Outras leituras

terça-feira, 17 de março de 2026

 

“Machado de Assis travou contato com o ceticismo através de Montaigne e Pascal, e possivelmente também através de Erasmo, Voltaire, Plutarco e Luciano. Plutarco é crítico implacável do estoicismo e faz farto uso das críticas que os céticos acadêmicos desenvolveram ao longo de suas polêmicas com os estoicos. Luciano assemelha-se a Timão, principal discípulo de Pirro, ao mostrar (1) o conflito dos diversos sistemas filosóficos helenísticos; (2) a disparidade entre as teorias dos filósofos e realidade; e sobretudo (3) ao ridicularizar os filósofos e suas doutrinas. O primeiro ponto é observado por alguns dos personagens centrais de Machado, em particular o Conselheiro Aires e Jacobina de ‘O espelho’. O segundo ponto bem caracteriza o procedimento de Brás Cubas-autor em relação ao humanitismo e é a essência do conto ‘Ex-cáthedra’. O terceiro ponto verifica-se novamente no Humanitismo, em ‘Ex-cáthedra’ e em outros contos de Machado que satirizam diretamente filósofos e doutrinas como ‘Academias de Sião’, ‘Contos alexandrinos’ e o ‘Segundo Bonzo’.”

“Como já observou Afrânio Coutinho, Montaigne e sobretudo Pascal e o Eclesiastes, exerceram influência significativa na visão de mundo de Machado. O Eclesiastes é um dos livros do Velho Testamento preferidos pelos fideístas céticos (Montaigne e Pascal o citam inúmeras vezes) na medida em que ressalta a vaidade do saber humano. Tendo sido escrito por volta do século II a.C. na Palestina num período de marcante influência helenística, é impossível que tenha sido diretamente influenciado pelo ceticismo grego. Machado é consciente da conexão Montaigne-Pascal-Eclesiastes, pois associa este último, em uma crônica, a Motaigne e, em carta a Nabuco, a Pascal.”

 

José Raimundo Maia Neto, filósofo e professor brasileiro em O Ceticismo na Obra de Machado de Assis

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