Leituras diárias

sábado, 17 de outubro de 2026

 

“Uma crença inabalável no progresso contínuo está no cerne da maior parte da teoria econômica moderna, notadamente naquilo que é considerado o paradigma econômico atual: o neoliberalismo. A expectativa de progresso tornou-se tão arraigada no público em geral — após uma experiência histórica tão prolongada de avanços tecnológicos que levaram a uma qualidade de vida cada vez melhor (pelo menos no Ocidente) — que raramente questionamos esse princípio ou as teorias que o sustentam. Quaisquer vozes que o questionem — como ambientalistas ou teóricos do ‘decrescimento’, por exemplo —, embora ouvidas com o devido respeito, não refletem o sentimento da maioria. 

Uma economia em expansão é considerada a norma em nosso cotidiano. É isso que todos os governos se empenham em proporcionar, cientes de que sua popularidade depende disso. Partidos políticos que defendem o oposto — talvez propondo a implementação de políticas de decrescimento caso eleitos — dificilmente conquistam muito apoio. O otimismo neoliberal quanto aos efeitos benéficos do livre mercado — também conhecido como ‘fundamentalismo de mercado’ — parece imune a quaisquer evidências em contrário. Discordo profundamente dessa posição. Para pessimistas como eu, parece simplesmente irrealista afirmar que a crise de crédito de 2007-2008 — em grande parte inesperada e não prevista pela maioria dos economistas convencionais — será a última do gênero. Basta um olhar superficial sobre a história econômica para perceber que ciclos de expansão e retração não são a exceção, mas a regra geral. Isso deveria suscitar certo grau de ceticismo. Para o historiador econômico Charles P. Kindleberger, a história econômica moderna pode ser mais bem descrita como uma sucessão de ‘manias, pânicos e quebras’, como se observa em fenômenos como a infame Bolha dos Mares do Sul, no início do século XVIII, ou a especulação desenfreada com bulbos de tulipa na Holanda do século XVII.” 


“Na Grécia clássica, acreditava-se que os deuses podiam controlar os acontecimentos no mundo humano. Os seres humanos eram, assim, meros joguetes em seus planos, e a mensagem clara era a de que não tínhamos — nem jamais poderíamos ter — pleno controle sobre nossos próprios destinos. Por fim, os indivíduos se viam diante de probabilidades adversas, independentemente de quanto sucesso tivessem alcançado anteriormente. Em ‘Édipo Rei’, de Sófocles, testemunhamos os eventos trágicos que podem ocorrer quando nosso destino escapa ao nosso controle. A história é muito conhecida e deu origem ao conceito freudiano de ‘complexo de Édipo’, que mantém vivos os seus temas no mundo moderno. Ela também tem sido fonte de fascínio e inspiração para gerações de artistas e compositores desde a Antiguidade clássica (a adaptação do texto em forma de oratório por Igor Stravinsky, com libreto de Jean Cocteau, é um exemplo notável do século XX).” 

 

Stuart Sim, professor, crítico literário e crítico social inglês em A Philosophy of Pessimism, 2015 (Uma Filosofia do Pessimismo)

Assim será Brasília?

(Fonte: A Terra é Redonda/Quino)

Jessé de Souza

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

“Como o que denominamos de economia se refere à forma específica como a produção e distribuição de bens materiais e simbólicos são viabilizados, a questão aqui é sobre quem fica com muito e quem fica com pouco ao fim e ao cabo desse processo. Essa questão, que é o núcleo da economia, não é nem técnica nem ‘econômica’; é ‘moral’ (e política) e é respondida pela forma dominante com que dada sociedade ‘escolhe’ quem merece o acesso privilegiado aos bens econômicos.

A economia é, portanto, sempre e em todos os casos, uma ‘economia política’. Afinal, o que decide para privilégio de quem a economia funciona é uma questão moral e política e não econômica. O ‘espírito’ do capitalismo é uma questão moral e política e não econômica. O ‘espírito’ do capitalismo como sistema econômico remete, portanto, à necessidade inevitável de uma construção moral que o legitima a partir de ‘fora’, ainda que de modo imperceptível enquanto tal. Em outras palavras, a economia funciona melhor quanto mais invisível for a base moral que a legitima e que permite a reprodução no tempo da atividade econômica.” 

“Essa opacidade da justificação moral no capitalismo é constitutiva do capitalismo, ou seja, um recurso sem o qual ele não funcionaria. A explicação para isso é simples. Pode-se obrigar as pessoas a ir ao seu local de trabalho e, se houver controle e vigilância constantes (o que envolve custos crescentes), também obriga-las a realizar suas funções porque necessitam do salário no final do mês para aplacar a fome. Mas isso seria pouco. Como qualquer sistema de dominação eficiente e que pretende se reproduzir no tempo, o capitalismo necessita se legitimar, ou seja, fazer com que as pessoas acreditem no que fazem e que, se possível, se empenhem o máximo possível. O sucesso do capitalismo nem sequer pode ser compreendido sem o trabalho de legitimação prévio no sentido de ganhar a boa vontade, a adesão ativa e o comprometimento de seus participantes.” 

