Procura-se
assim sugerir que efetivamente a economia está se tornando mais sustentável,
que os consumidores estão comprando mais produtos “verdes”, e que as empresas –
principalmente aquelas que apoiam este tipo de pesquisa – estão contribuindo
para tal avanço. (Muito provavelmente
com o intuito de melhorarem sua imagem perante os consumidores). Fato é que
ainda existe muito desconhecimento por parte dos consumidores, em relação ao
que sejam produtos sustentáveis.
Também
há que se levar em conta que o cidadão brasileiro, comparado ao europeu ou
americano, tem renda muito baixa – ainda mais nos últimos anos, quando o país
está sendo afetado por uma (aparentemente) insuperável crise da economia. Para
cerca de 15 milhões de desempregados, 33 milhões de subutilizados e 6 milhões
de desalentados – 54 milhões de pessoas ou 25% da população brasileira – a
maior preocupação é sobreviver, comprando os produtos mais baratos,
sustentáveis ou não. Além disso, há o fato de que a maior parte dos produtos de
consumo - pelo menos nos últimos cinco anos - tornou-se tão cara, que
ultrapassa os preços dos mesmos produtos vendidos na Europa ou nos Estados
Unidos. Já é comum, estrangeiros virem para cá, ou mesmo brasileiros voltarem
ao Brasil, comentando que o custo dos produtos de consumo em cidades como São
Paulo e Rio de Janeiro, são mais altos do que em Nova York, Londres ou Berlim.
Sendo assim, é pouco provável que o cidadão comum – não me refiro às elites
abonadas – vá gastar mais dinheiro com produtos verdes, que via de regra são
ainda mais custosos do que os comuns.

Pouco informado e com poucos recursos, o
consumidor se confunde mais ainda com a rotulagem incorreta de muitas
embalagens, que com afirmações dúbias podem induzir o comprador a pensar que se
trata de um produto sustentável, quando na realidade não é. Para este tipo de
conduta, segundo os especialistas da área, ainda não há nenhum tipo de punição.
Para colocar um pouco de coerência no processo, a agência de controle ambiental
do Estado de São Paulo (CETESB), a Associação Brasileira de Embalagem (ABRE) e o
Centro de Tecnologia de Embalagem do Instituto de Tecnologia de Alimentos da
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (CETEA/ITAL)
elaboraram uma apostila com recomendações, a fim de orientar as empresas com
relação às embalagens, no que se refere à questão da sustentabilidade do
produto. (https://www.cetesb.sp.gov.br/media/embalagem_sustentabilidade.pdf).
Estes
fatos também foram confirmados pela pesquisa "Sustentabilidade: Aqui e
Agora", realizada em 2010 – portanto ainda antes do início da crise
econômica – contratada pelo Ministério do Meio Ambiente e pela empresa Wal-mart
(atualmente BIG). A análise foi realizada pela empresa Synovate, e tinha como
objetivo principal esclarecer os hábitos dos consumidores brasileiros, em
relação ao consumo verde e aos problemas ambientais. Responderam à enquete 1,1
mil pessoas de 11 capitais e apesar do tempo decorrido, os resultados não devem
ter mudado significativamente.
A
primeira constatação da pesquisa foi que 74% das pessoas entrevistadas
declararam estar motivadas para comprar produtos ambientalmente corretos. O
fator limitante, no entanto, seria o custo do produto, o que fez com que 93%
das pessoas não estivessem dispostas a gastar mais dinheiro em um
eletrodoméstico econômico, por exemplo. O mesmo ocorria com o item alimentação,
para o qual 91% dos entrevistados afirmaram que não gastariam mais por um
alimento cultivado sem produtos químicos, e apenas 27% haviam comprado produtos
orgânicos nos últimos 12 meses anteriores à pesquisa. Estes percentuais, dada a
pior situação econômica do país atualmente, podem ser ainda menores, agora em
2021.
Com
relação aos resíduos, 53% não fazem qualquer tipo de separação do lixo, mas 66%
aceitariam reciclar mais. A pesquisa também identificou grande desconhecimento
com relação à maneira correta de descartar determinado tipo de resíduos: 70%
dos consumidores jogam baterias e pilhas no lixo comum; 39% descartam óleo de
fritura na pia da cozinha. Aqui também os números não devem ter melhorado, já
que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), implantada em 2010, quase
não avançou nestes últimos dez anos. Na área do transporte, ainda segundo a
pesquisa, é baixo o percentual de cidadãos que estavam dispostos a abrir mão do
veículo particular em benefício do transporte público. Esta situação deve
persistir ainda hoje, dada a presença da epidemia da Covid-19 e o perigo de
contaminação pelo vírus no transporte público.

