“Machado
de Assis travou contato com o ceticismo através de Montaigne e Pascal, e
possivelmente também através de Erasmo, Voltaire, Plutarco e Luciano. Plutarco
é crítico implacável do estoicismo e faz farto uso das críticas que os céticos
acadêmicos desenvolveram ao longo de suas polêmicas com os estoicos. Luciano
assemelha-se a Timão, principal discípulo de Pirro, ao mostrar (1) o conflito
dos diversos sistemas filosóficos helenísticos; (2) a disparidade entre as
teorias dos filósofos e realidade; e sobretudo (3) ao ridicularizar os
filósofos e suas doutrinas. O primeiro ponto é observado por alguns dos personagens
centrais de Machado, em particular o Conselheiro Aires e Jacobina de ‘O espelho’.
O segundo ponto bem caracteriza o procedimento de Brás Cubas-autor em relação
ao humanitismo e é a essência do conto ‘Ex-cáthedra’. O terceiro ponto
verifica-se novamente no Humanitismo, em ‘Ex-cáthedra’ e em outros contos de
Machado que satirizam diretamente filósofos e doutrinas como ‘Academias de Sião’,
‘Contos alexandrinos’ e o ‘Segundo Bonzo’.”
“Como
já observou Afrânio Coutinho, Montaigne e sobretudo Pascal e o Eclesiastes, exerceram influência
significativa na visão de mundo de Machado. O Eclesiastes é um dos livros do Velho Testamento preferidos pelos fideístas
céticos (Montaigne e Pascal o citam inúmeras vezes) na medida em que ressalta a
vaidade do saber humano. Tendo sido escrito por volta do século II a.C. na
Palestina num período de marcante influência helenística, é impossível que
tenha sido diretamente influenciado pelo ceticismo grego. Machado é consciente
da conexão Montaigne-Pascal-Eclesiastes,
pois associa este último, em uma crônica, a Motaigne e, em carta a Nabuco, a
Pascal.”
José
Raimundo Maia Neto,
filósofo e professor brasileiro em O
Ceticismo na Obra de Machado de Assis


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