“Art.1º : Nunca desconfie
de seu vizinho da esquerda, que usa camisa de tecido grosso, uma gravata
branca, e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com
muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e
elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta, maneira desenvolta de
falar; é este quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.”
“A escroqueria pressupõe uma
inteligência aguda, uma sutileza de espírito, uma certa habilidade. É
necessário fazer um plano, ter recursos. Chega a ser interessante.
Os escroques são as pessoas
feitas sob medida para o mundo dos ladrões de salão; não causam repulsa ao
olhar; adotam a maneira de vestir do homem honrado, têm boas maneiras, um
linguajar estudado. Costumam introduzir-se na casas de várias formas, estão
sempre nos cafés, têm um apartamento e raramente usam os dez dedos a não ser
para assinar. Há alguns que se aposentam e se transformam em
pessoas honestas, quando ficam ricos.”
“Art. 23º : De maneira
geral, fuja de tudo o que é barato; é necessário conhecer muito bem
a mercadoria para não ser enganado. As velas de dois francos são de sebo; o
tecido de 15 francos é tingido e bem penteado. No entanto, Paris está coberta
de anúncios e todos os dias alguém cai no conto do vigário.
Não se esqueça de que há uma multidão
de crédulos, e de que, neste mundo sujo, a metade do que se faz é pensado
neles. Ora, você não é crédulo, a prova é que aprecia este livro.”
"Art. 70º : Há pouco a dizer contra os médicos; não toca aos vivos queixarem-se
deles. No entanto, os médicos também arranjam várias maneiras de dar lucro aos
boticários. Observe que, a cada ano, há um produto específico preferido: numa
época, foi o sagu; noutra, o salepo: tudo o que comia vinha acompanhado de
salepo ou de sagu. A araruta destronou o sagu; mas, com Walter Scott, veio o
líquen da Islândia; depois as sanguessugas locais combinadas com água do Sena;
enfim, o bom purgativo etc.; sempre esses bons remédios custam mais caro quando
estão na moda; e, no fundo, são como essas reimpressões que os autores fazem e
acabam pondo em nossas mãos algo que já conhecemos. Basta observar os
sumários.”
Honoré de Balzac (1799-1850), escritor francês em Código dos Homens Honestos (2005)
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