"La única arma contra la mediocridad es el sufrimiento. A través de ella se cambian temperamentos, ideas, actitudes y visiones; se cambia el sentido de la vida, pues todo sufrimiento grande y duradero afecta al fondo íntimo del ser." - E. M. Cioran - El libro de las quimeras
Em
2018 o Brasil fez uma opção política, que em muitos aspectos acabou sendo
prejudicial ao desenvolvimento do país. Em muitas áreas o país caminhou para
trás: educação, cultura, meio ambiente, saúde pública, relações internacionais;
só para mencionar algumas, sem entrar nos detalhes fartamente disponíveis
na imprensa. Poucas vezes em toda a história do país, um governo escolheu tão
mal seus ministros; exatamente aqueles que deveriam dar um direcionamento às
pastas que foram convocados a gerir. Em raras ocasiões, se é que as houve, o
Estado foi tão mal administrado, tendo seus cargos mais importantes loteados
para militares, partidos políticos de apoio ao governo e grupos religiosos.
As
condições econômicas internas e externas, sem dúvida, foram adversas. O país já
vinha enfrentando uma crise econômica que se arrastava desde 2014, ainda no
governo Dilma Rousseff. Some-se a isso o impacto provocado pela sindemia da
Covid-19 a partir de março de 2020 e, ultimamente, a guerra entre a Rússia e a
Ucrânia. Agravando ainda mais toda esta situação o governo eleito – exatamente
para isso – imprimiu uma orientação neoliberal à economia reduzindo e cortando
investimentos em programas sociais e de ajuda aos mais necessitados. Além
disso, o governo estabeleceu prioridades completamente estapafúrdias,
direcionando, por exemplo, mais verbas para a Defesa, do que para a
Educação ou Saúde – apesar da crise médica e social provocada pela sindemia.
O
próprio auxilio emergencial, necessário para ajudar minimamente grande parte da
população que ficou sem recursos com a suspensão da atividade econômica
provocada pela Covid, foi inicialmente recusado pelo governo. Somente com a
pressão do Congresso e de diversos setores da sociedade, foi que o ministério
da Economia concordou em liberar a ajuda.
Mesmo
assim, a situação econômica não justifica os aumentos nos alimentos,
combustíveis, eletricidade e gás, além dos demais itens que acabaram
acompanhando a alta da inflação – escolas, vestuário, eletrodomésticos,
aluguéis e vários outros. De nada adiantam as constantes propagandas de que
somos um dos maiores – ou o maior, em muitos casos – exportador de produtos
agropecuários, se internamente o preço dos grãos, dos óleos, das carnes, do
leite e seus derivados, etc., estão cada vez mais caros. Hoje os preços de
muitos alimentos são mais reduzidos na Europa, que importa a maior parte, do
que no Brasil. Este tipo de ordenação econômica beneficia apenas aos produtores
e exportadores desses produtos.
Era
e continua sendo crença dos neoliberais de que o “mercado”, ou seja, a própria
dinâmica da economia, com sua “mão invisível” é capaz de colocar a economia em
funcionamento de novo, sem que o governo interfira com medidas de fomento. Supondo que isso seja possível, quanto tempo isso
demoraria e qual seria o custo? Quantas empresas a mais ainda iriam à falência, quantas pessoas mais perderiam o emprego ou passariam fome até que o "mercado" se estruture (magicamente) por conta própria? Sem interferência do Estado a economia de um
país demandará muito mais tempo para se recuperar – ou talvez nem se recupere.
Basta imaginar o que seria da economia americana e mundial, se durante a crise
dos subprimes em 2008, o governo
americano e os europeus não tivessem interferido nos bancos, evitando uma
falência generalizada do sistema bancário mundial. É necessário que o Estado
interfira na economia, de modo a contribuir no planejamento e na execução das
atividades econômicas, mais ainda em países com economias amplas e
diversificadas como a brasileira.
A
situação atual do país é das mais preocupantes. Inflação, juros altos,
atividade econômica reduzida, enquanto que há mais de 10 milhões de
desempregados, milhões de trabalhadores subempregados e salários comprimidos. A
fome afeta 33 milhões de pessoas e outras 126 milhões convivem com algum grau
de insegurança alimentar.

Em
13 de julho o governo e seus aliados conseguiram aprovar a PEC 15/2022, chamada
de “PEC dos Auxílios”, que cria o Estado de Emergência, através do qual o
governo poderá contar com flexibilidade fiscal, para reduzir o preço dos
combustíveis, aumentar o valor de programas sociais como o Auxílio
Brasil e o Vale Gás, bem como para criar um auxílio de R$ 1 mil
para caminhoneiros. Esta iniciativa deverá durar até novembro de 2022, mês em
que poderá ocorrer o segundo turno nas eleições. A PEC tem sido muito
criticada, principalmente pela oposição, que a considera uma medida
eleitoreira. A medida tem dois aspectos: por um lado deverá ajudar
temporariamente milhões de pessoas, seja através de programas sociais ou
subsidiando o preço dos combustíveis. Por outro aumentará o déficit público e a
inflação, dificultando mais ainda a situação da economia para o próximo governo
que assumir a partir de 2023.
Em
retrospectiva constata-se que o atual governo reduziu bastante todos os
programas sociais, os diversos benefícios e os incentivos à cultura, à educação
e à pesquisa. Os gastos em obras de infraestrutura foram mínimos. No entanto,
ao final do mandato e às vésperas das eleições o governo se propõe a distribuir
benefícios, “benesses” para parte das camadas pobres da população. Muitos
oposicionistas chamam tal procedimento de “estelionato eleitoral”.

Mesmo
assim, ainda é cedo para se fazer um balanço detalhado do atual governo. De uma
forma geral a situação econômica e social do Brasil se tornou pior em todos os
aspectos. Ainda não é possível saber com certeza quem assumirá a presidência do
país, depois das eleições de final de ano. O que se sabe, no entanto, é que
receberá uma nação em uma situação bem pior do que o atual presidente a recebeu
em 2019. Para colocar o Brasil novamente em rota de crescimento, é preciso uma
atuação mais forte e planejada do Estado, contando com um grupo de ministros
preparados, colocando em prática um plano de governo coerente e efetivo. Se
isto não ocorrer, a situação econômica e social do país ficará pior, trazendo
mais dificuldades ainda para a maior parte da população.
(Imagens: representações do "Samsara", a "roda da vida", na tradição budista)