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quarta-feira, 31 de julho de 2019Na perspectiva do paradoxo (II)
sábado, 27 de julho de 2019
"Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira, um discurso populista." (presidente Bolsonaro)
"Daqueles governadores de...paraíba, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada com esse cara." (Idem)
"Tentou impor a ditadura no Brasil na luta armada" (Idem sobre a jornalista Miriam Leitão)
"Tentou impor a ditadura no Brasil na luta armada" (Idem sobre a jornalista Miriam Leitão)
"Não sou economista, falei que não entendia de economia, quem entendia afundou o Brasil, tá certo?" (Idem)
"Se não puder ter filtro, nós extinguiremos as ANCINE." (Idem)
"[...] Assim que deve ser feito e não de forma rasa como ele faz, que coloca o Brasil em situação complicada. [...] Um dado desse aí, da maneira de divulgar, prejudica a gente" (Idem sobre dados do desmatamento divulgados pelo INPE)
"Olha, o valor (de 40% da multa do FGTS) não está na Constituição. Acho que não está. O FGTS está no artigo sete da Constituição. O valor é uma lei. A gente pode pensar lá na frente (em mudar esse percentual). Mas antes disso a gente tem que ganhar a guerra da informação. Não quero manchete amanhã no jornal dizendo que o presidente está estudando reduzir o valor da multa. O que estou tentando levar para o trabalhador é o seguinte, menos direito e emprego ou todos os direitos e desemprego" (Idem)
"[...] Assim que deve ser feito e não de forma rasa como ele faz, que coloca o Brasil em situação complicada. [...] Um dado desse aí, da maneira de divulgar, prejudica a gente" (Idem sobre dados do desmatamento divulgados pelo INPE)
"Olha, o valor (de 40% da multa do FGTS) não está na Constituição. Acho que não está. O FGTS está no artigo sete da Constituição. O valor é uma lei. A gente pode pensar lá na frente (em mudar esse percentual). Mas antes disso a gente tem que ganhar a guerra da informação. Não quero manchete amanhã no jornal dizendo que o presidente está estudando reduzir o valor da multa. O que estou tentando levar para o trabalhador é o seguinte, menos direito e emprego ou todos os direitos e desemprego" (Idem)
"Uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?" (Idem, sobre a morte de João Gilberto)

"O que o Brasil não pode é abrir mão das riquezas em prol de mais tarde essas riquezas serem exploradas pelo estrangeiro. Número dois: hoje pela lei, 80% das propriedades da Amazônia têm que ser preservadas. É justo você comprar uma propriedade e 80% você não poder mexer? Não poder fazer nada?" (Idem)
"A indústria deles continua sendo fóssil, de plástico, carvão e a nossa não. Eles têm muito a aprender conosco." (Idem, respondendo à chanceler Angela Merkel))
"Eu tenho vergonha do que eu recebo do Exército, isso eu tenho vergonha. Se eu mostrar pro meu filho que eu sou general de Exército, e ganho líquido R$ 19.000, eu tenho vergonha” (General Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional)
"Um idiota inútil" (general Luis Eduardo Rocha Paiva, conselheiro da Comissão de Anistia do governo federal, referindo-se ao vereador Carlos Bolsonaro)
"Vejo uma comunicação falha há meses da equipe do Presidente. Tenho literalmente me matado para tentar melhorar, mas como muitos, sou apenas mais um e não pleiteio nem quero máquina na mão. É notório que perdemos oportunidades ímpares de reagir e mostrar seu bom trabalho". (Vereador Carlos Bolsonaro)
"Em Israel, o Jair Bolsonaro tem um monte de parcerias para trazer tecnologia aqui para o Brasil. Em vez de as universidades do Nordeste ficarem aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no agreste, [devem] fazer agronomia, em parceria com Israel" (ministro da Educação Abraham Weintraub)
"No passado, o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?” (Idem)
"Evidentemente, não tenho nada a esconder." (ministro da Justiça Sergio Moro)

"Nunca atuei com motivação ideológica ou político-partidária." (Idem)
"A pedra que a mídia rejeitou, que os intelectuais rejeitaram, que tantos artistas, que tantos autoproclamados especialistas rejeitaram... Essa pedra se tornou pedra angular do 'edifício de um novo Brasil', esse raio vívido de amor e esperança que à terra desce." (ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, referindo-se ao presidente Bolsonaro)
(Imagens: pinturas de Daniel Celentano)
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quarta-feira, 24 de julho de 2019Mudanças climáticas e o litoral de São Paulo (2ª parte)
sábado, 20 de julho de 2019
"Vivemos, ainda, sob o reinado da Lógica: este é, naturalmente, o ponto aonde eu queria chegar. Mas, hoje em dia, os métodos da Lógica só servem para resolver problemas de interesse secundário." - André Breton - Manifesto do Surrealismo
(continuação parte 2. - Descobertas / críticas)
Em
1988 o físico James Hansen, funcionário da Agência espacial americana (NASA)
foi o primeiro cientista a ser convocado pelo congresso americano a fim de dar
seu testemunho sobre o fenômeno da mudança do clima provocada pelos humanos.
