Thomas Cahill

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 

“A Assembleia não era a única arena da democracia ateniense. Já na velhice de Sólon, surgiu outro tipo de foro, uma inovação artística tão inventiva quanto a primeira. Tornou-se possível devido à atmosfera de livre debate que permeava a cidade, e proporcionava a seus cidadãos oportunidades regulares de examinar os temas mais profundos de sua vida política e social. Era chamada drama, e evoluiu a partir de apresentações musicais que eram parte central dos grandes festivais religiosos. O solista que se destacava do coro frequentemente representava um deus ou herói célebres, com uma personalidade assumida, às vezes vestido de maneira reconhecível (por exemplo, a armadura de Atena ou a pele de leão de Hércules), outras vezes usando máscara para facilitar identificação. Com o tempo, o diálogo entre o solista e o coro se tornou mais elaborado, à medida que episódios de algum dos mitos eram representados numa pista circular de dança (chamada orquestra) em volta de um altar com degraus dedicado ao deus do festival. O coro, disposto ao redor do altar, cantava comentando a história narrada pelo solista e dançava em movimentos ensaiados, enquanto os membros da plateia, sentados em um theatron (lugar de assistir), numa encosta da colina semicircular em forma de terraço, ouviram a narrativa em silêncio reverente e apoiavam com sua próprias vozes as respostas musicais do coro. Era essa a essência daquilo que os gregos denominavam leitourgia (obra do povo, serviço público executado sem recompensa, liturgia)”

 

Thomas Cahill (1940-2022), escritor e scholar estadunidense em Navegando o Mar de Vinho – Por que a Grécia Antiga é essencial hoje

0 comments:

Postar um comentário