“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Juscelino
Kubitschek
(1902-1976), médico, político e presidente do Brasil (1956-1961), citado pelo
site Pensador.
Qui addit scientiam, addit et leborem (Eclesiastes 1:18)
Juscelino
Kubitschek
(1902-1976), médico, político e presidente do Brasil (1956-1961), citado pelo
site Pensador.
“Assim sendo, toda ideia, obra de arte,
ciência, filosofia e história estão condicionadas historicamente no sentido de
que são uma resposta a problemas específicos do ponto de vista histórico e
refletem as preocupações de um determinado momento.”
Marnie Hugues-Warrington, historiadora, citando o filósofo Benedetto Croce
Em 1959 o físico e intelectual
britânico Charles Percy Snow proferiu uma palestra na universidade de Cambridge
intitulada The Two Cultures and the Scientific Revolution (As
duas Culturas e a Revolução Científica). A exposição, que se transformou em
livro afamado, fala da divisão existente na vida intelectual do Ocidente à
época, entre as ciências e as humanidades. Snow argumenta em seu discurso que a
sociedade culta estava dividida entre cientistas e intelectuais das ciências
humanas. Segundo o autor, entre os dois grupos havia pouco diálogo e falta de
interesse nas atividades da outra área; situação que dificultava o
desenvolvimento de novas tecnologias e a elaboração conjunta de soluções para
enfrentar problemas globais, como a fome e a pobreza. Tratava-se, também, de
uma crítica de Snow ao sistema educacional britânico, que desde o final do
século XIX havia dedicado maior peso às humanidades, em detrimento das ciências
exatas. Os métodos de ensino dos Estados Unidos e da Alemanha, afirmava,
preparavam melhor seus alunos, dando igual importância às ciências humanas e às
ciências da natureza em seus cursos.
Sobre as ciências em geral, a língua
alemã possui uma nomeclatura singular em sua divisão. Existem as ciências da
natureza, as Naturwissenschaften, que incluem todas as ciências
relacionadas com a natureza, como a física, a biologia, química, astronomia, geologia,
etc.; e as ciências do espírito ou da cultura, as Geisteswissenschaften e Kulturwissenschaften,
englobando todas as ciências que se ocupam do humano, de sua cultura e suas
formas de expressão, como a história, a filosofia, as ciências da religião, os
estudos literários, a linguística, etc. Essa classificação das ciências, já
conhecida nos meios intelectuais da Europa desde o início do século XIX, foi
popularizada pelo filósofo alemão Wilhelm Dilthey em sua obra Introdução
às Ciências do Espírito (1883). Posteriormente, à medida que surgiam
ou se aprofundavam novas áreas de estudo, criaram-se outras classificações
adicionais, como as ciências sociais (sociologia, antropologia, ciências
políticas, ciências econômicas, etc.) e as ciências formais (matemática,
lógica, informática, etc.). Atualmente, com o avanço e a convergência crescente
de disciplinas nas área das ciências humanas e da natureza, estas divisões
classificatórias vão se ampliando constantemente.
No Brasil, tradicionalmente, o sistema
de ensino enfatizava as humanidades, com menor destaque para as ciências.
Grande parte dos intelectuais e políticos brasileiros, desde a época imperial,
tinha formação jurídica. Daí a alcunha de “império dos bacharéis”, dada ao país
em algumas obras de sociólogos brasileiros. As ciências naturais não faziam
parte da tradição educacional e cultural do Brasil – os primeiros cursos
específicos de formação científica datam do início do século XX. As
disciplinas das ciências da natureza eram pouco estudadas nas universidades até
os anos 1950 pois a maioria destas instituições ministrava o chamado
"tripé profissional tradicional", formado pela medicina, o direito e
a engenharia. Exceção eram os cursos superiores de engenharia, que surgiram no
século XIX. Outro aspecto é que até os anos 1950 o país mantinha uma
economia alicerçada na agricultura, com indústria pouco desenvolvida e
tecnologia aplicada ao processo produtivo de baixa complexidade.
Com a aceleração da industrialização,
ao longo dos anos 1950 e 1960, o ensino das ciências, já no nível médio, se
consolidou e tornou-se obrigatório com a Lei de Diretrizes e Base, de 1961. A
partir de então as ciências – física, química, biologia – passaram a integrar o
currículo escolar, igualando-se ao ensino das humanidades.