“Como explicação totalizante hegemônica da história do país, no entanto, é a elite que seleciona tudo o que o povo vai ver na imprensa e na indústria cultural. Assim, por sua força e pregação diária, imaginamos que somos mais corruptos que os outros povos e por isso imbecilizados a ponto de entregar de bandeja a Petrobrás e a Odebrecht aos americanos, posto que seriam, ao contrário de nossos políticos, honestos, produtivos e confiáveis. A mesma ideia vai explicar também por que toda corrupção estaria só no Estado e na política. Com uma mesma ideia é possível matar dois coelhos: culpa-se a política e o Estado por tudo de ruim, o que fragiliza a política como um todo e apequena a participação popular; e aproveita os golpes também para ‘privatizar’ – um eufemismo do saque sobre a riqueza pública – as empresas estatais lucrativas e produtivas a preço de banana.” 

 

Jessé de Souza (1960-) sociólogo, advogado, professor e escritor brasileiro em Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la, 2025.

Paul M. Churchland

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“Se realmente existe uma entidade distinta, na qual o raciocínio, as emoções e a consciência têm lugar, e se essa entidade depende do cérebro unicamente para experiências sensoriais, como entrada de dados, e para execuções da vontade, como saída, então seria de esperar que a razão, a emoção e a consciência fossem relativamente invulneráveis ao controle direto ou às patologias resultantes da manipulação ou de danos ao cérebro. Mas, de fato, é exatamente o oposto que ocorre. O álcool, os narcóticos ou a degeneração senil de tecidos nervosos danificam, incapacitam ou mesmo destroem a capacidade de pensamento racional de uma pessoa. A psiquiatria conhece centenas de produtos químicos que controlam as emoções (o lítio, a cloropromazina, a anfetamina, a cocaína, e assim por diante), que entram em ação ao ser transportados até o cérebro. A vulnerabilidade da consciência aos anestésicos, à cafeína e a algo tão simples quanto uma pancada forte na cabeça mostra sua dependência muito estreita com relação à atividade neural no cérebro. Tudo isso faz plenamente sentido se a razão, as emoções e a consciência forem atividades do próprio cérebro. Mas faz muito pouco sentido se elas forem puramente atividades de alguma outra coisa.” 

“Como todos os organismos, exceto os mais simples, nós temos um sistema nervoso. E pela mesma razão: um sistema nervoso torna possível uma orientação discriminativa do comportamento. Mas um sistema nervoso é apenas uma ativa matriz de células, e uma célula é apenas uma ativa matriz de moléculas. Somos extraordinários apenas porque nosso sistema nervoso é mais complexo e potente que o das outras criaturas à nossa volta. Nossa natureza interior difere da de criaturas mais simples apenas em grau, mas não em gênero.” 

“Se essa é a descrição correta de nossas origens, então não parece haver necessidade, nem espaço, para a introdução de substâncias ou propriedades não-físicas em nossa explicação teórica de nós mesmos. Somos criaturas da matéria. E deveríamos aprender a conviver com esse fato.”

 

Paul M. Churchland (1942-), filósofo especializado em neurofilosofia e filosofia da mente canadense em Matéria e Consciência (2004)

Dia do professor

(Fonte: Blog Jorge Zanoni)

Os cortes de Flavinho

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

(Fonte: Instagram/leonardobarchini)
 

Essa não poderia faltar


 The Flower Kings

The Bridge (2019)

https://www.youtube.com/watch?v=vXIAau3A6rM&list=PLPRRD-TPe2tCJDY3Te5P28ZvbmZyWa6Si&index=5

Queremos teu voto!

terça-feira, 13 de outubro de 2026

(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)
 

A frase do dia

 

“Cada vez mais acredito que Deus não pode ser julgado por este mundo. É um estudo mal-acabado dele.”

 

Vincent van Gogh (1853-1890), pintor pós-impressionista holandês, considerado um dos mais influentes na moderna arte ocidental, citado por Albert Camus em O Homem Revoltado

O que eles pensam

segunda-feira, 12 de outubro de 2026



Votar em Bolsonaro é um desastre 

(...) “Flávio Bolsonaro nega o aquecimento global, vê o meio ambiente como um entrave ao desenvolvimento econômico e tripudia da ciência. É discípulo da cartilha ecocida de seu pai, Jair, que nos legou o maior conjunto de retrocessos socioambientais e humanitários da história. Na herança deixada estão a explosão do desmatamento na Amazônia (60% a mais em relação à média dos quatro anos anteriores), maior alta nas emissões dos gases de efeito estufa em 19 anos, recorde nas invasões de Terras Indígenas, perseguição a povos e comunidades tradicionais, congelamento de mecanismos de financiamento, como o Fundo Clima e Fundo Amazônia, e boicote à ação climática brasileira. O impacto foi negativo para o clima e para o país, incluindo o agronegócio.”


