Carlos Cirne-Lima

domingo, 8 de novembro de 2026

 

“Em Hegel, as coisas foram dissolvidas em sua individualidade.  O que existe como realidade realmente real (Wirklichkeit) é a substância única do Universo que, ela mesma, está em perpétuo movimento. Como um campo de forças na física, a substância de Hegel é uma e única, mas está sempre a dobrar-se e desdobrar-se (implicari et explicari) em movimento, que constitui assim as diversas configurações de identidade que, então, se possuem alguma estabilidade, chamamos coisas. É por isso que os antigos forjaram o sentido do termo explicar: ex-plicari é abrir as dobras da substância única e, assim, entender a configuração de uma coisa ou identidade relativamente estável. Explicatio mundi é a teoria filosófica que, ao desdobrar as grande dobras da substância única, consegue entender e explicar o Universo.”

“O tempo é o processo de emergência e de desaparecimento das subidentidades. Que elas emergem, já vimos. Mas elas desaparecem? Sim, sempre que houver uma contradição interna, que pode surgir pela mudança na rede de oposições, ou uma oposição externa, coisa inevitável numa rede de relações tão complexas e em perpétuo movimento. O surgir e o desaparecer das subidentidades na teia das subidentidades constitui o tempo real. O prius et posterius aqui, neste mundo de mudanças e transformações, têm como tempo real o que acontece na teia do Universo entre o surgir e o desaparecer de um ser ou coisa real. A não-identidade entre o surgir e o desaparecer, como fluxo processual, torna-se – por abstração – o tempo ideal vigente no mundo da pura qualidade e da pura quantidade. Eis a derivação do tempo ideal. O tempo real é a distância real entre a quantidade real e a quantidade real do princípio até o fim desse movimento.”

 

Carlos Cirne-Lima (1931-2020), filósofo e professor brasileiro em Dialética e Natureza, 2008.

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