Marcelo Leite

sábado, 24 de outubro de 2026

 

“O cerne da razão sociobiológica é a suposição de que os comportamentos humanos encontrem sua explicação profunda na biologia (seleção natural) e, portanto, tenham fundamento genético. Embora o termo em si tenha surgido somente em 1975, com a publicação de um livro controverso de Edward O. Wilson, Sociobiology: The new synthesis (Sociobiologia a nova síntese), como programa intelectual sua história se confunde com a da eugenia e dos estudos sobre a hereditariedade da inteligência. Nas duas ou três primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, ainda sob o impacto das atrocidades nazistas e em meio a um clima de reconstrução, essa perspectiva permaneceu eclipsada e prevaleceu o otimismo ambiental, ‘nurturista’, segundo o qual tudo poderia ser inventado no domínio da cultura, nurture tinha precedência óbvia sobre nature e se inaugurava uma ‘era da psicologia’ (Keller, 1983, p. 285), mas sementes poderosas haviam sido lançadas e permaneciam dormentes no solo. Desde a década de 1930, por exemplo, a Rockfeller Foundation patrocinava sob a rubrica ‘Ciência do Homem’ uma linha de pesquisa, no estilo do que viria a se chamar de biologia molecular, voltada para o estudo do comportamento e para seu controle (Kay, 2000, p.45).”

“A sociobiologia de Wilson compõe um tipo peculiar de determinismo biológico, pois não chega a ser experimental e nem mesmo genético (Sarkar, 1999, p.191n); pressupõe que tanto os universais do comportamento (‘natureza humana’) quanto suas variações e desvios individuais tenham substrato em genes, mas não se propõe a identificar as correspondentes sequências de DNA ou trechos de cromossomos equivalentes, contentando-se com combinar observações selecionadas de etologia e antropologia com engenhosas hipóteses sobre o conteúdo adaptativo de tipos comportamentais no passado remoto da espécie, do altruísmo à divisão sexual do trabalho. Do outro lado do Atlântico, a obra inaugural da sociobiologia foi The Selfish Gene (O Gene egoísta), de Richard Dawkins, que, mesmo sem deixar o campo especulativo característico da doutrina sociobiológica, chega mais perto do determinismo genético propriamente dito. Afinal, poucas obras foram tão enfáticas ao conferir um papel de primazia para o DNA nos labores da evolução, alçando os genes à condição de protagonistas (na condição de replicators) e rebaixando organismo à de meros veículos (interactors) para multiplicação daqueles.”

 

Marcelo Leite, jornalista, doutor em sociologia e divulgador científico brasileiro em Promessas do Genoma (2006).

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