Trecho da nota do Observatório do Clima (https://oc.eco.br/) Votar em Bolsonaro é um desastre, publicada em 08/10/2026

Ler

                                     Incrível Hulk       (Fonte: Lordgray/X.com)   

Não perca tempo na vida! Leia!

Provocações com Paulo Ghiraldelli

domingo, 11 de outubro de 2026
Veja entrevista com o filósofo, professor e escritor Paulo Ghiraldelli para o programa Provocações.

Educação, sexualidade, vida cotidiana, a filosofia e seu ensino, política, são temas da entrevista que foi ao ar em 2012:

O "Jesus" de Flávio?











(Fonte: A Terra é Redonda/Quinho)

Minha opinião

sábado, 10 de outubro de 2026

O meio ambiente parece ter saído de moda no Brasil. Os temas ambientais praticamente desapareceram dos noticiários, dos jornais, das mídias sociais e das conversas entre as pessoas. Até na política temas de ecologia são cada vez mais raros e muitas candidaturas nem falam na questão. Apesar da obrigatoriedade de seu ensino, a matéria tornou-se transversal e assim perdeu em grande parte seu foco nas escolas.

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1990, a reciclagem de materiais, a poluição atmosférica, o saneamento, a proteção dos biomas originais, eram assuntos correntes no dia a dia da população. Nos congressos nacionais e internacionais empresários, especialistas e cientistas discutiam temas relacionados à sustentabilidade. Em 2000 a ONU promovia a Cúpula do Milênio da Organização das Nações Unidas, reunindo 189 países para assinarem a Declaração do Milênio, que estabelecia oito objetivos a serem alcançado até 2015: 1. Erradicar a pobreza extrema e fome; 2. Alcançar educação primária universal; 3. Promover igualdade entre sexos e autonomia das mulheres; 4. Reduzir a mortalidade infantil; 5. Melhorar a saúde materna; 6. Combater HIV/AIDS, a malária e outras doenças; 7. Garantir a sustentabilidade ambiental; 8. Estabelecer uma parceria global para o desenvolvimento.

Guerras localizadas, relações assimétricas entre nações ricas e pobres, crises econômicas e impactos ambientais, foram os principais fatores que fizeram com que Os Objetivos da Declaração do Milênio não fossem alcançados. Outro aspecto que influenciou negativamente a implementação da agenda da Declaração do Milênio foi a crise da economia mundial em 2007-2008, que teve origem no mercado das hipotecas de alto risco (subprimes) dos Estados Unidos. Com a crise, o empenho das empresas em temas ambientais diminuiu ou desapareceu. É sintomático que neste período muitos empresários descontinuaram projetos ambientais mantidos com ONGs, programas internos de qualidade ambiental e de responsabilidade social corporativa (RSC), limitando-se, estritamente, a cumprir a legislação ambiental da região onde atuam.

No Brasil temos outro quadro. Se na década de 1990 o tema dominante na agenda da sustentabilidade, tanto para o setor privado quanto para o governo, era essencialmente a preservação do meio ambiente, na década de 2000 adquirem importância maior as questões ligadas às energias renováveis, em suas diversas aplicações, como energia eólica, solar (térmica e fotovoltaica), pequenas centrais hidrelétricas (PCH), energia de biomassa, de biogás, células de combustível e uso em grande escala do biodiesel, entre outros. É deste período a instalação dos primeiros geradores eólicos no Nordeste, a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), a criação do Programa Nacional de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA) entre outras inciativas privadas e governamentais.

Apesar de não ter sido imediatamente afetada pela crise de 2007-2008, a economia brasileira começa a sentir seus efeitos ao longo dos anos seguintes, notadamente a partir de 2012. Com a crise que se avizinha, o governo federal e governos estaduais reduzem seus investimentos na área da infraestrutura, o que acaba impactando ramos do setor ambiental, como o tratamento de esgotos, a construção de aterros sanitários, a criação de áreas de proteção ambiental, etc. O setor privado, também atingido pela diminuição da atividade econômica, reduz seus aportes em programas considerados não essenciais, como a implantação de programas de qualidade ambiental, produção mais limpa (P+L), análise de ciclo de vida de produto, etc.. Limita-se a cumprir a legislação enquanto que apenas os grandes grupos empresariais continuam mantendo iniciativas ambientais e sociais que agreguem valor à imagem da companhia.

