“O senso comum nos faz crer que somos senhores de nossos pensamentos e desejos, que nossa consciência é o núcleo a partir do qual agimos e nos compreendemos. Descartes, em sua famosa fórmula ‘Penso, logo existo’, consolida essa ilusão de um eu transparente para si mesmo. Lacan, no entanto, demonstra que o sujeito cartesiano é uma ficção. O verdadeiro sujeito não é aquele que diz ‘eu’, mas aquele que é dito pelo inconsciente, que emerge nos lapsos, nos sonhos, nos atos falhos — nos momentos em que a fala escapa ao controle do eu. Lacan disse, com efeito, ‘Penso onde não existo e existo onde não penso’ para criticar a frase de Descartes, simbolizando nessa máxima e exemplificando o conceito de fantasia a partir do desejo (pois eu penso onde não existo) e trazendo ainda o conceito de existir sem pensar, no automatismo, se é que podemos chamar assim, gerado pelo inconsciente, que inscreve no sujeito o seu caminhar.”
“Freud já havia anunciado essa descentralização do sujeito ao afirmar que ‘o eu (ego) não é senhor em sua própria casa’. Lacan leva essa afirmação às últimas consequências: o sujeito é essencialmente dividido, cindido entre o que acredita ser e o que o inconsciente revela. Não há coincidência entre o sujeito da enunciação (aquele que fala) e o sujeito do enunciado (aquilo que é dito). Quando alguém afirma ‘Eu decidi isso’, é preciso perguntar: quem, afinal, está decidindo? O desejo que move o sujeito não é transparente para ele mesmo. O inconsciente, para Lacan, não é um reservatório de pulsões obscuras, mas uma estrutura linguística. Ele se manifesta como uma cadeia de significantes que escapam ao domínio consciente. A criança, ao entrar na linguagem, é capturada por uma rede simbólica que a precede e a determina. Seus desejos não são puramente seus; são moldados pelo Outro (a linguagem, a cultura, a família).”
“Há, em cada um de nós, uma voz que afirma com convicção: ‘Eu sou assim’. Ela se reconhece no reflexo, constrói narrativas sobre si mesma, defende - se de ameaças à sua coerência. Essa instância, que Freud chamou de ego, é como um retrato pintado a pinceladas de memória e desejo — uma imagem que nos assegura existir como indivíduos inteiros, donos de nós mesmos. Mas Lacan nos adverte: esse retrato é uma ficção. O ego não é o núcleo da psique, mas uma quimera, uma formação imaginária que se cristaliza no teatro das identificações.”
Cristian Delgado Arantes, psicanalista clínico, fisioterapeuta e escritor em Lacan para Iniciantes: Um Guia à Leitura dos Escritos


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