O que foi (e não será mais)
sábado, 30 de maio de 2020
"A História não é feita pelos reis e pelos heróis, mas por esses escuros rebanhos de seres que nós chamamos 'as populaças'". - Eça de Queiróz - Notas Contemporâneas
Há
muito tempo, ainda menino, vi o nível da represa Billings, na região de São
Bernardo, baixar até o ponto em que quase estivesse seca. Foi no início da
década de 1960, quando a região metropolitana de São Paulo passava por uma
longa estiagem. A represa, que era artificial, formada nos baixios do rio
Jurubatuba na década de 1930, estava quase sem água. Lembro que o que mais me
impressionou, foi a grande quantidade de restos de troncos de árvores que irrompiam
do solo lamacento; restos da antiga mata que ocupava os vales.
Aqueles
tocos, pedaços de árvores da antiga floresta, me davam a ideia do que foi e já
não era mais. Da densa mata, que em alguma época havia estado lá e depois
desapareceu, cortada e submergida pela água escura da represa. Agora, com a
seca e a diminuição do nível do reservatório, a antiga floresta me lembrava de que, em alguma
época passada, teria estado ali.
Sempre
tenho essa impressão toda vez que vejo uma daquelas barragens hidrelétricas
construídas através do país, principalmente na Amazônia. Ocorre às vezes que as
árvores não são nem derrubadas em sua totalidade, ficando, aqui e ali, o troco
seco e apodrecido do vegetal surgindo acima do nível da água.
Mas
a impressão é sempre a mesma: aqui havia algo que foi destruído, removido e seu
habitat submergido, sufocado. Pela necessidade de gerar energia, para
acionamento de máquinas e produção de produtos. Chama-se a isso de progresso e
assim justifica-se a derrubada da floresta e a inundação do vale.
À
época em que a represa Billings foi construída, a tecnologia e os interesses
econômicos indicavam que aquela era a melhor solução e o local mais indicado
para a geração de energia para a metrópole, em processo de rápida expansão. O
mesmo discurso ou a mesma “avaliação técnica” foram usados para outros
empreendimentos Brasil afora, ao longo do século XX e início do XXI.

As
imagens aéreas de áreas de floresta devastadas nos dão sempre a mesma
impressão. Algo que foi e já não é mais e, muito provavelmente, nunca mais
voltará a ser.
(Imagens: pinturas de Jamini Roy)
Leituras diárias
sexta-feira, 29 de maio de 2020
“Darwin
mostrou, através da seleção natural, que havia outra maneira que não a
existência de um Fabricante de Relógios, uma maneira pela qual era possível uma
enorme ordem surgir de um mundo natural mais desordenado sem a interferência de
nenhum Fabricante de Relógios com inicial maiúscula. Era a seleção natural.”