Uma
outra pesquisa realizada pela empresa Mercado Livre entre junho de 2019 e maio
de 2020 mostra que aumentou a procura por produtos sustentáveis. Durante o
período observado cresceu muito a procura por tal tipo de mercadoria, chegando
a 1,4 milhões de consumidores segundo a Mercado Livre. Novamente, cabe apontar
que a maior parte dos consumidores que faz uso do comércio eletrônico situa-se
nas classes A e B, que atualmente perfazem cerca de 14% da população. (Classe
A: renda acima de 20 salários mínimos; classe B: entre 10 e 20 salários
mínimos; classe C: R$ 2.238,00 a R$ 4.206,00; Classe D: R$ 981,00 a R$ 1.585,00
– dados de abril de 2021). Com isso, por terem um poder aquisitivo e geralmente
nível educacional mais altos, estes consumidores costumam dar preferência a
produtos sustentáveis.
Os dados coletados em um estudo realizado
pelo Instituto Akatu em 2018, também indicam isso. A pesquisa (www.akatu.org.br/pesquisa-akatu2018/)
pesquisou hábitos dos consumidores brasileiros, utilizando como base de
avaliação 13 práticas tidas como sustentáveis. A investigação procurou
determinar o número de práticas sustentáveis de cada pessoa, para depois
incluí-la em categorias de comportamento sustentável. Os critérios de avaliação
do estudo foram:
- Ler o rótulo dos
produtos as serem adquiridos;
- Pedir a Nota
Fiscal da compra;
- Fazer a
separação do lixo na residência, mesmo na falta de coleta seletiva;
- Usar o verso das
folhas para fazer anotações;
- Fechar a
torneira, enquanto escova os dentes;
- Esperar os
alimentos esfriarem, antes de colocá-los na geladeira;
- Não deixar lâmpadas
acesas em cômodos vazios;
- Desligar
aparelhos eletrônicos sem uso;
- Divulgar suas
ações e seus sucessos no uso sustentável de recursos, entre conhecidos;
- Planejar as
compras de alimentos;
- Planejar a
compra de roupas;
- Comprar produtos
de materiais reciclados;
- Comprar
alimentos orgânicos.
Na pesquisa os entrevistados também foram
classificados em quatro categorias:
a) O
indiferente, aquele que tem de 0 a 4 dos comportamentos listados acima;
b) O
iniciante, com 5 a 7 destas práticas;
c) O
engajado, com 8 a 10; e
d) O
consciente, com 11 a 13 dos comportamentos sustentáveis listados.
Os resultados da pesquisa, realizada através
de entrevistas individuais com 1090 pessoas de todas as regiões do país, foi o
seguinte: 38% dos entrevistas incluem-se na categoria dos indiferentes, 38% na
dos iniciantes, 20% são engajados e 4% consumidores conscientes. Outros dados
levantados pelo estudo indicam que, a grosso modo, os consumidores mais
sustentáveis são aqueles com grau de instrução e renda mais altos, mulheres e
pessoas acima de 60 anos.

A propaganda sobre a sustentabilidade de
certos produtos é, geralmente, dirigida aos seus consumidores alvo. Em muitos
casos, são pessoas com renda mais alta e todos os seus corolários. Por outro
lado, constata-se que o mercado consumidor brasileiro ainda não está
suficientemente evoluído em termos de conscientização ambiental, de modo que
mesmo os fabricantes e comerciantes de produtos mais “populares” ainda não precisam focar
na questão da sustentabilidade para realizar as vendas. O Estado, que deveria
ser o indutor da melhoria do nível de conscientização ambiental da população
através de seus diferentes aparelhos públicos (escolas, mídia, bibliotecas,
atividades culturais, etc.), permanece inerte. Assim, a demanda por produtos,
ideias e práticas mais sustentáveis fica de certo modo restrita àqueles que têm
maior poder aquisitivo e conhecimentos. Como quase tudo no Brasil.
(Imagens: fotografias de Charles Marville)