Frank
Zappa & The Mothers of Invention
Montana (1973)
(Online desde 21 de maio de 2010 - Editor: Ricardo Ernesto Rose)
“Em
seu cerne, o fundamentalismo é uma reação a uma ameaça percebida à integridade
de sua própria tradição religiosa. Assim como o fundamentalismo está nas
religiões abraâmicas, também o encontramos em religiões asiáticas, como o
budismo e o hinduísmo.
De
um modo geral, os fundamentalistas, independentemente de sua filiação religiosa
específica, tendem a acreditar que o mundo contemporâneo está infestado de
imoralidade e valores ímpios, e que o papel do devoto é tentar trazer a
sociedade humana de volta para uma era de ouro em que o mundo funcionava de
acordo com os ditames de um Deus moral. Na busca dessa meta, em geral os
fundamentalistas acreditam fortemente que sua escritura contém a totalidade de
todas as verdades que devem ser conhecidas e que eles têm a responsabilidade de
defender as verdades dessa escritura do ataque de ideias pluralistas ou
seculares que, inevitavelmente, relativizam a verdade. Uma parte importante da
perspectiva do fundamentalismo é, portanto, defender a verdade literal da
escritura e manter o seu status
definitivo. Para os fundamentalistas, os mandamentos de Deus como eles entendem
terem sido revelados nas escrituras são absolutos, atemporais e não
negociáveis.” (Dalai Lama, págs. 199 e 200)
Dalai Lama (1935-) monge e chefe do budismo tibetano em Uma ponte entre as religiões
“Há mais mortos do que vivos. E seus
números estão aumentando. Os vivos estão ficando mais raros.”
Eugene
Ionesco (1909-1994), dramaturgo do teatro do absurdo franco-romeno, citado por
QuoteFancy
Música brasileira
Walter Franco
Álbum: Ou Não (1973)
Música: Cabeça
Músico atuante desde os anos 1960, Walter Franco surpreendeu o público e a crítica ao defender sua inusitada composição “Cabeça” no VII Festival Internacional da Canção da TV Globo, em 1972. Apesar das vaias que recebeu, o júri saiu em sua defesa por reconhecer a ousadia e a inovação da proposta num ambiente que prezava pelo lirismo e por formas musicais já padronizadas.
(Fonte: Art Research Journal, artigo "Ou não" (1973), de Walter Franco: contracultura, experimentalismo e vanguarda na MPB, de Sheila Diniz)
Conheça a história desta música nos vídeos abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=_dt85Hr2Sto
“Você acha que a Faria Lima tem alguém que quer mais o bem do Brasil do que eu? Quando discutem a taxa de juros, acha que eles estão pensando em quem dorme debaixo da ponte, na sarjeta, quem está morrendo de fome? Eles pensam no lucro, e o Brasil tem que ter quem pense no povo.”
Presidente Luís Inácio “Lula” da Silva em entrevista para o site UOL em 26/6/2024
“Ao
constatar o caráter idealista da dialética hegeliana, (Marx e Engels) procuram ‘corrigi-la’,
recorrendo para tanto ao materialismo filosófico de seu tempo. Mas para eles o
materialismo então existente também apresentava falhas, pois era essencialmente
mecanicista, isto é, concebia os fenômenos da realidade como permanentes e
invariáveis. Segundo eles, este materialismo estava em descompasso com o
progresso das ciências naturais, que já haviam colocado em relevo o
funcionamento dinâmico dos fenômenos investigados, desqualificando uma
interpretação que analisava a natureza como coisa invariável e eterna.
Paralelamente ao avanço das pesquisas sobre o caráter dinâmico da natureza, os
frequentes conflitos de classes que ocorriam nos países capitalistas mais
avançados da época levavam Marx e Engels a destacar que as sociedades humanas
também encontravam-se em contínua transformação, e que o motor da história eram
os conflitos e as oposições entre classes sociais.” (Martins, págs. 56 e 57).