(Sagan, p. 62)
Carl
Sagan, Variedades da Experiência Científica
– Uma visão pessoal da busca por Deus
Leituras diárias
quinta-feira, 28 de maio de 2020
“E a
questão fica ainda mais confusa pelo fato de teólogos proeminentes como Paul
Tillich, por exemplo, que proferiu as Palestras Gifford muitos anos atrás,
terem negado explicitamente a existência de um Deus, pelo menos como poder
sobrenatural. Bem, se um teólogo renomado (e ele não é o único) nega que Deus
seja um ser sobrenatural, a questão me parece meio confusa. O espectro de
hipóteses seriamente abarcadas pela rubrica ‘Deus’ é imenso. A visão ingênua
ocidental de Deus é a de um homem alto, de pele clara, com uma longa barba
branca, que fica num trono enorme no céu e que sabe da queda da cada
pardalzinho.” (Sagan, p. 169)
Carl
Sagan, Variedades da Experiência Científica
– Uma visão pessoal da busca por Deus
Leituras diárias
quarta-feira, 27 de maio de 2020
“Deus
evoluiu para o que os franceses chamam de um
roi fainéant – um rei que não faz nada –, que cria o universo, estabelece
as leis da natureza e aí se aposenta, indo para algum lugar. Isso não está
muito distante da ideia aristotélica do primeiro motor imóvel, exceto pelo fato
de que Aristóteles tinha dúzias de primeiros motores móveis, e ele achava que
se tratava de um argumento a favor do politeísmo, o que hoje é frequentemente
negligenciado.” (Sagan, p. 84)
Carl
Sagan, Variedades da experiência
científica – Uma visão pessoal da busca por Deus
Covid-19, recursos e consumo
sábado, 23 de maio de 2020
"A experiência que temos do tempo e do mundo é essencialmente determinada pelo princípio humano vitorioso. Das outras épocas e idades do mundo não guardamos qualquer informação ou documento filosoficamente determinante." - Vicente Ferreira da Silva - Dialética das consciências
Ainda
estamos em plena crise da covid-19. Aumentam as internações e mortes. Autoridades
no assunto garantem que a melhor maneira de impedir a ampliação das contaminações
é o isolamento social para todos. Se no começo da pandemia ainda haviam poucas
informações, e a “gripinha” supostamente apenas atacava pessoas na terceira
idade ou com algum tipo de comorbidade, hoje sabemos que qualquer faixa etária
pode ser vitimada pela doença.
Pela
experiência de outros países sabemos que o isolamento social reduz a
contaminação, dando fôlego à rede de saúde e não sobrecarregando as unidades de
terapia intensiva dos hospitais com casos alta gravidade. Pesquisas em vários
países já demonstraram definitivamente que o medicamento “cloroquina” não é
eficaz no combate ao vírus, podendo causar outros problemas graves ao
organismo.
O
único recurso com o qual podemos contar no combate ao coronavírus, antes do
desenvolvimento de uma vacina, é o isolamento social. Assim, a possibilidade de
isolar-se e proteger-se da doença é um direito de todo e qualquer cidadão – de qualquer
condição social – que deve ser garantido pelo Estado. Não é possível que o
governante exija que a pessoa permaneça em casa, sem dar-lhe condições de assim
fazê-lo. Caso não ocorra assim, o cidadão precisaria agir como muitos vêm
fazendo: desrespeitando o isolamento social obrigatório, para obter recursos
para adquirir alimentos.

Os
Estados têm condições de lançarem mão de recursos imobilizados ou alocados em
outras áreas para custear despesas de alimentação de sua população (ou parte
dela). Exemplos disso vimos acontecer ao longo dos últimos meses, quando países
como os Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Argentina e muitos outros, adiantaram
ou doaram recursos financeiros para seus habitantes. No Brasil, o governo
defendia a liberação de R$ 200,00 e foi somente com a pressão do Congresso que
o governo passou a disponibilizar ajuda de R$ 600,00 para aqueles que precisavam – valor
ainda bastante baixo. Dentre os beneficiados, muitos não chegaram a receber o auxílio até hoje.
Em
toda esta confusão social e econômica causada pela epidemia, grupos organizados
de empresários de diversos setores, solicitam dos governos federal, estadual e
municipal que permitam a retomada das atividades econômicas. A atitude é
compreensível. Pressionados por compromissos financeiros com credores e
funcionários, os empresários tentam reagir, a fim de evitar a bancarrota. Com
isso, em algumas regiões onde os índices de contaminação da população caíram, o
comércio e as demais atividades econômicas aos poucos começam a retomar suas
atividades. Faltam, no entanto, recursos às empresas. O governo, que prometeu
emprestar dinheiro aos empresários através dos bancos, diz que disponibilizou esta
ajuda ao setor bancário, que aparentemente está postergando o repasse.

Olhando
a situação toda sob uma perspectiva mais ampla, nos perguntamos até que ponto
todos estão sendo afetados pela pandemia e por suas consequências sociais e
econômicas. O país e o mundo enfrentarão uma imensa recessão, milhões de
pessoas perderão seus empregos, empresas encerrarão suas atividades. Países
serão obrigados a reformularem suas políticas econômicas e sociais, setores da
economia desaparecerão, a cultura e costumes vão mudar.