A situação mudou completamente durante
o regime ditatorial (1964-1985), quando o ensino das ciências humanas se tornou
secundário, tendo prioridade a formação técnica, que começa a ser requisitada
num mercado de trabalho com grande oferta de postos de trabalho no setor
industrial. A filosofia e a sociologia foram excluídas do ensino no nível médio
também pelo fato de que, na avaliação dos governos do período, estas
disciplinas estimulavam no estudante o questionamento da organização social e
da reflexão política, podendo representar uma ameaça ao poder e à ordem. Pela
Lei 5692/1971 a disciplina da história também ficou sujeita a mais controle,
tendo sua carga horária reduzida e sendo combinada com a geografia, formando
uma nova matéria escolar batizada de Estudos Sociais. Em 1974, apesar do
descontentamento da população e de movimentos de contestação internos, ficou
famosa a frase do presidente general Ernesto Geisel (1907-1996) que afirmava:
"O Brasil é uma ilha de tranquilidade num mar de turbulências.”
Com a redemocratização do país e a
promulgação da Constituição de 1988, a sociedade voltou a discutir livremente
temas antes proibidos pelo regime, o que contribuiu para que o ensino das
ciências humanas voltasse a tomar força na década de 1990. Depois, com a Lei
11.684/2008, tornou-se novamente obrigatório o ensino da filosofia, da
sociologia e história no ensino médio.
Uma nova mudança ocorre com a
promulgação da Lei 13415/2017, durante o governo de Michel Temer, que implantou
nova reforma do ensino, integrando as disciplinas (filosofia, sociologia) na
área das chamadas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, reduzindo o tempo de
aula e eliminando a obrigatoriedade de que fossem ministradas como matérias
isoladas. Logo depois, durante o governo Bolsonaro (2019-2023) as disciplinas
da filosofia e da sociologia foram novamente desvalorizadas pelo então ministro
da Educação, Abraham Weintraub, declarando que cursos como filosofia eram
voltados para as elites, e que a função do Estado seria garantir o aprendizado
básico, enfatizando o que já previa a reforma do ensino iniciada no governo
anterior, de Michel Temer. A reabilitação das disciplinas no ensino médio
ocorreu durante o governo Lula, iniciado em 2023, que promulgou a Lei
14945/2024, que entre outras mudanças voltou a assegurar a obrigatoriedade do
ensino das matérias.
As constantes mudanças nas diretrizes
do ensino, principalmente no nível médio, período na vida do estudante em que
começa a se consolidar sua visão de mundo como cidadão, mostram que a
orientação e a importância dada às matérias, sejam na área de humanas, exatas
ou biociências, estão sujeitas à ideologia política dos governos do momento.
Regimes liberais ou sociais-democratas geralmente dão importância a uma
formação abrangente do aluno, procurando equilibrar a carga horária entre as
humanidades e ciências. Administrações de orientação direitista priorizam as
ciências exatas e, principalmente, a formação técnica, pouco valorizando ou até
dificultando o ensino das ciências humanas – especialidades que, supostamente,
podem induzir o aluno a questionar a organização da estrutura social, a
política ou as relações produtivas da sociedade onde vive.
Observam os especialistas que estudam o
assunto, que o modelo de ensino que se impôs nas últimas décadas no país, está
cada vez mais orientado para atender as necessidades do mercado de trabalho, ou
seja, da economia capitalista. É fato que um modelo que pouco peso dá à cultura
geral, adquirida em matérias como história, filosofia, sociologia, literatura,
geografia, artes, etc., limita a capacidade de análise do aluno e tem como
objetivo velado preparar pessoas que executam, ao invés de pessoas que analisam
e, eventualmente, critiquem ou apresentem alternativas, seja para o que for. Um
dos argumentos dos grupos sociais conservadores, defensores da exótica ideia da
“escola sem partidos”, é que estas disciplinas são o ambiente de doutrinação
política de esquerda dos alunos.
Em suma hoje, no Brasil, já não existe
mais – se é que alguma vez existiu – o antagonismo entre as ciências da
natureza e as humanas, tanto no meio intelectual quanto no ensino. A impressão
que se tem é que as disciplinas humanas, no ensino e na sociedade em geral, são considerados adereços, sem função prática numa sociedade voltada apenas
para a realização do lucro, onde o conhecimento, se não tiver aplicações
pecuniárias imediatas, é desvalorizado. A ideia de uma cultura humanística
(a Bildung da cultura alemã) como parte da formação do
indivíduo, foi esquecida no passado e hoje parece ser exclusividade das escolas
das classes abastadas. Ao povo impinge-se o ideário de que o conhecimento que
não pode transformar-se em mercadoria (qualquer coisa vendável no
"mercado") tem pouco valor. Essa a ideologia das empresas, dos
meios de comunicação, do sistema. Os objetivos que se colocam para o jovem são
“arranjar um emprego” ou "tornar-se empreendedor" (quando isso é
possível) e, a muito custo, sobreviver para consumir e se endividar. Voos mais
altos, na área das humanidades ou das artes, são reservados às elites, que não
precisam se preocupar prementemente com a sobrevivência.