Em 2015 a ONU lança os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda sucessora dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, lançada durante a Conferência Rio+20 em 2012, no Rio de Janeiro. Os ODS contemplam 17 objetivos, divididos em 169 metas, basicamente abrangendo temas importantes para a humanidade, como “pessoas”, “planeta”, “prosperidade”, “paz” e “parcerias”. Estas iniciativas da ONU são essencialmente propositivas e não têm caráter mandatório. A implantação das metas acordadas pelos países depende das condições de desenvolvimento político, social, econômico e tecnológico de cada nação. Por isso a diferença nos padrões ambientais de países como, por exemplo, a Suécia e a Bolívia, ambos signatários de todas estas iniciativas ambientais da ONU.

Fatores econômicos, governos que pouca atenção deram à questão ambiental, falta de discussão do tema, contribuíram para que diminuíssem os investimentos em meio ambiente, fazendo com que a questão perdesse em importância na sociedade brasileira em geral. Associada à falta de recursos, ocorre também uma diminuição dos repasses destinados aos órgãos de controle ambiental – IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Secretarias do Meio Ambiente, agências estaduais de controle ambiental –, impossibilitando compra de equipamentos, contratações de funcionários e diminuindo o número de operações de fiscalização.

Com isso, o Brasil entrou em um verdadeiro retrocesso no que diz respeito à proteção ambiental. Apesar de todo o ufanismo que governo e empresas expressam em sua propaganda, ainda temos graves deficiências em áreas ambientais básicas. Empresas continuam poluindo e provocando grandes desastres ambientais, cujos processos se arrastam na justiça, sem que os afetados sejam devidamente indenizados. Nos novos temas ambientais, como o das mudanças climáticas e da transição energética, na prática, as ações do governo tem se restringido à redução do desmatamento na Amazônia e em zonas de agricultura, e à substituição de combustíveis. Ao planejamento, já encaminhado, falta seguir a prática, a depender de recursos.

O Brasil ainda tem muito por fazer na área da proteção/preservação ambiental. Ainda não resolvemos o baixo índice do saneamento e a gestão de resíduos urbanos, necessidades básicas em toda sociedade civilizada. Na falta de recursos públicos, o governo tem aumentado o número de projetos de concessão e privatização, soluções que nem sempre deram certo aqui e no exterior. Os gases de efeito estufa (GEE), causadores das mudanças climáticas, são gerados principalmente pelo desmatamento (42%) e pelo setor agropecuário (29%), que representam interesses de latifundiários, grileiros, do agronegócio, investidores e do setor financeiro. Os próximos governos precisarão de muita vontade e força política para cobrar medidas de redução de emissões destes grupos econômicos.

À medida que o ambiente urbano e natural se tornar cada vez mais degradado pela ação da poluição, do esgotamento dos recursos naturais ou até pelos efeitos das mudanças do clima, perceberemos, finalmente, que ações de correção e preservação ambiental são urgentes. Mas será que haverá vontade – coragem política – dos futuros governantes de implantá-las?

 

Ricardo E. Rose, 09/10/26

 

 

(Imagens: pinturas de Francisco Goya, 1746-1828)

Frases de Meio Ambiente

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

“A natureza é ordenada. O que parece caótico na natureza é apenas um tipo de ordem mais complexo.”


Gary Snyder (1930-), poeta, ensaísta, linguista e antropólogo estadunidense, citado por Goodreads

Ler

(Fonte: X/Star Treck Fan & Scifi Writer)

Não perca tempo na vida. Leia!
 

Blue Riviera - Sá, Rodrix & Guarabira

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 Música brasileira 


Sá, Rodrix & Guarabira 

Música: Blue Riviera

Álbum: Terra (1973)




https://www.youtube.com/watch?v=aq1LghBRl5Y&list=PLBEzm76YUYg7z8r5o4frty48HKWf5JMGU&index=4


Sá, Rodrix & Guarabyra foi um trio musical brasileiro formado por Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guttemberg Guarabyra. Surgiu em 1971. Se notabilizou pela criação do chamado “rock rural”, em que se mesclavam diversas influências musicais, do rock à música sertaneja. Em 1973, Zé Rodrix se desligou do trio, que passou a ser um duo (Sá e Guarabyra). Em 1999, Zé Rodrix reuniu-se novamente ao duo, permanecendo até sua morte, em 2009.

 

(Fonte do texto: Wikipedia)

Nova política externa?

(Fonte: Facebook/@ArteVillar)

Flávio promete, caso eleito, "nomear imediatamente um negociador para conduzir as negociações de boa-fé" e indica ações do seu governo para resolver as acusações de comércio desleal contra o Brasil.

Entre as medidas prometidas estão não conectar o Pix a meios de pagamento instantâneos internacionais não ocidentais, desonerar o setor de cartões de crédito (beneficiando grandes empresas americanas) e buscar acordos bilaterais de comércio com os EUA, libertando o Brasil das "amarras do Mercosul".

