Marcelo Leite

sábado, 24 de outubro de 2026

 

“O cerne da razão sociobiológica é a suposição de que os comportamentos humanos encontrem sua explicação profunda na biologia (seleção natural) e, portanto, tenham fundamento genético. Embora o termo em si tenha surgido somente em 1975, com a publicação de um livro controverso de Edward O. Wilson, Sociobiology: The new synthesis (Sociobiologia a nova síntese), como programa intelectual sua história se confunde com a da eugenia e dos estudos sobre a hereditariedade da inteligência. Nas duas ou três primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, ainda sob o impacto das atrocidades nazistas e em meio a um clima de reconstrução, essa perspectiva permaneceu eclipsada e prevaleceu o otimismo ambiental, ‘nurturista’, segundo o qual tudo poderia ser inventado no domínio da cultura, nurture tinha precedência óbvia sobre nature e se inaugurava uma ‘era da psicologia’ (Keller, 1983, p. 285), mas sementes poderosas haviam sido lançadas e permaneciam dormentes no solo. Desde a década de 1930, por exemplo, a Rockfeller Foundation patrocinava sob a rubrica ‘Ciência do Homem’ uma linha de pesquisa, no estilo do que viria a se chamar de biologia molecular, voltada para o estudo do comportamento e para seu controle (Kay, 2000, p.45).”

“A sociobiologia de Wilson compõe um tipo peculiar de determinismo biológico, pois não chega a ser experimental e nem mesmo genético (Sarkar, 1999, p.191n); pressupõe que tanto os universais do comportamento (‘natureza humana’) quanto suas variações e desvios individuais tenham substrato em genes, mas não se propõe a identificar as correspondentes sequências de DNA ou trechos de cromossomos equivalentes, contentando-se com combinar observações selecionadas de etologia e antropologia com engenhosas hipóteses sobre o conteúdo adaptativo de tipos comportamentais no passado remoto da espécie, do altruísmo à divisão sexual do trabalho. Do outro lado do Atlântico, a obra inaugural da sociobiologia foi The Selfish Gene (O Gene egoísta), de Richard Dawkins, que, mesmo sem deixar o campo especulativo característico da doutrina sociobiológica, chega mais perto do determinismo genético propriamente dito. Afinal, poucas obras foram tão enfáticas ao conferir um papel de primazia para o DNA nos labores da evolução, alçando os genes à condição de protagonistas (na condição de replicators) e rebaixando organismo à de meros veículos (interactors) para multiplicação daqueles.”

 

Marcelo Leite, jornalista, doutor em sociologia e divulgador científico brasileiro em Promessas do Genoma (2006).

Voto crítico

sexta-feira, 23 de outubro de 2026
(Fonte: Opinião Socialista)

Leituras diárias

 

"Falamos como se houvesse um eu unificador que nos sustenta ao longo da vida, ou dia após dia, mas, na verdade, quando olhamos sinceramente para dentro de nós mesmos, não encontramos nada além desse fluxo mental; a introspecção honesta não revela a suposta substância metafísica do eu simples e contínuo. Não há nada disso lá dentro. Há um pensamento perturbador, porque nos faz parecer muito menos substanciais do que presumíamos: não há solidez no eu, apenas uma espécie de conjunto perpetuamente móvel de estados psicológicos. A noção de eu parece se dissolver diante de nossos olhos, como um pedaço de gelo derretendo em um líquido. O corpo é uma entidade sólida, visivelmente duradoura ao longo do tempo e dotada de integridade material em qualquer momento dado, mas aquilo que nos agrada chamar de eu é como uma mistura variável de percepções distintas. Em termos simples, não existe um eu, pelo menos não da forma como ingenuamente supomos; e isso, segundo Hume, torna-se evidente assim que começamos a buscá-lo de forma introspectiva.