O filósofo e economista Karl
Marx (1818-1883), no entanto, via as humanidades e as ciências humanas não como
ocupação abstrata de diletantes longe da prática, mas como ferramentas de
análise, compreensão e mudança da realidade social - e não para eternizá-la. Talvez por isso sejam depreciadas por muitos.
Ricardo E. Rose, 3/09/2026
(Imagens: Leonard Koscianski Contemporary Art)
Música brasileira
João Gilberto
Álbum: João Gilberto (1961)
Música: O Barquinho (composição de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli)
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, mais
conhecido como João Gilberto (1931 – 2019), foi um cantor, violonista e compositor brasileiro. Considerado
um artista genial por musicólogos e jornalistas especializados, revolucionou a
música brasileira ao criar uma nova batida de violão para
tocar samba:
a "Bossa Nova".
O seu jeito suave de cantar também influenciou muitos dos cantores da MPB. Para a revista Rolling Stone Brasil, foi um dos 30 maiores
ícones brasileiros da guitarra e do violão e também o segundo maior
artista brasileiro de todos os tempos, seguindo Tom Jobim (também músico e o
compositor e arranjador dos maiores sucessos da carreira de João Gilberto).
Desde
o lançamento do compacto que continha Chega de Saudade e Bim Bom,
munido apenas da voz e do violão, começou uma revolução na música mundial. Dono
de uma sonoridade original e moderna, João Gilberto levou a música popular
brasileira ao mundo, principalmente para os Estados Unidos, Europa e Japão.
Tido como um dos músicos mais influentes no jazz americano do século XX, ganhou
prêmios importantes nos Estados Unidos e na Europa, como o Grammy,
em meio à beatlemania.
(Fonte do texto: Wikipedia)
“Comecemos
pela ecologia e suas aplicações práticas nas técnicas de conservação, gestão de
recursos, controle de pragas, melhoramento de linhagens resistentes, hibridização
e todas as outras artes por meio das quais o homem tenta manter ou, se ainda
não existe, criar uma relação satisfatória com seu ambiente natural. Essas
artes e os fatos acumulados e teorias científicas em que se baseiam não são
apenas interessantes por si só; são também profundamente significativos por
suas implicações éticas e filosóficas. À luz do que agora sabemos sobre superpopulação,
agricultura ruinosa, silvicultura insensata e pastoreio destrutivo, sobre
poluição da água, poluição do ar e a esterilização ou perda total de solos
antes produtivos, tornou-se abundantemente claro que a Regra de Ouro se aplica
não apenas às relações dos indivíduos e sociedades humanas entre si, mas também
às suas relações com outras criaturas vivas e com o planeta sobre o qual todos
viajamos através do espaço e do tempo. ’Faça aos outros o que você gostaria que
fizessem a você.’ Gostaríamos de ser bem tratados pela Natureza? Então devemos
tratar bem a Natureza.
A
desumanidade do homem para com o homem sempre foi condenada; e, por algumas
religiões, o mesmo ocorre com a desumanidade do homem para com a Natureza. Por
meio delas, a desumanidade do homem para com a Natureza é implicitamente
tolerada. Os animais, diziam os teólogos da ortodoxia católica, não têm alma e,
portanto, podem ser usados como se fossem coisas. As implicações éticas e
filosóficas da ciência moderna são mais budistas do que cristãs, mais totemistas
do que pitagóricas e platônicas. Para o ecologista, a desumanidade do homem
para com a Natureza merece uma condenação quase tão forte quanto a desumanidade
do homem para com o homem.”
Aldous Huxley (1894-1963), filósofo, escritor, ensaísta e crítico literário inglês em Literature and Science (Literatura e Ciência, 1963)
“Os
costumes sociais tendem a complicar inutilmente a vida, afastando o homem da
natureza, que é a fonte única de sua felicidade. O supérfluo e o frívolo,
disfarçados com frequência com o nome de refinamentos, aumentam de hora em hora
a quantidade de sacrifícios estéreis que não servem para intensificar o ser. O
homem, incentivado por paixões ambiciosas e egoístas, dá menos de si à
comunidade e nela não encontra a cooperação moral que o estimularia a empreender grandes
coisas, belas e desinteressadas.
