Mudanças
climáticas, crise climática, emergência climática... Fenômeno que até há pouco era
classificado por muitos como “alarmismo climático” ou “narrativa política da
esquerda”, parece estar afetando o mundo – inclusive os negacionistas de todas
as tendências – mais rapidamente do que até a ciência esperava.
Incêndios
florestais na Europa e Estados Unidos, chuvas torrenciais na Ásia e secas na
África, passaram de acontecimentos excepcionais para ocorrências constantes em
poucas décadas. O mesmo vale para a Região Sul e parte do Sudeste do Brasil,
onde além das fortíssimas chuvas, os ciclones bomba e os tornados são os fenômenos
climáticos bem recentes.
A
crise climática, dizem os cientistas, está apenas em seu início. Depois do
aquecimento da atmosfera – e principalmente dos oceanos – causada pelas
atividades humanas, decorrerão décadas ou séculos, segundo alguns, para que o
sistema volte ao seu estado de equilíbrio pré-revolução industrial, quando,
segundo a ciência, as emissões de gases de efeito estufa de origem antrópica começaram
efetivamente a aumentar.
Enquanto
isso, o quadro do “paciente Terra” (e de seus passageiros humanos) deve piorar.
Períodos de secas em certas regiões, excesso de chuva e enchentes em outras,
calor e frio excessivos, além de todos os efeitos destes fenômenos nas
atividades humanas – os exemplos de todas as partes do planeta nos são apresentados
diariamente e devem aumentar exponencialmente.
E os
governos o que fazem? Além de atuações pontuais para problemas específicos e
urgentes, muito pouco. Basta ver os pífios resultados de todas as COPs –
Conferências sobre o Clima, realizadas pela ONU – das quais a última foi realizada
em novembro de 2025 em Belém, no Brasil. Ninguém quer assumir compromissos
definitivos, principalmente os maiores causadores do aquecimento global; os
países ricos e industrializados e suas grandes empresas.
Mesmo
tendo sido o organizador do evento, são poucas as ações do governo brasileiro
no combate aos efeitos das mudanças do clima. Houve, efetivamente, uma redução
do desmatamento na Amazônia (mas não no Cerrado) e cresceu o uso de energias renováveis
no matriz energética, além de ações pontuais no âmbito da eficiência energética.
Mas
o que está sendo feito no enfrentamento de enchentes, destruição da infraestrutura,
inundação de bairros, falta frequente e demorada de energia elétrica em grande
parte das cidades, interrupção dos sistemas de transportes e das atividades
econômicas – agricultura, indústria e comércio?
Ao
que parece, bem pouco. Na maior parte dos médios e pequenos municípios brasileiros
faltam verbas para medidas de combate aos efeitos das mudanças climáticas e, principalmente,
do recente fenômeno El Niño. No caso deste último, os recursos já deveriam
estar disponíveis e providências já deveriam ter sido tomadas há meses, quando
a ameaça já estava anunciada. Algo foi feito?
Manter,
capacitar e equipar unidades da Defesa Civil, implantar obras para enfrentar
enchentes – como manutenção e organização de abrigos, construção de bueiros e
canais, desassoreamento de rios, contenção de encostas, realocamento de
populações de áreas de enchentes, contenção de marés, entre outras, são
providências que extrapolam os orçamentos anuais da maioria dos municípios
brasileiros. Isso sem falar na necessidade de obras de reurbanização e
ampliação da infraestrutura viária e de saneamento em muitas cidades, com o
aumento das tempestades.
A resposta a estas necessidades é a de sempre: faltam verbas e gestão. O Estado,
em todos os níveis – federal, estadual e municipal – já não consegue arcar
devidamente com os compromissos regulares previstos em orçamento (Educação, Saúde,
Segurança, etc.), quanto mais atender demandas emergenciais, como no caso do
fenômeno El Niño e da emergência climática.
Tome-se
como exemplo áreas ambientalmente muito mais prementes do que a das mudanças
climáticas, nas quais as políticas governamentais também não avançaram. Faltaram
verbas gestão e, principalmente, vontade política para a implantação da
Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), criada em 2010 com o objetivo de
fomentar a reciclagem de materiais e a eliminação dos lixões. Segundo matéria do
Jornal Valor de 27/02/26, ainda persiste o descarte irregular de resíduos
em nove de cada dez municípios do país e estima-se que 41% do lixo urbano são descartados
irregularmente. A cidade de São Paulo, segundo artigo recente do Jornal da USP, recicla menos de 3% de
seu lixo – e isto 15 anos após a implantação da PNRS. No setor do saneamento básico
a situação também é preocupante. Dados (2024) do Painel Saneamento Brasil informam que 15,9% da população brasileira
não têm acesso à água potável; 43,3% não têm coleta de esgoto e 51,8% não têm
esgoto tratado. Apenas dois exemplos das duas áreas mais importantes da
política ambiental urbana: a gestão de resíduos e o saneamento básico.
Pelo
andar da carruagem, não é possível antever mudanças significativas no lento
ritmo de avanço dos temas ambientais no Brasil. Os futuros governos federais,
estaduais ou municipais – seja de que orientação política forem – sempre se
haverão com dificuldades de recursos, interferência de interesses políticos e
pressão dos grupos privados defendendo suas prioridades.
Ricardo
E. Rose, 07/08/26
(Imagens: humoristas do cinema estadunidense dos anos 1920 e 1930)
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