Leituras diárias

domingo, 8 de março de 2026


 

“Müller trocou correspondências com Darwin por 17 anos, no período de 1865 a 1882. A título de curiosidade vale lembrar que a primeira carta foi escrita por Darwin e enviada ao naturalista alemão após a leitura de seu livro. Se Müller tivesse escrito a Darwin depois da leitura de Origin (Origin of species – Origem das espécies de Darwin), ocorrida no ano de 1861, com certeza haveria mais epístolas disponíveis. Zillig (1997) traduziu as cartas entre os dois naturalistas para o português. Durante o processo de tradução, ele encontrou 39 cartas de Darwin a Müller e 34 de Müller a Darwin. Dentre os assuntos discutidos pelos naturalistas, nota-se que Darwin encomendava ao amigo residente no Brasil muitas pesquisas sobre assuntos impossíveis de se pesquisar na Europa. Exemplos são os tucanos, as orquídeas e as bromélias. A influência dos estudos de Müller sobre Darwin ainda é um assunto que carece de mais pesquisas na historiografia. Porém, nas edições posteriores de Origin corrigidas pelo autor, o nome de Müller é citado mais de 17 vezes (ZILLIG, 1997, p. 2). 

A amizade e a troca de informações científicas fizeram com que Darwin apelidasse Müller de ‘Príncipe dos observadores’ (CASTRO, 2007, p. 86) devido às observações minuciosas da natureza realizadas pelo naturalista. Aqui é importante ressaltar que, diferentemente dos naturalistas europeus, que possuíam à disposição os mais recentes equipamentos técnicos para suas pesquisas, todas as investigações de Müller feitas em Santa Catarina foram executadas com pouco equipamento. O equipamento mais luxuoso e tecnológico utilizando por Müller foi um microscópio simples enviado pelo amigo Schultze, da Alemanha. 

Os hábitos peculiares de Müller (andar descalço) só fomentaram os boatos na época. Vale ressaltar que a bisneta de Müller, Tula Mayer, concedeu uma entrevista para o documentário Fritz (2009). No depoimento, ela afirma que o seu pai, quando viu a estátua erguida na cidade de Blumenau em homenagem a Fritz Müller, exclamou: ‘Este não é o meu avô! Ele nunca andou calçado! Gustav Stutzer, pastor alemão residente em Blumenau em 1886, também descreve Müller em seu livro de memórias, publicado na Alemanha em 1928. A figura de Müller era tão exótica e singular que foi descrita da seguinte forma: ‘Logo depois da nossa chegada, notei um senhor que toda manhã, às nove horas, a passos lentos e largos, cruzava o centro da cidade. Não olhava nem para a direita e nem para a esquerda, e não respondia aos cumprimentos dos passantes. Sua aparência era tão estranha quanto ao seu comportamento. Descalço, ou de sandálias, magro e alto, vestia calças brancas de sarja, amarradas na cintura com um cinto preto, onde trazia pendurado um facão. Uma comprida bengala acompanhava seus passos lentos. Toda a figura dava a impressão de um autômato. No entanto, a lata coletora verde que levava nas coisas fazia saber que se tratava de um colecionador. Era sem dúvida uma figura muito original.’ (CASTRO, 2007, p. 126).” 

  

Flavia Pacheco Alves de Souza, doutora em Biologia e professora na Universidade Federal do ABC em Notas de um naturalista do sul do Brasil: Fritz Müller: história da ciência e contribuições para a biologia

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