O
mundo particular dos políticos profissionais inspira terror. Como é possível
que o interesse de reuniões, isentas de moral e de ideais progressivos, possa
ser sobreposto ao interesse de toda a nação, de toda a sociedade? E é
inadmissível que certos homens, não sendo os mais ilustrados nem os mais
morais, tenham o direito de administrar os frutos da inteligência e do trabalho
de todos, como se a sociedade tivesse que continuar pagando um imposto feudal a
esse bando de bandidos que abandonaram os caminhos e as montanhas para
refugiarem-se nas cidades? E não prova uma incapacidade moral do maior número,
essa mesma possibilidade de que uns poucos maliciosos possam sobrepor sua
atividade maléfica à necessidade social de encaminharmos à solidariedade, por
meio do estudo e do trabalho?”
José Ingenieros (1877-1925), médico, psiquiatra, filósofo, sociólogo e professor argentino em Para uma Moral sem Dogmas (2009)
(...)
“O New York times publicou uma alarmada
entrevista com Bill Gates, que defende que a IA pode nos destruir e discuti-la
é 1.000% mais essencial do que o debate nuclear. Gates propõe novas taxas,
uma reserva de trabalhos apenas humanos e critérios claros para restringir os
riscos extremos.
Os
todo-poderoso magnatas tecnológicos são os novos imperadores, e as mudanças
disruptivas que impõem, acontecem em uma velocidade vertiginosa, com a IA generativa a desbravar caminhos
que ninguém mais entende, nem mesmo os programadores que a desenharam.”
Trecho do artigo Alguém precisa parar os ‘tech bros’, da
jornalista portuguesa Mafalda Anjos (1975), publicado no
jornal Folha de São Paulo em
31/08/2026
“A validez universal é, invariavelmente, a conclusão falsa que tiramos, aplicando aos demais homens o que vale para nós.”
Oswald Spengler (1880-1936), historiador e filósofo alemão em A Decadência do Ocidente
“O
psicólogo de Harvard, Dan Wegner, escreveu um dos melhores relatos sobre por
que desenvolvemos a experiência vívida do livre-arbítrio. Wegner argumenta que
temos um cérebro que interpreta ações em termos de uma experiência de ‘achamos
que fizemos isso’, como uma maneira muito útil de acompanhar decisões e ações.
Isso ocorre porque as múltiplas influências e processos conscientes ou
inconscientes que levam a essas escolhas são muito complexos ou ocultos para
serem monitorados, mas podemos acompanhar o resultado como uma sensação de que
tomamos a decisão. Por exemplo, podemos estar em uma festa e querer
impressionar alguns convidados. Pense em todos os motivos pelos quais podemos
sentir a necessidade de fazer isso – ansiedade social, medo da rejeição, necessidade
de ser o centro das atenções e assim por diante. O que fazemos? Confiamos em
nossa experiência de situações passadas para elaborar uma estratégia: decidimos
contar uma piada. Monitoramos o resultado e o armazenamos como referência para
festas futuras. Contamos uma piada, mas tínhamos a liberdade de fazer
diferente? Claro, sentimos que tomamos a decisão, mas havia uma infinidade de
experiências anteriores, bem como normas sociais vigentes e regras que
influenciaram nossa escolha. Quando nossos comportamentos dão errado ou
cometemos uma gafe, nos sentimos constrangidos e envergonhados e, em
particular, nos perguntamos: 'O que eu estava pensando?'
Ter uma experiência de livre arbítrio sobre nossos pensamentos e ações nos vincula a eles como instigadores dessas decisões, mesmo quando esse pode não ser o caso. Dessa forma, uma sensação de livre arbítrio pode nos ajudar a acompanhar o que fizemos, o que não fizemos e o que podemos ou não fazer no futuro. Contanto que nossas intenções conscientes pareçam preceder nossas ações, é natural presumir que as desejamos.”
“Esse princípio fundamental opera em todo o sistema nervoso, desde os simples movimentos oculares até todo o repertório de pensamentos e comportamentos humanos – as mesmas atividades que dão origem ao eu. É por isso que o eu é uma ilusão. Ele não se manifestou repentinamente em nossa mente no nosso segundo ou terceiro aniversário. Ele vem emergindo lentamente – esculpido a partir da riqueza da atividade e interação humanas. Nosso eu é produto da mente, que por sua vez é produto do cérebro trabalhando em conjunto com outros cérebros. À medida que o cérebro se desenvolve, o eu também se desenvolve. À medida que o cérebro se deteriora, o mesmo deve acontecer com o eu.”
