido é o álbum No Sub Reino dos Metazoários, de 1973.
(Fonte
do texto: Wikipedia)
Salários baixos
quarta-feira, 11 de março de 2026Miguel de Unamuno
terça-feira, 10 de março de 2026“É um princípio de continuidade no
tempo. Sem entrar em discussão — uma discussão ociosa — se sou ou não sou o
mesmo que era há vinte anos, é indiscutível, parece-me, o fato de que aquele
que sou hoje provém, por uma série contínua de estados de consciência, daquele
que eu era em meu corpo há vinte anos. A memória é a base da personalidade
individual, assim como a tradição é a base da personalidade coletiva de um povo.
Mais de uma vez foi dito que todo homem infeliz prefere ser quem ele é, mesmo com suas desgraças, a ser outro sem elas. E é que os homens infelizes, quando mantêm a sanidade em sua desgraça, ou seja, quando se esforçam para perseverar em seu ser, preferem a desgraça à não existência. Posso dizer sobre mim que, quando era jovem, e mesmo quando era criança, as pinturas patéticas do inferno não me comoviam, pois desde então nada me parecia tão horrível quanto o próprio nada. Era uma fome furiosa de ser, um apetite de divindade, como nosso asceta disse.”
“E toda essa batalha trágica do homem para se salvar, esse desejo imortal de imortalidade que fez o homem Kant dar aquele salto imortal do qual eu falava, tudo isso não passa de uma batalha pela consciência. Se a consciência não é, como disse algum pensador desumano, nada mais do que um relâmpago entre duas eternidades de trevas, então não há nada mais execrável do que a existência.”
“Fiquemos agora com essa suspeita veemente de que o desejo de não morrer, a fome de imortalidade pessoal, o esforço pelo qual tendemos a persistir indefinidamente em nosso próprio ser e que é, segundo o trágico judeu (o filósofo Espinosa), nossa própria essência, é a base afetiva de todo conhecimento e o ponto de partida íntimo e pessoal de toda filosofia humana, forjada por um homem e para os homens. E veremos como a solução desse problema íntimo afetivo, solução que pode ser a renúncia desesperada de resolvê-lo, é a que colore todo o resto da filosofia. Até mesmo sob o chamado problema do conhecimento não há senão esse afeto humano, assim como sob a busca da causa não há senão a busca do para quê, da finalidade. Todo o resto é enganar-se ou querer enganar os outros. E querer enganar os outros para enganar a si mesmo. E esse ponto de partida pessoal e afetivo de toda filosofia e de toda religião é o sentimento trágico da vida.”
Miguel de Unamuno (1863-1936), filósofo, ensaísta, escritor e poeta espanhol em O Sentimento Trágico da Vida
Nosso Deus
segunda-feira, 9 de março de 2026Essa não poderia faltar
Rory
Gallagher
Just
The Smile (1971)
https://www.youtube.com/watch?v=XcK7xSj6n9E&list=PLdgFk-dTMiRgRBNY5Oi7a5ZzTZqJdtZSs&index=2
Banco Master: e agora?
domingo, 8 de março de 2026Leituras diárias
“Müller
trocou correspondências com Darwin por 17 anos, no período de 1865 a 1882. A
título de curiosidade vale lembrar que a primeira carta foi escrita por Darwin
e enviada ao naturalista alemão após a leitura de seu livro. Se Müller tivesse
escrito a Darwin depois da leitura de Origin (Origin of species –
Origem das espécies de Darwin), ocorrida no ano de 1861, com certeza haveria
mais epístolas disponíveis. Zillig (1997) traduziu as cartas entre os dois
naturalistas para o português. Durante o processo de tradução, ele encontrou 39
cartas de Darwin a Müller e 34 de Müller a Darwin. Dentre os assuntos
discutidos pelos naturalistas, nota-se que Darwin encomendava ao amigo
residente no Brasil muitas pesquisas sobre assuntos impossíveis de se pesquisar
na Europa. Exemplos são os tucanos, as orquídeas e as bromélias. A influência
dos estudos de Müller sobre Darwin ainda é um assunto que carece de mais
pesquisas na historiografia. Porém, nas edições posteriores de Origin corrigidas
pelo autor, o nome de Müller é citado mais de 17 vezes (ZILLIG, 1997, p.
2).