Carlos Benedito Martins, O que é sociologia
"Hoje,
no entanto, com a economia global pós-2008 sendo mantida viva com o auxílio de
aparelhos, com o aumento de regimes autocráticos corruptos e de Estados-cartel
e com uma crise climática que assoma imponderável sobre nós, os cálculos de
longo prazo dos interesses poderosos deu lugar a formas mais imediatas de
enriquecimento. Eis o capitalismo-cassino à meia-noite, momento em que os
vencedores do dia começam a resgatar suas fichas. Como a economia global já não
oferece nenhuma perspectiva de longo prazo, uma última farra alucinada de
pilhagens está em curso ao redor do planeta. Fraturamento hidráulico, mineração
de remoção do topo de montanhas, corte raso de florestas tropicais para a
agricultura voltada à produção de biodiesel, prospecção de petróleo em águas profundas,
espoliação da vida selvagem, tudo avança junto com a devastação e o saque dos
recursos sociais e com a expropriação dos fragmentos restantes de bens comuns,
sejam eles a água potável, a vida natural ou os parques urbanos. É como uma
nova versão do programa de televisão dos anos 1960 Supermarket Sweep [Varredura de Supermercado], em que os
participantes recebiam um carrinho de compras e um certo limite de tempo para
agarrar freneticamente tudo de valor que houvesse dentro da loja." (Crary, págs.
36 e 37).
"A
civilização industrial moderna está prestes a incendiar o mundo. A erradicação
de formações sociais e comunidades está entrelaçada com a extinção do sistema
terrestre vivo de que os bens comuns humanos dependem. Vivemos agora o
capitalismo em sua fase terminal de terra arrasada. Em um contexto militar, essa
expressão significa a destruição de recursos essenciais à vida, de modo que a
população derrotada ou um exército inimigo em marcha sejam privados de seu uso.
Em um sentido mais amplo, a terra arrasada significa a redução de uma região
próspera a um estado de esterilidade e a perda de sua capacidade de regeneração.
Trata-se de uma terra depauperada e privada de água, com seus rios e aquíferos
envenenados, seu ar poluído e seus solos afligidos por secas e pela agricultura
química. O capitalismo de terra arrasada destrói tudo aquilo que permite que
grupos e comunidades busquem modos de subsistência autossuficiente, de
autogoverno ou de apoio mútuo. Isso acontece com extrema violência no Sul
global, onde a extração, o desmatamento e o despejo de substâncias tóxicas criam
lixões inabitáveis e cidades em que os pobres, desesperados, se tornam exilados
internos." (Crary, págs. 45 – 46).
Jonathan Crary (1951-), professor, ensaísta e crítico de arte americano em Terra arrasada: Além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista
"Ninguém come PIB, come alimentos."
Maria da Conceição Tavares (1930-2024), economista, matemática, professora, parlamentar e escritora luso-brasileira
Música brasileira
Hermeto Pascoal
Álbum: Zabumbê-bum-à (1979)
Música: São Jorge
Lançado
em 1979, “Zabumbê-bum-á” é um dos álbuns mais cultuados de Hermeto Pascoal. Brilhante arranjador,
compositor e multi-instrumentista, Hermeto
Pascoal sabe como ninguém criar obras de arte com sua música. Misturando
ritmos tradicionais nordestinos, jazz e sons da natureza, ele combina
improvisos e um toque de experimentalismo no seu álbum de 1979, Zabumbê-bum-à.
Além
de ser responsável pelas composições e arranjos, Hermeto também orquestrou a
produção do trabalho, tocou piano, violão, percussão, flauta de bambu e
saxofones tenor e soprano. O título do trabalho é uma evocação nordestina que
sinaliza o passeio por ritmos da região como baião, frevo e maracatu.
(Fonte do texto: Mundo Vinyl)
Políticos e seus familiares são "proprietários" de terras que se sobrepõem às terras indígenas. Como pode ser isso?
“A
era da globalização distribuiu suas recompensas de forma desigual, para dizer o
mínimo. Nos Estados Unidos, a maior parte da renda nacional desde o final dos
anos 1970 foi para os 10% do topo, enquanto a metade inferior recebeu
praticamente nada. Em valor real, a renda média para homens em idade para
trabalhar, aproximadamente US$ 36 mil, é menos do que era há quatro décadas.