Ele também diz que, caso a atual oposição ganhe mais cadeiras no Senado em outubro, será possível cassar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que têm tomado decisões contra plataformas americanas de redes sociais, uma das questões que irritam a gestão Trump — e que o campo bolsonarista chama de censura.

(Fonte: BBC Brasil em 03/07/26)

Albert Camus e O Homem Revoltado

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

“Nietzsche não quer redenção. A alegria do devir é a alegria da aniquilação. Mas só o indivíduo é destroçado. O movimento de revolta, no qual o homem reivindica o seu próprio ser, desaparece na submissão absoluta do indivíduo ao devir. O amor fati substitui o que era um odium fati. ‘Todo indivíduo colabora com todo o ser cósmico, quer saiba ou não disso, quer queira ou não.’ O indivíduo perde-se, assim, no destino da espécie e no eterno movimento dos mundos. ‘Tudo o que foi é eterno, o mar devolve-o à beira da praia.’” 

“A insurreição humana, em suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser senão um longo protesto contra a morte, uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que encontramos, o protesto dirige-se sempre a tudo aquilo que, na criação, é dissonância, opacidade, solução de continuidade. Trata-se portanto, no essencial, de uma interminável exigência de unidade. A recusa da morte, o desejo de duração e de transparência são as molas de todas essas loucura sublimes e pueris. Trata-se somente da recusa covarde e pessoal de morrer? Não, porque muitos destes rebeldes pagaram o preço necessário para ficar à altura de suas exigências. O revoltado não exige vida, mas razões de vida. Ele rejeita as consequências que a morte traz. Se nada perdura, nada se justifica, aquilo que morre fica privado de sentido. Lutar contra a morte equivale a reinvindicar o sentido da vida, a lutar pela ordem e pela unidade.”

“Já se disse que o mundo de Proust era um mundo sem deus. Se isto for verdade, não é porque ele nunca fala em Deus, mas porque este mundo tem ambição de ser uma perfeição completa e de dar à eternidade o semblante do homem. O Tempo reencontrado, pelo menos em sua ambição, é a eternidade sem deus. A obra de Proust, a esse respeito, surge como um dos empreendimentos mais ambiciosos e mais significativos do homem diante de sua condição mortal. Ele demonstrou que a arte do romance refaz a própria criação, tal como ela nos é imposta e tal como é recusada. Pelo menos sob um de seus aspectos, esta arte consiste em preferir a criatura ao criador. No entanto, com maior perspicácia, ela alia-se à beleza do mundo ou dos seres humanos contra as forças da morte e do esquecimento. É desta forma que a revolta é criadora.” 

 

Albert Camus (1913-1960), filósofo, escritor, ensaísta, dramaturgo e jornalista franco-argelino em O Homem Revoltado (1951)

Bibliotecas

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O que será que uma monja zen budista costuma ler? Autora de dezenas de publicações, a religiosa Shingetsu Coen Röshi, conhecida como Monja Coen (nascida Claudia Dias Baptista de Souza), tem uma biblioteca bastante incomum.

Veja entrevista dada pela monja à equipe do jornal O Estado de São Paulo em agosto de 2024:

https://www.youtube.com/watch?v=hT6to0PHObc

Sempre tem um jeito

 
(Fonte: Enciclopédia Itau Cultural/Edward Munch)

...de piorar bastante o que já não era aceitável. 

E agora?

segunda-feira, 5 de outubro de 2026


 

José

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!

José, para onde?

 

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta, cronista e contista brasileiro em José, publicado em Poesias, 1942

Poesia Moderna Russa

domingo, 4 de outubro de 2026


 

Nacos de Nuvem

 

No céu flutuavam trapos

de nuvem – quatro farrapos:

 

do primeiro ao terceiro – gente;

o quarto – um camelo errante.

 

A ele, levado pelo instinto,

pé, se desgarra um elefante.

 

Um sexto salta – parece.

Susto: o grupo desaparece.

 

E em seu rasto agora se estafa

o sol – amarela girafa  

 

                                                 1917-1918

                               (Tradução de Augusto Campos)

 

 

Vladímir Maiakóvski (1893-1930), poeta e agitador cultural russo, citado em Poesia Russa Moderna, organizado por Augusto de Campos (1931-), Haroldo de Campos (1929-2003) e Boris Schnaiderman (1917-2016).

Licida Vidal (1984-)

Conheça mais sobre a vida e obra da artista no site do Luis Maluf abaixo:

https://luismaluf.com/en/portfolio/licida-vidal/

Minha opinião

sábado, 3 de outubro de 2026

“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam esse mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível, que é o verdadeiro poder dominante do nosso país. Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formados e nossas ideias são sugeridas, em grande parte, por homens de quem nunca ouvimos falar... São eles que puxam os fios que controlam a mente pública.”