Hume não afirma isso explicitamente, mas a mesma observação pode ser feita sobre a noção de caráter ou personalidade. Se pensarmos que cada pessoa possui algo chamado caráter que define sua identidade – que a torna a pessoa que é – então devemos nos perguntar se tal coisa pode ser encontrada por meio da introspecção. Mas certamente nunca encontramos tal entidade; encontramos apenas ocorrências conscientes particulares – sensações, emoções, pensamentos e assim por diante. O que chamamos de caráter não é um dado da consciência, mas uma espécie de construção hipotética: supõe-se que de alguma forma ‘esteja por trás’ do que ocorre em nossa consciência, embora não seja ela própria um constituinte da consciência.”

 

Colin McGinn (1950-) filósofo inglês em Shakepeare’s Philosophy – Discovering the Meaning Behind the Plays (A Filosofia de Shakespeare – Descobrindo o Sentido por Trás das Peças Teatrais)

O que eles pensam

quinta-feira, 22 de outubro de 2026


 

Cortes de Flávio Bolsonaro podem levar o Brasil à recessão

 

A proposta de Flávio Bolsonaro de cortar gastos públicos em até 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) pode levar o Brasil à recessão, ampliar a desigualdade e comprometer a renda de trabalhadores e pequenos empreendedores.

A avaliação é da economista Laura Carvalho, professora da Universidade de São Paulo (USP), e do Nobel de Economia Joseph E. Stiglitz, em artigo publicado pelo site Project Syndicate.

 

Trecho de artigo publicado na revista eletrônica IHU Online em 22/10/2026

Música de vanguarda


 

Edgar Varèse



https://www.youtube.com/watch?v=DhpMBedBJ0k&list=PLwCr9cqVvxlZWNQuOxt_hT-rxerOlA_9U&index=11


Edgar(d) Victor Achille Charles Varèse (Paris, 22 de dezembro de 1883 — Nova Iorque, em  6 de novembro de 1965) foi um compositor francês naturalizado estadunidense. É amplamente reconhecido como um dos pioneiros da música eletrônica e da música contemporânea, tendo influenciado profundamente a estética sonora e conceitual da música erudita moderna.

(...) Sua primeira grande criação em solo americano foi escrita entre 1918 e concluída em 1921, Amériques. A peça, composta para grande orquestra, rompe com estruturas tradicionais, propondo uma nova morfologia sonora baseada em timbres contrastantes, massas em transformação e um espaço acústico em constante mutação. Para isso, Verèse desenvolveu o que chamou de matéria sonora proteiforme, palavra criada a partir do mito grego de Proteu, onde há a descrição de uma divindade com poder de se metamorfosear, e criou o conceito de campo sonoro, influenciado pela teoria quântica de campos e na relatividade geral de Albert Einstein, de 1915. Contudo, a obra foi estreada apenas em 1926, interpretada pela Orquestra da Filadélfia, sob regência de Leopold Stokowski.

Varèse influenciou diversos músicos e compositores modernos inclusive da área do rock progressivo e jazz, como o compositor, guitarrista e arranjador estadunidense Frank Zappa.

 

(Fonte do texto: Wikipedia e editor do blog) 

"Flavinho-bomba" no Brasil?

(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)

Em 18/10, manifestantes bolsonaristas na avenida Paulista fizeram uma imitação de um foguete, com as palavras "Trump jogue uma bomba atômica no Brasil!". 

Ruy Mauro Marini

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

 

Assista ao documentário sobre a vida e obra de Ruy Mauro Marini (1932-1997) Ruy Mauro Marini e a dialética da dependência do canal Expressão Popular.

Ruy Mauro Marini foi cientista social e um dos elaboradores da Teoria da Dependência. Exilado do país durante os anos da ditadura militar, Marini foi professor no Chile e no México. 

De volta ao Brasil em 1980, dedica-se à pesquisa e ao ensino. Conheça detalhes sobre suas atividades e ideias no vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=ww4_HoY-UYA

A frase do dia

terça-feira, 20 de outubro de 2026

 

(Em relação ao "Deus, pátria e família")

“Onde quer que a moral se baseie na teologia, onde quer que o que é justo seja tornado dependente de uma autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser justificadas e estabelecidas.”

