DEMOCRACIA
segunda-feira, 30 de novembro de 2020A eleição de Biden e a questão ambiental
sábado, 28 de novembro de 2020
Há quatro anos, em novembro de 2016,
escrevemos um artigo sobre a eleição de Trump e suas consequências para o meio
ambiente (A eleição de Trump e o meio ambiente - https://ricardorose.blogspot.com/2016/11/a-eleicao-de-trump-e-o-meio-ambiente.html).
Como esperado, a atuação do 45º presidente eleito dos Estados Unidos exerceu
forte influência na maneira como seu país e parte do mundo passou a tratar o
meio ambiente. Além de eliminar diversas providências encaminhadas por seu
antecessor, Barak Obama, Trump retirou poder da agência de controle ambiental
americana, a EPA (United States Environmental
Protection Agency), diminuiu o tamanho de áreas de proteção ambiental e de parques
naturais, reduziu o número de medidas de avaliação de impacto ambiental em
obras de infraestrutura, e concedeu licenças para diversos projetos de alto risco
ao meio ambiente, como o gigantesco oleoduto Keystone XL que se estende do
Canadá aos Estados Unidos.
No
setor de transportes, gerador de grandes volumes de emissões, a administração
Trump reduziu os padrões de eficiência energética em veículos e dificultou o
desenvolvimento de meios de transporte mais limpos. Sua mais polêmica ação, de
grandes consequências para o clima do planeta, foi a retirada de seu país do
acordo climático de Paris, através do qual 195 nações ratificaram sua intenção
de reduzirem as emissões de gases de efeito estufa (GEE), a partir de 2020. Os
Estados Unidos, lembremos, é o segundo maior emissor de GEE depois da China.
Neste ano os Estados Unidos organizaram uma nova eleição presidencial e Joe Biden foi eleito como 46º presidente na nação. Trump alega que houve fraude no pleito, está recorrendo na justiça, mas já deu início à transferência de governo ao sucessor, que deverá tomar posse em 20 de janeiro de 2021. Em declarações à imprensa, Biden já confirmou que com relação às questões ambientais recolocará os Estados Unidos no acordo climático de Paris e que reverterá uma série de decretos assinados por seu antecessor. O novo presidente planeja retomar o Plano de Energia Limpa, que prevê a redução das emissões de CO² das usinas de geração de energia em 30%, até 2030. Este plano energético, elaborado durante o governo Obama, nunca havia entrado em vigor, por ter sido contestado na justiça por uma coalizão de empresas e governos estaduais republicanos.
O
foco principal da administração Biden em relação ao meio ambiente será a
redução das emissões de carbono do país para zero, até 2050. Para isso, sua
administração planeja investir cerca de 2 trilhões de dólares, em um ambicioso
programa baseado principalmente em eficiência energética e nas energias
renováveis, gerando milhões de empregos verdes (postos de trabalho em empresas ambientalmente
sustentáveis). Na área da energia eólica, por exemplo, Biden pretende impulsionar
a geração de energia eólica offshore, através de turbinas eólicas instaladas ao
longo do litoral dos estados da costa Leste e da Califórnia. A cadeia da
indústria automobilística, criadora de grande número de empregos diretos e
indiretos, também receberá fortes incentivos para aumentar a produção de carros
com motores elétricos. O setor da construção civil terá como principal meta o
uso eficiente de materiais e energia, através da modernização e renovação (retrofitting) de prédios públicos e
privados. Todas estas metas e outras ainda a serem acrescentadas ao programa,
farão parte de um projeto já conhecido como Green
New Deal (pacto ecológico), com vistas a modernizar a economia americana,
gerando empregos verdes e baixas emissões de carbono (https://www.heritage.org/renewable-energy/heritage-explains/the-green-new-deal). As estratégias e metas desta iniciativa do
governo americano são bastante semelhantes ao Pacto Ecológico Europeu (https://ec.europa.eu/info/strategy/priorities-2019-2024/european-green-deal_pt).