Gradualmente, a partir do final do século XX a ciência consegue reunir um
número cada vez maior de dados que comprovam a influência antrópica (humana)
sobre o clima da Terra, de forma acentuada, segundo os registros, especialmente
a partir do final do século XVIII e início do XIX, quando começa a Revolução
Industrial, com ampla utilização de combustíveis fósseis; carvão mineral e
derivados de petróleo.
As mudanças
climáticas não foram rapidamente aceitas como forma de interpretação científica
dos fenômenos que estavam ocorrendo. Setores da economia mundial,
principalmente as companhias petrolíferas, se colocaram contra a teoria, chegando
a financiar pesquisas que pudessem falsificar a ideia científica. Segmentos
econômicos como o da geração de energia no hemisfério Norte, com uso intensivo
de carvão mineral; indústrias de fertilizantes que liberam óxido nitroso (N²O);
setor de transporte rodoviário, marítimo e aéreo, com emissões de CO²; a cadeia
produtiva de toda a indústria petroquímica; e o setor agropecuário. Todavia, o
setor da economia mundial imediatamente mais afetado caso a origem antrópica do
aquecimento definitivamente fosse comprovada seria a indústria petrolífera,
pois certamente haveria necessidade de reduzir o uso dos combustíveis fósseis
ou propor sua taxação.
Assim,
durante grande parte dos anos 1990, grandes conglomerados do setor petrolífero contrataram
universidades, equipes de cientistas e laboratórios a peso de ouro – além de organizarem
um forte lobby junto aos governos,
principalmente o dos EUA – para reunir dados que pudessem provar que o fenômeno
não era influenciado pelas emissões de gases resultantes da queima de
combustíveis. Todavia, indícios e provas científicas comprovavam, cada vez mais,
o fato de que as emissões das atividades humanas estavam acelerando o
aquecimento da atmosfera – e dentre estas, os maiores volumes de gases eram
gerados pela queima de combustíveis fósseis.
Há
alguns anos a imprensa americana revelou que nos anos 1960 a Universidade de
Stanford já havia preparado um relatório para o American Petroleum Intitute (Instituto Americano de Petróleo), atestando
que as emissões de dióxido de carbono, resultantes da queima dos derivados de
petróleo, poderiam provocar o efeito estufa no planeta (então já conhecido e
explicado pela ciência); o que ocasionaria o aumento da temperatura da
atmosfera, derretimento de geleiras e aumento do nível dos oceanos. O setor
petrolífero, a exemplo do que também fez por longo período a indústria de
cigarros americana, fez de tudo ao longo das três décadas seguintes para omitir
os dados pesquisados pela universidade e desacreditar outras pesquisas que
chegavam a conclusões semelhantes. Um desses estudos publicado na revista Nature,
“atribuiu
um nível de confiança na casa dos 90 por cento ao facto de ‘a influência humana
ter, no mínimo, duplicado o risco de uma onda de calor que exceda [um] limiar
de magnitude’ das temperaturas médias de verão, como aconteceu na Europa em
2003 e em mais nenhum outro ano desde 1851. As ligações tornar-se-ão cada vez
mais claras no futuro, tanto porque a ciência está a ficar melhor como porque
os eventos de clima extremo se estão a tornar cada vez mais extremos.” (Wagner
& Weitzman, 2016)
No
entanto, apesar do acúmulo de comprovações da teoria das mudanças climáticas e
de sua origem antrópica, ainda existem grupos e (poucos) cientistas que colocam
em questão o fenômeno. Estes, dividem-se basicamente em duas categorias: 1) os
que terminantemente negam a ocorrência de um gradual aquecimento da atmosfera
terrestre; e 2) os que aceitam a possibilidade do aquecimento mas
definitivamente discordam de que seja de origem antrópica. Entre os cientistas
estão aqueles que, em sua maioria bem intencionados e sem vínculos com
entidades e grupos de interesse, interpretam os indícios até agora disponíveis
como inconclusivos. Segundo a Wikipedia,
estes cientistas “negacionistas climáticos” representam cerca de 1% dos
climatologistas em atividade; um número muito reduzido, portanto.
