Thomas Mann

terça-feira, 18 de agosto de 2026

“Sabe-se a que ponto toda a psicologia da civilização de Freud se explica pelos destinos dos impulsos, e qual o papel que nela desempenham os conceitos de sublimação e de recalque. A análise, aplicada à vida psíquica normal, torna claro que ‘os mesmos componentes sexuais que se deixam desviar de suas metas mais imediatas e conduzir para outras são os que proporcionam as contribuições mais importantes para as realizações culturais do indivíduo e da comunidade’. Por recalque, no entanto, ela entende a censura do escrúpulo moral que impede impulsos arcaicos ou socialmente impossíveis de aceder à consciência, seu amordaçamento no inconsciente, processo que é menos criador do que condicionador da civilização, pois a civilização somente é possível sob a pressão de determinadas proibições, mantidas graças a dispositivos morais e físicos de poder; e como uma introjeção efetiva e autêntica dessas proibições, que significaria liberdade, não pôde ser alcançada na maioria dos homens comuns nem mesmo pela santificação religiosa, a consequência é um estado de hipocrisia cultural, favorecido pela lei de silêncio antianalítica que a sociedade impõe no que se refere aos pressupostos sobre os quais está baseada a civilização. ‘A civilização humana’, diz Freud, ‘repousa sobre dois apoios, o primeiro é o domínio sobre as forças da natureza, o segundo, a limitação de nossos impulsos. Escravos acorrentados carregam o trono da soberana. Em meio aos componentes impulsivos tornados assim tão servis, os dos impulsos sexuais – no sentido estrito – se destacam por sua força e selvageria. Ai dela se eles se libertam; o trono seria virado de ponta-cabeça, e a soberana, pisoteada. A sociedade sabe disso – e não quer que se fale desse assunto. ‘Por que não? Porque ela, responde Freud, tem má consciência em mais de um sentido. ‘Em primeiro lugar, ela estabeleceu um ideal elevado de moralidade – moralidade é restrição do impulso – cuja observância ela exige de todos os seus membros, e não se preocupa com o quão difícil essa obediência possa ser para o indivíduo.”

 

Thomas Mann (1875-1955) romancista, ensaísta, contista e crítico social alemão em Ensaios & Escritos - Pensadores modernos: Freud, Nietzsche, Wagner e Schopenhauer

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