Dados
biográficos
Henry
Paul Hyacinthe Wallon nasceu na França em 1879. Formado em filosofia em 1902,
cursou também medicina, formando-se em 1908. Atuou como médico do exército
francês durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Seu contato com
ex-combatentes com lesões cerebrais, fez com que reavaliasse seus conceitos de
neurologia, desenvolvidos no trabalho com crianças deficientes. A partir de
1920, atuando como médico de instituições psiquiátricas, Henry Wallon foi
convidado a organizar as conferências sobre psicologia da criança na
Universidade de Sorbonne e em outras instituições de ensino superior. O
cientista permaneceu responsável por estas atividades até 1937. Em 1925, Wallon
funda em Paris um laboratório de atendimento e pesquisas de crianças tidas como
deficientes. No mesmo ano publicou sua tese de doutorado.
Em 1931,
Wallon viaja para Moscow, onde é convidado a integrar o Círculo da Rússia Nova.
A proposta deste grupo, formado por intelectuais de várias áreas, era
aprofundar o estudo do materialismo dialético e examinar sua aplicação em
várias áreas do conhecimento. Foi durante sua permanência na Rússia que Wallon
travou contato com Lev Vygotsky, filósofo, psicólogo e criador de um novo
método pedagógico. Estudioso do marxismo, Wallon filia-se ao partido comunista
em 1942, enquanto que paralelamente atuava na Resistência Francesa, lutando
contra a ocupação nazista. Neste período, (1941-1945) Wallon permanece na
clandestinidade, retomando sua atividades regulares ao final da Segunda Guerra.
A partir de 1946, Wallon preside a seção francesa da Liga Internacional da
Educação Nova, fundada em 1921, e que congregava pedagogos, psicólogos e
filósofos críticos do ensino tradicional. Wallon irá presidir este grupo de
estudos até sua morte, em 1962.
Após a 2ª
Grande Guerra, Wallon é convidado pelo governo francês a participar de uma
comissão destinada a reestruturar o setor educacional da França.
O
projeto, conhecido como Langevin-Wallon, devido à participação inicial do
físico Paul Langevin, morto em 1947, introduziu uma total reformulação do
sistema educacional da França, tornando-o um dos mais eficientes do mundo. “A
diretriz norteadora do Projeto é construir uma educação mais justa, para uma
sociedade mais justa. As ações propostas, repousam sobre quatro princípios:
Justiça –
qualquer criança, qualquer jovem, independentemente de suas origens familiares,
sociais, étnicas, tem igual direito ao desenvolvimento completo; a única
limitação que pode ter é de sua próprias aptidões.
Dignidade
igual de todas as ocupações – todas as ocupações, todas as profissões se
revestem de igual dignidade, ou seja, o trabalho manual, a inteligência prática
não podem ser subestimados. A educação não deverá fomentar o predomínio da
atividade manual ou intelectual em função de razões de origem de classe ou
étnicas.
Orientação
– o desenvolvimento das aptidões individuais exige primeiro orientação escolar,
depois orientação profissional.
Cultura
geral – não pode haver especialização profissional sem cultura geral. Em um
estado democrático, no qual todo trabalhador deve ser um cidadão, é
indispensável que a especialização não seja um obstáculo para a compreensão dos
problemas mais amplos; só uma sólida cultura geral libera o homem dos estritos
limites da técnica; a cultura geral aproxima os homens, enquanto a cultura
específica os afasta.” (Laurinda R. Almeida, 2007, pg. 75).
Depois de
uma vida produtiva, dedicada ao estudo da psicologia e da reformulação dos
métodos pedagógicos, Wallon falece em Paris em 1962.
Principais
obras de Wallon
Em
francês:
Le délire
de persécution – le délire chronique à base d´interpretation (O delírio de
perseguição – o delírio crônico interpretado), Paris 1909.
La
conscience et la vie subconsciente en Nouveau traité de psychologie (A
consciência e a vida subconsciente em Novo em Novo tratado de psicologia),
Paris, 1920-1921.
L`enfant
turbulent (A criança confusa), Paris, 1925.
La vie
mentale (A vida mental), Paris, 1932.
L´acte de
la pensée (O ato do pensamento), Paris, 1942.
Em
português:
Evolução
psicológica da criança, Rio de Janeiro, s.d.
Psicologia
e educação na infância, Lisboa, 1975.
Objetivos
e métodos de psicologia, Lisboa, 1975.