“A
ilusão do eu depende de informações armazenadas que foram adquiridas ao longo
da vida. Essas são as nossas memórias, construídas à medida que interpretamos o
mundo. Essa interpretação é guiada por mecanismos que buscam certas informações
no mundo, mas também por aqueles ao nosso redor que nos ajudam a dar sentido a
tudo. Dessa forma, somos continuamente moldados por aqueles que nos cercam.
Sendo a espécie com a maior proporção de vida passada na fase juvenil
dependente de outros, as crianças humanas são particularmente evoluídas para a
interação social, e grande parte do que nossos cérebros processam, parece ser
dedicada a informações socialmente relevantes. Na ausência de interação social
no início do desenvolvimento, as crianças podem ficar permanentemente
incapacitadas socialmente, mesmo que seu intelecto esteja intacto.”
Bruce Hood, psicólogo, filósofo e pesquisador canadense
em The Self Illusion (2012) (A Ilusão do Eu)
Pink
Floyd
Echoes (1971)
“Diz
Virgílio, taxativamente, que todo homem pode extrair lições sobre os rumos
filosóficos do mundo se examinar o funcionamento de uma colmeia. Assistir ao
espetáculo dos ciclos da natureza, observar uma lavoura, o eterno retorno das
coisas (lavrar, semear, colher, lavrar, semear, etc.), sentir-se parte de um
todo e aceitar o destino de vir da terra e para ela retornar (nascer, crescer,
declinar, envelhecer, morrer, nascer, crescer, etc.), assim é que a agricultura
dá à cultura lições de coisas modestas, porém determinantes. O camponês dá a
matriz a todo filósofo digno deste nome. O pensador da cidade não chega aos pés
do pensador do campo. Sobre uma infinidade de coisas, Sartre, que detestava a
natureza, é menos certo e preciso do que era Sêneca em sua propriedade rural
romana 2 mil anos antes dele.”
“O
fatalismo nietzschiano, porém, resiste às lições dadas pela realidade: decerto
não somos totalmente livres, como afirma a tradição espiritualista, desde a
Bíblia até Sartre, passando por Descartes e Kant; é claro que não somos
totalmente determinados, como proclamam os deterministas, desde o Corão até
Freud, passando por Espinoza, La Mettrie, Helvetius, Holbach e Nietzsche,
portanto; pois podemos construir
liberdade para nós mesmos se soubermos que podemos fazê-lo e que podemos
querer querendo aquilo que nos quer, pois não há nada que se possa querer além
disso.”
“Depois
de Copérnico, que se manteve cauteloso, mas antes de Galileu, que triunfou como
cientista, depois de Epicuro, o materialista atomista, mas antes de Espinoza, o
panteísta monista, Giordano Bruno, poeta e filósofo, homem de letras e artista,
rebelde e dramaturgo, se vê na mira da Igreja. Esse dominicano de origem nega a
virgindade de Maria, escarnece da Transubstanciação, recusa o dogma da
Trindade, ataca os calvinistas, estraçalha os aristotélicos, desclassifica os
adeptos da doutrina cosmológica de Ptolomeu. É detido e preso pela Inquisição,
o Santo Ofício se mobiliza. Após oito anos de processo, o homem que esvaziou o
céu e inventou o espaço moderno é levado à fogueira, nu, com uma mordaça na boca
para impedir que falasse. Em 17 de fevereiro de 1600, no Campo dei Fiori, o
filósofo visionário se desfaz em chamas. Seu cosmos é que era o certo.”
Michel Onfray (1959-) filósofo, escritor e professor francês em Cosmos – Uma Ontologia Materialista
Em setembro de 2025 o então
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciava a intenção do governo de atrair
investimentos em datacenters. Para isso, o governo preparou Medida Provisória
(MP), criando o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no
Brasil (ReData). A MP, substituída pelo Projeto de Lei (PL) 278/2026, visa atrair
R$ 2 trilhões em investimentos para o país durante os próximos dez anos,
segundo o governo.
Em todo o planeta o numero de datacenters vem crescendo rapidamente, devido ao aumento no uso da IA (inteligência artificial). Contendo grande numero de computadores de alta potência, servidores, sistemas de armazenagem e demais instalações, os datacenters processam armazenam e distribuem imensas quantidades de dados e, em rede mundial, abrigam o que se convencionou chamar de “a nuvem”.