A
amizade e a troca de informações científicas fizeram com que Darwin apelidasse
Müller de ‘Príncipe dos observadores’ (CASTRO, 2007, p. 86) devido às
observações minuciosas da natureza realizadas pelo naturalista. Aqui é
importante ressaltar que, diferentemente dos naturalistas europeus, que
possuíam à disposição os mais recentes equipamentos técnicos para suas
pesquisas, todas as investigações de Müller feitas em Santa Catarina foram
executadas com pouco equipamento. O equipamento mais luxuoso e tecnológico
utilizando por Müller foi um microscópio simples enviado pelo amigo Schultze,
da Alemanha.
Os
hábitos peculiares de Müller (andar descalço) só fomentaram os boatos na época.
Vale ressaltar que a bisneta de Müller, Tula Mayer, concedeu uma entrevista
para o documentário Fritz (2009). No depoimento, ela afirma que o seu pai,
quando viu a estátua erguida na cidade de Blumenau em homenagem a Fritz Müller,
exclamou: ‘Este não é o meu avô! Ele nunca andou calçado! Gustav Stutzer,
pastor alemão residente em Blumenau em 1886, também descreve Müller em seu
livro de memórias, publicado na Alemanha em 1928. A figura de Müller era tão
exótica e singular que foi descrita da seguinte forma: ‘Logo depois da nossa
chegada, notei um senhor que toda manhã, às nove horas, a passos lentos e
largos, cruzava o centro da cidade. Não olhava nem para a direita e nem para a
esquerda, e não respondia aos cumprimentos dos passantes. Sua aparência era tão
estranha quanto ao seu comportamento. Descalço, ou de sandálias, magro e alto,
vestia calças brancas de sarja, amarradas na cintura com um cinto preto, onde
trazia pendurado um facão. Uma comprida bengala acompanhava seus passos lentos.
Toda a figura dava a impressão de um autômato. No entanto, a lata coletora
verde que levava nas coisas fazia saber que se tratava de um colecionador. Era
sem dúvida uma figura muito original.’ (CASTRO, 2007, p. 126).”
Flavia Pacheco Alves de Souza, doutora em Biologia e professora na Universidade Federal do ABC em Notas de um naturalista do sul do Brasil: Fritz Müller: história da ciência e contribuições para a biologia
João Manuel Cardoso de Mello (1942-)
sábado, 7 de março de 2026A palestra, proferida há oito anos, faz uma análise do desenvolvimento da economia e da sociedade brasileira nas últimas décadas e, por isso, permanece atual para entendermos o desenvolvimento da história recente do país.
A apresentação Do "milagre econômico" à estagnação: as raízes da inequalidade no Brasil foi organizada pelo Instituto de Economia da Unicamp.
Labels: Autores, Cultura, Economia, Gestão Pública, Política
A frase do dia
sexta-feira, 6 de março de 2026“Há sempre mais
miséria entre as classes mais baixas do que humanidade nas mais altas.”
Victor Hugo (1802-1885), romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e ativista político francês em Os Miseráveis
Quem lucra com os altíssimos juros cobrados no Brasil?
A taxa de juros no Brasil (Selic 15%) é a segunda maior do mundo. Apesar da inflação controlada e do crescimento da economia, os juros fixados pelo Banco Central são absurdos.
Diminuem os investimentos produtivos, o consumo das famílias, reduzem o crescimento da economia e a arrecadação de impostos pelo Estado.
Mas, a quem interessam os juros escorchantes fixados no país? Quem ganha muito e quem perde quase tudo? Veja no vídeo abaixo do canal Opera Mundi, entrevistando o professor e consultor internacional Ladislau Dowbor:
Labels: Assim se vive no Brasil, Economia, Gestão Pública, Política
A ordem do novo mundo
quinta-feira, 5 de março de 2026Antonio Kuschnir (2001-)
https://amarello.com.br/2022/07/arte/amarello-visita-antonio-kuschnir/
Essa não poderia faltar
Beggars
Opera
Time
Machine (1971)
https://www.youtube.com/watch?v=AO_RY0fEPSM&list=RDAO_RY0fEPSM&start_radio=1
Andre Dahmer
quarta-feira, 4 de março de 2026Leituras diárias
“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga,
em Coimbra, aos oitenta e sete anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a
placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe
falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.
Nunca o vi. Mas a confraria literária
tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e
está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na
literatura, no amor da literatura.
Ele escreveu Requiem por mim.
Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória
dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmos,
perecíveis.
A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco, ao mais profundo de nós, como uma companheira cotidiana, amável. (...)”