Origens
do pensamento da criança, São Paulo, 1989.
O
pensamento de Henry Wallon
Em seus
estudos da criança, Wallon estabeleceu que esta passa por cinco estágios de
desenvolvimento, cada um com suas características próprias:
1. Estágio Impulsivo-Emocional, de 0
a 1 ano.
Nesta fase do indivíduo, predominam atividades que visam a exploração do
próprio corpo, em relação aos incentivos internos e externos. Os movimentos da
criança ainda são desordenados, bruscos, devido ao enrijecimento e relaxamento
muscular. Neste processo, são selecionados os movimentos que propiciam
aproximação com o outro, para cuidar das necessidades, e que passam a funcionar
como instrumentos expressivos de estado de bem-estar e mal-estar. Na segunda
fase deste processo (3
a 12 meses
de idade) já é possível reconhecer reações emocionais diferenciadas, como
raiva, medo, e alegria, etc..
2. Estágio Sensório-Motor e Projetivo,
dos 12 meses aos 3 anos. A criação já inicia a exploração do espaço físico,
através de processos como agarrar, segurar, manipular, apontar, etc.,
acompanhados por gestos. Inicia-se também a discriminação dos objetos,
separando-os. Toda esta atividade motora e sensória prepara as aptidões
afetivas e cognitivas, base do próximo estágio.
3. Estágio do Personalismo, que ocorre
dos 3 aos 6 anos. Nesta fase, o indivíduo já tem a noção de ser um indivíduo
separado dos outros. Através de processos de oposição (expulsão do outro)e de
sedução (assimilação do outro) a criança inicia a separação do eu e do outro.
4. Estágio Categorial, dos 6 aos 11 anos.
Nesta fase, a criança já tem uma diferenciação nítida, entre o eu e os outros.
O indivíduo já tem condições de atividades de agrupamento, seriação,
classificação, categorização em vários níveis. A classificação do mundo físico
em categorias, propícia ao indivíduo uma compreensão melhor de si mesmo.
5. Estágio Puberdade e Adolescência, que
se inicia aos 11 anos. O indivíduo procede à exploração de si mesmo, como
entidade autônoma, através de processos de auto-afirmação, questionamento,
apoio a seus pares, em contraposição ao mundo adulto. Aumenta o nível de
abstração e a percepção dos limites de autonomia e dependência.
Estes
processos ocorrem no indivíduo sempre de duas formas; de maneira centrípeda,
quando o predomínio é de impulsos afetivos e voltada para si mesmo. De forma
centrífuga, quando o predomínio é de impulsos cognitivos e voltados para o meio
ambiente exterior.
Para
proceder a essas análises, Wallon elaborou um método baseado na psicologia
genética e no materialismo dialético. O método consiste em fazer uma série de
comparações para esclarecer, cada vez mais, o processo de desenvolvimento do
indivíduo. Compara a criança normal com o adulto normal; o adulto atual com o
adulto de civilizações primitivas; crianças normais de idades diferentes;
criança com animal, conforme as necessidades de investigação do momento.
Alguns
dos pressupostos que embasam a teoria de Wallon, são:
A
pessoa está continuamente em
processo. Segundo a
própria estrutura do materialismo dialético (tese/antítese/síntese), Wallon
aponta o jogo de forças – orgânicas, neuro-fisiológicas e sociais – às
quais o indivíduo está sujeito, sendo sempre um síntese do processo.
Em cada
instante deste processo de crescimento a pessoa é sempre uma totalidade. O
indivíduo é sempre a síntese (no sentido dialético) de uma fase anterior
do processo, onde houve a interação de diversos fatores, influenciando a
individualidade da pessoa. Com relação a este processo, afirma Wallon; “É
contra a natureza tratar a criança de forma fragmentária. Em cada idade, esta
constitui-se em um conjunto indissociável e original. Na sucessão de suas
idades é o único e mesmo ser, em contínua metamorfose.” (Wallon in Mahoney,
2007, pg. 17).
Wallon
nunca desenvolveu uma verdadeira teoria pedagógica, já que estava mais
interessado nos aspectos psicológicos do desenvolvimento da criança.
