Minha opinião

sábado, 3 de outubro de 2026

“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam esse mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível, que é o verdadeiro poder dominante do nosso país. Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formados e nossas ideias são sugeridas, em grande parte, por homens de quem nunca ouvimos falar... São eles que puxam os fios que controlam a mente pública.”

Edward Bernays (1891-1995), pioneiro das relações públicas e propaganda em seu livro Propaganda  

 

Esta é certamente, guardadas as proporções, a mais confusa fase pré-eleitoral desde a redemocratização do país, em 1985. O alvoroço é provocado pelo grande número de personagens que através das mídias sociais digitais opinam, debatem e atacam adversários no ambiente político que antecede as eleições, além das intervenções da justiça eleitoral e do Superior Tribunal Federal (STF).  O efeito que no passado as mídias convencionais – televisão, jornais e o rádio – tinham sobre a opinião pública, foi ampliado exponencialmente pela comunicação digital. Praticamente 90% da população brasileira possui telefone celular, instrumento que em muitos grupos das plataformas digitais de comunicação, como Facebook ou WhatsApp, funciona como difusor de informações verdadeiras, boatos e fake news. 

As mídias sociais vivem de notícias, verdadeiras ou falsas, cuja principal função na ótica das plataformas digitais das big techs como Alphabet (Google), Meta (Facebook, Whatsapp, Instagram), Microsoft (Linkedin), ByteDance (Tik Tok), etc., é gerar reações, likes. Via de regra, as plataformas não têm qualquer preocupação quanto à veracidade ou não do que é veiculado pela mídias sociais. Estas, efetivamente, são utilizadas como instrumentos de coleta de informações sobre seus usuários. As “curtidas” funcionam como meio para identificar opiniões, preferências, objetivos, receios, expectativas, etc., dos diversos usuários das comunidades virtuais. O clima pré-eleitoral brasileiro aumentou muito o número de interações e consultas nestas redes. Segundo o instituto de pesquisa Genial/Quest, as mídias sociais se tornaram fonte principal de consulta política para 39% dos eleitores. 

Este imenso volume de informações diversificadas é organizado através do sistema big data: é armazenado (data lakes), processado e transformado em dados através do data mining e inteligência artificial (IA). Ferramentas essenciais em todo este processo são a IA, no processamento e seleção do grande número de informações, e os datacenters para armazená-los. Estes dados, por sua vez, são adquiridos por empresas, partidos políticos, órgãos do governo, institutos de pesquisa, universidades, etc.; organizações ou entidades que procuram potenciais consumidores, eleitores, cidadãos em geral com determinado perfil, interesses e necessidades.

As informações, os dados adquiridos sobre os usuários das mídias sociais, são utilizados como base para o desenvolvimento de novos produtos e serviços, direcionados para um público consumidor cujos grupos já estão identificados e cujas preferências e expectativas se conhece em vários aspectos. Definido o perfil aproximado de certo grupo, a propaganda, com estratégias psicológicas e emocionais, pode criar expectativas, desejos e necessidades – antes inexistentes – para interessar o potencial consumidor para certo produto ou serviço. Este é apenas um exemplo simples da utilização da IA para influenciar grupos sociais. Mas ainda há várias outras aplicações da tecnologia, incluindo a política.

Eleições também são grande campo de utilização do big data, influenciando decisões de eleitores. Segundo dados disponíveis, a IA vem sendo utilizada para analisar as redes sociais, identificar perfis psicológicos de usuários e enviar propaganda política direcionada para estes grupos - técnica conhecida como microssegmentação de mercado. Outra forma é a montagem de deepfakes em áudios e vídeos, criando fatos falsos, afetando ou impulsionando a imagem de candidatos. Com chatbots (simulação de conversa através de IA) criaram-se discursos e diálogos falsos com grupos de eleitores customizados.

Nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, os chatbots foram usados para simular pronunciamentos defendendo candidatos e foram criadas imagens e vídeos, encenando declarações fictícias. Fatos semelhantes ocorreram nas eleições da Polônia e Canadá, em 2025 e nas eleições brasileiras em 2024. Visando diminuir estas atividades ilícitas nas mídias sociais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Senado Federal estabeleceram restrições para impedir o uso de informações falsas através da IA nas eleições de 2026.

O desenvolvimento da IA progride rapidamente e já se discute retardar o seu avanço. Grandes desenvolvedores como as empresas Anthropic, OpenAI, xAI e Google DeepMind pleiteiam uma diminuição no ritmo das pesquisas, a criação de legislação específica e a conscientização de governos a nível local e mundial. Suspeita-se que a tecnologia possa fugir do controle daqueles que a operam. Dario Amodei, CEO da Anthropic declarou recentemente na imprensa: "A IA acarreta riscos e, por ser uma tecnologia tão poderosa, esses riscos são graves". 

Será que corremos o risco de que logo mais a IA se transforme nos “homens de quem nunca ouvimos falar”, aos quais se refere Bernays no texto introdutório acima, ou seja, a entidade impessoal que controlará a humanidade? 


Ricardo E. Rose, 01/10/26

 

 

(Imagens: pinturas de George Gorsz, 1893-1959)

Daniel Dennett

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

 

“(...) Esse é um passo crucial na campanha darwinista para derrubar a visão do cosmo de Mente-primeira de Locke. Os filósofos costumam concordar, com bons motivos, que não se pode separar significado e mente, nunca poderia haver significado onde não houvesse mente, ou mente onde não houvesse significado. Intencionalidade é o termo técnico do filósofo para esse significado; é o ‘sobre o que se fala’ que pode relacionar uma coisa com outra – um nome para seu dono, um aviso de alerta para perigo que o acionou, uma palavra para seu referente, um pensamento para seu objeto. Só algumas coisas no universo manifestam intencionalidade. Um livro ou uma pintura podem ser sobre uma montanha, mas a montanha em si não é sobre nada. A intencionalidade é amplamente considerada pelos filósofos como a marca do elemento mental. De onde vem a intencionalidade? De mentes, é claro.

Mas essa ideia, perfeitamente boa à sua maneira, transforma-se em uma fonte de mistérios e confusões quando usada como um princípio metafísico, e não como um fato da história natural recente. Aristóteles chamou Deus de Motor Imóvel, fonte de todo movimento no universo, e a versão de Locke para a doutrina aristotélica, como vimos, identifica Deus como Mente, transformando o Motor Imóvel em Intenção Involuntária, fonte de toda Intencionalidade. Locke achava que estava provando dedutivamente o que a tradição já considerava óbvio: a intencionalidade surge da Mente de Deus; nós somos criaturas de Deus, e a Ele atribuímos nossa intencionalidade.” 

“Vamos agora para o extremo oposto e consideremos uma heresia que seria fatal para o darwinismo, não fosse ela uma alternativa tão confusa e, em última análise, contraditória: a tentativa do paleontólogo jesuíta, Teilhard de Chardin, de conciliar sua fé religiosa com sua crença na evolução. Ele propôs uma versão da evolução que colocava a humanidade no centro do universo, e descobriu que o cristianismo expressava a meta – ‘o ponto-ômega’ – que toda a evolução tenta alcançar. Teilhard até achou lugar para o Pecado Original (na sua versão católica, não na científica que observei no Capítulo 8). Para sua tristeza, a Igreja considerou isso uma heresia e o proibiu de ensiná-la em Paris, por isso ele passou o resto da vida estudando fósseis na China, até morrer em 1955. Seu livro The Phenomenon of Man (1959) foi publicado depois de sua morte e aclamado internacionalmente, mas as instituições científicas, e o darwinismo ortodoxo em particular, foram tão firmes quanto a Igreja ao rejeitá-lo como herege. É justo dizer  que nos anos logo após a publicação do livro, tornou-se unânime entre os cientistas que Teilhard não oferecia nenhuma alternativa séria à ortodoxia; sua ideias peculiares eram confusas, e o resto não passava de uma bombástica redescrição da ortodoxia.” 

