“Pois,
se a autoridade legislativa é delegada, segue-se que aqueles de quem ela
procede são os senhores daqueles a quem ela é conferida. Segue-se ainda que como
senhores, eles conferem a referida autoridade voluntariamente e isso implica
que eles podem concedê-la ou negá-la como bem entenderem. Chamar de delegado
aquilo que é arrancado dos homens, quer queiram ou não, é um absurdo. Mas o que
aqui é verdade para todos coletivamente é igualmente verdade para cada um
separadamente. Assim como um governo só pode agir corretamente em nome do povo quando
por ele autorizado, também só pode agir corretamente em nome do indivíduo
quando por ele autorizado.
Se
A, B e C debatem se devem contratar um agente para prestar um determinado
serviço, e se, enquanto A e B concordam em fazê-lo, C discorda, C não pode ser
equitativamente incluído no acordo contra a sua vontade. E isto deve ser igualmente
verdade para trinta como para três. E, se para trinta, por que não para
trezentos, ou três mil, ou três milhões?
Das
superstições políticas recentemente mencionadas, nenhuma é tão universalmente
difundida quanto a noção de que as maiorias são onipotentes. Sob a impressão de
que a preservação da ordem sempre exigirá que o poder seja exercido por algum
grupo, o senso moral de nosso tempo sente que tal poder não pode ser
legitimamente conferido a ninguém além da maior metade da sociedade. Interpreta
literalmente o ditado de que ‘a voz do povo é a voz de Deus’ e, transferindo
para um a sacralidade atribuída ao outro, conclui que da vontade do povo — isto
é, da maioria — não pode haver apelação.
No
entanto, essa crença é inteiramente errônea. Suponha, para fins de
argumentação, que, tomada por algum pânico malthusiano, uma legislatura que
representasse devidamente a opinião pública decretasse que todas as crianças nascidas
durante os próximos dez anos deveriam ser afogadas. Alguém acha que tal decreto
seria justificável? Se não, há evidentemente um limite para o poder da maioria.”
Herbert Spencer (1820-1903), polímata inglês, que atuou
como filósofo, biólogo, psicólogo, sociólogo e antropólogo em O Direito de Ignorar o Estado (The Right to Ignore the State)
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