“Essa constatação nos põe diante da evidência de que a civilização surgida da Revolução Industrial europeia conduz inevitavelmente a humanidade a uma dicotomia entre ricos e pobres, a qual se manifesta entre países e dentro de cada país de forma pouco ou muito acentuada. Segundo a lógica desta civilização, somente uma parcela minoritária da humanidade pode alcançar a homogeneidade social ao nível da abundância. A grande maioria dos povos terá que escolher entre a homogeneidade a níveis modestos, de consumo e um dualismo social de grau maior ou menor.”
“Não
me escapava que o verdadeiro desenvolvimento dá-se nos homens e nas mulheres e
tem importante dimensão política. A história subsequente não fez senão
confirmar minhas opiniões iniciais. Assim, como ignorar que foi porque a partir
de 1964 o Brasil paralisou seu desenvolvimento político – em realidade,
retrocedeu nesse plano enquanto sua sociedade crescia e se nos fazia mais complexa
–, como ignorar, dizíamos, que nos tornamos uma nação de difícil
governabilidade, que destrói recursos escassos e cumula problemas de forma
alucinante?
A
visão global também me fez perceber, desde começos dos anos 70, que a fratura
do subdesenvolvimento se faria mais deformante à medida que se aprofundasse a
crise manifesta que aflige a civilização consumista em vias de planetarização.
Que é inerente a essa civilização um processo depredador, já o sabíamos há
muito tempo: as fontes de energia em que se funda o estilo de vida que ela
estimula caminham para a exaustão, eleva-se a temperatura em nosso ecúmeno e é
progressivo o empobrecimento da biosfera.”
Celso Furtado (1920-2004), economista, ministro do Planejamento e da Cultura, um dos maiores intelectuais brasileiros em Brasil a Construção Interrompida


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