“Essa perspectiva sobre a riqueza
também esclarece por que a desigualdade importa economicamente e não apenas
moralmente. Em um modelo mecânico, a distribuição da riqueza é amplamente
irrelevante para o funcionamento do sistema — um dólar é um dólar,
independentemente de em cujo bolso esteja, e a economia segue seu curso de
acordo com suas leis fixas, quer a riqueza esteja concentrada ou dispersa. Mas
em um modelo biológico, a distribuição importa imensamente porque afeta a saúde
e a capacidade de adaptação de todo o organismo. A desigualdade extrema é uma
espécie de doença circulatória no corpo econômico. Quando vastos recursos se
acumulam nas mãos de uma pequena elite enquanto a maioria luta para suprir as
necessidades básicas, várias patologias emergem simultaneamente. Primeiro, a
demanda agregada sofre porque os indivíduos ricos só podem consumir até certo
ponto — o bilionário pode possuir dez casas, mas ainda assim faz apenas três
refeições por dia, enquanto mil famílias de classe média consumiriam
coletivamente muito mais se tivessem acesso aos mesmos recursos.
Em segundo lugar, o potencial humano
permanece subdesenvolvido porque indivíduos talentosos de origem humilde não
têm a educação e as oportunidades necessárias para desenvolver plenamente suas
capacidades, o que representa um enorme desperdício do recurso mais precioso da
sociedade. Em terceiro lugar, as instituições políticas e sociais se corrompem
à medida que a riqueza concentrada se traduz em poder concentrado, levando à
captura de políticas e à erosão da governança democrática que permite o
funcionamento eficaz dos mercados. Em quarto lugar, a coesão social se
fragmenta à medida que as experiências vividas pelas diferentes classes
econômicas divergem tão radicalmente que elas habitam realidades efetivamente
distintas, minando a confiança e a cooperação que tornam possível a complexa
coordenação econômica. Marshall testemunhou todas essas patologias na
Inglaterra vitoriana e compreendeu que combatê-las não era uma questão de
caridade ou nobreza de espírito, mas de necessidade econômica. Uma sociedade
que tolera que grande parte de sua população viva em condições de degradação
não está apenas sendo cruel; está sendo estúpida."
“Essa percepção se conecta à compreensão de Marshall sobre o progresso econômico como fundamentalmente relacionado ao desenvolvimento do caráter e das capacidades, e não à acumulação de bens. Ele acreditava que o objetivo final da melhoria econômica deveria ser a criação de condições sob as quais as pessoas pudessem desenvolver suas faculdades superiores — suas capacidades intelectuais, morais e criativas. A pobreza extrema é economicamente destrutiva não apenas porque reduz o consumo e a produção, mas também porque esmaga o espírito humano, tornando as pessoas desesperadas, míopes e incapazes de investir em seu próprio desenvolvimento ou no de seus filhos. Pessoas presas em um mero modo de sobrevivência não podem se dar ao luxo de pensar em educação, desenvolvimento de habilidades ou planejamento a longo prazo. Elas não podem assumir riscos em empreendimentos empresariais ou ideias inovadoras. Não podem participar plenamente da vida cívica ou contribuir para o avanço cultural.”
M. Josh, Os Princípios de Economia de Alfred Marshall em Termos Simples: Decifrando o Pai da Microeconomia (original inglês Alfred Marshall's Principles of Economics in Layman's Terms: Decoding the Father of Microeconomics)

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