Edward Bernays (1891-1995), pioneiro das relações públicas e propaganda em seu livro Propaganda  

 

Esta é certamente, guardadas as proporções, a mais confusa fase pré-eleitoral desde a redemocratização do país, em 1985. O alvoroço é provocado pelo grande número de personagens que através das mídias sociais digitais opinam, debatem e atacam adversários no ambiente político que antecede as eleições, além das intervenções da justiça eleitoral e do Superior Tribunal Federal (STF).  O efeito que no passado as mídias convencionais – televisão, jornais e o rádio – tinham sobre a opinião pública, foi ampliado exponencialmente pela comunicação digital. Praticamente 90% da população brasileira possui telefone celular, instrumento que em muitos grupos das plataformas digitais de comunicação, como Facebook ou WhatsApp, funciona como difusor de informações verdadeiras, boatos e fake news. 

As mídias sociais vivem de notícias, verdadeiras ou falsas, cuja principal função na ótica das plataformas digitais das big techs como Alphabet (Google), Meta (Facebook, Whatsapp, Instagram), Microsoft (Linkedin), ByteDance (Tik Tok), etc., é gerar reações, likes. Via de regra, as plataformas não têm qualquer preocupação quanto à veracidade ou não do que é veiculado pela mídias sociais. Estas, efetivamente, são utilizadas como instrumentos de coleta de informações sobre seus usuários. As “curtidas” funcionam como meio para identificar opiniões, preferências, objetivos, receios, expectativas, etc., dos diversos usuários das comunidades virtuais. O clima pré-eleitoral brasileiro aumentou muito o número de interações e consultas nestas redes. Segundo o instituto de pesquisa Genial/Quest, as mídias sociais se tornaram fonte principal de consulta política para 39% dos eleitores. 

Este imenso volume de informações diversificadas é organizado através do sistema big data: é armazenado (data lakes), processado e transformado em dados através do data mining e inteligência artificial (IA). Ferramentas essenciais em todo este processo são a IA, no processamento e seleção do grande número de informações, e os datacenters para armazená-los. Estes dados, por sua vez, são adquiridos por empresas, partidos políticos, órgãos do governo, institutos de pesquisa, universidades, etc.; organizações ou entidades que procuram potenciais consumidores, eleitores, cidadãos em geral com determinado perfil, interesses e necessidades.

As informações, os dados adquiridos sobre os usuários das mídias sociais, são utilizados como base para o desenvolvimento de novos produtos e serviços, direcionados para um público consumidor cujos grupos já estão identificados e cujas preferências e expectativas se conhece em vários aspectos. Definido o perfil aproximado de certo grupo, a propaganda, com estratégias psicológicas e emocionais, pode criar expectativas, desejos e necessidades – antes inexistentes – para interessar o potencial consumidor para certo produto ou serviço. Este é apenas um exemplo simples da utilização da IA para influenciar grupos sociais. Mas ainda há várias outras aplicações da tecnologia, incluindo a política.

Eleições também são grande campo de utilização do big data, influenciando decisões de eleitores. Segundo dados disponíveis, a IA vem sendo utilizada para analisar as redes sociais, identificar perfis psicológicos de usuários e enviar propaganda política direcionada para estes grupos - técnica conhecida como microssegmentação de mercado. Outra forma é a montagem de deepfakes em áudios e vídeos, criando fatos falsos, afetando ou impulsionando a imagem de candidatos. Com chatbots (simulação de conversa através de IA) criaram-se discursos e diálogos falsos com grupos de eleitores customizados.

Nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, os chatbots foram usados para simular pronunciamentos defendendo candidatos e foram criadas imagens e vídeos, encenando declarações fictícias. Fatos semelhantes ocorreram nas eleições da Polônia e Canadá, em 2025 e nas eleições brasileiras em 2024. Visando diminuir estas atividades ilícitas nas mídias sociais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Senado Federal estabeleceram restrições para impedir o uso de informações falsas através da IA nas eleições de 2026.

O desenvolvimento da IA progride rapidamente e já se discute retardar o seu avanço. Grandes desenvolvedores como as empresas Anthropic, OpenAI, xAI e Google DeepMind pleiteiam uma diminuição no ritmo das pesquisas, a criação de legislação específica e a conscientização de governos a nível local e mundial. Suspeita-se que a tecnologia possa fugir do controle daqueles que a operam. Dario Amodei, CEO da Anthropic declarou recentemente na imprensa: "A IA acarreta riscos e, por ser uma tecnologia tão poderosa, esses riscos são graves". 

Será que corremos o risco de que logo mais a IA se transforme nos “homens de quem nunca ouvimos falar”, aos quais se refere Bernays no texto introdutório acima, ou seja, a entidade impessoal que controlará a humanidade? 


