(...)
“Mas Spencer raramente é lido hoje em dia e precisa ser redescoberto para a
sociobiologia (além disso, seu trabalho
é cercado por muitos mal-entendidos). No início da década de 1970, o então
ainda jovem biólogo americano (e autor de livros infantis) Robert L. Trivers
esclareceu que egoísmo e altruísmo não são contraditórios, mas sim que o
interesse próprio pode ser a força motriz por trás do comportamento altruísta.
Isso agora corresponde muito bem às expectativas da sociobiologia.
Embora
o altruísmo recíproco seja melhor demonstrado em humanos, ele também pode ser
documentado razoavelmente bem em outras espécies. Mesmo que os sinais de alerta
sejam apenas um caso limítrofe (entre cooperação e altruísmo), a reciprocidade
ocorre principalmente em espécies que desenvolveram o princípio do
compartilhamento de alimentos, por exemplo, lobos, cães selvagens africanos,
babuínos e chimpanzés. Um exemplo notável é fornecido pelos morcegos-vampiros
comuns que vivem na América Central, que vivem em grupos de cerca de uma dúzia
de fêmeas adultas e seus filhotes.”
“Os
sociobiólogos enfrentam desde o início a objeção de que defendem o determinismo
genético, segundo o qual o comportamento humano (social), em particular,
estaria supostamente fixado de forma imutável nos genes. Essa objeção é
infundada. Os sociobiólogos de modo algum ignoram os fatores não genéticos no
comportamento social; pelo contrário, valorizam muito o papel dos fatores ecológicos.
No entanto, de uma perspectiva sociobiológica, pode-se demonstrar que os genes
desempenham um papel significativo na formação de padrões de comportamento
social. Esses padrões de comportamento — independentemente de suas
características específicas — só podem ser explicados, em última análise, pelo
fato de que todo ser vivo, a serviço de sua sobrevivência, ‘deseja’ transmitir
seus próprios genes. Deve-se admitir que o caminho do gene ao comportamento
permanece desconhecido em muitos detalhes. Mas a sociobiologia fornece
abordagens importantes para a compreensão desse caminho e ajuda a eliminar
antigos preconceitos (ideológicos) (embora ela própria ainda esteja
frequentemente sujeita a tais preconceitos).”
“Nenhum
organismo é determinado exclusivamente por sua constituição genética ou
exclusivamente por seu ambiente. A própria constituição genética é resultado da
interação constante dos seres vivos com o seu ambiente. Por outro lado, ela
define a norma de reação específica de cada espécie às influências ambientais.
Então, por que o debate natureza versus criação ainda é tão popular?
De
particular interesse neste contexto é, naturalmente, o comportamento humano.
Faz diferença se alguém acredita que os humanos são geneticamente determinados
ou maleáveis pelo ambiente e pela educação. Educadores, políticos e advogados
tendem — compreensivelmente — a ver os humanos como uma tábula rasa, como uma ‘caixa
vazia’ que pode ser preenchida com conteúdo, por assim dizer, por meio de suas
próprias influências (a ideia de que os humanos podem ser controlados
externamente é uma velha ilusão). Essa tendência, no entanto, é fatal. Ela não
só já causou muito dano, como também ignora o fato, agora bem estabelecido, de
que os humanos não são simplesmente ‘caixas vazias’. Por um lado, como membros
de uma espécie, carregamos os vestígios do nosso passado (nossa herança
primata), por assim dizer. Por outro lado, cada pessoa nasce com a composição
genética específica de seus ancestrais imediatos — ou pelo menos é influenciada
por eles até certo ponto (frequentemente, essa influência tem um efeito
negativo. Por exemplo, há evidências de que o câncer de mama tem um componente
genético muito forte). Nenhum ser vivo — seja jacaré, canário, raposa ou humano
— é uma tábula rasa ao nascer.”
"A
separação entre hereditariedade e ambiente — em humanos: predisposição genética
e educação — é certamente um dos erros mais consequentes de nossa história
intelectual. Também desempenha um papel significativo em controvérsias em torno
da sociobiologia. No entanto, parte da confusão e da desinformação poderia ter
sido evitada se hereditariedade e ambiente não tivessem sido apresentados como
forças opostas.
Contudo,
como mencionado, ainda há muita discussão e debate sobre qual dos dois componentes
é mais forte na vida dos organismos — especialmente dos humanos. As motivações
para essas discussões e disputas não derivam mais da biologia, mas sim da
adesão a certas tradições de pensamento e ideologias. Se levarmos a sério as
descobertas da biologia, porém, não poderemos mais acreditar na maleabilidade
ilimitada dos seres humanos. O multiplicando não é independente do
multiplicador; a educação não pode ser ‘aplicada’ independentemente das
predisposições genéticas.”
Franz M. Wuketits (1955-2018), biólogo, epidemiologista, professor e filósofo austríaco em Was ist Soziobiologie (O que é Sociobiologia)


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