"Falamos
como se houvesse um eu unificador que nos sustenta ao longo da vida, ou dia
após dia, mas, na verdade, quando olhamos sinceramente para dentro de nós
mesmos, não encontramos nada além desse fluxo mental; a introspecção honesta
não revela a suposta substância metafísica do eu simples e contínuo. Não há
nada disso lá dentro. Há um pensamento perturbador, porque nos faz parecer
muito menos substanciais do que presumíamos: não há solidez no eu, apenas uma
espécie de conjunto perpetuamente móvel de estados psicológicos. A noção de eu
parece se dissolver diante de nossos olhos, como um pedaço de gelo derretendo
em um líquido. O corpo é uma entidade sólida, visivelmente duradoura ao longo
do tempo e dotada de integridade material em qualquer momento dado, mas aquilo
que nos agrada chamar de eu é como uma mistura variável de percepções
distintas. Em termos simples, não existe um eu, pelo menos não da forma como
ingenuamente supomos; e isso, segundo Hume, torna-se evidente assim que
começamos a buscá-lo de forma introspectiva.
Hume
não afirma isso explicitamente, mas a mesma observação pode ser feita sobre a
noção de caráter ou personalidade. Se pensarmos que cada pessoa possui algo
chamado caráter que define sua identidade – que a torna a pessoa que é – então
devemos nos perguntar se tal coisa pode ser encontrada por meio da
introspecção. Mas certamente nunca encontramos tal entidade; encontramos apenas
ocorrências conscientes particulares – sensações, emoções, pensamentos e assim
por diante. O que chamamos de caráter não é um dado da consciência, mas uma
espécie de construção hipotética: supõe-se que de alguma forma ‘esteja por trás’
do que ocorre em nossa consciência, embora não seja ela própria um constituinte
da consciência.”
Colin McGinn (1950-) filósofo inglês em Shakepeare’s Philosophy – Discovering the Meaning Behind the Plays (A Filosofia de Shakespeare – Descobrindo o Sentido por Trás das Peças Teatrais)

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