Esta
intenção Biden pretende também deixar clara aos outros países. Tanto que
indicou o ex-secretário de Estado do governo Barak Obama, John Kerry, para o
cargo de enviado especial do Meio Ambiente (special
presidential envoy for climate). Segundo reportagem apresentada
recentemente na CNN online, quando o senador Bernie Sanders em 2016 classificou
a questão das mudanças climáticas como “a mais importante questão de segurança
nacional”, não foi levado a sério. Cinco anos depois, a própria Casa Branca criou
o cargo de enviado especial do Meio Ambiente, com cadeira permanente nas
reuniões do Conselho Nacional de Segurança. Kerry tem longa experiência nas
questões climáticas, tendo desempenhado importante papel nas negociações para o
Acordo Climático de Paris.
Este
é o recado que os Estados Unidos agora transmite às outras nações do planeta: a
questão do clima é séria e estamos empenhados em agir em relação a ela. Retomando
seu papel de pioneiros na discussão e na criação de leis ambientais desde a
década de 1960, a nação americana pretende, depois de quatro anos de ausência,
voltar ao protagonismo e à liderança no tema. Com isso, exercerão uma grande
influência sobre outros países. Se o exemplo da administração Trump foi
negativo, fazendo com que os temas ambientais fossem relegados a um plano
secundário, permitindo que muitas nações usassem implícita ou explicitamente o
exemplo americano para também não agirem em relação ao clima, a partir de agora
o quadro muda. A proteção aos recursos naturais, sejam quais forem, novamente é
o assunto do dia na nova ordem econômica mundial pós-covid19 e
pós-administração Trump – palavra da União Europeia e dos Estados Unidos.
O
Brasil será uma peça importante nesta estratégia climática da administração
Biden, como o próprio presidente já adiantou durante os debates eleitorais. A
campanha presidencial de Biden recebeu forte apoio de grupos, de dentro e de
fora do partido, ligados às questões ambientais. Assim, a questão da
Amazônia com certeza será uma das primeiras pautas das reuniões entre os dois
governos. Até o momento foram dizimados 20% da área original da floresta, mas
se chegarmos aos 25% da área, poderemos alcançar “o ponto de não retorno”, como
os cientistas classificam esta situação. Nestas condições não há mais certeza
se e em quanto tempo o ecossistema poderá se recuperar.
Não
se recuperando, a Amazônia poderá em parte se transformar em uma região de
savana, de vegetação rala, com menor volume de recursos hídricos e com consequências
para a biodiversidade; o clima e a agricultura no Brasil – além de outras
implicações econômicas – e o clima mundial. Sabe-se hoje que a floresta
amazônica não tem forte influência na remoção dos GEE da atmosfera, mas que exerce
grande interferência na umidade e na temperatura do ar da macrorregião
amazônica e também no planeta.
As
características da Amazônia têm uma influência tão grande na Terra, que sua
manutenção é motivo de preocupação de todos. Ninguém questiona a posse da
região pelo Brasil, mas espera-se que o país faça a gestão da região de tal
maneira, que o tênue equilíbrio que ainda existe entre todos os aspectos
naturais possa ser mantido – pelo bem de todos. É evidente que a manutenção do
ecossistema exigirá aportes de tecnologia, recursos humanos e financeiros, para
que os moradores da região tenham um padrão de vida digno, de modo a não serem
forçados a práticas de sobrevivência não sustentáveis, como vem ocorrendo em
alguns casos. Deve-se pensar numa série de compensações para os estados e
municípios da região, proporcionando-lhes o mesmo padrão de vida de outras
regiões do país.
Biden
já falou em uma ajuda de 20 bilhões de dólares para desenvolver a região de uma
maneira sustentável. O países europeus, com certeza, também terão interesse em
cooperar em projetos de desenvolvimento social e econômico na região. Mas isto
seria apenas o começo. O reverso da moeda é o papel que o governo brasileiro
precisa desempenhar, voltando a controlar e gerenciar o território, coibindo
todo tipo de desmantelamento dos recursos através de desmatamento e garimpo
ilegal, grilagem, invasão de áreas indígenas e de unidades de conservação.
