David Eagleman

quarta-feira, 20 de maio de 2026

 

“Depois de Galileu descobrir os satélites de Júpiter em seu telescópio em 1610, os críticos religiosos desprezaram sua nova teoria heliocêntrica, considerando-a um destronamento do homem. Não suspeitavam de que este era o primeiro de vários destronamentos. Cem anos depois, o estudo de camadas sedimentares pelo agricultor escocês James Hutton derrubou a idade da Terra estimada pela igreja, tornando-a 800 mil vezes mais antiga. Não muito tempo depois, Charles Darwin relegou o ser humano a apenas outro ramo do pululante reino animal. No início do século XX, a mecânica quântica alterou irreparavelmente nossa noção do tecido da realidade. Em 1953, Francis Crick e James Watson decifraram a estrutura do DNA, substituindo o misterioso fantasma da vida por algo que podemos escrever em sequências de quatro letras e armazenadas num computador.

E no século passado a neurociência mostrou que não é a mente consciente que pilota o barco. Apenas quatrocentos anos depois de nossa queda do centro do universo, vivemos a queda do centro de nós mesmos. No primeiro capítulo, vimos que o acesso consciente à maquinaria que temos por baixo é lento e, em geral, nem acontece. Aprendemos então que o modo de vermos o mundo não reflete necessariamente o que está lá fora: a visão é uma construção do cérebro, e sua única tarefa é gerar uma narrativa útil a nossas escalas de interação (digamos, com frutas maduras, ursos e parceiros). As ilusões de ótica revelam um conceito mais profundo: nossos pensamentos são gerados pela maquinaria à qual não temos acesso direto. Vimos que as rotinas estão lá, não temos mais acesso a elas. A consciência parece estabelecer metas para o que deve ser gravado no circuito e pouco faz além disso. No capítulo 5 aprendemos que a mente contém multidões, o que explica por que você pode se xingar, rir de si e fazer pactos comigo mesmo. E no capítulo 6 vimos que o cérebro pode operar de forma bem diferente quando é modificado por derrames, tumores, narcóticos ou qualquer variedade de eventos que alterem a biologia. Isto abala nossas concepções simples de imputabilidade. “

 

David Eagleman (1971-), neurocientista e divulgador científico estadunidense em Incógnito – As vidas Secretas do Cérebro

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