"A economia vai bem, mas o povo vai mal".
General Emílio Garrastazú Médici
(1905-1985), presidente do Brasil durante o período da ditadura civil-militar
Tomando por base a propagando do governo, a situação econômica do povo melhorou nos últimos anos, com o controle da inflação e a criação de empregos, reduzindo a taxa de desocupação para 5,4% no segundo trimestre de 2026, o patamar mais baixo da série histórica do IBGE. Quanto à alta taxa dos juros, bastante criticada quando praticada pela administração anterior, pouco se fala no governo.
Todavia, a crise no setor varejista
brasileiro reflete aspecto diferente daquela situação econômica do povo
brasileiro, apresentada pelo governo. Durante o primeiro semestre de 2026,
segundo o jornal eletrônico Times Brasil, 986 empresas do setor
varejista se encontravam em recuperação judicial. Companhias como Marabraz,
Americanas, Grupo Pão de Açúcar, Casa &
Vídeo e Tok&Stok, estão nesse grupo, ao qual também se juntou a
Casas Bahia em agosto último.
Não é surpresa que isto ocorra em uma
economia na qual o salário mínimo é de R$ 1.621,00 – quando segundo o DIEESE deveria
ser de R$ 7.999,44 –, e a maior parte da população não dispõe de recursos para
o consumo além do estritamente necessário, chegando a se endividar para poder
se alimentar. Segundo dados de julho de 2026, 82% dos brasileiros têm algum
tipo de dívida; 30% possuem contas em atraso e 12% declararam que não terão
condições de pagar suas dívidas. Como consequência, até o setor
supermercadista tem registrado retração nas vendas em meses recentes.
Em junho de 2026, o salário médio das
novas vagas de trabalho foi de R$ 2.404,34 e neste período apenas 5% a 8% dos
trabalhadores brasileiros ganhavam mais de R$ 7.000,00. Segundo dados do IBGE (dados
de 2025) o perfil do rendimento dos brasileiros é o seguinte:
- 1% da população, cerca de 2,1 milhões
de pessoas, tem renda até R$ 24,9 mil;
- 4% da população, cerca de 10,6
milhões, têm renda até R$ 9.648,00;
- 10%, cerca de 21,2 milhões, têm renda
até R$ 3.590.00; e
- 50% dos brasileiros, 106,1 milhões, têm renda de R$ 1.311,00.
Os baixos salários estão relacionados a
diversos fatores, apontam os especialistas. Uma sucessão de crises econômicas
desde os anos 1980; altos impostos (a carga tributária cresceu de 25% do PIB
nos anos 1990 para 32,4% em 2025); baixa produtividade da economia associada à
insuficiente capacitação da mão de obra e falta de investimentos em
tecnologias e infraestrutura, têm sido considerados impedimentos no crescimento
da economia e dos salários.
O Brasil que entre o final dos anos
1970 e início dos 1980 chegou a ser a oitava nação mais industrializada do
planeta, foi gradualmente perdendo esta posição. Descontrolada abertura do
mercado para produtos estrangeiros, valorização da moeda nacional, juros altos,
cortes de investimentos do Estado na infraestrutura e privatizações –
principais itens da receita do “Consenso de Washington”, adotado para a
economia a partir dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso – foram
fatores decisivos para o processo de desindustrialização do país. Nos anos 1980
a indústria participava com 23% no PIB, enquanto que em 2025 este percentual
caiu para 10,8%. Assim, ao longo dos últimos quarenta anos o setor industrial
perde importância, enquanto o setor financeiro, o agronegócio e o setor de
serviços apresentaram crescimento acelerado.
A mudança do perfil da atividade
econômica não foi vantajosa para os trabalhadores, já que o agronegócio e o
setor de serviços não pagam os mesmos salários que a indústria. O setor
financeiro, incluído nos serviços, só tem dispensado trabalhadores desde os
anos 1990, com a informatização do sistema bancário. No processo, os
profissionais que perderam seus empregos na indústria foram em parte absorvidos
pelo setor de serviços (que emprega 63% da força de trabalho do país),
recebendo salários comparativamente mais baixos. Neste decurso houve um
achatamento geral da remuneração dos trabalhadores em toda a economia, já que excessiva
oferta de mão de obra reduz o valor médio dos salários pagos pelos
empregadores.
Recomeça assim o círculo vicioso: quem
ganha pouco consome menos, reduzindo a demanda e inibindo investimentos
produtivos. O empresário não faz novos investimentos quando seu mercado não demonstra
potencial crescimento da demanda. É mais provável que aplique seus recursos no
mercado financeiro, onde a alta taxa dos juros remunera mais seu capital. Não
investindo em novas unidades fabris ou comerciais, o empreendedor deixa de
criar novos empregos, o que mantêm o nível dos salários baixos ou aumenta o
desemprego.
Essa situação na qual se encontra o
trabalhador brasileiro pode explicar porque quase 25% da população têm pouco ou
nenhum interesse nas próximas eleições. Há uma impressão, baseada em
experiências passadas, de que pouca coisa deve mudar no aspecto econômico da vida das pessoas,
qualquer que seja o candidato que vencer, como já vem acontecendo há algum
tempo. As propagandas dos partidos e dos políticos prometendo melhorias, novos projetos,
tentando transmitir uma expectativa otimista, a muitos já não entusiasmam mais.
Enquanto governos continuarem
priorizando setores como o financeiro, o agronegócio, a exploração mineral e
grandes empreendedores, sem iniciarem projetos de desenvolvimento com a melhoria
do padrão de vida, a maior parte da população vai continuar sem perspectivas
quanto ao seu futuro.
O número daqueles que começam a
perceber isso só tende a aumentar.
Ricardo E. Rose, 21/08/26
(Imagens: desenhos de Käthe Kollwitz, 1867-1945)

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