Neste
aspecto cabe ressaltar que o atual governo não tem bons antecedentes. Bolsonaro
sempre teve uma maneira, digamos assim, peculiar de enxergar a questão
ambiental. Como ministro do Meio Ambiente indicou Ricardo Salles, que já havia
atuado como Secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo, tendo sido
processado por irregularidades em sua administração. No cargo, Salles desmontou
parte da estrutura técnica dos principais órgãos ambientais federais e limitou
as ações de controle do órgão ambiental.
O
governo cortou grande parte das verbas do Ministério do Meio Ambiente e reduziu
drasticamente os recursos em outras iniciativas na área do meio ambiente. O
posicionamento do governo em relação ao assunto deu abertura para que diversos
agentes – grileiros, fazendeiros, posseiros, madeireiros e garimpeiros – aumentassem
a derrubada e queima da floresta ao longo do biênio 2019/2020. O fato,
amplamente coberto pela imprensa local e internacional, causou protestos em
diversos países e organizações internacionais, colocando o Brasil no papel de
vilão ambiental do planeta. Com isso, é bastante provável que o país seja alvo
de pressão por parte do governo americano, e que seja cobrado para que tenha
uma atuação mais forte na questão da floresta amazônica.
Para
mudar sua imagem o país precisará mostrar que efetivamente está mudando sua
atitude; o que até o momento não ocorreu. Um discurso pseudo nacionalista,
baseado na premissa de que potências estrangeiras querem invadir ou extrair as
riquezas da área, só trará mais problemas políticos para o nosso país e não
ajudará a melhorar as condições sociais e ambientais da região.
O Brasil deveria se valer deste novo ambiente político mundial, que se formou com a eleição de Biden e a importância dada novamente à questão do clima, para tirar vantagem do fato de possuir um bioma como a Amazônia – e outros, como a Mata Atlântica e a região do Pantanal. No passado, nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, o Brasil já teve um papel de protagonista na questão climática e na do meio ambiente, e poderia retomar esta posição. Assim, o governo poderia condicionar a preservação destas áreas à assinatura de acordos de cooperação técnico-científica para o desenvolvimento sustentável da região, à elaboração de projetos de geração de renda, aos acordos comerciais e acesso a novos mercados, entre outros. O pior a fazer, tanto para o Brasil como para o mundo é manter as coisas como estão – se é que isso será possível neste novo contexto político-econômico mundial.
(Imagens: gravuras de Erich Heckel)
Labels: Cultura, Economia, Meio Ambiente, Política, Sociologia
Leituras diárias
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
“Freud só se tornará interessante depois de ficar
totalmente esquecido durante muito tempo.
Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo”
(Canetti, pág. 152)
Elias Canetti, Sobre os escritores
Leituras diárias
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
“Filósofos nos quais nos dispersamos: Aristóteles.
Filósofos com os quais oprimimos: Hegel. Filósofos para se gabar: Nietzsche.
Para respirar: Chuang Tse.” (Canetti, pág. 78)
Elias Canetti, Sobre os escritores
Leituras diárias
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
“Gosto de Unamuno (filósofo e escritor espanhol), ele tem
os mesmos defeitos que conheço em mim, mas nem passa pela sua cabeça
envergonhar-se deles.” (Canetti, pág. 169)
Elias Canetti, Sobre os escritores
PRESERVE A MATA ATLÂNTICA
segunda-feira, 23 de novembro de 2020Meio ambiente e uso de recursos
sábado, 21 de novembro de 2020
Quase
todas as atividades econômicas têm algum tipo de impacto ambiental negativo ao
meio ambiente. Extração de petróleo e minérios, captação de água, criação de loteamentos,
plantio de árvores para extração de madeira, industrias de diversos tipos, etc.
