“A visão
de conjunto – ressalve-se – é sempre provisória e nunca pode pretender esgotar
a realidade a que ele se refere. A realidade é sempre mais rica do que o
conhecimento que temos dela. Há sempre algo que escapa às nossas sínteses;
isso, porém, não nos dispensa do esforço de elaborar sínteses, se quisermos
entender melhor a nossa realidade. A síntese é a visão de conjunto que permite
ao homem descobrir a estrutura significativa da realidade com que se defronta,
numa situação dada. E é essa estrutura significativa – que a visão de conjunto
proporciona – que é chamada de totalidade.
A
totalidade é mais do que a soma das partes que a constituem. No trabalho, por
exemplo, dez pessoas bem entrosadas produzem mais do que a soma das produções
individuais de cada uma delas, isoladamente considerada. Na maneira de se
articularem e de constituírem uma totalidade, os elementos individuais assumem
características que não teriam, caso permanecessem fora do conjunto. Há
totalidades mais abrangentes e totalidades menos abrangentes: as menos
abrangentes, é claro, fazem parte das outras. A maior ou menor abrangência de
uma totalidade depende do nível de generalização do pensamento dos objetivos
concretos dos homens em cada situação dada.
Para
trabalhar dialeticamente com o conceito de totalidade, é muito importante
sabermos qual é o nível de totalização exigido pelo conjunto de problemas com
que estamos nos defrontando; e é muito importante, também, nunca esquecermos
que a totalidade é apenas um momento de um processo de totalização (que,
conforme já advertimos, nunca alcança uma etapa definitiva e acabada). Afinal,
a dialética – maneira de pensar elaborada em função da necessidade de
reconhecermos a constante emergência do novo na realidade humana – negar-se-ia
a si mesma, caso cristalizasse ou coagulasse suas sínteses, recusando-se a
revê-las, mesmo em face de situações modificadas.”
Leandro Konder (1936-2014), filósofo brasileiro em O que é dialética


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