Marcelo Gleiser

segunda-feira, 27 de abril de 2026

 

“Sabemos, também, que nossa percepção da realidade é severamente incompleta. Muito do que ocorre à nossa volta passa despercebido pelos nossos sentidos. Produto de milhões de anos de evolução, o cérebro é cego e surdo para informações que não aumentariam as chances de sobrevivência de nossos antepassados. Por exemplo, trilhões de neutrinos provenientes do coração do Sol atravessam nossos corpos a cada segundo; ondas eletromagnéticas de todos os tipos – micro-ondas, ondas de rádio, infravermelho, ultravioleta – transportam informação que nossos olhos não veem; sons além do além do alcance de nossa audição passam despercebidos; partículas de poeira e bactérias invisíveis. Como a Raposa disse ao Pequeno Príncipe na fábula de Saint-Exupéry, ‘O essencial é invisível aos olhos.’”

“Os muitos passos bioquímicos e genéticos da não vida à vida, seguidos de tantos outros que levaram da vida unicelular à vida multicelular complexa, são extremamente difíceis de serem duplicados em outros mundos. Ademais, os pormenores dependem crucialmente dos detalhes da história do nosso planeta: se algum evento deixa de ocorrer – por exemplo a extinção dos dinossauros – isso muda a história da vida. Não significa que possamos concluir que não existam outras formas de vida inteligente em algum canto do cosmos. O que podemos concluir com confiança é que, caso alienígenas inteligentes existam, são raros e estão muito longe de nós. (Ou,  caso sejam comuns, certamente sabem esconder-se muito bem.) A verdade é que, na prática, estamos sós e devemos aprender a viver com nossa solidão cósmica e a explorar suas consequências de forma construtiva.”

 

Marcelo Gleiser (1959-) físico, astrônomo, professor e divulgador científico brasileiro em A Ilha do Conhecimento – Os limites da ciência e a busca por sentido

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