“É por isso que a história da computação segue um padrão tão previsível. A cada inovação revolucionária, a promessa de livrar a tecnologia das garras dos monopolistas, de criar uma rede extremamente democrática, a ponto de transformar a natureza humana. Por algum motivo, e em qualquer instância que seja, a humanidade continua sendo a mesma. Em vez de promover uma profunda redistribuição de poder, as novas redes são capturadas pelos novos monopólios, sempre mais poderosos e sofisticados do que os que vieram antes. O computador pessoal acabou sob o domínio de uma empresa inibidora de inovação (Microsoft). O acesso à internet logo exigiu que fossem pagas quantias mensais significativas para empresas de telecomunicação que fatiaram o mapa em zonas de supremacia quase inquestionável (Comcast, Verizon, Time Warner). Ao mesmo tempo, apenas um site (Google) despontou como o portal para o conhecimento; outro (Amazon), como ponto de partida para todo o comércio. E embora possamos falar em redes sociais no plural, a verdade é que apenas uma delas (Facebook) abarca cerca de dois bilhões de indivíduos.”
“Enquanto a televisão promovia uma
certa passividade, que deixava as pessoas inertes, o Facebook estimula a participação e o empoderamento. Permite que os
usuários leiam sobre os mais variados assuntos, pensem por si mesmos e formem
opiniões. Não podemos desprezar por completo essa retórica. Em algumas partes
do mundo, inclusive nos Estados Unidos, o Facebook
encoraja os cidadãos, possibilitando que se organizem em oposição ao poder
estabelecido. Mas tampouco devemos encarar como plenamente sincera a concepção
da empresa sobre si mesma. Trata-se de um sistema administrado com toda a
minúcia, de hierarquia muito clara, e não uma robusta praça pública. Ele imita
alguns padrões de conversação, mas só na superfície. A verdade é que o Facebook é um emaranhado de regras e
procedimentos para selecionar informações, e essas regras são desenvolvidas
pela empresa, para benefício final da empresa. Ela está o tempo todo vigiando
os usuários, sempre auditando o que estão fazendo e usando-os como ratos de
laboratório em seus experimentos comportamentais. Embora dê a impressão de que
oferece escolhas, o Facebook, de forma
paternalista, empurra os usuários na direção que considera melhor para eles,
que não por acaso costuma ser a direção que os torna completamente dependentes.
Esse é o engodo mais óbvio na meteórica carreira do cérebro que está por trás
disso tudo.”
Franklin Foer (1974-), jornalista e escritor estadunidense em O mundo que não pensa: A humanidade diante do perigo real da extinção do homo sapiens


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