“Desde
os anos 1968, e particularmente na sequência da virada neoliberal, a mente
coletiva da humanidade passou por um profundo processo de reformulação. A
esfera do conhecimento objetivo foi enormemente ampliada, enquanto o tempo
disponível para a elaboração consciente diminuiu inversamente. Essa dupla
dinâmica provocou uma explosão de inconsciência. Inconsciência não significa
falta de informação (ignorância), mas sim uma redução sistêmica da assimilação
consciente subjetiva do conhecimento.
Nos anos 1968, todos esperavam um longo processo de emancipação social da miséria e da exploração. Essa percepção estava totalmente errada, como sabemos agora. A exploração e a miséria não diminuíram; elas se transformaram e se expandiram de muitas maneiras. Hoje, as expectativas predominantes são muito diferentes, quase opostas. Por quê? O que quebrou as expectativas de cinquenta anos atrás, o que provocou esse tipo de inversão de imaginação?”
“Dinheiro
e linguagem são as abstrações que movem o mundo: são nada, mas mobilizam a energia
que o transforma. A palavra latina abstrahere
significa 'arrastar para longe, entreter a partir de'. Abstração, portanto, é a
extração do nada de algo: a extração de uma relação matemática do conjunto
físico de fenômenos, a extração de um algoritmo informacional de um processo
material. Esse nada está funcionando.
Na
esfera da produção capitalista, o trabalho é abstraído da utilidade concreta da
atividade. Então, o próprio capital é abstraído dos ativos físicos e da
produção material de coisas, e transformado em pura relação matemática:
números, algoritmos, deduções. Corpos proliferam fora do bunker abstrato:
isolados do cérebro funcional do cadáver congelado do capitalismo, agem como
corpos dementes. Na era da plena implementação do autômato linguístico, o nada
assume a forma de conhecimento sem consciência.”
Franco “Bifo” Berardi (1949-) filósofo, historiador e
ativista social italiano em The Second
Coming (A Segunda Vinda)


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