“A
manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das
massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam
esse mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível, que é o
verdadeiro poder dominante do nosso país. Somos governados, nossas mentes são
moldadas, nossos gostos são formados e nossas ideias são sugeridas, em grande
parte, por homens de quem nunca ouvimos falar... São eles que puxam os fios que
controlam a mente pública.”
Edward Bernays (1891-1995), pioneiro das relações públicas e propaganda em seu livro Propaganda
Esta
é certamente, guardadas as proporções, a mais confusa fase pré-eleitoral desde
a redemocratização do país, em 1985. O alvoroço é provocado pelo grande número
de personagens que através das mídias sociais digitais opinam, debatem e atacam
adversários no ambiente político que antecede as eleições, além das intervenções da justiça eleitoral e do Superior Tribunal Federal (STF). O efeito que no passado as mídias
convencionais – televisão, jornais e o rádio – tinham sobre a opinião pública,
foi ampliado exponencialmente pela comunicação digital. Praticamente 90% da
população brasileira possui telefone celular, instrumento que em muitos grupos
das plataformas digitais de comunicação, como Facebook ou WhatsApp, funciona como difusor de informações verdadeiras, boatos e
fake news.
As mídias
sociais vivem de notícias, verdadeiras ou falsas, cuja principal função na
ótica das plataformas digitais das big techs como Alphabet (Google), Meta (Facebook, Whatsapp,
Instagram), Microsoft (Linkedin), ByteDance (Tik Tok), etc., é gerar reações, likes. Via de regra, as plataformas não
têm qualquer preocupação quanto à veracidade ou não do que é veiculado pela
mídias sociais. Estas, efetivamente, são utilizadas como instrumentos de coleta
de informações sobre seus usuários. As “curtidas” funcionam como meio para identificar
opiniões, preferências, objetivos, receios, expectativas, etc., dos diversos usuários das comunidades virtuais. O clima pré-eleitoral brasileiro aumentou muito o número de interações e consultas nestas redes. Segundo o instituto de pesquisa Genial/Quest, as mídias sociais se tornaram fonte principal de consulta política para 39% dos eleitores.
Este
imenso volume de informações diversificadas é organizado através do sistema big data: é armazenado (data lakes),
processado e transformado em dados através do data mining e inteligência artificial (IA). Ferramentas essenciais
em todo este processo são a IA, no processamento e seleção do grande número de
informações, e os datacenters para
armazená-los. Estes dados, por sua vez, são adquiridos por empresas, partidos
políticos, órgãos do governo, institutos de pesquisa, universidades, etc.; organizações
ou entidades que procuram potenciais consumidores, eleitores, cidadãos em geral
com determinado perfil, interesses e necessidades.
As
informações, os dados adquiridos sobre os usuários das mídias sociais, são utilizados
como base para o desenvolvimento de novos produtos e serviços, direcionados
para um público consumidor cujos grupos já estão identificados e cujas preferências e
expectativas se conhece em vários aspectos. Definido o perfil aproximado
de certo grupo, a propaganda, com estratégias psicológicas e emocionais, pode
criar expectativas, desejos e necessidades – antes inexistentes – para interessar o potencial consumidor para certo produto ou serviço. Este é apenas um exemplo simples da utilização da IA
para influenciar grupos sociais. Mas ainda há várias outras aplicações da tecnologia, incluindo a política.
Eleições
também são grande campo de utilização do big
data, influenciando decisões de eleitores. Segundo dados disponíveis, a IA
vem sendo utilizada para analisar as redes sociais, identificar perfis
psicológicos de usuários e enviar propaganda política direcionada para estes
grupos - técnica conhecida como microssegmentação de mercado. Outra forma é a
montagem de deepfakes em áudios e
vídeos, criando fatos falsos, afetando ou impulsionando a imagem de candidatos.
Com chatbots (simulação de conversa
através de IA) criaram-se discursos e diálogos falsos com grupos de eleitores
customizados.
Nas
eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, os chatbots foram usados para simular pronunciamentos defendendo
candidatos e foram criadas imagens e vídeos, encenando declarações fictícias.
Fatos semelhantes ocorreram nas eleições da Polônia e Canadá, em 2025 e nas
eleições brasileiras em 2024. Visando diminuir estas atividades ilícitas nas mídias sociais, o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) e o Senado Federal estabeleceram restrições para impedir o uso de informações falsas através da IA nas eleições de 2026.
O desenvolvimento da IA progride rapidamente e já se discute retardar o seu avanço. Grandes desenvolvedores como
as empresas Anthropic, OpenAI, xAI e Google
DeepMind pleiteiam uma diminuição no ritmo das pesquisas, a criação de
legislação específica e a conscientização de governos a nível local e mundial. Suspeita-se
que a tecnologia possa fugir do controle daqueles que a operam. Dario Amodei,
CEO da Anthropic declarou recentemente na imprensa: "A IA acarreta riscos e,
por ser uma tecnologia tão poderosa, esses riscos são graves".
Será que corremos o risco de que logo
mais a IA se transforme nos “homens de quem nunca ouvimos falar”, aos quais se
refere Bernays no texto introdutório acima, ou seja, a entidade impessoal que controlará a
humanidade?
Ricardo E. Rose, 01/10/26
(Imagens: pinturas de George Gorsz, 1893-1959)

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