“Nos
tempos em que mesmo a própria discussão sobre a tão falada e traída
pós-modernidade está ficando superada, encontrar um marco referencial para
estabelecer as origens, características e limites da modernidade continua sendo
um assunto polêmico. Em todo caso, para fins de nossa aproximação da obra do
poeta dos heterônimos (Fernando Pessoa), proponho ao leitor situar o conceito
como um processo em cuja raiz se originam, desenvolvem e começam a extinguir-se
os grande mitos da cultura ocidental dos últimos quinhentos anos: a
individualidade como sinônimo de existência, a razão como garantia de verdade,
a ciência como novo dogma, a tecnologia como panaceia, o progresso como promessa
de bem-estar e o futuro como novo paraíso. São estes os novos mitos, isto é, as
novas crenças compartilhadas sobre cuja base se articulou a organização da
cultura que resultou da ruptura da cosmogonia ocidental quando a razão se
rebelou diante do dogma da fé – entre outros motivos porque esse dogma era
contrário à reinterpretação da realidade sensual, indispensável para a produção
de bens e, portanto, do comércio. Na amplitude desse marco, igualmente
corresponde o adjetivo ‘modeno’ a Fernando Pessoa como a Andrew Marvell, Paul
Valéry como a Sá de Miranda ou Baltazar Gracián.” (Ordóñéz, pág. 16)
Andrés Ordóñez (1958-), filósofo, poeta e diplomata mexicano em Fernando
Pessoa, Um Místico Sem Fé


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