Hoje, o 1% mais rico dos estadunidenses ganha mais do que a metade inferior
somada. A arrogância meritocrática reflete a tendência de vencedores a respirar
fundo o sucesso, a esquecer a sorte e a sina dos que os ajudaram ao longo do
caminho. É convicção presunçosa de pessoas que chegam ao topo, de que elas merecem
esse destino, e que aqueles embaixo merecem o deles também. Esse comportamento é
o companheiro moral da politica tecnocrata.”
Michael Sandel, A tirania do mérito – O que aconteceu com o bem comum?
Música brasileira
Jards Macalé
Álbum: Contrastes (1977)
Música: Contrastes (autoria de Ismael Silva - 1905-1973)
Jards
Macalé é cantor, compositor, violonista e ator. Um dos grandes
gênios e inovadores da música brasileira pós-tropicalismo, não teve
participação efetiva no movimento tropicalista, mas foi de importância resoluta
para as carreiras de Gal Costa e Caetano Veloso. Participou de Le-Gal,
escreveu canções para a primeira e, em Londres, fez os arranjos para o que
viria a ser a obra-prima do segundo, o álbum Transa. Contrastes é seu terceiro LP.
(Fonte do texto: Camarilha dos Quatro – Revista de crítica musical)
“Também
mirando a meta fiscal, as principais lideranças do Congresso defendem uma nova
reforma da Previdência, cujo rombo ultrapassou os 400 bilhões de reais em 2023.
Apenas os militares representam quase 50 bilhões de prejuízo e, diferentemente
do que se viu nas propostas anteriores, não devem se safar dessa vez.
Por
isso, a insatisfação, embora silente, é generalizada. “É um assunto em que eles
não aceitam tocar", resume um interlocutor com trânsito na cúpula das forças
armadas. Hoje, um militar se aposenta mantendo o salário integral da ativa, que
pode chegar a quase 40.000 reais no caso de generais, e, como se fosse uma
espécie de prêmio, por vestir pijama, ainda recebe um adicional de oito salários.
Além
disso, em caso de morte, as filhas solteiras têm direito a uma pensão vitalícia
– benefícios que valem inclusive para militares que foram expulsos por
cometerem algum crime.”
Trecho do artigo "Batalha no Congresso", da jornalista Marcela Mattos, publicado na revista Veja digital, publicada em 02/08/2024
(Qualquer
semelhança com o Brasil não é mera coincidência)
“A
ideologia dominante que funciona melhor como muleta do capitalismo é culpar o
governo. Essa interpretação da sociedade moderna insiste que a raiz e a causa
final dos problemas econômicos é o governo, não o capitalismo ou os
capitalistas. Se você está desempregado, enfrenta execução hipotecária ou é mal
pago, o problema não é o capitalista que se recusa a empregá-lo, despeja você
ou paga mal. Em vez disso, é parcialmente sua culpa, mas principalmente do
governo: os políticos e os burocratas.
A
ideologia de culpar o governo serve aos capitalistas e aos ricos executivos,
gerentes, profissionais e consultores que dependem deles. Eles podem aumentar
seus lucros e riqueza cortando salários, empregos e benefícios; usando
tecnologias tóxicas; realocando negócios no exterior; aumentando os preços;
executando hipotecas; despejando; e assim por diante. Eles podem provocar
crises globais e fazer resgates massivos com dinheiro público. Para cobrir tudo
isso, líderes empresariais e políticos, porta-vozes da mídia e acadêmicos
compõem um coro que repete incessantemente: "culpe o governo". Eles
buscam transformar essa ideia em "senso comum" para que as vítimas das
ações dos capitalistas automaticamente não os culpem, mas fiquem bravas com os
políticos. A muleta ideológica de culpar o governo visa parar, desviar e
desmoralizar as coalizões políticas daqueles feridos e indignados pelas crises
capitalistas. Consciente ou inconscientemente, os ideólogos do capitalismo
querem evitar qualquer repetição do que aconteceu na década de 1930. Então, uma
coalizão de trabalhadores, fazendeiros, intelectuais e outros forçou o
presidente Franklin Delano Roosevelt a fazer o oposto da austeridade. Ele
aumentou os impostos sobre as corporações e os ricos para pagar pela criação da
Previdência Social, seguro-desemprego e um enorme programa federal de empregos.”