Um datacenter de porte médio, do qual se estima existirem entre 6 a 8 mil no mundo, tem entre 2 mil e 5 mil servidores. Já um datacenter de hiperescala (hyperscale) atua com centenas de milhares de chips de alto desempenho, com GPUs (unidades de processamento gráfico) especializadas. Destes estima-se estarem operando aproximadamente 1.190 globalmente. Estas grandes unidades são utilizadas por corporações como a Meta, Google, Microsoft, Alibaba e Amazon, entre outras.
Para dar uma ideia, um
datacenter de hiperescala geralmente ocupa áreas superiores a 1.000 metros
quadrados e consume em média 100 megawatts (MW) de eletricidade por dia; o
equivalente ao consumo de 85 a 100 mil residências. Com relação ao consumo da
água usada para refrigeração do sistema, o mesmo datacenter utiliza de 2 a 19
milhões de litros de água por dia; volume suficiente para atendimento diário de
uma cidade de 10 a 50 mil habitantes (dados do AI Overview do Google).
Há dezenas de projetos de
construção de datacenters pequenos, médios e de hiperescala em andamento no
Brasil – nos estados de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul –, com
previsão de entrega entre 2026 e 2028, totalizando cerca de 660 MW de consumo
de energia, segundo a revista Forbes.
Com esta quantidade de energia é possível abastecer uma cidade residencial (sem
indústrias) com até 6,6 milhões de habitantes. O site Click Petróleo e Gás informa que de acordo com o Plano Decenal de
Expansão de Energia (PDE 2034) do Ministério das Minas e Energia, a demanda de eletricidade
dos datacenters chegará a 2,5 gigawatts (GW) em 2037; o que equivale ao consumo
de 25 milhões de pessoas.
Além de contar com grande
disponibilidade de eletricidade e água, o investidor estrangeiro ainda deverá
contar com isenção de todos os tributos federais durante 5 anos – IPI, PIS/Cofins e Imposto de
Importação. A contrapartida exigida pelo governo é a utilização de 100% de
energia limpa; investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) o
equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos na construção das unidades; atender
as metas de eficiência hídrica nos sistemas de resfriamento das instalações; e
destinar uma mínima parte da capacidade de processamento instalada, para
atendimento de demanda nacional.
Quanto ao fornecimento de
água e eletricidade aos datacenters, especialistas se fazem algumas perguntas,
como:
- Com a aceleração dos
efeitos danosos das mudanças climáticas no regime hidrológico de várias regiões
do país, como conciliar o grande consumo de água dos datacenters com as
necessidades da população? Em caso de uma crise hídrica prolongada, quem terá
prioridade no fornecimento (lembrando que os datacenters estão inseridos em uma
rede mundial)?
- No caso de queda na disponibilidade
de energia elétrica gerada pelas hidrelétricas, haveria necessidade de colocar
em funcionamento as termelétricas, aumentando as emissões de gases de efeito
estufa para atender os datacenters?
Há que se considerar também outros
aspectos menores, mas também significativos. Além do grande consumo de água e
energia elétrica, os datacenters também são fonte de geração de lixo eletrônico:
os potentes servidores e GPUs são substituídos em média a cada três anos e têm componentes
que contêm metais pesados como chumbo, cadmio, mercúrio e as contaminantes
terras raras.
Calor é outro impacto gerado
pelos datacenters. Segundo o Journal of
Engineering for Sustainable Buildings and Cities, dos Estados Unidos, estes centros de processamento podem
aumentar a temperatura da região do entorno da unidade em até 2 graus, em áreas
situadas até 500 metros do perímetro da instalação. Sons e infrassons (ondas de baixa frequência)
também são emitidos pelos diversos tipos de equipamentos instalados nos
datacenters. Segundo reportagem do jornal O
Globo, moradores vizinhos a estas instalações nos Estados Unidos, relatam
casos de insônia, dor de cabeça e ansiedade, causados pelo constante som de
fundo.
A pouca geração de empregos durante a vida útil dos datacenters também é outro motivo de crítica. A criação de postos de trabalho ocorre principalmente na fase de construção das unidades. Segundo a empresa ZEITEC, especialista em projetos destas instalações, estabelecimentos menores demandam 1 a 3 meses de construção; já grandes unidades podem levar 6 a 18 meses até ficarem prontas. Nessa fase, os grandes empreendimentos podem empregar de 1.500 a 3.000 profissionais. Depois, em operação regular, um datacenter hyperscale emprega entre 50 e 150 trabalhadores e datacenters menores entre 30 e 50 funcionários.