Outros
grupos de negacionistas das mudanças do clima são formados por grandes
indústrias, políticos e formadores de opinião, geralmente representados por think tanks financiados por estas
agremiações. São geralmente grupos de tendência conservadora e libertário, como
o norte-americano Heartland Institute, fundado em 1984. Na década de 2000 o
instituto tornou-se um dos principais patrocinadores do negacionismo climático.
(Wikipedia). No Brasil estes grupos são praticamente inexistentes. Segundo
estudo da Universidade de Oxford em parceria com a agência Reuters, no Brasil o
espaço reduzido dos céticos ambientais se devia a uma “combinação entre cultura
jornalística, poucos ou nenhum grupo de pressão ligados ao setor petrolífero e à virtual ausência de vozes fortes céticas na elite científica, política e
econômica.” (Wikipedia).
(Imagens: pinturas de Hans Grundig)
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Ricardo Ernesto Rose
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Labels: Artigo técnico, Economia, Gestão Ambiental, Meio Ambiente
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A política de gestão de resíduos e os catadores
sábado, 13 de julho de 2019
"A imagem do homem imposta pelo Antigo Testamento é a de Jó. Quer dizer, a imagem do homem humilhado por Deus, voltado para a sua insignificância, a sua fraqueza e os seus pecados." - Jacques Le Goff - O Deus da Idade Média
A
Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), promulgada em 2010 no final do governo
Lula, teve seu prazo de implantação postergado por duas vezes e ainda está no
papel. O marco legal que deveria ordenar a destinação dos resíduos sólidos
urbanos, eliminando os lixões e instituindo programas de reciclagem, ainda é
letra morta em grande parte do país. O ambicioso programa, que demandaria anos
de implantação, segundo o ministério do Meio Ambiente à época de sua criação,
ainda não saiu dos papéis – ou dos computadores – de seus gestores. À grande
parte dos municípios faltam conhecimentos técnicos para preparar estudos e projetos
de implantação do sistema, recursos financeiros e, além de tudo, vontade política.
Uma
das categorias que mais seria beneficiada com as providências previstas na PNRS
é a dos catadores; profissionais encarregados da coleta e separação de parte
dos fluxos de material reciclável. Organizados em cooperativas e especializando
sua atuação por área ou tipo de material, os catadores terão a oportunidade de
se aperfeiçoarem, agregando máquinas e equipamentos às suas atividade,
aumentando sua produtividade e renda.
Atualmente,
porém, a situação dos catadores é bastante diferente. O número destes
profissionais cresceu 48% entre 2014 e 2018 – de 180,5 mil para 268 mil –
segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (Pnad) Contínua,
compilados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas
(Ibre-FGV) e publicados pelo jornal Valor. No entanto, o volume de material
coletado que chega às cooperativas vem diminuindo. Causa desta redução na
quantidade de recicláveis é a queda no consumo, provocada pela crise econômica.
O volume do material recolhido por quatro das sete unidades de reciclagem do
Grande ABC, por exemplo, teve queda de 7,5% entre 2017 e 2018, segundo o jornal
Diário do Grande ABC. Dados da associação Compromisso Empresarial para
Reciclagem (Cempre) apontam queda entre 2012 e 2017 no consumo de plástico (-15,4%),
alumínio (-15,2%) e de papel (-9,8%).
Outro
fator da queda no volume coletado pelas cooperativas é o aumento de catadores
independentes, trabalhando por conta própria. Muitos desses profissionais
entraram na atividade por causa do desemprego, já que antes trabalhavam em
outros setores da economia, principalmente a indústria da construção civil.
São, em sua maioria, pessoas sem qualificação profissional, tendo apenas o
ensino fundamental incompleto, ou sem nenhuma instrução. Estes profissionais
informais têm renda mensal aproximada de R$ 690,00, cerca de 30% da renda média
nacional.
A
implantação da PNRS é, junto com a melhoria dos índices de saneamento, um dos
mais importantes temas na agenda ambiental urbana brasileira nos próximos anos.
Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (ABDIB),
cerca de 29 milhões de toneladas de lixo são destinada incorretamente a cada
ano para 3 mil lixões e aterros irregulares. Somente de lixo plástico, segundo
o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), o Brasil gera 11,3 milhões de toneladas
anuais, dos quais apenas 145 mil toneladas (cerca de 1,2%) são recicladas. E
isto no país que é o quarto maior gerador de lixo do mundo, atrás apenas dos
EUA, da China e da Índia. Nestas condições, a implantação de uma política de
gestão dos resíduos urbanos se faz urgente.
(Imagens: desenhos de Lovis Corinth)
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Ricardo Ernesto Rose
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Labels: Economia, Gestão Ambiental, Gestão de recursos, Gestão Pública
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quarta-feira, 10 de julho de 2019As formas de governo propostas por Platão
sábado, 6 de julho de 2019
"Platão diferencia educação negativa, orientada para o ganho, e educação positiva, orientada para a virtude. Aristóteles, porém, distingue educação orientada para a atividade e educação orientada para o ócio." - Domenico de Masi - O futuro chegou - Modelos de vida para uma sociedade desorientada
Platão (428 a .C. – 348 a .C.), filósofo grego
discípulo de Sócrates foi o iniciador da tradição filosófica ocidental. Escreveu
grande parte de sua obra filosófica na forma de diálogos, nos quais fazia seu
mestre, Sócrates, como principal personagem e porta-voz de suas idéias. Algumas destas idéias desenvolvidas
pelo filósofo ateniense tornaram-se os fundamentos da filosofia ocidental, mais
especificamente da metafísica ocidental. Dentre estas, o conceito das Idéias ou
Ideais é o mais famoso. Segundo Platão – e nisso teve grande influência sua
ligação com os cultos órficos – estamos destinados a viver diversas vezes, durante
as quais passamos por um processo de purificação e temos a chance de evoluir. Toda
vez, antes que nossas almas ocupem um novo corpo, passamos um período no mundo
das Idéias ou Ideais. Nesta dimensão além da vida terrena, segundo Platão,
temos a chance de contemplar as formas perfeitas. Assim, contemplamos a forma
perfeita da mesa, ou seja, o arquétipo de todas as mesas que são construídas em
nosso mundo material. Contemplamos a forma perfeita de um cavalo, da qual todos
os cavalos terrestres são cópias imperfeitas. Nesta dimensão contemplamos
também o Bem, a Virtude, a Beleza e outros conceitos abstratos.
Ainda segundo Platão, todas as coisas
que existem no mundo onde vivemos, são apenas uma cópia imperfeita deste mundo
das Idéias (o filósofo nunca fez uma lista de todos os entes Ideais que têm uma
cópia no mundo material). Assim que nascemos, trazemos em nós a lembrança deste
mundo ideal, que com o passar do tempo, no entanto, vai se apagando. É através
da busca do conhecimento – principalmente pela prática da filosofia – e de uma
vida virtuosa, que aos poucos passamos a nos lembrar dos conceitos deste mundo
perfeito, os Ideais.

A metáfora do mito da caverna representa
o processo de aprendizado do homem, em direção à sabedoria. Uma passagem d ‘A
República deixa isto claro:
“Quanto
a mim, minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a
ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode aprendê-la sem concluir que
ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo
visível, ela engendrou a luz e o soberano da luz; no mundo inteligível, é ela
que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se
comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública” (Platão: 2004, p. 228)
Para Platão, no entanto, todo o
processo educativo tem como função principal preparar os futuros governantes e
governados para a formação de um Estado ideal. Para o filósofo, este Estado
deverá ser governado pelos filósofos, já que estes são os mais preparados para
administrar uma República. Diz Sócrates na Republica:
“Aliás,
Glauco, nota que não seremos culpados de injustiça para os filósofos que se
formarem entre nós, mas teremos justas razões a apresentar-lhes, forçando-os a
encarregar-se da orientação e da guarda dos outros. Diremos a eles: “Nas outras
cidades, é natural que aqueles que se tornaram filósofos não participem nos
trabalhos da vida pública, visto que se formaram a si mesmos, apesar dos
governos destas cidades; ora é justo que aquele que se forma a si mesmo e não
deve o sustento a ninguém não queira pagar o preço disso a quem quer que seja.
Mas vós fostes formados por nós, tanto no interesse do Estado como no vosso,
para serdes o que são: os reis das colméias; demos-vos uma educação melhor e
mais perfeita que a desses filósofos e tornamos-vos mais capazes de aliar a
condução dos negócios aos estudos da filosofia. “(Ibidem
p. 231).