 

Ludwig Feuerbach (1804-1872), filósofo e antropólogo alemão em A Essência do Cristianismo

Maria Villares (1940-)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site Maria Villares abaixo:

https://mariavillares.art.br/

Bibliotecas

segunda-feira, 19 de outubro de 2026


Pra quem gosta de ler e de livros. A biblioteca de Christian Dunker, psicanalista, professor da USP e autor de livros nas áreas da psicologia e psicanálise.

O vídeo foi produzido pelo jornal O Estado de São Paulo:

Adivinhe!

(Fonte: Instagram/Bancarios Rio)

Pousada - Lou Borges

domingo, 18 de outubro de 2026

 Música brasileira


Lou Borges (1952-2025)

Música: Pousada (2026 - lançamento póstumo)

Álbum: A Estrada




https://www.youtube.com/watch?v=ZDCNPrwsFuI&list=PLTiej1LIy3djYnQEk9l5HU5U72BB_F-oU&index=1


A Estrada é o álbum póstumo de Lô Borges e chega como reflexo de um dos períodos mais férteis de sua trajetória artística. O disco é o oitavo lançado em oito anos, marca que evidencia uma fase de intensa produtividade criativa e reafirma a vitalidade de um compositor que permaneceu ativo, inquieto e profundamente comprometido com a canção até seus últimos trabalhos.

 

(Fonte do texto: Site Phono)

Leituras diárias

sábado, 17 de outubro de 2026

 

“Uma crença inabalável no progresso contínuo está no cerne da maior parte da teoria econômica moderna, notadamente naquilo que é considerado o paradigma econômico atual: o neoliberalismo. A expectativa de progresso tornou-se tão arraigada no público em geral — após uma experiência histórica tão prolongada de avanços tecnológicos que levaram a uma qualidade de vida cada vez melhor (pelo menos no Ocidente) — que raramente questionamos esse princípio ou as teorias que o sustentam. Quaisquer vozes que o questionem — como ambientalistas ou teóricos do ‘decrescimento’, por exemplo —, embora ouvidas com o devido respeito, não refletem o sentimento da maioria. 

Uma economia em expansão é considerada a norma em nosso cotidiano. É isso que todos os governos se empenham em proporcionar, cientes de que sua popularidade depende disso. Partidos políticos que defendem o oposto — talvez propondo a implementação de políticas de decrescimento caso eleitos — dificilmente conquistam muito apoio. O otimismo neoliberal quanto aos efeitos benéficos do livre mercado — também conhecido como ‘fundamentalismo de mercado’ — parece imune a quaisquer evidências em contrário. Discordo profundamente dessa posição. Para pessimistas como eu, parece simplesmente irrealista afirmar que a crise de crédito de 2007-2008 — em grande parte inesperada e não prevista pela maioria dos economistas convencionais — será a última do gênero. Basta um olhar superficial sobre a história econômica para perceber que ciclos de expansão e retração não são a exceção, mas a regra geral. Isso deveria suscitar certo grau de ceticismo. Para o historiador econômico Charles P. Kindleberger, a história econômica moderna pode ser mais bem descrita como uma sucessão de ‘manias, pânicos e quebras’, como se observa em fenômenos como a infame Bolha dos Mares do Sul, no início do século XVIII, ou a especulação desenfreada com bulbos de tulipa na Holanda do século XVII.” 


“Na Grécia clássica, acreditava-se que os deuses podiam controlar os acontecimentos no mundo humano. Os seres humanos eram, assim, meros joguetes em seus planos, e a mensagem clara era a de que não tínhamos — nem jamais poderíamos ter — pleno controle sobre nossos próprios destinos. Por fim, os indivíduos se viam diante de probabilidades adversas, independentemente de quanto sucesso tivessem alcançado anteriormente. Em ‘Édipo Rei’, de Sófocles, testemunhamos os eventos trágicos que podem ocorrer quando nosso destino escapa ao nosso controle. A história é muito conhecida e deu origem ao conceito freudiano de ‘complexo de Édipo’, que mantém vivos os seus temas no mundo moderno. Ela também tem sido fonte de fascínio e inspiração para gerações de artistas e compositores desde a Antiguidade clássica (a adaptação do texto em forma de oratório por Igor Stravinsky, com libreto de Jean Cocteau, é um exemplo notável do século XX).” 

