Leituras diárias

terça-feira, 23 de junho de 2026

 

(...) “Mas Spencer raramente é lido hoje em dia e precisa ser redescoberto para a sociobiologia  (além disso, seu trabalho é cercado por muitos mal-entendidos). No início da década de 1970, o então ainda jovem biólogo americano (e autor de livros infantis) Robert L. Trivers esclareceu que egoísmo e altruísmo não são contraditórios, mas sim que o interesse próprio pode ser a força motriz por trás do comportamento altruísta. Isso agora corresponde muito bem às expectativas da sociobiologia.

Embora o altruísmo recíproco seja melhor demonstrado em humanos, ele também pode ser documentado razoavelmente bem em outras espécies. Mesmo que os sinais de alerta sejam apenas um caso limítrofe (entre cooperação e altruísmo), a reciprocidade ocorre principalmente em espécies que desenvolveram o princípio do compartilhamento de alimentos, por exemplo, lobos, cães selvagens africanos, babuínos e chimpanzés. Um exemplo notável é fornecido pelos morcegos-vampiros comuns que vivem na América Central, que vivem em grupos de cerca de uma dúzia de fêmeas adultas e seus filhotes.”

 

“Os sociobiólogos enfrentam desde o início a objeção de que defendem o determinismo genético, segundo o qual o comportamento humano (social), em particular, estaria supostamente fixado de forma imutável nos genes. Essa objeção é infundada. Os sociobiólogos de modo algum ignoram os fatores não genéticos no comportamento social; pelo contrário, valorizam muito o papel dos fatores ecológicos. No entanto, de uma perspectiva sociobiológica, pode-se demonstrar que os genes desempenham um papel significativo na formação de padrões de comportamento social. Esses padrões de comportamento — independentemente de suas características específicas — só podem ser explicados, em última análise, pelo fato de que todo ser vivo, a serviço de sua sobrevivência, ‘deseja’ transmitir seus próprios genes. Deve-se admitir que o caminho do gene ao comportamento permanece desconhecido em muitos detalhes. Mas a sociobiologia fornece abordagens importantes para a compreensão desse caminho e ajuda a eliminar antigos preconceitos (ideológicos) (embora ela própria ainda esteja frequentemente sujeita a tais preconceitos).”

 

“Nenhum organismo é determinado exclusivamente por sua constituição genética ou exclusivamente por seu ambiente. A própria constituição genética é resultado da interação constante dos seres vivos com o seu ambiente. Por outro lado, ela define a norma de reação específica de cada espécie às influências ambientais. Então, por que o debate natureza versus criação ainda é tão popular?

De particular interesse neste contexto é, naturalmente, o comportamento humano. Faz diferença se alguém acredita que os humanos são geneticamente determinados ou maleáveis ​​pelo ambiente e pela educação. Educadores, políticos e advogados tendem — compreensivelmente — a ver os humanos como uma tábula rasa, como uma ‘caixa vazia’ que pode ser preenchida com conteúdo, por assim dizer, por meio de suas próprias influências (a ideia de que os humanos podem ser controlados externamente é uma velha ilusão). Essa tendência, no entanto, é fatal. Ela não só já causou muito dano, como também ignora o fato, agora bem estabelecido, de que os humanos não são simplesmente ‘caixas vazias’. Por um lado, como membros de uma espécie, carregamos os vestígios do nosso passado (nossa herança primata), por assim dizer. Por outro lado, cada pessoa nasce com a composição genética específica de seus ancestrais imediatos — ou pelo menos é influenciada por eles até certo ponto (frequentemente, essa influência tem um efeito negativo. Por exemplo, há evidências de que o câncer de mama tem um componente genético muito forte). Nenhum ser vivo — seja jacaré, canário, raposa ou humano — é uma tábula rasa ao nascer.”

 

"A separação entre hereditariedade e ambiente — em humanos: predisposição genética e educação — é certamente um dos erros mais consequentes de nossa história intelectual. Também desempenha um papel significativo em controvérsias em torno da sociobiologia. No entanto, parte da confusão e da desinformação poderia ter sido evitada se hereditariedade e ambiente não tivessem sido apresentados como forças opostas.

Contudo, como mencionado, ainda há muita discussão e debate sobre qual dos dois componentes é mais forte na vida dos organismos — especialmente dos humanos. As motivações para essas discussões e disputas não derivam mais da biologia, mas sim da adesão a certas tradições de pensamento e ideologias. Se levarmos a sério as descobertas da biologia, porém, não poderemos mais acreditar na maleabilidade ilimitada dos seres humanos. O multiplicando não é independente do multiplicador; a educação não pode ser ‘aplicada’ independentemente das predisposições genéticas.”

 

Franz M. Wuketits (1955-2018), biólogo, epidemiologista, professor e filósofo austríaco em Was ist Soziobiologie (O que é Sociobiologia)

0 comments:

Postar um comentário