E
você se preocupa com o sapato, de gosto duvidoso, que está uma pechincha?
(Imagens: fotografias de choques de partículas subatômicas)
Posted by
Ricardo Ernesto Rose
|
|
0
comments
Labels: Assim se vive no Brasil, Crônica, Economia, Sociologia
Labels: Assim se vive no Brasil, Crônica, Economia, Sociologia
Leituras diárias
sexta-feira, 22 de maio de 2020
“Eis
uma questão que os objetos perceptíveis não podem revelar-nos, sendo que todas
as proposições que enunciamos nesse campo não possuem sentido teórico
controlável. Apesar de estarmos orgulhosos de poder distinguir, num caso
concreto, o que vem a ser ‘presença’ e o que vem a ser ‘ausência’ de desígnio,
podemos constatar a inanidade de todo o nosso esforço, no problema que
analisamos. O Universo permanece silencioso, não podendo responder a essa
classe de interrogações.” (da Silva, p. 42)
Vicente
Ferreira da Silva, Lógica Simbólica
HOJE 10 ANOS!
quinta-feira, 21 de maio de 2020
Blog "DA NATUREZA E DA CULTURA"
Meio ambiente e cultura
Desde 21/05/2010
(imagem: Revista Pesquisa Fapesp)
Leituras diárias
“A
lógica clássica e mesmo a moderna são o resultado de uma esquematização do
mundo. Foi traçado no universo um sistema de coordenadas, e as classes e as
relações delimitaram e estabilizaram a torrente da realidade.” (da Silva, p.
71)
Vicente
Ferreira da Silva, Lógica simbólica
Leituras diárias
quarta-feira, 20 de maio de 2020
“De
um certo plano de pensamento, podemos licitamente afirmar que o universo é um
sistema de objetos desiguais, diferentes heterogêneos, um sistema que exclui o
sinal de igualdade. O singular, o único, é que forma o fundo próprio da
realidade, sendo os universais meros
instrumentos criados pela nossa mente, a fim de poder vencer a pluralidade
infinita das manifestações da natureza.” (Da Silva, p. 95)
Vicente
Ferreira da Silva, Lógica simbólica
Nova economia e empregos verdes
sábado, 16 de maio de 2020
"Os homens, como os outros seres, não passam de uma parte da natureza, e ignoro como cada uma dessas partes combina-se com o todo, como ela se liga às outras." - Baruch Espinosa - Cartas XXX
A
pandemia do coronavírus ainda não é página virada, estamos longe disso. Na opinião
dos especialistas nos encontramos provavelmente a meio caminho, tendo acumulado
alguma experiência e à espera de uma vacina ou terapia para a doença. Após isso,
será necessário imunizar a maior parte da população mundial. Ninguém sabe ainda
como isto será possível e quanto tempo demandará. Até lá será necessário que
governos saibam administrar o isolamento social e, na medida do possível,
reduzir os danos inevitáveis à economia.
Já
são numerosos os indícios que indicam uma mudança muito grande na economia.
Países levarão anos até que recuperem a situação econômica que detinham antes
da crise. Muitos setores serão abalados e outros talvez até deixem de existir
ao longo dos próximos anos. Tudo, porém, ainda é uma grande incógnita. O que se
sabe, todavia, é que a economia mundial não poderá continuar operando da mesma
maneira como vinha fazendo até agora. Excesso de consumo e geração de resíduos –
sólidos, líquidos e gasosos – vêm envenenando o planeta e extinguindo a
biodiversidade – situação oportuna para o aparecimento de doenças.