(Wolff, págs. 35 e 36).
Richard D. Wolff (1942-), economista americano em A crise do capitalismo se aprofunda: ensaios sobre o colapso econômico global (Original: Capitalism's Crisis Deepens: Essays on the Global Economic Meltdown)
“Quando
Celso Furtado leu “Os limites do
crescimento” ele não pôde deixar de salientar ainda outro ponto, a saber,
que o relatório involuntariamente mostrava que o padrão de desenvolvimento e consumo
dos países centrais do capitalismo não poderia ser generalizado para todo o
mundo, o que mostrava como o progresso, para além de estar até agora
organicamente vinculado à guerra, era, no fundo, um mito.
Nunca
houve e nunca poderia haver progresso para todos: ou seja, o progresso que
conhecemos não apenas dependeu da violência da exploração e da conquista. Ele
se mostrou um mito inalcançável, para além de limites geográficos muito
estritos. Por isso, a maneira mais consequente de se livrar desse mito começa
por negar o progresso – não mais procurar fechar os olhos para sua matriz
violenta, recuperar aquilo que ele destruiu. Não há progresso sem a noção de
atraso, sem a noção de que haveria não apenas sociedades atrasadas, mas
sujeitos fora do progresso, presos a modos de relação a si arcaicos e não
livres.”
“Wolfgang
Streeck um dia lembrou que o capitalismo havia de fato acabado. Só que há
várias formas de algo acabar. Uma delas é perpetuando-se como mortos-vivos. As
décadas de conjunção contínua entre baixo crescimento, endividamento crônico e
explosão de desigualdade mostravam como estávamos diante de um sistema
econômico que não era mais capaz de criar qualquer horizonte crível para as
promessas de enriquecimento social que ele um dia sustentara. Por isso, a única
forma de criar coesão social agora seria através da gestão social do medo e do
aumento exponencial da violência estatal. Porque gerir níveis cada vez maiores
de frustração e insatisfação social tornou-se o problema político central. E
essas frustrações não estão ligadas à incapacidade de populações em lidar com a
democracia e seu ‘desencantamento iluminista’, afastando-se do canto das
sereias populistas. Elas são a expressão da consciência tácita da irrealidade
das proposições normativas do capitalismo. Elas são apenas as reações efetivas
a sua morte, à morte de suas promessas.”
Vladimir Safatle (1973-) filósofo e professor brasileiro em Alfabeto das Colisões
Música brasileira
Eumir Deodato
Álbum: Prelude (1973)
Música: Also sprach Zarathustra (versão da "introdução" do músico austríaco Richard Strauss)
Prelude é o oitavo álbum de estúdio do tecladista brasileiro Eumir Deodato, lançado em 1973. Com a faixa exclusiva "Also Sprach Zarathustra" (um arranjo do tema do célebre filme "2001: Uma Odisseia no Espaço"). O álbum pode ser classificado como uma fusão de jazz clássico. Prelude se tornaria a gravação de maior sucesso da Deodato e CTI Records. O álbum conta com o guitarrista John Tropea em três faixas, os baixistas Ron Carter e Stanley Clarke e Billy Cobham na bateria. A versão com influência funk da "Introdução" de Also sprach Zarathustra de Richard Strauss, intitulada "Also Sprach Zarathustra (2001)", ganhou o Grammy de 1974 de Melhor Performance Instrumental Pop e alcançou o segundo lugar no paradas pop nos EUA.
(Fonte Wikipedia e tradução Google)
O capitalismo está em crise? Por diversas vezes, ao longo dos últimos anos, lemos ou vimos declarações de que o capitalismo estaria em crise: “Bolsa despenca no Japão”; “Euro sofre queda”; “Economia americana em desaceleração”; “PIB da China deverá crescer menos”... A cada mês, a cada ano, são anunciadas novas ocorrências, que na análise de muitos economistas prenunciariam uma gradual degenerescência do sistema econômico capitalista. As crises, no entanto, são inerentes ao capitalismo e ocorrem desde seu início; crises dos bancos, de superprodução, financeiras, etc.
