“(...)
Esse é um passo crucial na campanha darwinista para derrubar a visão do cosmo
de Mente-primeira de Locke. Os filósofos costumam concordar, com bons motivos,
que não se pode separar significado e mente, nunca poderia haver significado
onde não houvesse mente, ou mente onde não houvesse significado. Intencionalidade é o termo técnico do
filósofo para esse significado; é o ‘sobre o que se fala’ que pode relacionar
uma coisa com outra – um nome para seu dono, um aviso de alerta para perigo que
o acionou, uma palavra para seu referente, um pensamento para seu objeto. Só
algumas coisas no universo manifestam intencionalidade. Um livro ou uma pintura
podem ser sobre uma montanha, mas a montanha em si não é sobre nada. A
intencionalidade é amplamente considerada pelos filósofos como a marca do elemento mental. De onde vem
a intencionalidade? De mentes, é claro.
Mas essa ideia, perfeitamente boa à sua maneira, transforma-se em uma fonte de mistérios e confusões quando usada como um princípio metafísico, e não como um fato da história natural recente. Aristóteles chamou Deus de Motor Imóvel, fonte de todo movimento no universo, e a versão de Locke para a doutrina aristotélica, como vimos, identifica Deus como Mente, transformando o Motor Imóvel em Intenção Involuntária, fonte de toda Intencionalidade. Locke achava que estava provando dedutivamente o que a tradição já considerava óbvio: a intencionalidade surge da Mente de Deus; nós somos criaturas de Deus, e a Ele atribuímos nossa intencionalidade.”
“Vamos agora para o extremo oposto e consideremos uma heresia que seria fatal para o darwinismo, não fosse ela uma alternativa tão confusa e, em última análise, contraditória: a tentativa do paleontólogo jesuíta, Teilhard de Chardin, de conciliar sua fé religiosa com sua crença na evolução. Ele propôs uma versão da evolução que colocava a humanidade no centro do universo, e descobriu que o cristianismo expressava a meta – ‘o ponto-ômega’ – que toda a evolução tenta alcançar. Teilhard até achou lugar para o Pecado Original (na sua versão católica, não na científica que observei no Capítulo 8). Para sua tristeza, a Igreja considerou isso uma heresia e o proibiu de ensiná-la em Paris, por isso ele passou o resto da vida estudando fósseis na China, até morrer em 1955. Seu livro The Phenomenon of Man (1959) foi publicado depois de sua morte e aclamado internacionalmente, mas as instituições científicas, e o darwinismo ortodoxo em particular, foram tão firmes quanto a Igreja ao rejeitá-lo como herege. É justo dizer que nos anos logo após a publicação do livro, tornou-se unânime entre os cientistas que Teilhard não oferecia nenhuma alternativa séria à ortodoxia; sua ideias peculiares eram confusas, e o resto não passava de uma bombástica redescrição da ortodoxia.”
“(...) O problema coma visão de Teilhard é simples. Ele negou com ênfase a ideia fundamental de que a evolução é um processo algorítmico, irracional, sem objetivo. Este não era um compromisso construtivo; era uma traição da ideia básica que permitia a Darwin derrubar a ideia da Mente-primeira de Locke.”
“As pessoas querem a todo custo acreditar que nós, seres humanos, somos imensamente diferentes de todas as outras espécies – e elas estão certas! Nós somos diferentes. Somos a única espécie que tem um meio extra de preservação e comunicação de projeto: a cultura. Isso é um exagero; outras espécies também têm rudimentos de cultura, e sua capacidade de transmitir informações ‘pelo comportamento’, além de geneticamente, é em si mesma um fenômeno biológico importante (Bonner, 1980), mas essas outras espécies não desenvolveram cultura como uma forma de decolagem como nossa espécie fez. Nós temos a linguagem, o meio básico da cultura, e a linguagem nos abriu novos espaços no Espaço de Projeto aos quais só nós temos acesso. Em poucos e breves milênios – um mero instante no tempo biológico – já usamos nossos novos veículos de exploração para transformar não só o nosso planeta como o próprio processo de desenvolvimento de projetos que nos criou.”
Daniel Dennett (1942-2024), filósofo, cientista cognitivo, professor estadunidense em A Perigosa Ideia de Darwin (1995)

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