Antonio Carlos Villaça (1928-2005), escritor, jornalista,
tradutor e conferencista em Os
Saltimbancos da Porciúncula. Villaça é um dos mais importantes
memorialistas brasileiros, ao lado de Pedro Nava e Gilberto Amado.
"Vamos libertar o Irã da barbárie!"
terça-feira, 3 de março de 2026Noam Chomsky
“A solidariedade é algo muito perigoso. Do ponto de vista dos senhores da humanidade, você só deve cuidar de si mesmo e não dos outros. É uma visão muito diferente daquela das pessoas que eles alegam considerar seus heróis, como (o filósofo e economista pioneiro do liberalismo econômico) Adam Smith, que baseou todo o seu enfoque à economia no princípio de que a simpatia é um traço fundamental da personalidade humana, mas, para os nossos senhores, isso tem que ser extirpado de nossas cabeças. Você tem que se preocupar apenas consigo mesmo e seguir a máxima vil — ‘não se importar com os outros’ —, atitude normal para os ricos e poderosos, mas devastadora para todo o restante da humanidade. Tem sido necessário muito esforço para apagar esse tipo de sentimento da cabeça das pessoas.
Vemos isso na elaboração de políticas públicas — por exemplo, no ataque contra a Previdência Social. Tem-se falado muito na crise da Previdência Social, mas ela simplesmente não existe. A Previdência está em muito boa situação — tão boa quanto sempre esteve. O sistema de Previdência Social é uma instituição muito eficiente e não tem custo administrativo quase nenhum. E, embora exista a possibilidade de uma crise daqui a algumas décadas, dispomos de uma maneira fácil de vencê-la. No entanto, debates em torno de políticas públicas se concentram nela sobretudo porque os senhores não querem que exista — eles sempre a odiaram, pois ela beneficia o povo de uma forma geral. Contudo, existe outro motivo que os faz odiá-la. A Previdência Social se baseia em um princípio. É baseada no princípio de solidariedade.
Solidariedade: interesse e cuidado
para com os outros. Previdência Social significa o seguinte: ‘Eu pago encargos
sociais para que a viúva do outro lado da cidade tenha algo com que possa
sobreviver.’ No que se refere à maior parte da população, é assim que funciona.
Como a Previdência não tem nenhuma utilidade para os muito ricos, existe então
um plano sistemático para destruí-la. Uma das possíveis formas para se fazer
isso é cortar verbas destinadas a ela. Ora, você quer destruir um sistema? A
primeira coisa a fazer é cortar suas verbas. Feito isso, não funcionará mais.
As pessoas ficarão revoltadas e depois vão querer outra coisa que a substitua.
É uma técnica padrão, a que se costuma recorrer para se conseguir a
privatização de um determinado sistema.” (Chomsky, págs. 75 e 76).
“E isso acontece bem diante de nossos olhos. Vejam, por exemplo, os Estados Unidos — aqui, martelam na cabeça da maior parte da população o princípio de que ela tem de ‘deixar o mercado comandar os rumos da economia’. Portanto, que as autoridades tratem de cortar o número de benefícios sociais, de reduzir a previdência social ou acabar com ela de uma vez, de diminuir ainda mais o limitado serviço de saúde pública, enfim, deixem o livre mercado comandar tudo. Mas não para os ricos. Para estes, o Estado deve ser uma entidade poderosa, sempre pronta para intervir e resgatá-los sempre que se meterem em apuros financeiros.
Tomemos o exemplo de Reagan, um ícone do neoliberalismo, do livre mercado entre outras coisas. Ele foi o presidente mais protecionista na história do pós-guerra americano, tendo dobrado as barreiras de importação, na tentativa de proteger os incompetentes dirigentes americanos da superioridade dos produtos japoneses. Assim, mais uma vez, ele socorreu bancos, em vez de deixá-los arcar com seus custos. Na verdade a economia americana cresceu durante o governo Reagan, tornando-se um ícone do neoliberalismo. Devo acrescentar que seu programa ‘Guerra nas Estrelas’ foi abertamente propagandeado no mundo dos negócios como um incentivo do governo, como uma espécie de profícua vaca-leiteira em cujas tetas eles podiam mamar. Mas isso era apenas para os ricos. Já no caso dos pobres, que deixassem que os princípios do livre mercado conduzissem os rumos da economia e que não esperassem nenhum auxílio do governo.” (Chomsky, págs. 99 e 100).
