Leituras diárias

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 

"Falamos como se houvesse um eu unificador que nos sustenta ao longo da vida, ou dia após dia, mas, na verdade, quando olhamos sinceramente para dentro de nós mesmos, não encontramos nada além desse fluxo mental; a introspecção honesta não revela a suposta substância metafísica do eu simples e contínuo. Não há nada disso lá dentro. Há um pensamento perturbador, porque nos faz parecer muito menos substanciais do que presumíamos: não há solidez no eu, apenas uma espécie de conjunto perpetuamente móvel de estados psicológicos. A noção de eu parece se dissolver diante de nossos olhos, como um pedaço de gelo derretendo em um líquido. O corpo é uma entidade sólida, visivelmente duradoura ao longo do tempo e dotada de integridade material em qualquer momento dado, mas aquilo que nos agrada chamar de eu é como uma mistura variável de percepções distintas. Em termos simples, não existe um eu, pelo menos não da forma como ingenuamente supomos; e isso, segundo Hume, torna-se evidente assim que começamos a buscá-lo de forma introspectiva.

Hume não afirma isso explicitamente, mas a mesma observação pode ser feita sobre a noção de caráter ou personalidade. Se pensarmos que cada pessoa possui algo chamado caráter que define sua identidade – que a torna a pessoa que é – então devemos nos perguntar se tal coisa pode ser encontrada por meio da introspecção. Mas certamente nunca encontramos tal entidade; encontramos apenas ocorrências conscientes particulares – sensações, emoções, pensamentos e assim por diante. O que chamamos de caráter não é um dado da consciência, mas uma espécie de construção hipotética: supõe-se que de alguma forma ‘esteja por trás’ do que ocorre em nossa consciência, embora não seja ela própria um constituinte da consciência.”

 

Colin McGinn (1950-) filósofo inglês em Shakepeare’s Philosophy – Discovering the Meaning Behind the Plays (A Filosofia de Shakespeare – Descobrindo o Sentido por Trás das Peças Teatrais)

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