“Müller
trocou correspondências com Darwin por 17 anos, no período de 1865 a 1882. A
título de curiosidade vale lembrar que a primeira carta foi escrita por Darwin
e enviada ao naturalista alemão após a leitura de seu livro. Se Müller tivesse
escrito a Darwin depois da leitura de Origin (Origin of species –
Origem das espécies de Darwin), ocorrida no ano de 1861, com certeza haveria
mais epístolas disponíveis. Zillig (1997) traduziu as cartas entre os dois
naturalistas para o português. Durante o processo de tradução, ele encontrou 39
cartas de Darwin a Müller e 34 de Müller a Darwin. Dentre os assuntos
discutidos pelos naturalistas, nota-se que Darwin encomendava ao amigo
residente no Brasil muitas pesquisas sobre assuntos impossíveis de se pesquisar
na Europa. Exemplos são os tucanos, as orquídeas e as bromélias. A influência
dos estudos de Müller sobre Darwin ainda é um assunto que carece de mais
pesquisas na historiografia. Porém, nas edições posteriores de Origin corrigidas
pelo autor, o nome de Müller é citado mais de 17 vezes (ZILLIG, 1997, p.
2).
A
amizade e a troca de informações científicas fizeram com que Darwin apelidasse
Müller de ‘Príncipe dos observadores’ (CASTRO, 2007, p. 86) devido às
observações minuciosas da natureza realizadas pelo naturalista. Aqui é
importante ressaltar que, diferentemente dos naturalistas europeus, que
possuíam à disposição os mais recentes equipamentos técnicos para suas
pesquisas, todas as investigações de Müller feitas em Santa Catarina foram
executadas com pouco equipamento. O equipamento mais luxuoso e tecnológico
utilizando por Müller foi um microscópio simples enviado pelo amigo Schultze,
da Alemanha.
Os
hábitos peculiares de Müller (andar descalço) só fomentaram os boatos na época.
Vale ressaltar que a bisneta de Müller, Tula Mayer, concedeu uma entrevista
para o documentário Fritz (2009). No depoimento, ela afirma que o seu pai,
quando viu a estátua erguida na cidade de Blumenau em homenagem a Fritz Müller,
exclamou: ‘Este não é o meu avô! Ele nunca andou calçado! Gustav Stutzer,
pastor alemão residente em Blumenau em 1886, também descreve Müller em seu
livro de memórias, publicado na Alemanha em 1928. A figura de Müller era tão
exótica e singular que foi descrita da seguinte forma: ‘Logo depois da nossa
chegada, notei um senhor que toda manhã, às nove horas, a passos lentos e
largos, cruzava o centro da cidade. Não olhava nem para a direita e nem para a
esquerda, e não respondia aos cumprimentos dos passantes. Sua aparência era tão
estranha quanto ao seu comportamento. Descalço, ou de sandálias, magro e alto,
vestia calças brancas de sarja, amarradas na cintura com um cinto preto, onde
trazia pendurado um facão. Uma comprida bengala acompanhava seus passos lentos.
Toda a figura dava a impressão de um autômato. No entanto, a lata coletora
verde que levava nas coisas fazia saber que se tratava de um colecionador. Era
sem dúvida uma figura muito original.’ (CASTRO, 2007, p. 126).”
Flavia Pacheco Alves de Souza, doutora em Biologia e professora na Universidade Federal do ABC em Notas de um naturalista do sul do Brasil: Fritz Müller: história da ciência e contribuições para a biologia


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