“(...) O problema coma visão de Teilhard é simples. Ele negou com ênfase a ideia fundamental de que a evolução é um processo algorítmico, irracional, sem objetivo. Este não era um compromisso construtivo; era uma traição da ideia básica que permitia a Darwin derrubar a ideia da Mente-primeira de Locke.” 

“As pessoas querem a todo custo acreditar que nós, seres humanos, somos imensamente diferentes de todas as outras espécies – e elas estão certas! Nós somos diferentes. Somos a única espécie que tem um meio extra de preservação e comunicação de projeto: a cultura. Isso é um exagero; outras espécies também têm rudimentos de cultura, e sua capacidade de transmitir informações ‘pelo comportamento’, além de geneticamente, é em si mesma um fenômeno biológico importante (Bonner, 1980), mas essas outras espécies não desenvolveram cultura como uma forma de decolagem como nossa espécie fez. Nós temos a linguagem, o meio básico da cultura, e a linguagem nos abriu novos espaços no Espaço de Projeto aos quais só nós temos acesso. Em poucos e breves milênios – um mero instante no tempo biológico – já usamos nossos novos veículos de exploração para transformar não só o nosso planeta como o próprio processo de desenvolvimento de projetos que nos criou.” 

 

Daniel Dennett (1942-2024), filósofo, cientista cognitivo, professor estadunidense em A Perigosa Ideia de Darwin (1995)

Bolsonaro Kid

 (Fonte: Instagram/Orlando Pedroso)

Michael Shermer

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

“Isso significa que nossa intenção de fazer alguma coisa segue a onda cerebral inicial de atividade associada à ação em cerca de 300 milésimos de segundo. Ou seja, 3/10 de um segundo se passam entre o cérebro tomar uma decisão e a consciência dessa decisão. Acrescente-se a isso o tempo de processamento de outros 2/10 de segundo para agir e constata-se que ½ segundo se passa entre a intenção de fazer alguma coisa e nossa consciência de fazer realmente o que queremos. A atividade neural que precede à intenção de agir é inacessível à nossa mente consciente, e por isso temos a sensação de livre-arbítrio. Mas é uma ilusão, causada pelo fato de que não podemos identificar a causa da consciência de nossa intenção de agir. Juntos, esses estudos mostram quão profundamente a padronicidade está arraigada em nosso cérebro, estruturalmente inserida em nosso inconsciente e gerando padrões abaixo de nossa consciência.”

“Como hominídeos de cérebro maior, com um córtex desenvolvido e uma ‘teoria da mente’ – consciência de estados mentais como desejos e intenções, tanto em nós quanto nos outros –, praticamos o que chamo de acionalização: a tendência de infundir nos padrões significado, intenção e ação. Ou seja, quase sempre transmitimos ação e intenção aos padrões que encontramos e acreditamos que esses agentes intencionais controlam o mundo, às vezes de maneira invisível, de cima para baixo, e não de maneira aleatória e casual, de baixo para cima, que governa nosso mundo. Acredita-se em almas, espíritos, fantasmas, deuses demônios, anjos, extraterrestres, designers inteligentes, conspiradores políticos e todos os tipos de agentes invisíveis, dotados de força e intenção, assombrem nosso mundo e controlem nossa vida. Combinadas com nossa propensão de descobrir padrões significativos em fatos significativos e não significativos, a padronicidade e a acionalização constituem a base cognitiva do xamanismo, do paganismo, do animismo, do politeísmo, do monoteísmo e de todos os espiritualismos da velha e da nova era.”

 

Michael Shermer (1954-), historiador da ciência, escritor divulgador da ciência e diretor da The Skeptics Society em Cérebro & Crença (2011)