“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga,
em Coimbra, aos oitenta e sete anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a
placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe
falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.
Nunca o vi. Mas a confraria literária
tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e
está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na
literatura, no amor da literatura.
Ele escreveu Requiem por mim.
Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória
dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmos,
perecíveis.
A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco, ao mais profundo de nós, como uma companheira cotidiana, amável. (...)”
Antonio Carlos Villaça (1928-2005), escritor, jornalista,
tradutor e conferencista em Os
Saltimbancos da Porciúncula. Villaça é um dos mais importantes
memorialistas brasileiros, ao lado de Pedro Nava e Gilberto Amado.


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