“O que
é, de fato, a vontade? A vontade não é nada mais do que a compreensão, efetuada
por nossa mente, de que entre dois motivos, um é mais poderoso que o outro. A
vontade é talvez o elemento menos voluntário e menos livre da nossa
constituição. Antes que se manifeste, muitas vezes estamos num estado que nos
dá a ilusão de liberdade. Ainda ignoramos se devemos ir para a direita ou para
a esquerda. Estes momentos de hesitação são por vezes agradáveis e por vezes desagradáveis.
Na maioria das vezes eles passam despercebidos e nos encontramos frente a um
dos dois caminhos, totalmente inconscientes. Nossa vontade agiu mecanicamente.
Nossa mente funcionou como uma balança automática.
Seja
o que for que façamos, há uma causa, e esta causa depende de outra, e assim por
diante, até o infinito. Se neste momento estou fumando um charuto é porque
Cristóvão Colombo descobriu a América. A busca por causas leva à autenticações
desta ordem. Mas nossos atos têm apenas uma causa direta. Várias influências se
combinaram e pesaram sobre a alavanca. Muitas vezes, quando refletimos sobre os
motivos dos nossos atos, imaginamos que os encontramos, mas a razão mais
importante nos escapou. Procurar exemplos disto seria entrar no absurdo; Pascal
deu um que se tornou famoso – seu epigrama sobre o nariz de Cleópatra.
É
pouco dizer que os efeitos e as causas estão unidos como os elos de uma
corrente. Vejo efeitos e causas mais sob a forma de um tecido extremamente complicado,
do qual cada fio depende dos outros. Mas tal representação não pode ser feita
materialmente. Basta-nos compreender e admitir que nenhuma das nossas ações é o
início de uma série. Existe apenas uma única série, que parece não ter tido
começo e cujo fim é impossível de prever. Não obstante, temos o sentimento de
liberdade e, consequentemente, de responsabilidade. Estas são ilusões muito
curiosas e muito misteriosas, mas mesmo assim ilusões. Entre aquelas que
compõem a nossa vida, são talvez as mais úteis; elas são ainda mais, - elas são
necessárias. Não somos livres, mas não podemos agir exceto acreditando que
somos livres.
Se
por um momento parássemos realmente de acreditar no livre arbítrio, deveríamos
imediatamente deixar de agir por completo. Em seu livro sobre 'A Duplicidade Humana',
M. Camille Sabatier escreveu: 'A liberdade é tão inexplicável quanto certa'. É,
na minha opinião, a ilusão da liberdade que é tão inexplicável quanto certa e,
acrescento, necessária. Onde concordo plenamente com ele é quando afirma que o
assunto representa 'um mistério de nossa natureza'. Ele tentou uma
explicação muito engenhosa, mas que, acredito, deixa ainda de pé as objeções
deterministas.” (Gourmont, págs. 31 e 32)
“Civilização
nada mais é do que uma sucessão de insurreições, ora contra a hostilidade das
forças físicas, - especialmente contra o frio, - ora contra as forças sociais,
que, após um período de utilidade, tendem quase sempre a evoluir na direção do
parasitismo.” (Gourmont, pág. 43).
“O
pessimismo não é um sentimento religioso nem moderno, embora muitas vezes tenha
assumido forma religiosa e embora os pessimistas mais célebres pertençam ao
século XIX. Os gregos, que sabiam tudo, conheciam o desespero de vivo: o
pessimismo de Heráclito precedeu o otimismo de Platão. Poucas páginas são mais
amargas do que aquelas em que o naturalista Plínio resume as misérias da vida
humana. A natureza molda o homem sobre a terra; de todos os animais ele é o
único destinado às lágrimas; ele chora desde o momento do nascimento e nunca ri
antes do quadragésimo dia. E depois de ter enumerado todos os males e as
paixões que desolam a humanidade, Plínio conclui aprovando o antigo epigrama
grego: ‘É melhor não nascer ou morrer o mais rápido possível’.” (Gourmont, pág.
55).
Remy de Gourmont (1858-1915), escritor,
poeta, crítico e filósofo francês em Philosophic
Nights In Paris: Being selections from Promenades Philosophiques (Noites
filosóficas em Paris: sendo seleções de Promenades Philosophiques)