Ricardo E. Rose, 01/10/26

 

 

(Imagens: pinturas de George Gorsz, 1893-1959)

Daniel Dennett

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

 

“(...) Esse é um passo crucial na campanha darwinista para derrubar a visão do cosmo de Mente-primeira de Locke. Os filósofos costumam concordar, com bons motivos, que não se pode separar significado e mente, nunca poderia haver significado onde não houvesse mente, ou mente onde não houvesse significado. Intencionalidade é o termo técnico do filósofo para esse significado; é o ‘sobre o que se fala’ que pode relacionar uma coisa com outra – um nome para seu dono, um aviso de alerta para perigo que o acionou, uma palavra para seu referente, um pensamento para seu objeto. Só algumas coisas no universo manifestam intencionalidade. Um livro ou uma pintura podem ser sobre uma montanha, mas a montanha em si não é sobre nada. A intencionalidade é amplamente considerada pelos filósofos como a marca do elemento mental. De onde vem a intencionalidade? De mentes, é claro.

Mas essa ideia, perfeitamente boa à sua maneira, transforma-se em uma fonte de mistérios e confusões quando usada como um princípio metafísico, e não como um fato da história natural recente. Aristóteles chamou Deus de Motor Imóvel, fonte de todo movimento no universo, e a versão de Locke para a doutrina aristotélica, como vimos, identifica Deus como Mente, transformando o Motor Imóvel em Intenção Involuntária, fonte de toda Intencionalidade. Locke achava que estava provando dedutivamente o que a tradição já considerava óbvio: a intencionalidade surge da Mente de Deus; nós somos criaturas de Deus, e a Ele atribuímos nossa intencionalidade.” 

“Vamos agora para o extremo oposto e consideremos uma heresia que seria fatal para o darwinismo, não fosse ela uma alternativa tão confusa e, em última análise, contraditória: a tentativa do paleontólogo jesuíta, Teilhard de Chardin, de conciliar sua fé religiosa com sua crença na evolução. Ele propôs uma versão da evolução que colocava a humanidade no centro do universo, e descobriu que o cristianismo expressava a meta – ‘o ponto-ômega’ – que toda a evolução tenta alcançar. Teilhard até achou lugar para o Pecado Original (na sua versão católica, não na científica que observei no Capítulo 8). Para sua tristeza, a Igreja considerou isso uma heresia e o proibiu de ensiná-la em Paris, por isso ele passou o resto da vida estudando fósseis na China, até morrer em 1955. Seu livro The Phenomenon of Man (1959) foi publicado depois de sua morte e aclamado internacionalmente, mas as instituições científicas, e o darwinismo ortodoxo em particular, foram tão firmes quanto a Igreja ao rejeitá-lo como herege. É justo dizer  que nos anos logo após a publicação do livro, tornou-se unânime entre os cientistas que Teilhard não oferecia nenhuma alternativa séria à ortodoxia; sua ideias peculiares eram confusas, e o resto não passava de uma bombástica redescrição da ortodoxia.” 

“(...) O problema coma visão de Teilhard é simples. Ele negou com ênfase a ideia fundamental de que a evolução é um processo algorítmico, irracional, sem objetivo. Este não era um compromisso construtivo; era uma traição da ideia básica que permitia a Darwin derrubar a ideia da Mente-primeira de Locke.” 

“As pessoas querem a todo custo acreditar que nós, seres humanos, somos imensamente diferentes de todas as outras espécies – e elas estão certas! Nós somos diferentes. Somos a única espécie que tem um meio extra de preservação e comunicação de projeto: a cultura. Isso é um exagero; outras espécies também têm rudimentos de cultura, e sua capacidade de transmitir informações ‘pelo comportamento’, além de geneticamente, é em si mesma um fenômeno biológico importante (Bonner, 1980), mas essas outras espécies não desenvolveram cultura como uma forma de decolagem como nossa espécie fez. Nós temos a linguagem, o meio básico da cultura, e a linguagem nos abriu novos espaços no Espaço de Projeto aos quais só nós temos acesso. Em poucos e breves milênios – um mero instante no tempo biológico – já usamos nossos novos veículos de exploração para transformar não só o nosso planeta como o próprio processo de desenvolvimento de projetos que nos criou.” 