Órgãos
internacionais, institutos de pesquisa, grandes empresas e lideranças políticas
de todo o planeta, concordam que esta talvez seja a última grande oportunidade dada
à humanidade para mudar seu relacionamento com a natureza e, talvez, seu
próprio destino. Várias evidências colhidas ao longo dos últimos anos mostram
que a economia, da maneira como vem sendo conduzida, levará à gradual exaustão
dos mais importantes recursos naturais. Escreve o físico e professor inglês
Martin Rees em seu livro “Hora final – alerta de um cientista”: “As espécies
estão morrendo cem ou até mesmo mil vezes mais do que a taxa normal. Antes que
o Homo sapiens entrasse em cena, aproximadamente uma espécie em um milhão se
extinguia a cada ano; agora a taxa está mais perto de uma espécie em mil.
Algumas espécies estão sendo mortas diretamente; porém a maior parte das
extinções se deve a desdobramentos involuntários de mudanças provocadas pelos
humanos no habitat, ou à introdução de espécies não nativas em um ecossistema.” (Rees, p. 114)
Além
da depleção dos recursos naturais existe o grande tema da crise climática,
devido ao aquecimento da atmosfera provocada pelas emissões de gases de efeito
estufa. Será oportuno e necessário, portanto, mudar a maneira como produzimos e
consumimos, pensando sempre nos milhões de trabalhadores que estão perdendo
seus empregos na pandemia – só nos Estados Unidos foram 20 milhões até abril de
2020. A proposta já defendida por muitos especialistas há décadas é a gradual
mudança para uma economia mais sustentável, com menos uso de recursos. Nesta
nova economia as empresas incorporam metas de redução de insumos e energia, diminuem
emissões de todos os tipos, promovem o consumo responsável de seus produtos, atuam
de maneira socialmente responsável, entre outros pontos.
O
potencial de geração de empregos em uma economia mais sustentável é maior do
que na convencional. Além dos empregos já existentes, a nova economia demandará
um maior número de profissionais, voltados às áreas da sustentabilidade. São os
“empregos verdes”; postos de trabalho em áreas como:
-
Agricultura com baixo impacto ambiental;
- Produção
e manejo florestal;
-Geração
e distribuição de energias renováveis (solar, eólica, biomassa, biogás,
hidrogênio);
-
Planejamento e gestão de resíduos (reuso, reciclagem, incineração, disposição);
- Atividades
de medição, monitoramento e controle;
- Medidas
de eficiência energética e de eficiência na produção; entre outras.
Os empregos verdes, segundo a classificação do Programa das Nações Unidas para o
Meio Ambiente (UNEP) são, de maneira ampla, atividades na agricultura,
manufatura, pesquisa e desenvolvimento, administração e atividades de serviços,
que contribuem substancialmente para a preservação ou recuperação da qualidade
ambiental. Incluem também atividades que ajudem na proteção a ecossistemas e à
biodiversidade, redução do consumo de energia, água e materiais, através de
estratégias diversas. Ocupações que concorram para a redução das emissões de
carbono nas atividades econômicas e que diminuam a geração de resíduos.
Considerando
somente o setor das energias renováveis, cuja utilização é cada vez maior em
todo o mundo, o potencial já é bastante elevado. Nos Estados Unidos, por
exemplo, antes da crise, a estimativa de crescimento do número de empregos no
mercado da energia fotovoltaica era de 63% e na de energia eólica 57%. Um estudo
do Political Economy Research Institute (Instituto de Pesquisa de Política
Econômica) de 2019, informa que a cada U$ 1 milhão investido em atividades
relacionadas com combustíveis fósseis, são gerados 2,65 empregos. O mesmo valor
investido em energias renováveis ou eficiência energética, gera respectivamente
7,49 e 7,72 empregos. Segundo dados da Agência Internacional de Energia
Renovável (IREA), existem atualmente 10,3 milhões de trabalhadores em todo o
mundo atuando no setor de energias renováveis.
A nova
economia tem grande potencial para geração de riqueza e de postos de trabalho.
