“A
Assembleia não era a única arena da democracia ateniense. Já na velhice de
Sólon, surgiu outro tipo de foro, uma inovação artística tão inventiva quanto a
primeira. Tornou-se possível devido à atmosfera de livre debate que permeava a
cidade, e proporcionava a seus cidadãos oportunidades regulares de examinar os
temas mais profundos de sua vida política e social. Era chamada drama, e evoluiu a partir de
apresentações musicais que eram parte central dos grandes festivais religiosos.
O solista que se destacava do coro frequentemente representava um deus ou herói
célebres, com uma personalidade assumida, às vezes vestido de maneira
reconhecível (por exemplo, a armadura de Atena ou a pele de leão de Hércules),
outras vezes usando máscara para facilitar identificação. Com o tempo, o
diálogo entre o solista e o coro se tornou mais elaborado, à medida que
episódios de algum dos mitos eram representados numa pista circular de dança
(chamada orquestra) em volta de um
altar com degraus dedicado ao deus do festival. O coro, disposto ao redor do
altar, cantava comentando a história narrada pelo solista e dançava em
movimentos ensaiados, enquanto os membros da plateia, sentados em um theatron (lugar de assistir), numa
encosta da colina semicircular em forma de terraço, ouviram a narrativa em
silêncio reverente e apoiavam com sua próprias vozes as respostas musicais do
coro. Era essa a essência daquilo que os gregos denominavam leitourgia (obra do povo, serviço
público executado sem recompensa, liturgia)”
Thomas Cahill (1940-2022), escritor e scholar estadunidense em Navegando o Mar de Vinho – Por que a Grécia
Antiga é essencial hoje


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