 

Daniel Dennett (1942-2024), filósofo, cientista cognitivo, professor estadunidense em A Perigosa Ideia de Darwin (1995)

Bolsonaro Kid

 (Fonte: Instagram/Orlando Pedroso)

Michael Shermer

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

“Isso significa que nossa intenção de fazer alguma coisa segue a onda cerebral inicial de atividade associada à ação em cerca de 300 milésimos de segundo. Ou seja, 3/10 de um segundo se passam entre o cérebro tomar uma decisão e a consciência dessa decisão. Acrescente-se a isso o tempo de processamento de outros 2/10 de segundo para agir e constata-se que ½ segundo se passa entre a intenção de fazer alguma coisa e nossa consciência de fazer realmente o que queremos. A atividade neural que precede à intenção de agir é inacessível à nossa mente consciente, e por isso temos a sensação de livre-arbítrio. Mas é uma ilusão, causada pelo fato de que não podemos identificar a causa da consciência de nossa intenção de agir. Juntos, esses estudos mostram quão profundamente a padronicidade está arraigada em nosso cérebro, estruturalmente inserida em nosso inconsciente e gerando padrões abaixo de nossa consciência.”

“Como hominídeos de cérebro maior, com um córtex desenvolvido e uma ‘teoria da mente’ – consciência de estados mentais como desejos e intenções, tanto em nós quanto nos outros –, praticamos o que chamo de acionalização: a tendência de infundir nos padrões significado, intenção e ação. Ou seja, quase sempre transmitimos ação e intenção aos padrões que encontramos e acreditamos que esses agentes intencionais controlam o mundo, às vezes de maneira invisível, de cima para baixo, e não de maneira aleatória e casual, de baixo para cima, que governa nosso mundo. Acredita-se em almas, espíritos, fantasmas, deuses demônios, anjos, extraterrestres, designers inteligentes, conspiradores políticos e todos os tipos de agentes invisíveis, dotados de força e intenção, assombrem nosso mundo e controlem nossa vida. Combinadas com nossa propensão de descobrir padrões significativos em fatos significativos e não significativos, a padronicidade e a acionalização constituem a base cognitiva do xamanismo, do paganismo, do animismo, do politeísmo, do monoteísmo e de todos os espiritualismos da velha e da nova era.”

 

Michael Shermer (1954-), historiador da ciência, escritor divulgador da ciência e diretor da The Skeptics Society em Cérebro & Crença (2011)

A filosofia Carvaka

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 

“Os Carvakas são, por vezes, comparados aos filósofos gregos. As crenças heterodoxas atribuídas aos Carvakas evocam imediatamente semelhanças com os filósofos gregos Demócrito e Epicuro. Elas também demonstram afinidade com o filósofo e poeta romano Lucrécio.”

 

“Para os Lokayatikas (Carvaka), a totalidade da existência neste mundo reduz-se, em última análise, a quatro elementos: ar, fogo, água e terra. Tudo surge da combinação desses quatro elementos, e o seu fim (morte e dissolução) consiste na separação deles. Esse ponto poderia ser facilmente aceito por oponentes — tanto heterodoxos (jainismo e budismo) quanto ortodoxos (Nyaya-Vaisheshika, Samkhya-Yoga e Mimamsa) — no que diz respeito a objetos materiais, os quais podem ser resultado de uma combinação de elementos materiais, embora alguns desses oponentes possam acrescentar o akasha (éter) como um quinto elemento. O verdadeiro conflito surge quando o Carvaka afirma que até mesmo o ‘eu’ (a personalidade humana), com suas propriedades de vida e consciência, é um produto resultante de tal combinação. Ao defender um empirismo realista e racionalista e não admitir a existência de nada além da natureza, o Carvaka naturalmente sustenta — como todos os materialistas — que a questão do ‘porquê’ do universo é irrelevante. Não encontramos qualquer ‘propósito’ no universo. A natureza é indiferente à ‘vontade’ de um Ser supremo, cuja própria existência é posta em dúvida pelo Carvaka. A natureza perdura e existe por si mesma; não precisamos de nada além dela para explicá-la. A cosmologia Carvaka, portanto, rejeita a atuação de um Ser inteligente (Deus) como causa do universo.

O mundo, segundo o Carvaka, é resultado de um desenvolvimento a partir da combinação dos quatro elementos em proporções variadas, dando origem a uma diversidade de coisas, objetos e seres (animais, humanos, etc.), cada qual com sua própria natureza. Trata-se de uma doutrina de "naturalismo", o Svabhavavada. O Carvaka não acredita na doutrina da criação e, por isso, não necessita de um Criador ou de uma força criadora. Ele não apenas rejeita a agência de Deus, mas também a do ‘invisível’ (adrsta), da ‘ação’ (karma), do ‘destino’ (niyati), do ‘tempo’ (kala) e do ‘acaso’ (yadrccha), substituindo todos eles pela ‘natureza’ (svabhava). É a própria dinâmica interna da matéria que explica o surgimento e o desaparecimento das coisas, segundo ele.”

 

Bhupender Heera (1976-) filósofo e professor indiano em Uniqueness of Carvaka Philosophy in Traditional Indian Thought, 2011 (A Singularidade da Filosofia Carvaka no Pensamento Indiano Tradicional)