“Atualmente, o capital produz, para a maioria da população das metrópoles, não tanta privação material como outrora mas, sobretudo, uma satisfação ‘guiada’ das necessidades materiais, ao mesmo tempo que faz do ser humano inteiro – inteligência e sentidos – um objeto de administração, engrenado para produzir e produzir não só as metas mas também os valores e promessas do sistema, seu paraíso ideológico. Por trás do véu tecnológico, por trás do véu político de democracia, surge a realidade, a servidão universal, a perda de dignidade humana em uma liberdade de escolha pré-fabricada.”
“E
na sociedade de consumo, a contraparte interna do neoimperialismo, a tendência
foi igualmente invertida: os salários reais estão declinando, a inflação e o
desemprego continuam, e a crise monetária internacional indica o
enfraquecimento da base econômica do império. Uma base potencial de massa para
transformação social encontra sua expressão difusa, pré-política, nas atitudes e
protestos do trabalho que ameaçam abalar os requisitos e valores operacionais
do capitalismo. Não será possível viver sem essa estúpida, exaustiva e
interminável labuta – viver com menos esbanjamentos, menos plásticos e menos
aparelhos, mas com mais tempo e mais liberdade? Esta interrogação velha de um
século, que sempre tem sido refutada pelos fatos de vida imposta pelos donos do
mundo, deixou de ser uma pergunta abstrata, emocional e irrealista. Hoje, ela
assume formas perigosamente concretas, realistas e subversivas.”
Herbert
Marcuse
(1898-1979), filósofo alemão, crítico social e teórico político em Contra-Revolução e Revolta


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