Leituras diárias

quarta-feira, 4 de março de 2026


“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga, em Coimbra, aos oitenta e sete anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.

Nunca o vi. Mas a confraria literária tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na literatura, no amor da literatura.

Ele escreveu Requiem por mim. Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmos, perecíveis.

A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco, ao mais profundo de nós, como uma companheira cotidiana, amável. (...)”  


Antonio Carlos Villaça (1928-2005), escritor, jornalista, tradutor e conferencista em Os Saltimbancos da Porciúncula. Villaça é um dos mais importantes memorialistas brasileiros, ao lado de Pedro Nava e Gilberto Amado.

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