A segunda classe na hierarquia do
Estado platônico é a dos guerreiros, nos quais prevalece a força irascível
(volitiva) da alma. Platão compara os guerreiros aos cães de raça, dotados ao
mesmo tempo de mansidão e ferocidade. A virtude típica desta classe é a
fortaleza e a coragem. Os guardas têm como função permanecer atentos aos
perigos externos e aos internos. Internamente tem como função zelar para que a classe
mais baixa, a dos agricultores, artesãos e comerciantes não produza riquezas
demais, o que pode gerar ócio, luxo indiscriminado e amor exagerado pelas
novidades. Outra tarefa importante desta classe é zelar para que as tarefas
confiadas a cada cidadão correspondam à sua índole e que cada um tenha a educação
conveniente.
A terceira classe na hierarquia social
estabelecida por Platão é a dos lavradores, artesãos e comerciantes. Nestes
prevalece o espírito concupiscível na alma, o apego e a sede por prazeres dos
sentidos. Esta classe social desempenha seu correto papel na sociedade
platoniana quando tem a virtude da temperança, disciplinando seus desejos e
prazeres e submetendo-se às classes superiores.
Esta ordenação do Estado platônico é
na realidade uma grande metáfora da alma humana – assim com o é também o mito
da caverna. As três classes representam tendências inatas no homem que levam a
alma para o desejo, para a ira e para a sabedoria. Neste aspecto a obra A República, apesar dos detalhes quanto
ao governo que apresenta, é uma analogia sobre a vida humana, sob a ótica das
Idéias. Escreve Werner Jaeger:

As diversas formas de governo, Platão
trata mais profundamente em suas obras A Política
e As Leis. Nestes livros Platão
considera a hipótese, bastante real, aliás, de que nem todos os Estados teriam
governantes perfeitos como a sua República. A experiência que o nosso filósofo
teve em Siracusa, localizada na Nova Grécia (sul da atual Itália), parece tê-lo
trazido de volta à realidade política. Platão chega então à conclusão de que é
necessário elaborar constituições escritas, para que os governados possam ter mais
controle sobre o governante, na forma de um compromisso entra as partes (se bem
que uma, o governante, sempre tivesse mais poder).
Novamente, utilizando-se da dialética,
Platão deduz que existem três espécies de constituições históricas, formas
corrompidas da constituição ideal que se encontra no mundo das Idéias. A
primeira dentre ela é aquela aplicada quando um só homem governa, imitando o
político ideal; a monarquia. A segunda forma é quando vários homens ricos
governam, imitando o político ideal. Quando o povo governa, temos a democracia.
Cumpre notar que o conceito de democracia à época de Platão não é o mesmo que o
atual. Efetivamente a democracia ateniense tinha como votantes somente os
homens livres, que representavam aproximadamente 30% de uma população.
Estrangeiros, escravos e mulheres não tinham direito a voto.
No entanto, quando estas formas de
governo se corrompem, a monarquia se transforma em uma tirania; a aristocracia
em oligarquia; e a democracia degenera em uma anarquia. Para assegurar a
continuidade da ordem, mesmo com a decadência na forma de governo, Platão
recomenda o respeito à liberdade, dosada com a manutenção da autoridade “com
justa medida”.
A concepção política de Platão influenciou
bastante a cultura ocidental. Basta analisarmos a estrutura social da Idade
Média, para constatarmos que ela se aproxima bastante das três classes
platônicas: a Igreja, os nobres e os servos, representando respectivamente os
governantes-filósofos, os guerreiros e os camponeses e artesãos. Outro aspecto
é que a classificação das formas de governo também tem paralelos na história. No
entanto, seja em relação às classes quanto às formas de governo é preciso ter
em conta que se trata somente de uma teoria, elaborada por um grande gênio, mas
apenas uma forma esquemática – como tantas outras – de interpretar a realidade.
Cabe a nós estudarmos seus fundamentos e utilizá-los para aprofundar nossas
análises da nossa realidade.
Bibliografia:
Jaeger, Werner. Paidéia. São Paulo.
Martins Fontes: 2003, 1413 p.
Platão. A República. São Paulo.
Editora Nova Cultural: 2004, 352 p.
Reale, Giovanni. Antiseri, Dario. História
da Filosofia Vol 1. São Paulo: Editora Paulus: 1990, 693 p.
(Imagens: pinturas de Thomas Hart Benton)
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quarta-feira, 3 de julho de 2019
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