Karl R. Popper

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

 

“Mas qual é a acusação contra a filosofia? Muitos filósofos, entre eles alguns dos maiores, têm, a meu ver, algo de muito pesado na consciência. Quero citar aqui quatro dos maiores: Platão, Hume, Espinosa e Kant.

Platão, o maior, mais profundo e genial de todos os filósofos, tinha uma concepção da vida humana que acho repulsiva e realmente terrível. Contudo, não foi apenas um grande filósofo e fundador da mais significativa escola profissional de filosofia, mas também um poeta inspirado, que entre outras obras formidáveis escreveu a Apologia de Sócrates.

Sua fraqueza foi, como a de tantos filósofos profissionais depois dele, ter acreditado na teoria da elite, em total contraposição a Sócrates. Enquanto Sócrates exigia sabedoria por parte de um estadista, querendo dizer com isso que ele devia estar cônscio de quão pouco sabia, Platão exigia que o filósofo sábio, erudito, devia ser um estadista, um governante absoluto. (Desde Platão, a megalomania é a doença profissional mais difundida entre os filósofos.) No livro X das Leis, ele chega a introduzir uma instituição que se tornou um modelo da Inquisição e do campo de concentração. E nele recomendou campos de concentração com cela individual como um meio para curar os que nutriam pensamento diferente – os dissidentes.

David Hume, que não foi filósofo profissional e, ao lado de Sóctares, foi talvez o mais franco e equilibrado entre os grande filósofos e um homem modesto, racional e bastante desapaixonado, foi levado por uma teoria psicológica infeliz e errônea (e por uma teoria do conhecimento que o ensinou a desconfiar de seu próprio notável poder intelectual) a defender esta assustadora teoria, que encontrou muitos adeptos:

A razão é, e deve ser apenas, a escrava das paixões, e nunca poderá aspirar a qualquer outro cargo senão servir e obedecer a elas.

Estou totalmente disposto a admitir que sem paixão nunca se atinge nada de grandioso; mas creio no exato oposto da afirmação de Huma. A domesticação das paixões pela limitada racionalidade de que nós, humanos irracionais, somos capazes é, a meu ver, a única esperança da humanidade.

Espinosa, o santo entre os grandes filósofos e, tal como Sócrates e Hume, filósofo não profissional, ensinou quase exatamente o contrário de Hume, mas de uma maneira que não só considero falsa, mas também eticamente inaceitável. Ele era, a exemplo de Hume, um determinista: não acreditava no livre-arbítrio do homem e considerava a intuição da liberdade da vontade de uma ilusão. E ensinou que a liberdade humana pode consistir apenas em termos uma compreensão clara, distinta e apropriada das causas coercivas, inevitáveis de nossas ações:

Um afeto (isto é, portanto, uma paixão) cessa se ser uma paixão tão logo formamos uma concepção clara e distinta dele.

Enquanto algo é paixão, permanecemos, segundo Espinosa, em suas garras e não somos livres; tão logo formamos uma concepção clara e distinta dele, continuamos determinados por ele, mas o transformamos em uma parte de nossa razão. E apenas isso é liberdade, ensina Espinosa.”

 

Karl R. Popper (1902-1994), filósofo da ciência austro-britânico em Em busca de um mundo melhor, 1984

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