Nos Estados Unidos, onde funcionam
cerca de 4.700 datacenters – o país concentra entre 38% e 45% de toda a
capacidade instalada global – mais de 14 estados estudam ou já aplicam restrições
e/ou paralizações temporárias na construção destas instalações. O estado de
Nova York está impondo a primeira moratória na construção de novas unidades e
outros estados estão reduzindo incentivos e restringindo recursos.
No Brasil, na região de
Campinas, onde está prevista a construção de um grande datacenter, entidades se
organizam e promovem manifestações e abaixo-assinados contra o projeto, dada a
escassez de água na região. No Pará, o Ministério Público Estadual (MPPA) abriu
inquérito para investigar ausência de consulta prévia e estudos de impacto
socioambiental, do projeto a ser instalado na cidade de Barcarena.
Nas décadas 1970 e 1980
ficou conhecido o fenômeno da “exportação da poluição” para os “paraísos de
poluição” (chamados em inglês de pollution
havens). Indústrias das áreas de siderurgia, metalurgia, papel e celulose,
química e petroquímica; poluidoras e com tecnologia defasada, transferiram sua
atividades para países menos desenvolvidos (chamados então de “subdesenvolvidos”).
Pressionadas pela opinião pública, legislação ambiental restritiva e por altos
impostos, a solução mais econômica e simples era, então, transferirem suas
fábricas para países onde praticamente não havia pressão popular (muitos
governos eram ditatoriais), quase nenhuma legislação ambiental, insumos e mão de obra baratos e, em muitos
casos, até isenção de impostos.
À época (anos 1970) o então
ministro da Fazenda do Brasil, Antonio Delfim Netto, informado que indústrias poderiam
deixar a Europa devido às restrições ambientais, declarou: “Venham para o Brasil porque temos espaço
bastante para a poluição e é mais importante fazer aço; da poluição cuidamos
depois.” Outros tempos, nos quais o país tinha outras prioridades.
Em visita aos Estados Unidos em maio de 2025, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que vinha para escutar as grandes empresas de tecnologia digital sobre o projeto dos datacenters do governo brasileiro: "Queremos trazer os data centers para o Brasil para prover o serviço a preços baratos para os brasileiros, para as empresas, para as universidades brasileiras, para o SUS."
Será que é isso mesmo?
Ricardo E. Rose, 28/08/2026
(Imagens: pinturas de Edward
Hopper, 1882-1967)
O Brasil não deu certo
“Uma
boa definição de tragédia não é a história em que as coisas simplesmente dão
errado – mortes, pobreza, traições –, mas aquela em que as oportunidades para
um final feliz estavam presentes e, ainda assim, os personagens fizeram
escolhas que os conduziram ao desastre.
É
uma maneira de olhar para o Brasil. O potencial estava lá, mas escolhemos a
mediocridade. E continuamos escolhendo. Nossa tragédia não é a catástrofe ou a
crise aguda, mas a estagnação e o baixíssimo crescimento (...)”
Trecho do artigo O Brasil não deu certo, publicado no jornal Valor em 27/08/2026, dos autores Pedro Cavalcanti Ferreira, professor da EPGE-FGV e diretor da FGV e Renato Fragelli Cardoso, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE-FGV).
XIX
O
rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem
de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de
casa.
Passou
um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz
por trás de sua casa se chama enseada.
Não
era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia
uma volta atrás de casa.
Era
uma enseada.
Acho
que o nome empobreceu a imagem.
Manoel de Barros (1916-2014), poeta brasileiro em O Livro das Ignorãças
Música brasileira
Camisa de Vênus
Álbum: Correndo o Risco (1986)
Música: Só o Fim
A
banda foi formada em 1980 quando Marcelo Nova,
que trabalhava na FM Aratu em Salvador, conheceu Robério Santana, que
trabalhava na TV Aratu. Conversando sobre música os dois descobriram que
tinham gostos em comum e decidiram montar uma banda. Marcelo Nova seria o vocalista e
Robério Santana o baixista.
Robério resolveu chamar seu amigo Karl Hummel para
assumir a guitarra base
e este, por sua vez, chamou seu amigo Gustavo
Adolpho Souza Mullem para tocar bateria. Se juntou ao grupo o guitarrista
solo Eugênio Soares.
