Minha opinião

sábado, 22 de agosto de 2026

 

"A economia vai bem, mas o povo vai mal". 

General Emílio Garrastazú Médici (1905-1985), presidente do Brasil durante o período da ditadura civil-militar

 

Tomando por base a propagando do governo, a situação econômica do povo melhorou nos últimos anos, com o controle da inflação e a criação de empregos, reduzindo a taxa de desocupação para 5,4% no segundo trimestre de 2026, o patamar mais baixo da série histórica do IBGE. Quanto à alta taxa dos juros, bastante criticada quando praticada pela administração anterior, pouco se fala no governo. 

Todavia, a crise no setor varejista brasileiro reflete aspecto diferente daquela situação econômica do povo brasileiro, apresentada pelo governo. Durante o primeiro semestre de 2026, segundo o jornal eletrônico Times Brasil, 986 empresas do setor varejista se encontravam em recuperação judicial. Companhias como Marabraz, Americanas, Grupo Pão de Açúcar, Casa & Vídeo e Tok&Stok, estão nesse grupo, ao qual também se juntou a Casas Bahia em agosto último.  

Não é surpresa que isto ocorra em uma economia na qual o salário mínimo é de R$ 1.621,00 – quando segundo o DIEESE deveria ser de R$ 7.999,44 –, e a maior parte da população não dispõe de recursos para o consumo além do estritamente necessário, chegando a se endividar para poder se alimentar. Segundo dados de julho de 2026, 82% dos brasileiros têm algum tipo de dívida; 30% possuem contas em atraso e 12% declararam que não terão condições de pagar suas dívidas. Como consequência, até o setor supermercadista tem registrado retração nas vendas em meses recentes.

Em junho de 2026, o salário médio das novas vagas de trabalho foi de R$ 2.404,34 e neste período apenas 5% a 8% dos trabalhadores brasileiros ganhavam mais de R$ 7.000,00. Segundo dados do IBGE (dados de 2025) o perfil do rendimento dos brasileiros é o seguinte:

- 1% da população, cerca de 2,1 milhões de pessoas, tem renda até R$ 24,9 mil;

- 4% da população, cerca de 10,6 milhões, têm renda até R$ 9.648,00;

- 10%, cerca de 21,2 milhões, têm renda até R$ 3.590.00; e

- 50% dos brasileiros, 106,1 milhões, têm renda de R$ 1.311,00. 

Os baixos salários estão relacionados a diversos fatores, apontam os especialistas. Uma sucessão de crises econômicas desde os anos 1980; altos impostos (a carga tributária cresceu de 25% do PIB nos anos 1990 para 32,4% em 2025); baixa produtividade da economia associada à insuficiente capacitação da mão de obra e falta de investimentos em tecnologias e infraestrutura, têm sido considerados impedimentos no crescimento da economia e dos salários.

O Brasil que entre o final dos anos 1970 e início dos 1980 chegou a ser a oitava nação mais industrializada do planeta, foi gradualmente perdendo esta posição. Descontrolada abertura do mercado para produtos estrangeiros, valorização da moeda nacional, juros altos, cortes de investimentos do Estado na infraestrutura e privatizações – principais itens da receita do “Consenso de Washington”, adotado para a economia a partir dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso – foram fatores decisivos para o processo de desindustrialização do país. Nos anos 1980 a indústria participava com 23% no PIB, enquanto que em 2025 este percentual caiu para 10,8%. Assim, ao longo dos últimos quarenta anos o setor industrial perde importância, enquanto o setor financeiro, o agronegócio e o setor de serviços apresentaram crescimento acelerado.

A mudança do perfil da atividade econômica não foi vantajosa para os trabalhadores, já que o agronegócio e o setor de serviços não pagam os mesmos salários que a indústria. O setor financeiro, incluído nos serviços, só tem dispensado trabalhadores desde os anos 1990, com a informatização do sistema bancário. No processo, os profissionais que perderam seus empregos na indústria foram em parte absorvidos pelo setor de serviços (que emprega 63% da força de trabalho do país), recebendo salários comparativamente mais baixos. Neste decurso houve um achatamento geral da remuneração dos trabalhadores em toda a economia, já que excessiva oferta de mão de obra reduz o valor médio dos salários pagos pelos empregadores.

Recomeça assim o círculo vicioso: quem ganha pouco consome menos, reduzindo a demanda e inibindo investimentos produtivos. O empresário não faz novos investimentos quando seu mercado não demonstra potencial crescimento da demanda. É mais provável que aplique seus recursos no mercado financeiro, onde a alta taxa dos juros remunera mais seu capital. Não investindo em novas unidades fabris ou comerciais, o empreendedor deixa de criar novos empregos, o que mantêm o nível dos salários baixos ou aumenta o desemprego.

Essa situação na qual se encontra o trabalhador brasileiro pode explicar porque quase 25% da população têm pouco ou nenhum interesse nas próximas eleições. Há uma impressão, baseada em experiências passadas, de que pouca coisa deve mudar no aspecto econômico da vida das pessoas, qualquer que seja o candidato que vencer, como já vem acontecendo há algum tempo. As propagandas dos partidos e dos políticos prometendo melhorias, novos projetos, tentando transmitir uma expectativa otimista, a muitos já não entusiasmam mais.

Enquanto governos continuarem priorizando setores como o financeiro, o agronegócio, a exploração mineral e grandes empreendedores, sem iniciarem projetos de desenvolvimento com a melhoria do padrão de vida, a maior parte da população vai continuar sem perspectivas quanto ao seu futuro.

O número daqueles que começam a perceber isso só tende a aumentar.


 

Ricardo E. Rose, 21/08/26

 

(Imagens: desenhos de Käthe Kollwitz, 1867-1945)

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