“Admite-se que o ilhéu dos Mares do Sul, em estado de natureza, é excessivamente apegado à prática de comer carne humana, mas a respeito disso afirmo: primeiro, que ele gosta; segundo, que aqueles que lhe fornecem carne humana estão, em sua maioria, mortos. É de seus inimigos que ele se alimenta, e estes ele mataria de qualquer maneira, como nós matamos os nossos. Em países civilizados, esclarecidos e cristãos, onde o canibalismo ainda não se estabeleceu, as guerras são tão frequentes e destrutivas quanto entre os canibais. O selvagem sem título sabe pelo menos por que sai matando, enquanto nosso soldado raso geralmente desconhece completamente a causa aparente da disputa — a causa real, sempre. Suas partes nos frutos da vitória são quase iguais, pois o chefe fica com todos os mortos, o general com toda a glória.”
“As
instituições republicanas têm esta desvantagem: pelas mudanças incessantes no
pessoal do governo — para não falar do tipo de homens que as bases eleitorais
ignorantes elegem; e todas as bases eleitorais são ignorantes — não atingimos
princípios e padrões fixos. Não existe aqui uma ciência da política, porque não
é do interesse de ninguém fazer da política o estudo de sua vida. Nada é
definitivo; nenhuma verdade encontra aceitação geral. O que fazemos em um ano,
desfazemos no ano seguinte e fazemos novamente no ano subsequente. Nossa
energia é desperdiçada e nossa prosperidade sofre com experimentos repetidos infinitamente.
Todo patriota acredita que seu país é melhor do que qualquer outro. Ora, eles
não podem ser todos os melhores. Na verdade, apenas um pode ser o melhor, e
segue-se que os patriotas de todos os outros se deixaram enganar por um mero
sentimento, caindo na irracionalidade cega.”
Ambrose Bierce
(1842-1914), autor satírico, jornalista e poeta estadunidense em A Cynic Looks at Life (Um cínico olha
para a vida, obra póstuma 1927)


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