Somente nos Estados Unidos a economia verde movimentou 1,3 trilhões de dólares
(cerca de R$ 7,5 trilhões em maio de 2020) e empregou 9,5 milhões de pessoas em
2019. No Brasil a economia verde empregava 2,6 milhões de trabalhadores (dados
de 2012), segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O
relatório também mostrou que à época cerca de 7% dos empregos formais estavam
ligados à sustentabilidade e que a oferta de vagas nesta área estava crescendo
cerca de 2% ao ano. Prova disso é o mercado de energia eólica. Apresentando um
rápido crescimento ao longo da última década, este setor continuou em expansão mesmo
durante a crise econômica que se iniciou em 2014, terminando o ano de 2019 com
cerca de 200 mil postos de trabalho e em crescimento.
Estão
em desenvolvimento diversos mecanismos que deverão contribuir para que a
economia se torne mais sustentável. Governos da Europa, por exemplo, criaram o
EU Green New Deal, (Novo Acordo Verde da União Europeia), sistema através do
qual os países exigirão contrapartidas em investimentos “verdes”, das empresas
que receberem ajuda financeira dos governos por conta da atual crise econômica.
O Banco Mundial (WB) está elaborando propostas para direcionar as intervenções
na economia, com o objetivo de recuperar a economia mundial em bases
ambientalmente sustentáveis e com geração de empregos.
A
retomada do crescimento, baseada em novos parâmetros, poderá trazer uma nova
era de progresso e modernização tecnológica para a economia mundial. Mas isto
exigirá determinação e sacrifício, tanto de governos quanto de empresas, pois é
sempre mais fácil voltar às práticas antigas, o “business as usual”, como dizem
os organismos internacionais. O Brasil poderá voltar a desempenhar um importante
papel nesta nova economia, dado o potencial do país para as energias
renováveis, a moderna atividade agrícola e a biodiversidade. No entanto, caso
mantenha a mesma política em relação ao meio ambiente praticada pelo atual
governo, o país não terá condições de participar desta nova economia.
Posted by
Ricardo Ernesto Rose
|
|
0
comments
Labels: Economia, Gestão de recursos, Meio Ambiente, Sociologia
Labels: Economia, Gestão de recursos, Meio Ambiente, Sociologia
Leituras diárias
sexta-feira, 15 de maio de 2020
“No
século XVII, viajantes costumavam afirmar que era preferível ser roubado por
piratas em alto-mar a aportar no Brasil, onde teriam que pagar uma série de
taxas sobre a mercadoria comercializada, além de serem obrigados a adular os
administradores e grandes proprietários com todo tipo de presente.” (Schwarcz,
p. 91)
Lilia
Moritz Schwarcz, Sobre o autoritarismo
brasileiro
Pupi (2003-14/05/2020)
quinta-feira, 14 de maio de 2020"Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz."
Milan Kundera, escritor
Nossa
amiga e companheira Pupi (também "Maloque", "Vovó") se foi.
Nunca
vamos te esquecer!
Leituras diárias
“Naturalizar
a desigualdade, evadir-se do passado, é característica de governos autoritários
que, não raro, lançam mão de narrativas edulcoradas como forma de promoção do
Estado e de manutenção do poder. Mas é também fórmula aplicada, com relativo
sucesso, entre nós, brasileiros. Além da metáfora falaciosa das três raças,
estamos acostumados a desfazer da imensa desigualdade existente no país e a
transformar, sem muita dificuldade, um cotidiano condicionado por grandes
poderes centralizados nas figuras dos senhores de terra em provas derradeiras
de um passado aristocrático.” (Schwarcz, p. 19)
Lilia
Moritz Schwarcz, Sobre o autoritarismo
brasileiro
Leituras diárias
quarta-feira, 13 de maio de 2020
"A
Coroa (portuguesa) simplesmente fechava um dos olhos para as práticas de
enriquecimento cometidas por seus agentes, desde que não atentassem contra as
receitas régias e, de preferência, realizassem tais expedientes de maneira
discreta, através de testas de ferro escolhidos, em geral, entre os criados ou
comerciantes locais.” (Schwarcz, p. 93)
Lilia
Moritz Schwarcz, Sobre o autoritarismo brasileiro
Evitar a próxima pandemia
sábado, 9 de maio de 2020
"Todas as grandes tragédias têm um final feliz. Mas quem as suportaria até o final?" - Stanislaw Jerzy Lec - Últimos pensamentos desarrumados
Deste
que surgiu, a pandemia do coronavírus tem afetado todas as áreas das atividades
humanas. Estas pequenas “partículas infecciosas”, invisíveis a olho nu,
tornaram-se o maior fator de mudanças econômicas, sociais e culturais na nossa
civilização globalizada. Todas as atividades humanas, atuais e futuras, estão
sendo influenciadas por esta estranha criatura que, segundo a biologia, nem
pode ser classificada como um ser vivo.