 

Stuart Sim, professor, crítico literário e crítico social inglês em A Philosophy of Pessimism, 2015 (Uma Filosofia do Pessimismo)

Assim será Brasília?

(Fonte: A Terra é Redonda/Quino)

Jessé de Souza

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

“Como o que denominamos de economia se refere à forma específica como a produção e distribuição de bens materiais e simbólicos são viabilizados, a questão aqui é sobre quem fica com muito e quem fica com pouco ao fim e ao cabo desse processo. Essa questão, que é o núcleo da economia, não é nem técnica nem ‘econômica’; é ‘moral’ (e política) e é respondida pela forma dominante com que dada sociedade ‘escolhe’ quem merece o acesso privilegiado aos bens econômicos.

A economia é, portanto, sempre e em todos os casos, uma ‘economia política’. Afinal, o que decide para privilégio de quem a economia funciona é uma questão moral e política e não econômica. O ‘espírito’ do capitalismo é uma questão moral e política e não econômica. O ‘espírito’ do capitalismo como sistema econômico remete, portanto, à necessidade inevitável de uma construção moral que o legitima a partir de ‘fora’, ainda que de modo imperceptível enquanto tal. Em outras palavras, a economia funciona melhor quanto mais invisível for a base moral que a legitima e que permite a reprodução no tempo da atividade econômica.” 

“Essa opacidade da justificação moral no capitalismo é constitutiva do capitalismo, ou seja, um recurso sem o qual ele não funcionaria. A explicação para isso é simples. Pode-se obrigar as pessoas a ir ao seu local de trabalho e, se houver controle e vigilância constantes (o que envolve custos crescentes), também obriga-las a realizar suas funções porque necessitam do salário no final do mês para aplacar a fome. Mas isso seria pouco. Como qualquer sistema de dominação eficiente e que pretende se reproduzir no tempo, o capitalismo necessita se legitimar, ou seja, fazer com que as pessoas acreditem no que fazem e que, se possível, se empenhem o máximo possível. O sucesso do capitalismo nem sequer pode ser compreendido sem o trabalho de legitimação prévio no sentido de ganhar a boa vontade, a adesão ativa e o comprometimento de seus participantes.” 

“Como explicação totalizante hegemônica da história do país, no entanto, é a elite que seleciona tudo o que o povo vai ver na imprensa e na indústria cultural. Assim, por sua força e pregação diária, imaginamos que somos mais corruptos que os outros povos e por isso imbecilizados a ponto de entregar de bandeja a Petrobrás e a Odebrecht aos americanos, posto que seriam, ao contrário de nossos políticos, honestos, produtivos e confiáveis. A mesma ideia vai explicar também por que toda corrupção estaria só no Estado e na política. Com uma mesma ideia é possível matar dois coelhos: culpa-se a política e o Estado por tudo de ruim, o que fragiliza a política como um todo e apequena a participação popular; e aproveita os golpes também para ‘privatizar’ – um eufemismo do saque sobre a riqueza pública – as empresas estatais lucrativas e produtivas a preço de banana.” 

 

Jessé de Souza (1960-) sociólogo, advogado, professor e escritor brasileiro em Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la, 2025.

Paul M. Churchland

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“Se realmente existe uma entidade distinta, na qual o raciocínio, as emoções e a consciência têm lugar, e se essa entidade depende do cérebro unicamente para experiências sensoriais, como entrada de dados, e para execuções da vontade, como saída, então seria de esperar que a razão, a emoção e a consciência fossem relativamente invulneráveis ao controle direto ou às patologias resultantes da manipulação ou de danos ao cérebro. Mas, de fato, é exatamente o oposto que ocorre. O álcool, os narcóticos ou a degeneração senil de tecidos nervosos danificam, incapacitam ou mesmo destroem a capacidade de pensamento racional de uma pessoa. A psiquiatria conhece centenas de produtos químicos que controlam as emoções (o lítio, a cloropromazina, a anfetamina, a cocaína, e assim por diante), que entram em ação ao ser transportados até o cérebro. A vulnerabilidade da consciência aos anestésicos, à cafeína e a algo tão simples quanto uma pancada forte na cabeça mostra sua dependência muito estreita com relação à atividade neural no cérebro. Tudo isso faz plenamente sentido se a razão, as emoções e a consciência forem atividades do próprio cérebro. Mas faz muito pouco sentido se elas forem puramente atividades de alguma outra coisa.” 