Nos
ensaios, as pessoas que compareciam diziam que o som da banda era muito
incômodo. Por isso, Marcelo Nova sugeriu o nome de Camisa de Vênus, por achar preservativo uma
coisa muito incômoda.
(Fonte do texto: Wikipedia)
“Na
autocompreensão do século XXI o capitalismo parece pertencer à natureza interna
dos seres humanos, como a alimentação, a bebida, o sono e a procriação, isto é,
o metabolismo com a natureza exterior (ciclos de nutrição, de alojamento, mas
também de estética da natureza e da arte), a comunicação entre as pessoas e o
modo de funcionamento da natureza interior do ser humano. Fosse esse
entendimento correto, o capitalismo seria uma condition humaine (André Malraux) transmitida de uma geração a
outra. Nesse caso seria apenas coerente tender à opinião de que a história
estaria no fim quando o capitalismo, com o seu sistema de instituições
econômicas, sociais e políticas, bem como a cultura conexa, tivesse amadurecido
até o florescimento e as alternativas depois da ‘vitória grandiosa da Guerra
Fria’ tivessem desaparecido no vórtice do esquecimento histórico.
Permanece,
porém, um sentimento de insatisfação. No ‘fim da história’ surge a
desesperança, pois em primeiro lugar os primórdios continuam sem esclarecimento
se no fim da história tudo permanece como antes – embora saibamos alguma coisa
sobre as sociedades pré-capitalistas e a evolução do ser humano desde o
Paleolítico. Faz parte do conhecimento comprovado que a humanidade trabalhou e
viveu mais de 99% de sua história em condições não capitalistas. O capitalismo
saiu de outros modos de produção (na Europa da ordem feudal); outros haverão de
substituí-lo.”
Elmar Altvater (1938-2018), cientista social e professor alemão em O fim do capitalismo como o conhecemos (2005)
Nise da Silveira (1905-1999) foi médica psiquiatra, tendo contribuído para a revolução no tratamento das doenças mentais no Brasil por meio de técnicas que incluem a arte, a livre expressão e a afetividade.
Manifestou-se radicalmente contra os tratamentos comuns na psiquiatria manicomial até a década de 1950, como o eletrochoque, a insulinoterapia, o coma insulínico e a lobotomia.
Sua técnica, baseada no uso das artes - pintura, escultura, teatro, música, entre outros - com os pacientes, antecedeu os movimentos de renovação psiquiátrica na Europa, nos anos 1960 e 1970.
Nise teve seu trabalho reconhecido internacionalmente e foi pioneira na introdução da psicologia junguiana (Carl Gustav Jung, 1875-1961) no Brasil.
As obras de arte de parte dos inúmeros pacientes atendidos pelo Dra. Nise da Silveira, encontram-se no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.
Este documentário mostra algumas desta imagens, enquanto discorre sobre a vida e obra desta grande brasileira:
Pierre Schaeffer
Pierre
Henri Marie Schaeffer (1910-1995) foi um compositor e
teórico da música nascido na França,
conhecido por ter inventado a música concreta (musique concrète, no original francês).
Schaeffer
estudou na École Polytechnique, e começou a trabalhar
em 1936 na Office de Radiodiffusion Télévision
Française (ORTF) em Paris. Lá ele começou a
experimentar a gravação de sons, convencendo a gerência da estação de rádio a
autorizá-lo a utilizar os equipamentos. Ele tentava tocar os sons no sentido
inverso, mais lento, mais rápido e sobreposto a outros sons, técnicas
desconhecidas até então. Sua primeira peça completa foi um resultado desses
experimentos, e foi intitulada Étude
aux chemins de fer (1948).
Na época,
Schaeffer fundou o grupo Jeune
France, que tinha interesses em teatro e artes visuais, assim como música.
Em 1942, ele co-fundou o Studio d'Essai (posteriormente conhecido
como Club d'Essai). Em 1949,
Schaeffer conheceu Pierre Henry, e os dois fundaram o Groupe de Recherche de Musique Concrète (GRMC)
que recebeu reconhecimento oficial da ORTF dois anos após. A empresa forneceu
ao compositor um novo estúdio, que incluía um magnetofone.
Schaeffer
é reconhecido como o primeiro compositor a utilizar fitas magnéticas. Seus
experimentos resultaram na publicação de A la recherche d'une musique concrète ("À busca por uma
música concreta") em 1952, um sumário de seus métodos de trabalho até
então.
(Fonte do texto: Wikipedia)