Noam Chomsky (1926-), linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo e ativista político estadunidense em Réquiem para o sonho americano: Os dez princípios de concentração de renda e poder
Labels: Autores, Cultura, Economia, Gestão Pública, Política
Outras leituras
segunda-feira, 2 de março de 2026“A mineração exigiu intercâmbio com as Capitanias do norte e do sul, no primeiro momento de integração nacional. A área devia importar gêneros alimentícios, artigos elaborados. O ouro provocou a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763. Criou uma consciência nacional, traduzida em rebeliões contra o poder português ou em um movimento artístico fecundo. A riqueza pouco ficava em Minas ou no Brasil; nem mesmo em Portugal, pois ouro e diamante só passavam por Lisboa, indo para os Países Baixos — aí se fazia a lapidação dos diamantes, ou para a Inglaterra, em pagamento das inúmeras e dispensáveis importações. Como antes com as especiarias e com o açúcar, o português perdia outra oportunidade. Em obras suntuárias e não reprodutivas, na desorganização de um governo pouco lúcido para o econômico, esvaía-se a riqueza.
Lembre-se, a propósito, o célebre Tratado de Methuen, em 1703 — quando começa a aparecer o Ouro —, entre Portugal e Inglaterra. Em termos simples, Portugal compromete-se 'para sempre' a importar tecidos ingleses, enquanto a Inglaterra compromete-se a importar vinhos portugueses. É outro momento marcante das relações entre os dois países, vindo de longe e marcado pela desigualdade de tratamento, com a submissão portuguesa. O assunto já foi muito estudado, aparecendo mesmo em clássicos como Montesquieu e Adam Smith.”
“É geral a impressão de desenvolvimento. Multiplicam-se as iniciativas, não mais, como na regência de D. João, sob o signo oficial, mas pelo investimento privado. As chamadas fábricas nacionais encontram-se no Rio e nas províncias, para tecidos, chapéus, sapatos, couros, vidros, rapé, cerveja, sabão. A contar de 1860, realizam-se exposições industriais — fato significativo, apesar da modéstia do que se exibe e sua falta de repercussão. O país parecia maduro, consolidado — os indivíduos agiam, respirava-se confiança. Constroem-se ferrovias e instala-se o telégrafo, em busca da integração nacional. Aparece o que o ministro da Agricultura Manuel Buarque de Macedo, em 1880, chama ‘a nobre impaciência do amor do progresso’. Em parte dos dirigentes nacionais desenvolve-se o gosto pelas inovações, com o abandono da rotina, em nome de ideias novas, realizações materiais condutoras ao enriquecimento. É a modernização para um Brasil rico, livre, realizador, como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos.
É a ‘era Mauá’. Irineu Evangelista de
Souza — Barão e depois Visconde de Mauá — domina a década com trabalhos de industrial
ousado, banqueiro, construtor de ferrovias, empresário de navegação, introdutor
de inovações tecnológicas, político, diplomata. Sua ação estende-se por todo o
Brasil e mesmo áreas vizinhas, como o Uruguai, sem falar em participações
bancárias, como as de Montevidéu, Buenos Aires, Nova Iorque, Paris, Londres,
Manchester. É o melhor símbolo da euforia de então, quando o país parece
despertar do torpor e se lança à aventura econômica e financeira, como se fosse
a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos. Mauá tem os traços do grande empresário,
aquele que se joga no negócio com crença, entusiasmo, domínio da situação,
vencedor. É raro no Brasil, de ontem ou de hoje, essa figura que marca com
traço forte a história do capitalismo, essa psicologia do pioneiro que é
criação de um sistema.”
Francisco Iglesias (1923-1999), economista e historiador brasileiro em A Industrialização Brasileira (1985)
A Marcha - Antonio Adolfo
domingo, 1 de março de 2026Música brasileira
Antonio Adolfo
Álbum: Viralata (1979)
Música: A Marcha
https://www.youtube.com/watch?v=BLfgvqK-3s0&list=RDBLfgvqK-3s0&start_radio=1
Antonio
Adolfo Maurity Sabóia (1947-) é um pianista, tecladista e compositor brasileiro.
Filho de uma violinista da Orquestra do Teatro Municipal do Rio, carioca de
Santa Teresa, aos 16 anos, como pianista, já pertencia ao fechado clube
da Bossa Nova.