Mesmo as atividades humanas mais singelas, como o carrinho de pipoca na praça,
o restaurante e o escritório de contabilidade; todos têm algum tipo de impacto
negativo na natureza, como uso de água, poluição do ar, geração de resíduos, uso
de recursos não renováveis.
Os
cientistas perceberam as consequências das práticas econômicas no meio ambiente
– os economistas falam nas externalidades de uma atividade econômica – e desenvolveram
gradualmente procedimentos e tecnologias que reduzem o que, em outras palavras,
poderíamos chamar de dano ao meio ambiente. Lembrando que o meio ambiente
pertence a todos os cidadãos, sendo um bem comum, concluímos que toda atividade
que impacta um ambiente ou seus recursos naturais, está provocando algum tipo
de prejuízo a todos. Por exemplo, se eu exerço uma atividade econômica e,
através dela, causo danos ao ambiente, como descarga de esgoto ou geração de
fumaça, estou auferindo lucros à custa de um bem que é coletivo. Minha fábrica
polui as águas do córrego que é um bem comum da população do bairro, ou da
cidade onde atuo com meu negócio.
Esta
seria a situação ideal. Ideal no Brasil, porque na maior parte dos países
avançados industrialmente esta prática é comum. Tão comum, que em vários ramos
das atividades econômicas, muitos governos federais e locais incentivam a
pesquisa, a fabricação e a implantação de tecnologias que permitam reduzir a
poluição. O conceito, conhecido como “produção mais limpa”, também utilizado em
indústrias de ponta no Brasil, procura otimizar o uso dos insumos produtivos –
matérias primas, água, energia, equipamentos, mão de obra, etc. – gerando o
mínimo possível de resíduos, como efluentes, gases e resíduos sólidos. Em segmentos
econômicos altamente competitivos, como a indústria eletroeletrônica e a
automobilística, o uso racional de recursos e a redução dos impactos ambientais
– e os custos implicados em sua eliminação – são fatores fundamentais para o
sucesso de uma marca.
A
participação da indústria brasileira na economia vem lentamente caindo ao longo
das últimas três décadas; o país está se desindustrializando. Diminuíram os
investimentos em novas linhas de produção e na modernização – leia-se
otimização – das unidades produtivas já existentes. Isto, em outras palavras,
também quer dizer que a indústria não está produzindo de uma maneira mais
eficiente, seja do ponto de vista econômico ou ambiental. Além de tornar nossos
produtos menos competitivos, isto também faz com que nossos processos
industriais sejam mais poluidores e dissipadores de insumos.
Já
em centros industrias de ponta, como os Estados Unidos, o Japão, a China e a
Alemanha, a história é diferente. Além de leis ambientais cada vez mais
restritivas, notadamente na Europa, as indústrias são pressionadas por suas
associações, por seus clientes, por agências ambientais e pela competição dos
concorrentes, a tornarem seus processos sempre mais eficientes, utilizando
menos recursos. Matérias primas, energia e outros recursos naturais são cada
vez mais caros nessas regiões, e nada pode ser desperdiçado – além da pressão
de uma opinião pública muito consciente, que exige atividades industriais cada
vez menos impactantes.
Gradualmente,
preveem os especialistas, com o aumento da pressão em todos os países por redução
de emissões de gases e de resíduos, dominarão o mercado apenas as indústrias
mais eficientes. Àquelas industrias, que por várias razões não puderem se
modernizar, sobrarão apenas os mercados e os clientes/consumidores menos
exigentes, que evidentemente terão um poder de consumo mais baixo.
Mas
isto é apenas parte da história. Qualquer atividade econômica situada na produção,
na distribuição ou no consumo, nunca chegará ao ponto de eliminar completamente
a geração de externalidades, com impacto sobre o meio ambiente. A teoria do “resíduo
zero”, disseminada por algumas instituições ligadas à pesquisa da produção e do
consumo nos anos 1990, nunca será alcançada. Sempre, durante toda a cadeia
produtiva e de consumo, sobrará algum resíduo ou emissão. Com isso num prazo
ainda não calculado, ficarão escassos os insumos, como certos metais e terras
raras, petróleo, água limpa, terras aráveis, entre outros. Mas isto já é tema
para um outro artigo.
