Renato Lessa

quarta-feira, 8 de julho de 2026


“Tal como ressaltou Oswaldo Porchat Pereira, a ideia cética de critério não diz respeito à crença na realidade ou irrealidade do mundo e nem tampouco ao discernimento de qualquer verdade. Trata-se de um critério de ação no mundo. Esse é um dos pontos mais intrigantes do ceticismo: uma atitude filosófica de retraimento e suspensão diante de embates dogmáticos, acompanhada de um convite à ação na vida ordinária e à investigação no mundo fenomênico. Tomar os fenômenos como critério tem como contrapartida o reconhecimento de que estamos limitados às aparências: tal como em um universo pirandelliano, podemos dizer como as coisas parecem ser, mas nunca como elas são por natureza.”

 

“A ataraxia cética, alternativamente, é o resultado de uma complexa elaboração filosófica que toma como objetivo proposições descritivas e normativa a respeito da real natureza do mundo, postuladas por outros sistemas filosóficos. Em outros termos, a tranquilidade dos céticos seria um componente destacado desse combate à filosofia orientado por procedimentos filosóficos. Por meio dela, os céticos apagam de suas considerações as proposições estabelecidas pelas filosofias dogmáticas. Sua contrapartida é a aceitação da vida ordinária. Não há, pois, que confundir a tranquilidade que resulta da indiferença com relação ao embate filosófico com qualquer garantia de imersão bem-sucedida e pacífica na vida ordinária. O ceticismo pirrônico pretende tão-somente estabelecer uma terapia para os logoi assaltados pela obsessão dogmática. Os dilemas da vida ordinária são incuráveis. Vivê-los de forma adoxática não conduz a nenhum privilégio cognitivo ou existencial. Imaginar a possibilidade de resolução dos dilemas da vida ordinária, ou de erradicar sua aparência dilemática, implica legislar sobre a real natureza das coisas e postular um critério arbitrário e não-evidente de reorganização do mundo. Nesse sentido, a pretensão de curar-se da vida ordinária constitui, em si mesmo, um sintoma de patologia da razão.”

 

Renato Lessa (1954-), cientista político e filósofo brasileiro em Veneno Pirrônico

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