Sabe-se
hoje, definitivamente, de que a pandemia teve início quando o vírus, que tinha
o seu habitat em animais selvagens sem prejudica-los, se adaptou ao organismo
de animais domésticos e desses passou para o homem. O processo é conhecido e
ocorreu de modo similar com outros vírus, ocasionando, por exemplo, a Gripe
Espanhola de 1918/19. Bactérias e vírus ainda desconhecidos se estabelecem nos
organismos de seres humanos quando estes, através de atividades como
desmatamento, caça, comércio ilegal e criação de animais selvagens, entram em
contato direto ou indireto com estes microrganismos.
Na
área ambiental a pandemia provocou um efeito imediato. Bilhões de pessoas foram
forçadas a permanecer em casa, ou pelo menos reduzir sensivelmente seus
deslocamentos, o que rapidamente diminuiu as emissões de gases poluentes
gerados por automóveis, transporte público, aviões, trens e navios. Durante a
crise financeira de 2008, que também teve um forte impacto na economia mundial,
as emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE) caíram 1,3% ao longo
daquele ano. Este ano prevê-se uma redução de cerca de 5% nas emissões de GEE
globais. Somente a China, o maio emissor de GEE do planeta, já teve uma queda
de 25% no primeiro trimestre do ano, com redução de 40% no consumo de carvão
usado para acionar seis de suas maiores termelétricas. Através de imagens de
satélites é possível detectar a diminuição das manchas de poluição atmosférica
na Ásia, Europa e Estados Unidos. No Brasil, as fotografias aéreas também
mostram a diminuição da nuvem de poluição que constantemente paira sobre a região
metropolitana de São Paulo, a mais carregada de GEE do país.
Com
a queda na frequência dos transportes e da distribuição de produtos, caiu igualmente a
demanda por combustíveis fósseis. Segundo relatório recente da Agência
Internacional de Energia (IEA), dados indicam que haverá uma queda de 20% na
demanda global de petróleo durante 2020, o que já fez com que o preço do barril
de petróleo diminuísse de US$ 70,00 em meados de 2019, para US$ 33,00 em março
deste ano.
A
pandemia também provocou a paralização do setor industrial em todo o mundo – na
China e em alguns países da Europa a atividade industrial está recomeçando
lentamente. No Brasil, a Confederação
Nacional da Indústria (CNI) reportou, através de um relatório publicado no mês
de março de 2020, que 79% das indústrias pesquisadas notaram uma redução nos
pedidos e 53% informam que a queda foi intensa. Essa situação reduziu a demanda
por matérias primas, insumos e componentes. Por outro lado, com a interrupção
das atividades fabris houve um abrandamento dos impactos ao meio ambiente, ao
longo da cadeia de produção dos produtos.
