Elias Canetti

terça-feira, 24 de março de 2026

 

“Não me arrependo dessas orgias de compra de livros. Parece a época em que minha biblioteca se expandiu enquanto eu escrevia Massa e Poder. Tudo naquela época também acontecia por meio da aventura dos livros. Em Viena, quando eu estava sem dinheiro, ainda desembolsava dinheiro que não tinha em livros. Em Londres, nos piores momentos, eu ainda conseguia comprar livros de vez em quando. Nunca aprendi nada sistematicamente, como outros, mas sim em explosões repentinas. Tudo sempre começava com meus olhos caindo sobre algo que eu simplesmente precisava ler. A sensação de tirar um livro da prateleira, a alegria de desembolsar dinheiro, levá-lo para casa ou para um café, observá-lo, avaliá-lo, folheá-lo, guardá-lo por anos, finalmente descobri-lo de novo, quando realmente importava – tudo isso faz parte do processo criativo cujos detalhes ocultos eu não entendo. Mas é assim comigo, e até o dia da minha morte preciso comprar livros, principalmente quando tenho certeza de que nunca mais os lerei.

Acredito que isso também tenha a ver com a minha defesa da morte. Nunca quero saber qual desses livros permanecerá sem ser lido. Até o fim, não fica claro quais serão. Tenho a liberdade de escolher, pois, em meio a todos os livros que me cercam, sou livre para escolher a qualquer momento e, por meio dessa escolha, ter o curso da vida em minhas mãos.” 

 

Elias Canetti (1905-1994), escritor e ensaísta búlgaro-britânico em O Livro Contra a Morte (The Book Against Death)

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