(Imagens: fotografias de Letizia Battaglia)
Labels: Economia, Gestão de recursos, Gestão Pública, Meio Ambiente
Leituras diárias
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
“Pode-se
dizer dos Estados Unidos da América, não sem maldade, nem, sem dúvida, com um
pouco de injustiça, que eram raras as nações do mundo a ter evoluído diretamente
da barbárie para a decadência, sem passar pelo estágio da civilização"
(Rosset, pág. 31)
Clement
Rosset, Alegria, a força maior
Leituras diárias
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
“Quando
Nietzsche declara que não há nenhum sentido a ser buscado na existência, ele
não quer absolutamente dizer que a existência é vã e sem interesse, que falta
ali qualquer ‘razão de viver’. O tema nietzscheano da insignificância do mundo
designa somente a impossibilidade – salvo ilusão e traição – de reconhecer nele
um sentido à altura da palavra e da inteligência humanas." (Rosset, pág.
71)
Clement Rosset, Alegria, a força maior
Leituras diárias
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
“O
problema fundamental da filosofia de Nietzsche se apresenta, aparentemente,
como um problema de tipo kantiano: a beatitude nietzschiana, ou seja, a pura
adesão à existência, sem remorso nem segundas intenções, é possível? Como é
possível a transfiguração do sofrimento em prova positiva da afirmação? Como o
pensamento da morte pode não ter outra incidência senão favorável sobre o
pensamento da vida?" (Rosset, pág. 44)
Clement Rosset, Alegria, a força maior
Dia Mundial da Filosofia
segunda-feira, 16 de novembro de 2020Epicuro (341-270 AEC), filósofo grego
Diversas questões levantadas pela Covid-19
sábado, 14 de novembro de 2020
A
Covid-19 é uma das maiores pandemias que afetaram a humanidade até hoje. Pela
primeira vez na história, de uma maneira quase instantânea, todos os cantos do
planeta foram abalados pela chegada da doença. A gripe espanhola de 1918-1919
também impactou muitos países; a Europa, os Estados Unidos e a China
principalmente, mas muitas regiões, de difícil acesso à época, ficaram livres
da doença. Hoje, de uma forma rápida, o vírus Covid-19, transportado por
usuários de aviões, trens, automóveis, navios, atingiu quase a totalidade dos
locais habitados do mundo, chegando inclusive às aldeias mais remotas e às
tribos isoladas.
Os
tipos de impacto desta pandemia são variados; não se trata apenas de uma
ocorrência envolvendo a saúde pública. A necessidade de isolamento ou limitação
do contato entre as pessoas, já teve um efeito muito grande na economia mundial,
desde a produção e distribuição, até a venda de produtos e prestação de serviços.
Lazer, alimentação, ensino, tratamento médico, deslocamentos e trabalho,
tiveram que se adaptar à nova situação e desenvolver formas que limitassem o
contato interpessoal.
O
aspecto da injusta distribuição dos recursos econômicos no Brasil também foi
colocado a nu durante a pandemia, principalmente em seu período mais agudo. Milhões
de pessoas, sem emprego e renda, ficaram em uma situação desesperadora, em
difíceis condições de sobrevivência. Com quase toda a atividade econômica
paralisada, parte considerável da população ficou sem qualquer rendimento,
impossibilitada de comprar alimentos e outros itens de necessidade básica. Por
iniciativa dos deputados de oposição, o governo se viu compelido a concordar
com a distribuição de um auxilio emergencial, durante certo período. Toda esta
situação trouxe de volta, tanto no Brasil quanto no mundo, a discussão sobre
uma renda básica universal; um pagamento mensal a todo e qualquer cidadão, rico
ou pobre, empregado ou desempregado, destinada a atender às suas necessidades
básicas. Se não avança muito a discussão, pelo menos o tema está constantemente
sendo abordado e estudado. A ideia é possibilitar a todo cidadão condições para
que, não importa a atividade que tenha ou venha a exercer, sua sobrevivência
básica esteja garantida.