Começou
a estudar música na infância, e no início dos anos 60 passou a frequentar os
ambientes cariocas onde se tocava jazz e bossa nova. Em 1964 montou o Trio 3-D para encenar o musical
"Pobre Menina Rica", de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Participou como
compositor dos festivais de música popular, obtendo sucesso com "Sá
Marina" em 1968 e no ano seguinte com "Juliana" (parceria
com Tibério Gaspar),
interpretada pelo conjunto A Brazuca,
do qual fazia parte.
Em 1969, sua carreira é
impulsionada por Maysa, com quem
trabalhou em parte dos arranjos do seu LP intitulado simplesmente Maysa. Em
1970 vence a Fase Nacional do V Festival Internacional da Canção,
com a música BR-3 interpretada por Tony Tornado, composta em parceria com Tibério Gaspar. Trata-se de uma canção
soul nos moldes de James Brown. Acompanhou Elis Regina em
turnê à Europa um pouco depois, e nos anos 70 esteve nos Estados Unidos tocando
e estudando, influenciado principalmente pela linguagem do jazz.
Em
2016, foi indicado ao Grammy Latino
de Melhor Álbum de Jazz Latino por
seu álbum Tropical Infinito. No
ano seguinte, foi indicado novamente na mesma categoria, desta vez pelo
álbum Hybrido/From Rio to Wayne
Shorter. Em 2021, recebeu sua terceira indicação na categoria, desta
vez pelo álbum Bruma: Celebrating
Milton Nascimento, que foi indicado ainda na categoria de Melhor Engenharia.
(Fonte
do texto: Wikipedia)
A família real no Brasil
sábado, 28 de fevereiro de 2026“Se a beleza do cenário geográfico da cidade encantava a maioria da corte portuguesa que desembarcava no porto do Rio, os primeiros dias mostrariam a precariedade da estrutura da nova capital. ‘Numa pequena área espremida entre a praia e a montanha, formada por escassas ruas paralelas e mais algumas transversais, rodeadas por matas e logradouros desertos, mais de dez mil pessoas foram alojadas às pressas, com a chegada da Família Real, transformando a pequena cidade dos vice-reis em capital do império português na América’, descreve a historiadora Leila Mezan Algranti (1988:26).
Para acomodar os acompanhantes da corte, o conde dos Arcos instituiu o sistema de aposentadorias que, na prática, requisitava as casas dos moradores locais para aconchego da nobreza. Na porta de muitas casas foram pregadas as letras PR – Príncipe Regente –, interpretadas pela população como Ponha-se na Rua. ‘O afluxo de uma grande quantidade de pessoas agravou os problemas urbanos. Além da falta de moradia, havia carência no abastecimento de água, saneamento, segurança pública’, descreve o historiador Paulo de Assunção (2008:88). Essa situação causou um enorme rebuliço tanto para a população que ficava desabrigada, quanto para a nobreza portuguesa que considerava as moradias desconfortáveis, mal construídas e sem o luxo das suas residências em Lisboa. Já a população mais pobre ficou marginalizada à região norte da cidade, circunscritas aos bairros de Catumbi e Mata-Porcos. Nesse espaço, as habitações se restringiam a choças aglomeradas entre os morros e o mar, o que já marcava a profunda desigualdade social no especo geográfico (Lima, 2000:106).”
“O contato cada vez maior com a
cultura europeia também estimulava um novo hábito na Corte: difundia-se o
costume de almoçar fora de casa, nas denominadas casas de pasto, que serviam
diariamente diferentes cardápios pré-estabelecidos com preços também já previamente
fixados pelo comerciante. Tais mudanças na prática incentivam a procura por
cozinheiros, um ofício bem remunerado. Em 1808, ‘um cozinheiro que soubesse
trabalhar de caçarolas e massas ganharia por mês 14 $000 réis, mais do que
muitos letrados obtinham em suas aulas’, elucida a historiadora Maria Beatriz
Nizza da Silva (2007:35). A sobremesa teve seu espaço garantido. Em julho de
1813, Vicente Ferreira, o ilustre chocolateiro da princesa Carlota Joaquina,
abria uma fábrica de chocolate na rua do Ouvidor, n.28. Para além da venda de
todas as qualidades de chocolate, a loja vendia ainda extratos de manteiga de
cacau para a produção de outros doces (Gazeta do Rio de Janeiro, 1813, N 58). A
diversidade e a quantidade dos gêneros que foram importados nos Reinos de
Portugal e Brasil durante 1816 foram tema de destaque da folha oficial, tamanha
era a preponderância do comércio interatlântico de alimentos dentro dos limites
do Império Português.”
