“Na realidade, não houve um grande
complô nem uma doutrina pré-fabricada que os políticos teriam aplicado com
cinismo e determinação para satisfazer as expectativas de seus poderosos amigos
do mundo dos negócios. A lógica normativa que acabou se impondo constituiu-se
ao longo de batalhas inicialmente incertas e de políticas frequentemente
tateantes. A sociedade neoliberal em que vivemos é fruto de um processo
histórico que não foi integralmente programado por seus pioneiros; os elementos
que a compõem reuniram-se pouco a pouco, interagindo uns com os outros,
fortalecendo uns aos outros. Da mesma forma como não é resultado direto de uma
doutrina homogênea, a sociedade neoliberal não é reflexo de uma lógica do
capital que suscita as formas sociais, culturais e políticas que lhe convém à
medida que se expande. A explicação marxista clássica esquece que a crise de
acumulação a que o neoliberalismo supostamente responde, longe de ser uma crise
de um capitalismo sempre igual a si mesmo, tem a particularidade de estar
ligada às regras institucionais que até então enquadravam certo tipo de
capitalismo.
Consequentemente, a originalidade do neoliberalismo está no fato de criar um novo conjunto de regras que definem não apenas outro ‘regime de acumulação’, mas também, mais amplamente, outra sociedade. Tocamos aqui num ponto fundamental. Na concepção marxista, o capitalismo é, antes de tudo, um ‘modo de produção’ econômico que, como tal, é independente do direito e gera a ordem jurídico-política de que necessita a cada estágio de seu autodesenvolvimento. Ora, longe de pertencer a uma ‘superestrutura’ condenada a exprimir ou obstruir o econômico, o jurídico pertence de imediato às relações de produção, na medida em que molda o econômico a partir de dentro. ‘O inconsciente dos economistas’, como diz Foucault, que é na verdade o inconsciente de todo economicismo, seja liberal, seja marxista, é precisamente a instituição, e é justamente a instituição que o neoliberalismo, em particular em sua versão ordoliberal, quer reconduzir a uma posição determinante.”
Pierre Dardot (1952-) filósofo e sociólogo francês
e Christian Laval (1953-) sociólogo e
professor francês em A Nova Razão do Mundo


0 comments:
Postar um comentário