“Como todos os organismos, exceto os mais simples, nós temos um sistema nervoso. E pela mesma razão: um sistema nervoso torna possível uma orientação discriminativa do comportamento. Mas um sistema nervoso é apenas uma ativa matriz de células, e uma célula é apenas uma ativa matriz de moléculas. Somos extraordinários apenas porque nosso sistema nervoso é mais complexo e potente que o das outras criaturas à nossa volta. Nossa natureza interior difere da de criaturas mais simples apenas em grau, mas não em gênero.” 

“Se essa é a descrição correta de nossas origens, então não parece haver necessidade, nem espaço, para a introdução de substâncias ou propriedades não-físicas em nossa explicação teórica de nós mesmos. Somos criaturas da matéria. E deveríamos aprender a conviver com esse fato.”

 

Paul M. Churchland (1942-), filósofo especializado em neurofilosofia e filosofia da mente canadense em Matéria e Consciência (2004)

Dia do professor

(Fonte: Blog Jorge Zanoni)

Os cortes de Flavinho

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

(Fonte: Instagram/leonardobarchini)
 

Essa não poderia faltar


 The Flower Kings

The Bridge (2019)

https://www.youtube.com/watch?v=vXIAau3A6rM&list=PLPRRD-TPe2tCJDY3Te5P28ZvbmZyWa6Si&index=5

Queremos teu voto!

terça-feira, 13 de outubro de 2026

(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)
 

A frase do dia

 

“Cada vez mais acredito que Deus não pode ser julgado por este mundo. É um estudo mal-acabado dele.”

 

Vincent van Gogh (1853-1890), pintor pós-impressionista holandês, considerado um dos mais influentes na moderna arte ocidental, citado por Albert Camus em O Homem Revoltado

O que eles pensam

segunda-feira, 12 de outubro de 2026



Votar em Bolsonaro é um desastre 

(...) “Flávio Bolsonaro nega o aquecimento global, vê o meio ambiente como um entrave ao desenvolvimento econômico e tripudia da ciência. É discípulo da cartilha ecocida de seu pai, Jair, que nos legou o maior conjunto de retrocessos socioambientais e humanitários da história. Na herança deixada estão a explosão do desmatamento na Amazônia (60% a mais em relação à média dos quatro anos anteriores), maior alta nas emissões dos gases de efeito estufa em 19 anos, recorde nas invasões de Terras Indígenas, perseguição a povos e comunidades tradicionais, congelamento de mecanismos de financiamento, como o Fundo Clima e Fundo Amazônia, e boicote à ação climática brasileira. O impacto foi negativo para o clima e para o país, incluindo o agronegócio.”


Trecho da nota do Observatório do Clima (https://oc.eco.br/) Votar em Bolsonaro é um desastre, publicada em 08/10/2026

Ler

                                     Incrível Hulk       (Fonte: Lordgray/X.com)   

Não perca tempo na vida! Leia!

Provocações com Paulo Ghiraldelli

domingo, 11 de outubro de 2026
Veja entrevista com o filósofo, professor e escritor Paulo Ghiraldelli para o programa Provocações.

Educação, sexualidade, vida cotidiana, a filosofia e seu ensino, política, são temas da entrevista que foi ao ar em 2012:

O "Jesus" de Flávio?











(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)

Minha opinião

sábado, 10 de outubro de 2026

O meio ambiente parece ter saído de moda no Brasil. Os temas ambientais praticamente desapareceram dos noticiários, dos jornais, das mídias sociais e das conversas entre as pessoas. Até na política temas de ecologia são cada vez mais raros e muitas candidaturas nem falam na questão. Apesar da obrigatoriedade de seu ensino, a matéria tornou-se transversal e assim perdeu em grande parte seu foco nas escolas.