Todavia, muitos de seus pressupostos foram mais tarde incorporados ao projeto
Langevin-Wallon, de reformulação do ensino na França. Alguns aspectos
principais da visão de Wallon da Educação, são:
A
Educação deve atender às necessidades imediatas de cada fase do processo de
desenvolvimento infantil, permitindo que o indivíduo possa desenvolver
plenamente todas as aptidões inerentes em cada etapa de seu crescimento;
A
formação da inteligência não deve ser dissociada da formação da personalidade,
já que ambas fazem parte constituinte de todo o indivíduo;
O
professor não deve se colocar como exclusivo detentor do saber e único
responsável por sua transmissão. Todavia, também não deve abdicar deste papel,
submetendo-se indiscriminadamente à espontaneidade infantil.
A
Educação deve atender ao mesmo tempo a formação integral do indivíduo e à
estruturação da sociedade, preparando o indivíduo a participar da vida social.
Se a
Educação visa a preparação do indivíduo para integrá-lo à sociedade, é preciso
ter claro um modelo ideal de sociedade, o que exige um posicionamento político.
Diferenças
entre as abordagens de Wallon, Piaget e Vygotsky:
Primeiramente,
existe uma diferença de formação acadêmica entre os três. Wallon, tem formação
em medicina, Piaget em biologia e Vygotsky em
direito. Todavia , é preciso observar que ambos, Wallon e
Vygotsky, eram marxistas e permitiram que suas teorias fossem bastante
influenciadas pelo materialismo dialético. Esta doutrina foi, durante certo
período entre o final do século XIX e a década de 1980, considerado uma teoria
científica. Piaget, pelo
que transparece de sua biografia, não tinha ligações com o marxismo e,
certamente, não considerava o materialismo dialético como necessário à sua
teoria.
Se, por
um lado, Piaget encarava o desenvolvimento da criança como um processo
principalmente biológico, Vygostky dava grande ênfase ao papel das interações
sociais. Em um de seus textos, referindo-se a Piaget, e sua teoria do
desenvolvimento da criança, Vygotsky escreve: “O primeiro tipo de soluções
propostas parte do suporte da independência do processo de desenvolvimento e do
processo de aprendizagem. Segundo estas teorias, a aprendizagem é um processo
puramente exterior, paralelo em certa medida do processo de desenvolvimento da
criança, mas que não participa ativamente neste e não o modifica em absoluto: a
aprendizagem utiliza os resultados do desenvolvimento, em vez de se adiantar ao
seu curso e de mudar a sua
direção. Um típico exemplo desta teoria é a concepção – extremamente completa e
interessante – de Piaget, que estuda o desenvolvimento do pensamento da criança
de forma completamente independente do processo de aprendizagem.” (L. S.
Vygotsky, 2007, pg.25).
Wallon,
baseado em sua formação médica, forma o contraponto entre as visões de Piaget e
Vygotsky. Não encara o desenvolvimento da criança, principalmente sob o aspecto
do desenvolvimento psico-biológico como Piaget, nem fortemente influenciado
pela relações sociais, como Vygotsky. Além disso, é preciso notar que dentre os
três pensadores somente Vygotsky tinha como objetivo estruturar uma pedagogia a
ser aplicada na prática. Os demais, Piaget e Wallon, permaneceram mais no campo
teórico de suas respectivas áreas de estudo e não produziram teorias
pedagógicas com intuito de utilizá-las como método de aplicação prática.
Bibliografia
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CENTRO DE
REFERÊNCIA EDUCACIONAL, Henry Wallon, disponível em: www.cetrorefeducacional.com.br/wallon.htm
acesso em 20/03/08.
DEWEY,
John. Vida e educação in Os Pensadores, Abril Cultural: São Paulo, 1980, 318
pgs.
LEONTIEV,
A., VYGOTSKY L., e outros, Psicologia e Pedagogia – Bases Psicológicas da
Aprendizagem e do Desenvolvimento, Centauro Editora: São Paulo, 2007, 125 pgs.
GALVÃO,
Izabel, Uma Reflexão Sobre o Pensamento Pedagógico de Henry Wallon, disponível
em www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_20_p033-039_c.pdf.
acesso em 20/03/08
MAHONEY,
Abigail A., Almeida, Laurinda R., Henri Wallon – Psicologia e Educação, Edições
Loyola: São Paulo, 2007, 87 pgs.
NEWMAN, F., HOLZMAN, L., LEV VYGOTSKY – Revolutionary
Scientist, disponível em: www.marxists.org/archive/vygotsky/works/comment/lois1.htm acesso em 20/03/08
(Imagens:
fotografias de Margareth Bourke-White)
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