A
proteção dos recursos naturais é outro tema que chamou a atenção de
empresários, governos e cientistas durante a pandemia. Estudos realizados por
diversos organismos internacionais mostraram que a destruição de ecossistemas,
pode fazer com que seus integrantes tentem sobreviver deslocando-se para outros
ecossistemas e habitats – ou para outros hospedeiros, como no caso dos vírus do
Covid-19, que encontrou um hospedeiro ideal nos sete bilhões de corpos humanos.
As
sociedades humanas foram colocadas frente a frente com toda uma nova gama de
situações pela pandemia. Problemas e desafios, os quais, de uma maneira ou
outra, geralmente foram ignorados ou tratados como secundários. Não seria agora
a hora de gradualmente se encaminhar soluções para estes dilemas?
(Imagens: fotografias de Guido Guidi)
Labels: Antropologia, Crônica, Cultura, Economia, Sociologia
Leituras diárias
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
"Nem
o tirano nem o escravo são capazes de avaliar sua capacidade. Amanhã, o
primeiro cairá por si mesmo, e o segundo desprezará a oportunidade de tomar o
poder para tentar instaurar um mundo menos absurdo.” (Serres, pag. 121)
Michel Serres, Ramos
Leituras diárias
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
“Vocês
se sentem entediados? Apenas as novidades recentes lhes interessam? Que
acontecimentos, então, podem ser considerados interessantes? São eles: as
aventuras, as descobertas, a vida, e, o que mais posso dizer, o próprio
tempo... não cessam de zapear.” (Serres, pag. 123)
Michel Serres, Ramos
Leituras diárias
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
“Como
começa um império? Sobre uma superfície de terra, cada um dos membros de uma
colônia de cupins deposita aleatoriamente uma pelota de argila. Ocasionalmente,
pode acontecer que, aqui ou ali, dois deles coloquem essas pelotas uma sobre a
outra. Com mais volume que suas vizinhas, essa massa atrai outros cupins que,
com toda gentileza, preferem amontoar sua pelotas de argila mais nesse lugar do
que em outro. O que se segue é um crescimento gigantesco de pequenas torres.
Por meio dessa fábula sobre cupins, construí a narrativa a respeito da fundação
da antiga Cidade romana e das ‘causas’ de sua supremacia imperial.” (Serres,
pag. 145)
Michel Serres, Ramos
FESTA VIRTUAL DO LIVRO
terça-feira, 10 de novembro de 2020VOTE CONSCIENTE!
segunda-feira, 9 de novembro de 2020Novas pandemias com a destruição da floresta?
sábado, 7 de novembro de 2020
Os microrganismos
acompanham o homo sapiens desde o
início de seu surgimento, há cerca de 200 mil anos. Os ancestrais humanos e
outras espécies aparentadas – como o homo
ergaster, passando pelo homo heidelbergensis
e pelo homo neaderthalensis – para
citar só alguns, também foram acometidos por doenças causadas pelos vírus. Ao
longo de seu deslocamento partindo da África, pelo Oriente Médio, em direção à
Ásia e daí para a Oceania, onde chegou há cerca de 50 a 60 mil anos em
sucessivas levas de migração, o homem interagiu com diversos tipos de
microrganismos, notadamente os vírus.
Vestígios
de sítios localizados ao longo desta rota de migração, habitados por nossos
antepassados, estão sendo escavados e analisados. Nos resíduos estão sendo
coletados microrganismos, cujo DNA ou RNA (compostos orgânicos que contêm as
instruções genéticas para o desenvolvimento da vida) estão sendo analisados.
