SAL
O MAY
Os cabarés de São Paulo são longínquos
Como virtudes
Automóveis
E o pisca-pisca inteligente das estradas
Um soldado só para policiar minha pátria inteira
E o gru-gru dos grilos grelam gaitas
E os sapos sapeiam sapas sopas
No alfabeto escuro dos brejos
Vogais
Lampiões lamparinas
E tu surges através de um fox-trot errado e da lenda
Delenda linda Salomé
Ó dançarina cafajeste
Cheia de moscas ignorantes e de boas intenções
A javá é uma polca porca com poeira azul
Mas o roxo arroxa a procissão de cortinas cor de rosa.
- Eu não ligo
- Eu quero saber que negócio é esse de esperar com
revolver na estrada
- Aquele capanga preto mandou o braço e a mulher levou um
pontapé
- Na barriga
O saxofone obstina uma dor de dentes delirantes
Que o maxixe espasma
Entre tipos e gorjetas
Mas o escapamento aberto escapa
Na noite penitenciária
- Senhor dai-nos o pão-de-ló iluminado da redenção
O Tietê rola rumas de tijolos
Cor de água cor de rosa
Oswald de Andrade (1890-1954), poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro em Memórias Sentimentais de João Miramar. Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, marco na cultura brasileira.

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