A
queda brusca nas atividade econômicas aumentou o desemprego em todo o mundo,
que já vinha crescendo principalmente nas economias periféricas, como a do Brasil.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (IWO) cerca de 1,6 bilhão de
trabalhadores estão com as rendas de subsistência comprometidas, devido à crise
econômica. A onda de desemprego mundial, no entanto, ainda não se fez notar com
toda a sua força, dado que muitos governos estão liberando empréstimos para
empresas e trabalhadores, caso dos países europeus, os Estados Unidos e também do
Brasil. Nessa situação, trabalhadores de todo o planeta serão forçados a
reduzir seu consumo de bens.

- Segundo
o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), há alguns aspectos a
serem observados daqui em diante, para evitar o aparecimento de novas epidemias,
entre os quais: a) reduzir o desmatamento e a ocupação desnecessária de áreas
virgens; b) proibir o comércio ilegal e a caça de animais selvagens; c) evitar
a criação intensa (concentrada em pouca área) de animais; c) evitar o uso de
antibióticos na criação de animais, a fim de impedir o surgimento da
resistência aos antibióticos; d) estancar as mudanças do clima, que podem
forçar o deslocamento de espécies para
outras regiões (inclusive bactérias e vírus);
- A
Agencia Internacional de Energia (IEA) sugere que sejam feitos grandes
investimentos em fontes de energia renovável, com o apoio financeiro de
governos e instituições internacionais. A dependência dos combustíveis fósseis
deve ser gradualmente reduzida a praticamente zero até por volta de 2050. Já há
uma tendência nos países ricos em se tornarem cada vez menos dependentes desta
fonte energética. Na Alemanha, as grandes empresas do setor privado solicitaram
recentemente ao governo Merkel, de que condicione qualquer ajuda financeira do
governo ao setor privado às ações de redução de emissões de GEE;
-
Nos países pobres e menos desenvolvidos será necessário implantar uma rígida
agenda de melhoria da infraestrutura; principalmente no que se refere à questão
do saneamento, condições de moradia, transporte público e saúde. Na atual
pandemia ficou patente que as populações mais pobres são as mais afetadas pelas
consequências sanitárias e econômicas da crise;
-
Além dessas, há uma série de outras iniciativas sendo discutidas, para as quais
governos e ONGs estão criando estratégias de atuação, envolvendo: consumo consciente,
extensos programas de redução na geração de resíduos e de agricultura orgânica.
(Imagens: mosaicos bizantinos)
Posted by
Ricardo Ernesto Rose
|
|
0
comments
Labels: Ciência, Economia, Gestão de recursos, Meio Ambiente, Sociologia
Labels: Ciência, Economia, Gestão de recursos, Meio Ambiente, Sociologia
Leituras diárias
sexta-feira, 8 de maio de 2020
“A
dura realidade é que a maioria das pessoas que estão nas camadas de cima da
pirâmide social têm conhecimento, habilidade e esforço ‘médios’: são medíocres.
Se, num passe de mágica, todos virassem pobres e tivessem de começar a vida do
zero, a avassaladora maioria permaneceria pobre até o resto de seus dias, sem
conseguir escapar das camadas mais baixas do cruel funil do capitalismo. Não
tentem me convencer, portanto, de que esse sistema é meritocrático. A não ser
que nascer rico seja um grande mérito.” (Moreira, p. 42)
Eduardo
Moreira, O que os donos do poder não
querem que você saiba
Leituras diárias
quinta-feira, 7 de maio de 2020"As pessoas foram divididas entre conservadoras ou revolucionárias. Petralhas e coxinhas. Garotos de condomínio ou marginais. E, curiosamente, num ótimo exemplo de profecia autorrealizável, acabaram realmente se tornando aquilo que lhes foi rotulado pela sociedade. É essa, aliás, a intenção de criar rótulos: controlar como as pessoas vão se comportar, pensar e reagir aos fatos para manter a ordem existente." (Moreira, p.85)
Eduardo Moreira, O que os donos do poder não querem que você saiba
Leituras diárias
quarta-feira, 6 de maio de 2020
"Só existem dois tipos de
investimentos! Na verdade, todas as opções que você acha que tem à disposição
resumem-se somente a uma destas duas, como já disse: ações ou dívidas. Claro,
elas recebem dos bancos diversas embalagens diferentes para parecer que você
tem dezenas de alternativas e numa delas deve residir o cálice sagrado para
deixar você rico da noite para o dia. A rigor, ou você está comprando um título
de dívida, ou está comprando uma participação societária em uma empresa, as
ações." (Moreira, p.35)
Eduardo Moreira, O que os donos do poder não querem que você saiba
Tem que mudar
sábado, 2 de maio de 2020
"Não há loteria que acabe com pobreza de espírito." - Millôr Fernandes - A Bíblia do caos
É
bastante provável que em nenhum momento da história brasileira as mazelas do
povo tivessem sido expostas de forma mais evidente do que agora. Não que elas
não existissem antes, evidentemente. Mas uma soma de acontecimentos provocados
pela crise do vírus corona, fez com que se tornassem perceptíveis de maneira
escancarada.
