Honoré de Balzac

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

Art.1º : Nunca desconfie de seu vizinho da esquerda, que usa camisa de tecido grosso, uma gravata branca, e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta, maneira desenvolta de falar; é este quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.”

 

“A escroqueria pressupõe uma inteligência aguda, uma sutileza de espírito, uma certa habilidade. É necessário fazer um plano, ter recursos. Chega a ser interessante.

Os escroques são as pessoas feitas sob medida para o mundo dos ladrões de salão; não causam repulsa ao olhar; adotam a maneira de vestir do homem honrado, têm boas maneiras, um linguajar estudado. Costumam introduzir-se na casas de várias formas, estão sempre nos cafés, têm um apartamento e raramente usam os dez dedos a não ser para assinar. Há alguns que se aposentam e se transformam em pessoas honestas, quando ficam ricos.”

 

Art. 23º : De maneira geral, fuja de tudo o que é barato; é necessário conhecer muito bem a mercadoria para não ser enganado. As velas de dois francos são de sebo; o tecido de 15 francos é tingido e bem penteado. No entanto, Paris está coberta de anúncios e todos os dias alguém cai no conto do vigário.

Não se esqueça de que há uma multidão de crédulos, e de que, neste mundo sujo, a metade do que se faz é pensado neles. Ora, você não é crédulo, a prova é que aprecia este livro.”

 

"Art. 70º : Há pouco a dizer contra os médicos; não toca aos vivos queixarem-se deles. No entanto, os médicos também arranjam várias maneiras de dar lucro aos boticários. Observe que, a cada ano, há um produto específico preferido: numa época, foi o sagu; noutra, o salepo: tudo o que comia vinha acompanhado de salepo ou de sagu. A araruta destronou o sagu; mas, com Walter Scott, veio o líquen da Islândia; depois as sanguessugas locais combinadas com água do Sena; enfim, o bom purgativo etc.; sempre esses bons remédios custam mais caro quando estão na moda; e, no fundo, são como essas reimpressões que os autores fazem e acabam pondo em nossas mãos algo que já conhecemos. Basta observar os sumários.” 

 


Honoré de Balzac (1799-1850), escritor francês em Código dos Homens Honestos (2005)

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