Juliana Gesuelli Meirelles, doutora em história política pela UNICAMP e professora brasileira em A família real no Brasil: política e cotidiano (1808-1821)
O que eles pensam
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026Tecnofeudalismo
|
“Quando
Yanis Varoufakis descreve o que estamos vivenciando como tecnofeudalismo – ou
seja, alta tecnologia, mas formas feudais de apropriação de riqueza sem uma
contrapartida produtiva, ele pinta um quadro realista. A transformação
torna-se muito clara quando percebemos que a maior parte da riqueza no topo
da pirâmide social não resulta de iniciativa produtiva, mas sim de dividendos
e fortunas herdadas. Estamos muito próximos da aristocracia que herdava
feudos pelo 'mérito' do sangue familiar. As análises de Sandel sobre o
absurdo de considerar fortunas como 'mérito' são perfeitamente realistas.
Essa aristocracia rentista se beneficia igualmente do sistema de relações
herdado das universidades de elite, da interação social e das várias formas
de fratura social que nos afastam da simplificação de que nossa condição
econômica depende de nossos esforços.” |
Ladislau Dowbor (1941-), economista e professor brasileiro de origem polonesa. Trecho do artigo Assim os rentistas dissolvem a democracia, publicado no jornal eletrônico Outras Palavras em 23/01/26
Essa não poderia faltar
King
Crimson
Fracture
(1974)
https://www.youtube.com/watch?v=ZaD7gk7BTwU&list=RDZaD7gk7BTwU&start_radio=1
(Pra quem conhece e gosta de rock progressivo)
Frases de Meio Ambiente
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026“A
criatura que vence o seu ambiente acaba por se destruir.”
Gregory Bateson (1904-1980), antropólogo, sociólogo e
semiólogo inglês citado por AZQuotes
Carlos Bracher (1940-)
https://www.guiadasartes.com.br/carlos-bracher/obras-principais
Outras leituras
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026“É
apropriado reconhecer que a linguagem é, em grande parte, um acidente
histórico. As línguas humanas básicas são tradicionalmente transmitidas a nós
em várias formas, mas sua própria multiplicidade prova que não há nada de
absoluto e necessário nelas. Assim como línguas como o grego ou o sânscrito são
fatos históricos e não necessidades lógicas absolutas, é razoável supor que a
lógica e a matemática sejam formas de expressão igualmente históricas e
acidentais. Elas podem ter variantes essenciais, ou seja, podem existir em
outras formas além daquelas às quais estamos acostumados. De fato, a natureza
do sistema nervoso central e dos sistemas de mensagens que ele transmite
indicam positivamente que isso é assim.
Agora
acumulamos evidências suficientes para ver que, qualquer que seja a linguagem
que o sistema nervoso central esteja usando, ela é caracterizada por menos
profundidade lógica e aritmética do que aquela a que estamos normalmente
acostumados. O seguinte é um exemplo óbvio disso: a retina do olho humano
realiza uma reorganização considerável da imagem visual percebida pelo olho.
Ora, essa reorganização é efetuada na retina, ou para ser mais preciso, no
ponto de entrada do nervo óptico, por meio de apenas três sinapses sucessivas,
ou seja, em termos de três etapas lógicas consecutivas. O caráter estatístico
do sistema de mensagens usado na aritmética do sistema nervoso central e sua
baixa precisão também indicam que a degeneração da precisão, descrita
anteriormente, não pode ir muito longe nos sistemas de mensagens envolvidos.
Consequentemente,
existem aqui estruturas lógicas diferentes daquelas com as quais estamos normalmente
acostumados em lógica e matemática. Elas são, como apontado anteriormente,
caracterizadas por menos profundidade lógica e aritmética do que estamos
acostumados em circunstâncias semelhantes. Assim, a lógica e a matemática no
sistema nervoso central, quando vistas como linguagens, devem ser
estruturalmente essencialmente diferentes daquelas linguagens às quais nossa
experiência comum se refere.”
John von Neumann (1903-1957), matemático, físico, engenheiro
húngaro-estadunidense e um dos cientistas da computação precursores da moderna
informática. Desenvolveu o conceito moderno do computador. Trecho de sua
palestra (livro) O Computador e o Cérebro
(The Computer and The Brain)




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