Oswald de Andrade

terça-feira, 15 de setembro de 2026


 

SAL O MAY

 

Os cabarés de São Paulo são longínquos

Como virtudes

 

Automóveis

E o pisca-pisca inteligente das estradas

Um soldado só para policiar minha pátria inteira

 

E o gru-gru dos grilos grelam gaitas

E os sapos sapeiam sapas sopas

 

No alfabeto escuro dos brejos

Vogais

 

Lampiões lamparinas

E tu surges através de um fox-trot errado e da lenda

 

Delenda linda Salomé

Ó dançarina cafajeste

Cheia de moscas ignorantes e de boas intenções

 

A javá é uma polca porca com poeira azul

Mas o roxo arroxa a procissão de cortinas cor de rosa.

 

- Eu não ligo

- Eu quero saber que negócio é esse de esperar com revolver na estrada

- Aquele capanga preto mandou o braço e a mulher levou um pontapé

- Na barriga

O saxofone obstina uma dor de dentes delirantes

 

Que o maxixe espasma

Entre tipos e gorjetas

 

Mas o escapamento aberto escapa

Na noite penitenciária

- Senhor dai-nos o pão-de-ló iluminado da redenção

 

O Tietê rola rumas de tijolos

Cor de água cor de rosa

 

 

Oswald de Andrade (1890-1954), poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro em Memórias Sentimentais de João Miramar. Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, marco na cultura brasileira.

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