“Sabemos,
também, que nossa percepção da realidade é severamente incompleta. Muito do que
ocorre à nossa volta passa despercebido pelos nossos sentidos. Produto de
milhões de anos de evolução, o cérebro é cego e surdo para informações que não
aumentariam as chances de sobrevivência de nossos antepassados. Por exemplo,
trilhões de neutrinos provenientes do coração do Sol atravessam nossos corpos a
cada segundo; ondas eletromagnéticas de todos os tipos – micro-ondas, ondas de
rádio, infravermelho, ultravioleta – transportam informação que nossos olhos
não veem; sons além do além do alcance de nossa audição passam despercebidos;
partículas de poeira e bactérias invisíveis. Como a Raposa disse ao Pequeno
Príncipe na fábula de Saint-Exupéry, ‘O essencial é invisível aos olhos.’”
“Os
muitos passos bioquímicos e genéticos da não vida à vida, seguidos de tantos
outros que levaram da vida unicelular à vida multicelular complexa, são
extremamente difíceis de serem duplicados em outros mundos. Ademais, os
pormenores dependem crucialmente dos detalhes da história do nosso planeta: se
algum evento deixa de ocorrer – por exemplo a extinção dos dinossauros – isso muda
a história da vida. Não significa que possamos concluir que não existam outras
formas de vida inteligente em algum canto do cosmos. O que podemos concluir com
confiança é que, caso alienígenas inteligentes existam, são raros e estão muito
longe de nós. (Ou, caso sejam comuns,
certamente sabem esconder-se muito bem.) A verdade é que, na prática, estamos
sós e devemos aprender a viver com nossa solidão cósmica e a explorar suas
consequências de forma construtiva.”
Marcelo Gleiser (1959-) físico, astrônomo, professor e
divulgador científico brasileiro em A
Ilha do Conhecimento – Os limites da ciência e a busca por sentido


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