John Gray

terça-feira, 16 de junho de 2026

 

“A feitiçaria da ‘ciência social’, porém, não esconde o fato de que a história não vai a lugar nenhum em particular. Diversos desses pontos finais foram postulados, poucos deles em algum sentido liberal. Para Comte, a etapa final da história era uma sociedade orgânica como a que ele imaginava que havia existido na época medieval, mas baseada na ciência. Para Marx, o ponto final era o comunismo — uma sociedade sem trocas de mercado nem poder de Estado, religião ou nacionalismo. Para Herbert Spencer, era um governo mínimo e um capitalismo mundial de laissez-faire. Para Mill, seria uma sociedade em que cada um vivesse como indivíduo, sem travas impostas pelos costumes ou pela opinião pública. 

São pontos finais muito diferentes, mas com uma coisa em comum. Não se verifica qualquer movimento perceptível em direção a qualquer um deles. Como no passado, o mundo apresenta toda uma variedade de regimes: democracias liberais e iliberais, teocracias e repúblicas seculares, Estados-nação e impérios, zonas de anarquia e todos os tipos de tirania. Nada parece indicar que o futuro será diferente. O que não impediu os liberais de tentar instaurar seus valores mundo afora, em uma sucessão de guerras evangélicas. Possuídos por visões quiméricas de direitos humanos universais, os governos ocidentais derrubaram regimes despóticos no Afeganistão, no Iraque e na Líbia para promover um modo de vida liberal em sociedades que nunca o conheceram. Ao fazer isso, destruíram os Estados por meio dos quais os déspotas governavam, sem deixar nada duradouro em seu lugar. O resultado tem sido a anarquia, seguida pelo advento de novos tipos de tirania, muitas vezes piores. 

As sociedades liberais não são modelos de ordem política universal, mas exemplos de um tipo particular de vida. Os liberais, no entanto, insistem em imaginar que só a ignorância impede que seu evangelho seja aceito por toda a humanidade — uma visão herdada do cristianismo. Eles ignoram o fato de que os valores liberais não têm uma ascendência muito forte nas sociedades em que surgiram. Em importantes instituições ocidentais de educação, as tradições de tolerância e liberdade de expressão estão sendo destruídas, em um frenesi de moralismo que lembra a iconoclastia do cristianismo quando chegou ao poder no Império Romano. 

Se o monoteísmo deu origem aos valores liberais, uma versão secular e militante dessa fé pode abrir caminho para o seu fim. Como o cristianismo, os valores liberais surgiram por acaso. Se o mundo antigo tivesse permanecido politeísta, a humanidade talvez tivesse sido poupada da violência baseada na fé que invariavelmente acompanha o monoteísmo proselitista. Mas sem o monoteísmo não teria surgido nada parecido com as liberdades liberais que existem em certas partes do mundo. O modo liberal de vida continua sendo uma das formas mais civilizadas de convivência humana. Mas ele é local, acidental e mortal, como os outros modos de vida que os seres humanos desenvolveram e vieram a destruir.” 

 

John Gray (1948-), filósofo político e professor inglês em Sete Tipos de Ateísmo

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