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1990, a reciclagem de materiais, a poluição atmosférica, o saneamento, a proteção dos biomas originais, eram assuntos correntes no dia a dia da população. Nos congressos nacionais e internacionais empresários, especialistas e cientistas discutiam temas relacionados à sustentabilidade. Em 2000 a ONU promovia a Cúpula do Milênio da Organização das Nações Unidas, reunindo 189 países para assinarem a Declaração do Milênio, que estabelecia oito objetivos a serem alcançado até 2015: 1. Erradicar a pobreza extrema e fome; 2. Alcançar educação primária universal; 3. Promover igualdade entre sexos e autonomia das mulheres; 4. Reduzir a mortalidade infantil; 5. Melhorar a saúde materna; 6. Combater HIV/AIDS, a malária e outras doenças; 7. Garantir a sustentabilidade ambiental; 8. Estabelecer uma parceria global para o desenvolvimento.

Guerras localizadas, relações assimétricas entre nações ricas e pobres, crises econômicas e impactos ambientais, foram os principais fatores que fizeram com que Os Objetivos da Declaração do Milênio não fossem alcançados. Outro aspecto que influenciou negativamente a implementação da agenda da Declaração do Milênio foi a crise da economia mundial em 2007-2008, que teve origem no mercado das hipotecas de alto risco (subprimes) dos Estados Unidos. Com a crise, o empenho das empresas em temas ambientais diminuiu ou desapareceu. É sintomático que neste período muitos empresários descontinuaram projetos ambientais mantidos com ONGs, programas internos de qualidade ambiental e de responsabilidade social corporativa (RSC), limitando-se, estritamente, a cumprir a legislação ambiental da região onde atuam.

No Brasil temos outro quadro. Se na década de 1990 o tema dominante na agenda da sustentabilidade, tanto para o setor privado quanto para o governo, era essencialmente a preservação do meio ambiente, na década de 2000 adquirem importância maior as questões ligadas às energias renováveis, em suas diversas aplicações, como energia eólica, solar (térmica e fotovoltaica), pequenas centrais hidrelétricas (PCH), energia de biomassa, de biogás, células de combustível e uso em grande escala do biodiesel, entre outros. É deste período a instalação dos primeiros geradores eólicos no Nordeste, a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), a criação do Programa Nacional de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA) entre outras inciativas privadas e governamentais.

Apesar de não ter sido imediatamente afetada pela crise de 2007-2008, a economia brasileira começa a sentir seus efeitos ao longo dos anos seguintes, notadamente a partir de 2012. Com a crise que se avizinha, o governo federal e governos estaduais reduzem seus investimentos na área da infraestrutura, o que acaba impactando ramos do setor ambiental, como o tratamento de esgotos, a construção de aterros sanitários, a criação de áreas de proteção ambiental, etc. O setor privado, também atingido pela diminuição da atividade econômica, reduz seus aportes em programas considerados não essenciais, como a implantação de programas de qualidade ambiental, produção mais limpa (P+L), análise de ciclo de vida de produto, etc.. Limita-se a cumprir a legislação enquanto que apenas os grandes grupos empresariais continuam mantendo iniciativas ambientais e sociais que agreguem valor à imagem da companhia.

Em 2015 a ONU lança os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda sucessora dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, lançada durante a Conferência Rio+20 em 2012, no Rio de Janeiro. Os ODS contemplam 17 objetivos, divididos em 169 metas, basicamente abrangendo temas importantes para a humanidade, como “pessoas”, “planeta”, “prosperidade”, “paz” e “parcerias”. Estas iniciativas da ONU são essencialmente propositivas e não têm caráter mandatório. A implantação das metas acordadas pelos países depende das condições de desenvolvimento político, social, econômico e tecnológico de cada nação. Por isso a diferença nos padrões ambientais de países como, por exemplo, a Suécia e a Bolívia, ambos signatários de todas estas iniciativas ambientais da ONU.

Fatores econômicos, governos que pouca atenção deram à questão ambiental, falta de discussão do tema, contribuíram para que diminuíssem os investimentos em meio ambiente, fazendo com que a questão perdesse em importância na sociedade brasileira em geral. Associada à falta de recursos, ocorre também uma diminuição dos repasses destinados aos órgãos de controle ambiental – IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Secretarias do Meio Ambiente, agências estaduais de controle ambiental –, impossibilitando compra de equipamentos, contratações de funcionários e diminuindo o número de operações de fiscalização.