Fato interessante observado pelos pesquisadores, é que ao longo do tempo que
estes grupos humanos levaram para se deslocar, os microrganismos também
sofreram mutações. Em seu livro A
história da humanidade contada pelo vírus, o médico infectologista e
professo brasileiro Stefan Cunha Ujvari escreve: “O vírus HPV (papilomavírus humano) [...] multiplica-se no organismo
infectado e sofre mutações constantes. Os vírus descendentes apresentam cópias
diferentes do seu DNA. Gerações futuras do vírus inicial serão geneticamente
diferentes. Cada grupo humano que se desgarrou dos demais levou consigo vírus
responsáveis por uma geração geneticamente diferente dos demais que ficaram
para trás. [...] Comparando as alterações do seu DNA em populações nativas de
regiões diferentes, podemos traçar a rota percorrida pelo vírus HPV que
coincidiria com o trajeto de seu carregador, o homem moderno.”
A
dispersão de bactérias e vírus se deu de diversas formas, ao longo da
pré-história e da história. Um tipo de tuberculose, a catapora, a AIDS, a
herpes, a sífilis, as gripes e vários outros tipos de doenças causadas por
microrganismos, também fizeram o mesmo trajeto, sempre levadas pelas populações
humanas em suas migrações, no comércio, nas guerras e nas viagens exploratórias
– mais recentemente, poderíamos acrescentar o turismo também a esta lista.
A
maior parte destas doenças, principalmente as viróticas, têm uma origem
atualmente bastante estudada e conhecida em seu processo de dispersão.
Transcrevemos aqui mais um trecho do livro A
história da humanidade contada pelos vírus: “Todo vírus da natureza precisa de
auxílio de outro ser vivo para se reproduzir. Isso ocorre porque ele é
constituído apenas do seu material genético, seja DNA ou RNA. E, ao contrário
das bactérias, não contém o maquinário celular necessário para sua reprodução.
Por isso invade a célula de um organismo vivo (animal ou vegetal) para
emprestar sua moléculas, copiar o seu próprio material genético e construir
novos vírus. Sob seu comando, as células invadidas produzem cópias de seu
envelope para enclausurar o seu DNA ou RNA já replicados. Formam inúmeros novos
vírus iguais ao invasor. A ‘prole’ é expulsa e está apta para repetir a
operação.” É através deste processo que também se dá a propagação, nos
organismos, do atual vírus Covid-19.
O
risco de um aumento das doenças zoonóticas existe e pode aumentar. À medida em
que o homem avança sobre as últimas áreas ainda pouco exploradas, como as
remanescentes florestas tropicais, a possibilidade de um encontro com patógenos
endêmicos e, consequentemente, de um transbordamento, aumenta. A destruição de
um ecossistema e de seus membros – muitos deles, como os morcegos, hospedeiros
de vírus – pode fazer com que estes microrganismos encontrem, acidentalmente,
um novo hospedeiro, que pode ser um animal doméstico ou o homem. A partir
disso, pode ter início um rápido processo de transmissão, favorecido ainda mais
pela atual facilidade de transporte, mesmo nas regiões mais remotas.
Sobre
este assunto, recentemente foi divulgado um relatório, encomendado pela
Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Sistêmicos
(IPBES), ligada à ONU. O estudo, conduzido por 22 renomados cientistas, aborda a relação entre a expansão de doenças infecciosas, transmitidas de animais para
pessoas (zoonoses), e a biodiversidade. O documenta estima que existam cerca de
1,7 milhão de vírus pouco conhecidos e até desconhecidos, que tem seu habitat nos organismos de mamíferos e
pássaros de todo o mundo. Destes, aproximadamente 850 mil espécies de vírus têm
o potencial de se transformarem em moléstias zoonóticas, ao contaminarem seres
humanos.
