“O
cerne da razão sociobiológica é a suposição de que os comportamentos humanos
encontrem sua explicação profunda na biologia (seleção natural) e, portanto,
tenham fundamento genético. Embora o termo em si tenha surgido somente em 1975,
com a publicação de um livro controverso de Edward O. Wilson, Sociobiology: The new synthesis (Sociobiologia
a nova síntese), como programa intelectual sua história se confunde com a da
eugenia e dos estudos sobre a hereditariedade da inteligência. Nas duas ou três
primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, ainda sob o impacto das
atrocidades nazistas e em meio a um clima de reconstrução, essa perspectiva
permaneceu eclipsada e prevaleceu o otimismo ambiental, ‘nurturista’, segundo o
qual tudo poderia ser inventado no domínio da cultura, nurture tinha precedência óbvia sobre nature e se inaugurava uma ‘era da psicologia’ (Keller, 1983, p.
285), mas sementes poderosas haviam sido lançadas e permaneciam dormentes no
solo. Desde a década de 1930, por exemplo, a Rockfeller Foundation patrocinava
sob a rubrica ‘Ciência do Homem’ uma linha de pesquisa, no estilo do que viria
a se chamar de biologia molecular, voltada para o estudo do comportamento e
para seu controle (Kay, 2000, p.45).”
“A
sociobiologia de Wilson compõe um tipo peculiar de determinismo biológico, pois
não chega a ser experimental e nem mesmo genético (Sarkar, 1999, p.191n);
pressupõe que tanto os universais do comportamento (‘natureza humana’) quanto
suas variações e desvios individuais tenham substrato em genes, mas não se
propõe a identificar as correspondentes sequências de DNA ou trechos de
cromossomos equivalentes, contentando-se com combinar observações selecionadas
de etologia e antropologia com engenhosas hipóteses sobre o conteúdo adaptativo
de tipos comportamentais no passado remoto da espécie, do altruísmo à divisão
sexual do trabalho. Do outro lado do Atlântico, a obra inaugural da
sociobiologia foi The Selfish Gene (O
Gene egoísta), de Richard Dawkins, que, mesmo sem deixar o campo especulativo
característico da doutrina sociobiológica, chega mais perto do determinismo
genético propriamente dito. Afinal, poucas obras foram tão enfáticas ao
conferir um papel de primazia para o DNA nos labores da evolução, alçando os
genes à condição de protagonistas (na condição de replicators) e rebaixando organismo à de meros veículos (interactors) para multiplicação
daqueles.”
Marcelo Leite, jornalista, doutor em sociologia e divulgador científico brasileiro em Promessas do Genoma (2006).

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