Com isso, o Brasil entrou em um verdadeiro retrocesso no que diz respeito à proteção ambiental. Apesar de todo o ufanismo que governo e empresas expressam em sua propaganda, ainda temos graves deficiências em áreas ambientais básicas. Empresas continuam poluindo e provocando grandes desastres ambientais, cujos processos se arrastam na justiça, sem que os afetados sejam devidamente indenizados. Nos novos temas ambientais, como o das mudanças climáticas e da transição energética, na prática, as ações do governo tem se restringido à redução do desmatamento na Amazônia e em zonas de agricultura, e à substituição de combustíveis. Ao planejamento, já encaminhado, falta seguir a prática, a depender de recursos.

O Brasil ainda tem muito por fazer na área da proteção/preservação ambiental. Ainda não resolvemos o baixo índice do saneamento e a gestão de resíduos urbanos, necessidades básicas em toda sociedade civilizada. Na falta de recursos públicos, o governo tem aumentado o número de projetos de concessão e privatização, soluções que nem sempre deram certo aqui e no exterior. Os gases de efeito estufa (GEE), causadores das mudanças climáticas, são gerados principalmente pelo desmatamento (42%) e pelo setor agropecuário (29%), que representam interesses de latifundiários, grileiros, do agronegócio, investidores e do setor financeiro. Os próximos governos precisarão de muita vontade e força política para cobrar medidas de redução de emissões destes grupos econômicos.

À medida que o ambiente urbano e natural se tornar cada vez mais degradado pela ação da poluição, do esgotamento dos recursos naturais ou até pelos efeitos das mudanças do clima, perceberemos, finalmente, que ações de correção e preservação ambiental são urgentes. Mas será que haverá vontade – coragem política – dos futuros governantes de implantá-las?

 

Ricardo E. Rose, 09/10/26

 

 

(Imagens: pinturas de Francisco Goya, 1746-1828)

Frases de Meio Ambiente

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

“A natureza é ordenada. O que parece caótico na natureza é apenas um tipo de ordem mais complexo.”


Gary Snyder (1930-), poeta, ensaísta, linguista e antropólogo estadunidense, citado por Goodreads

Ler

(Fonte: X/Star Treck Fan & Scifi Writer)

Não perca tempo na vida. Leia!
 

Blue Riviera - Sá, Rodrix & Guarabira

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 Música brasileira 


Sá, Rodrix & Guarabira 

Música: Blue Riviera

Álbum: Terra (1973)




https://www.youtube.com/watch?v=aq1LghBRl5Y&list=PLBEzm76YUYg7z8r5o4frty48HKWf5JMGU&index=4


Sá, Rodrix & Guarabyra foi um trio musical brasileiro formado por Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guttemberg Guarabyra. Surgiu em 1971. Se notabilizou pela criação do chamado “rock rural”, em que se mesclavam diversas influências musicais, do rock à música sertaneja. Em 1973, Zé Rodrix se desligou do trio, que passou a ser um duo (Sá e Guarabyra). Em 1999, Zé Rodrix reuniu-se novamente ao duo, permanecendo até sua morte, em 2009.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

Nova política externa?

(Fonte: Facebook/@ArteVillar)

Flávio promete, caso eleito, "nomear imediatamente um negociador para conduzir as negociações de boa-fé" e indica ações do seu governo para resolver as acusações de comércio desleal contra o Brasil.

Entre as medidas prometidas estão não conectar o Pix a meios de pagamento instantâneos internacionais não ocidentais, desonerar o setor de cartões de crédito (beneficiando grandes empresas americanas) e buscar acordos bilaterais de comércio com os EUA, libertando o Brasil das "amarras do Mercosul".

Ele também diz que, caso a atual oposição ganhe mais cadeiras no Senado em outubro, será possível cassar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que têm tomado decisões contra plataformas americanas de redes sociais, uma das questões que irritam a gestão Trump — e que o campo bolsonarista chama de censura.

