Élisée Reclus

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

“Dominados pelo terror do desconhecido, bem como pela sensação de impotência na busca por causas, os homens criaram no passado uma ou mais divindades providenciais em seu intenso desejo, que representavam para eles, alternadamente, um ideal mais ou menos informe e o fulcro, o eixo de todo este mundo misterioso, visível e invisível, que os cerca. Tais fantasmas da imaginação, revestidos de onipotência, tornaram-se aos olhos dos homens o princípio de toda justiça e autoridade; senhores dos céus, consequentemente tinham intérpretes na terra, magos, conselheiros, capitães, diante dos quais os homens se prostravam como se esses seres fossem verdadeiramente emanações do alto.

Isso era lógico; mas o homem sobrevive às suas obras, e esses deuses que ele criou não cessaram de se transformar continuamente, como sombras projetadas no infinito. Visíveis a princípio, impulsionados por paixões humanas, violentas e terríveis, eles recuaram pouco a pouco para a imensidão da distância. Os deuses acabaram se tornando abstrações, ideias sublimes que não podem ser nomeadas, até que gradualmente passaram a ser confundidos com as próprias leis naturais do mundo e assim retornaram ao universo material, que, segundo a lenda, haviam criado do nada. Assim, o homem hoje se encontra sozinho na Terra, sobre a qual já havia erguido a imagem colossal de um Deus.”

 

“A crítica desrespeitosa a que o Estado é submetido é exercida igualmente contra todas as instituições sociais. O povo não acredita, de modo algum, na origem pura da propriedade privada, produzida, como diziam os economistas (agora não se atrevem a repetir), unicamente pelo trabalho pessoal dos proprietários Sabe muito bem que o trabalho individual jamais criou milhões e milhões, e que os enriquecimentos monstruosos de nossos dias são todos consequência da falsa ordem social, que confere a uma pessoa o direito de se apropriar do produto do trabalho de mil outras. Esse povo respeitará o pão que o trabalhador ganhou com o seu esforço, a cabana que construiu com as próprias mãos, a horta que cultiva, mas certamente perderá todo o respeito pelas mil propriedades fictícias representadas pelos papéis de todos os tipos depositados nos bancos.”

 

Élisée Reclus (1830-1905), geógrafo, pensador, escritor e militante anarquista francês em La Anarquia (A Anarquia)

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