A
quantidade de vírus existentes na natureza é imensa. Cientistas estimam que
existam trilhões de espécies destas criaturas na Terra. Alan Burdick, repórter
do jornal New York Times e mencionado no artigo publicado na revista Piauí,
escreve que os vírus “infectam morcegos, feijões, besouros, amoras, mandioca,
mosquitos, batatas, pangolins, carrapatos e diabos-da-tasmânia. Desenvolvem
cânceres em pássaros e fazem com que as bananas fiquem pretas. Destes trilhões
(de vírus), apenas algumas centenas de milhares de tipos são conhecidos e menos
de sete mil têm nome. Sabemos que apenas 250, incluindo o Sars-CoV-2, possuem
os mecanismos para nos infectar.”
Em
outro estudo, mencionado recentemente pelo site ClimaInfo, especialistas
catalogaram mais de 3,2 mil tipos de coronavírus em morcegos da Amazônia. Sobre
isso comentou a pesquisadora Ana Lúcia Tominho, da Universidade Federal de Mato
Gross (UFMT): “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar
o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível. Além de ser
importante para nós por causa o clima, da fauna, ela é importante para nossa
saúde.”
A
espécie humana não é essencial para a sobrevivência da maior parte dos vírus,
excetuando-se aqueles que provocam a febre amarela urbana, a dengue, a
chicungunha, a zika e a febre do oropouche; patogênicos urbanos cujo hospedeiro
preferencial é o homem. Nenhum vírus da Amazônia, vivendo no bioma há dezenas
de milhares ou milhões de anos, precisa dos humanos para se reproduzir. No
entanto, se destruirmos seu habitat e seus hospedeiros, e se estivermos no lugar
errado e na hora errada, poderá ocorrer o pior. A floresta fechada, atua como um escudo de
proteção, tanto para o vírus, como para o homem. Ultrapassada esta barreira
pela degradação ambiental, com a destruição de ecossistemas e de espécies, pode
ocorre o transbordamento destes microrganismos para animais e deles para os
humanos.
(Fotografias de Raghu Rai)
Labels: Antropologia, Gestão Ambiental, Gestão de recursos, Meio Ambiente, Sociologia
Leituras diárias
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
“A
sabedoria é verdadeiramente um ideal ao qual se tende sem esperar chegar a ele,
salvo talvez no epicurismo. O único estado normalmente acessível ao homem é a
filo-sofia, isto é, o amor à sabedoria, o progresso em direção à sabedoria.
Portanto, os exercícios espirituais deverão sempre ser retomados num esforço
sempre renovado.
O
filósofo vive assim num estado intermediário: não é sábio, mas não é não sábio.
Ele está, pois, constantemente cindido entre a vida não filosófica e a vida
filosófica, entre o domínio do habitual e do cotidiano e o domínio da
consciência e da lucidez.” (Hadot, pág. 58)
Pierre Hadot, Exercícios espirituais e filosofia antiga
Leituras diárias
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
“É
que, para Epicuro, como para os estoicos, a filosofia é uma terapêutica: ‘nossa
única ocupação deve ser nossa cura’. Dessa vez, porém, a cura consistirá em
conduzir a alma das preocupações da vida à simples alegria de existir. A
infelicidade dos homens provém do fato de que eles temem as coisas que não são
temíveis e desejam coisas que não é necessário desejar e que lhes escapam. A vida
se consome assim na perturbação dos medos injustificados e dos desejos
insatisfeitos.” (Hadot, pág. 32)
Pierre
Hadot, Exercícios espirituais e filosofia
antiga
Leituras diárias
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
“A
filosofia vai então educar o homem para que busque alcançar apenas o bem que
pode obter e busque evitar apenas o mal que pode evitar. O bem que se pode
obter, o mal que se pode sempre evitar devem, para ser tais, depender
unicamente da liberdade do homem: são, portanto, o bem moral e o mal moral.
Semente eles dependem de nós, o resto não depende de nós. Portanto o resto, o
que não depende de nós, corresponde ao encadeamento necessário das causas e dos
efeitos que escapam à nossa liberdade. Ele nos deve ser indiferente, isto é,
não devemos introduzir diferença nele, mas aceitá-lo por inteiro como desejado
pelo destino.” (Hadot, pág. 23)
Pierre Hadot, Exercícios espirituais e filosofia antiga