(Fonte: BBC Brasil em 03/07/26)

Albert Camus e O Homem Revoltado

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

“Nietzsche não quer redenção. A alegria do devir é a alegria da aniquilação. Mas só o indivíduo é destroçado. O movimento de revolta, no qual o homem reivindica o seu próprio ser, desaparece na submissão absoluta do indivíduo ao devir. O amor fati substitui o que era um odium fati. ‘Todo indivíduo colabora com todo o ser cósmico, quer saiba ou não disso, quer queira ou não.’ O indivíduo perde-se, assim, no destino da espécie e no eterno movimento dos mundos. ‘Tudo o que foi é eterno, o mar devolve-o à beira da praia.’” 

“A insurreição humana, em suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser senão um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que encontramos, o protesto dirige-se sempre a tudo aquilo que, na criação, é dissonância, opacidade, solução de continuidade. Trata-se portanto, no essencial, de uma interminável exigência de unidade. A recusa da morte, o desejo de duração e de transparência são as molas de todas essas loucura sublimes e pueris. Trata-se somente da recusa covarde e pessoal de morrer? Não, porque muitos destes rebeldes pagaram o preço necessário para ficar à altura de suas exigências. O revoltado não exige vida, mas razões de vida. Ele rejeita as consequências que a morte traz. Se nada perdura, nada se justifica, aquilo que morre fica privado de sentido. Lutar contra a morte equivale a reinvindicar o sentido da vida, a lutar pela ordem e pela unidade.”

“Já se disse que o mundo de Proust era um mundo sem deus. Se isto for verdade, não é porque ele nunca fala em Deus, mas porque este mundo tem ambição de ser uma perfeição completa e de dar à eternidade o semblante do homem. O Tempo reencontrado, pelo menos em sua ambição, é a eternidade sem deus. A obra de Proust, a esse respeito, surge como um dos empreendimentos mais ambiciosos e mais significativos do homem diante de sua condição mortal. Ele demonstrou que a arte do romance refaz a própria criação, tal como ela nos é imposta e tal como é recusada. Pelo menos sob um de seus aspectos, esta arte consiste em preferir a criatura ao criador. No entanto, com maior perspicácia, ela alia-se à beleza do mundo ou dos seres humanos contra as forças da morte e do esquecimento. É desta forma que a revolta é criadora.” 

 

Albert Camus (1913-1960), filósofo, escritor, ensaísta, dramaturgo e jornalista franco-argelino em O Homem Revoltado (1951)

Bibliotecas

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O que será que uma monja zen budista costuma ler? Autora de dezenas de publicações, a religiosa Shingetsu Coen Röshi, conhecida como Monja Coen (nascida Claudia Dias Baptista de Souza), tem uma biblioteca bastante incomum.

Veja entrevista dada pela monja à equipe do jornal O Estado de São Paulo em agosto de 2024:

https://www.youtube.com/watch?v=hT6to0PHObc

Sempre tem um jeito

 
(Fonte: Enciclopédia Itau Cultural/Edward Munch)

...de piorar bastante o que já não era aceitável. 

E agora?

segunda-feira, 5 de outubro de 2026


 

José

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!

José, para onde?

 

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta, cronista e contista brasileiro em José, publicado em Poesias, 1942

Poesia Moderna Russa

domingo, 4 de outubro de 2026


 

Nacos de Nuvem

 

No céu flutuavam trapos

de nuvem – quatro farrapos:

 

do primeiro ao terceiro – gente;

o quarto – um camelo errante.

 

A ele, levado pelo instinto,

pé, se desgarra um elefante.

 

Um sexto salta – parece.

Susto: o grupo desaparece.

 

E em seu rasto agora se estafa

o sol – amarela girafa  

 

                                                 1917-1918

                               (Tradução de Augusto Campos)

 

 

Vladímir Maiakóvski (1893-1930), poeta e agitador cultural russo, citado em Poesia Russa Moderna, organizado por Augusto de Campos (1931-), Haroldo de Campos (1929-2003) e Boris Schnaiderman (1917-2016).