(Trecho da introdução à antologia “Machado para a Juventude”, 1971)
“Mas Machado nunca foi romântico, a não ser, nas obras da primeira fase, num sentido meramente formalista e exterior, como se fosse concessão ao seu público. Não desespera por causa do seu desencanto. Aproveita-o, dir-se-ia ‘filosoficamente’, para desilusionar o leitor (e o autor), para desmistificar as ilusões do idealismo romântico e pessimista. A verificação desse fato (que, naturalmente, não é nova : ‘Tout est dit, et l’on vient trop tard’, etc., etc.) permite precisar a posição dos contos dentro da obra de Machado de Assis, especialmente em relação aos seus romances. As analogias não são raras. Motivos dos contos ‘Fulano’, ‘Eterno!’ e ‘Entre santos’ aparecem nas Memórias póstumas de Brás Cubas, assim como ‘Singular ocorrência’ preludia a Dom Casmurro. ‘O Alienista’ é parente de Quincas Borba. E a situação triangular do ‘Trio em lá menor’ voltará em Esaú e Jacó. Há um denominador comum, espécie de filosofia cervantina, dos romances (pelo menos: dos cinco grandes romances da maturidade) e dos contos: a vida não é assim como parece ser. Os homens e as mulheres (especialmente as mulheres) não são assim como parecem ser.
Assim como Maupassant, também Machado
foi materialista (chamou o poeta materialista Leopardi de ‘um dos santos da
minha igreja’), embora seu materialismo ignorasse naturalmente a dialética,
antes tendo pontos de contato com o materialismo dos philosophes franceses do século XVIII, mas, por outro lado, sem o
doutrinarismo seco deles. É uma espécie de materialismo existencialista.
Machado não tem fé nem ideais. Só viu a realidade, a existência humana, sem
amor, sem ódio, sem esperança. É um moraliste,
no sentido francês desta palavra. Esse pensamento é de validade universal. Daí
o appeal universal de Machado de Assis.
Mas esse escritor universal está — a arte sempre é concreta — com os dois pés fincados na terra. É escritor brasileiro. É escritor carioca. Algumas das parábolas de Machado passam-se em países fantásticos, imaginários (‘Na sereníssima República’), até entre o céu, a terra e o inferno (‘A igreja do diabo’).”
(Trecho do ensaio escrito em 1968 para a publicação “Brasil: Tempos Modernos”, organizada por Celso Furtado)
“O Brasil tem hoje 49 % de analfabetos. Em certas regiões do Nordeste, sobretudo nos distritos rurais, a percentagem sobe até 75 e 80 %. Ainda no começo deste século e mesmo depois, os 75 % eram a média nacional. E dos 25 % que sabiam ler e escrever, quantos liam livros? Os literatos escreviam para uma pequena minoria. Eis a origem do ‘elitismo’, da teoria de que só essa pequena minoria tem o direito de dominar o país. Existem casos análogos. Antonio Gramsci, em Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura, denunciou o mesmo elitismo na Itália, cuja velhíssima e grandiosa literatura foi, toda ela, escrita para uma pequena minoria, que dominava o povo iletrado. E escrita por quem? Pela própria elite dominante? Só esporadicamente. A literatura seria, então, o produto de uma específica ‘classe literária’? Essa tese foi adotada na Itália por Giuseppe Zonta, que construiu em cima dessa base uma história da literatura italiana. Gramsci leu essa obra no cárcere, elogiando-a. Mas não teria admitido o mecanicismo determinista de explicar a evolução literária pelo desenvolvimento de uma ‘classe’, que afinal não é classe em sentido marxista. Polemizando contra Mannheim, Hans Speier já esclareceu que não existe ‘classe de intelectuais’. Não existe ‘classe literária’. Mas podem existir — e existem na América Latina — grupos que usam atividades intelectuais e literárias para manter seu status social entre as classes.
Um grupo desses já existia no Brasil da época colonial: homens letrados, padres, juízes, advogados, funcionários subalternos da administração pública que, não sendo escravos nem latifundiários escravocratas, não tinham situação bem definida dentro de uma hierarquia social composta só daquelas duas classes. Mas sabiam defender-se. Os poetastros da época colonial portuguesa que forjaram encômios rimados a governadores, bispos, e capitães-mores (os generais de então) para arrancar a esses mecenas um cargo rendoso ou uma pensão ou mesmo só uma esmola, esses são precursores de um tipo que no Brasil existe até hoje na província e não só na província: um conhecido escritor brasileiro (embora de segunda categoria) deve seu alto e rendoso cargo público ao fato de ter comparado o relatório anual de um governador de estado às obras sociológicas de Durkheim e Max Weber.
É paradoxal mas real o prestígio da atividade literária em certos círculos menos cultos. Deputados gostam de citar, da tribuna parlamentar, uns versos. A maior ambição de generais reformados é publicar um artigo nos suplementos literários dos jornais. A literatura, que no Brasil não dá para viver a ninguém, não raramente é recurso eficaz para a ascensão social; recurso engendrando uma coorte de carteiristas, adesionistas, renegados, traidores — ‘non ragioniam di lor , ma guarda e passa’. É um catch-as-catch-can para pertencer à classe dirigente; para não submergir no povo miserável.
Mas tudo isso já precisava ser dito no pretérito. Por enquanto, tudo isso foi. Pois o poder ainda pertence à ‘velha classe’ de sempre, mas já é exercido por intermédio de gente nova que não tem uso para as letras e os literatos: são os tecnocratas e os militares. São estes que desde abril de 1964 governam o país, com apoio de uma potência estrangeira que não tem interesse especial pelas literaturas latino-americanas. O objetivo desse domínio é a garantia da ordem estabelecida, do imobilismo social e dos investimentos de capital.
Quem não se conforma, não é tolerado. Os intelectuais rebeldes sentem o rigor da censura teatral e dos filmes, da apreensão de livros, do fechamento de revistas e jornais, da proibição de defender certas doutrinas sociais e até teorias econômicas.”
Otto Maria Carpeaux (1900-1978) escritor, crítico literário, jornalista e polímata austríaco radicado no Brasil em Mais Livros na Mesa
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