A
inesperada e imediata interrupção de quase todas as atividades econômicas, colocou
em cheque a maneira como a maior parte dos brasileiros foi forçada a sobreviver
ao longo das últimas décadas – sob certa ótica, ao longo de toda a história. Com
empregos mal remunerados, subempregados ou trabalhadores informais, todos com
pouco ou nenhum amparo da legislação trabalhista, grande parte destas pessoas não
dispõe de reservas financeiras para poder viver algumas semanas, quiçá alguns
dias, sem receber pagamento. Para muitos a situação se tornou desesperadora, já
que falta até a comida para preparar o almoço ou a janta.
A
questão do perigo de contágio pelo vírus também mostrou as péssimas condições
em que parte da sociedade é colocada para viver. Favelas com pouco espaço,
residências sem isolamento e água potável, falta de tratamento de esgoto e
coleta regular de resíduos domésticos. Enfim, o ambiente ideal para uma rápida
propagação da virose, como tem ocorrido em várias localidades, especialmente em
Manaus e Recife, onde as condições da população ainda são piores do que em
outros lugares.
Quando
se trata de casos de saúde, todas estas pessoas dependem do Sistema Único de
Saúde (SUS), o qual, nos últimos anos – e especialmente durante o governo
Bolsonaro – foi submetido a um processo de lento sucateamento. A intenção
última dos administradores do sistema de saúde era gradualmente transferi-lo ao
setor privado. Mas, no caminho da privatização surgiu a crise do covid-19.
Criou-se
o cenário para a pior situação possível: crise econômica reduzindo
drasticamente o emprego formal e informal, aliada a uma pandemia que
sobrecarrega o único sistema de saúde capaz de atender 70% da população
brasileira, que não dispõem de convênios médicos privados (os quais, aliás,
também estão operando no limite).
Os
recursos liberados pelo governo para ajudar esta parte da população serão,
talvez, suficientes para cobrir despesas de alimentação e um ou outro gasto
inadiável, apenas isso. Muitos, no entanto, devido a uma série de empecilhos, estão
encontrando dificuldades em sacar o dinheiro. Acesso a caixas eletrônicos, baixar
programas de aplicativo para o celular, abrir contas em bancos ou solicitar CPF
na Receita Federal, acessar sites e outros procedimentos, não fazem parte do
dia a dia da maior parte destes brasileiros. Não porque não quisessem. Mas
porque nunca lhes foram dadas as oportunidades de estudar, ter uma ocupação
melhor, renda mais alta; ter tempo para se ocupar de outras coisas além de
lutar pela sobrevivência – praticamente pela comida do dia seguinte.

(Imagens: fotografias de Albert Renger-Patzsch)
Posted by
Ricardo Ernesto Rose
|
|
0
comments
Labels: Assim se vive no Brasil, Economia, Gestão de recursos
Labels: Assim se vive no Brasil, Economia, Gestão de recursos
Assinar:
Postagens (Atom)