Por isso, a ideia da crise no capitalismo não é nova. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), filósofos alemães, empreenderam uma profunda análise do sistema econômico capitalista na obra “O Capital” (1867). Marx lançou o primeiro volume e Engels revisou e publicou os dois volumes restantes, depois da morte de Marx. Na avaliação feita no estudo, o capitalismo geraria seu próprio esfacelamento através da competição entre as empresas visando lucros crescentes, gerando falências de concorrentes, formação de monopólios, concentração de riqueza por um lado e desemprego e miséria por outro. A pesquisa feita pela obra, profunda e abrangente, tornou-se ainda mais atual – principalmente nos últimos 35 anos, dado o rumo que a economia mundial vem tomando.
As análises e as conclusões de Marx e Engels foram elaboradas no final do século XIX, na fase inicial do desenvolvimento do capitalismo industrial, quando o sistema ainda estava em seus primórdios. Nesta época, o carvão mineral usado como combustível para máquinas a vapor desde a década de 1820, ainda era o principal recurso energético dos equipamentos usados para acionar os processos industriais. O petróleo e a eletricidade, que no século XX substituiriam o carvão nas fábricas, estavam em fase de adaptação tecnológica às novas máquinas e outros usos. Na área da organização do processo de produção, a linha de produção em série, o chamado “processo de produção fordista” – introduzido na fábrica de automóveis de Henry Ford em Detroit, em 1913 – encontrava-se em implantação e durante as próximas décadas seria adotado por outros tipos de fábricas.
Antes da 2ª Grande Guerra o capitalismo industrial tinha suas mais fortes atividades concentradas na Europa, Estados Unidos e Japão. Terminado o conflito, os oligopólios então existentes na economia mundial capitalista – indústria pesada, petrolífera, química e farmacêutica, automobilística, entre outros – expandiram suas atividades, procurando novos mercados consumidores e fornecedores. Desta forma, entre os anos 1950 e 1980, os chamados “Anos Dourados” da expansão econômica mundial, houve um rápido desenvolvimento da industrialização em várias regiões do globo, as quais até então haviam estado à margem (ou nas bordas) da economia capitalista, a economia de mercado.
Sudeste da Ásia, Índia, Coréia do Sul, Taiwan, México, América do Sul – notadamente o Brasil, Chile, Argentina e Colômbia – foram integrados ao processo produtivo da economia de mercado, sediando indústrias e tornando-se fornecedores de matérias primas, produtos agropecuários e manufaturados. A China, grande beneficiária deste processo de expansão da indústria capitalista, tornou-se o “motor” do capitalismo industrial a partir dos anos 1980, quando empresas estadunidenses, europeias e japonesas transferiram para lá parte de seus processos produtivos, devido às vantagens oferecidas pelo governo chinês (baixos custos de produção, infraestrutura logística, parceria financeira).
Tudo parecia estar indo bem e os vaticínios dos críticos do capitalismo haviam sido quase esquecidos. Em 1989 ocorre a queda do Muro de Berlim, símbolo do conflito entre o mundo capitalista, dominado pelos Estados Unidos, e o socialista, sob influência da União Soviética. Em dezembro de 1991, vem a dissolução da União Soviética e surge a Rússia, que abdica oficialmente do socialismo, dando fim à Guerra Fria, conflito ideológico, econômico e militar que havia durado 46 anos. Na época, o filósofo liberal estadunidenses, Francis Fukuyama, celebrava a vitória mundial da democracia liberal e da economia de mercado escrevendo em seu livro “O fim da história e o último homem” (1992): “A lógica interna da luta entre ideologias chegou ao seu fim e a universalização da democracia liberal ocidental como forma de governo humano é inevitável.”.
Algumas dificuldades no funcionamento do capitalismo, no entanto, já estavam presentes desde os anos 1970, bem antes da Queda do Muro. Já em 1970/1971 os Estados Unidos estavam endividados devido aos enormes gastos militares feitos com a Guerra do Vietnã (que só terminou em abril de 1975). Em 1973 ocorreu a Primeira Crise do Petróleo; aumento do preço do insumo decretado pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em represália ao apoio dos Estados Unidos a Israel na Guerra do Yom Kippur. O encarecimento do combustível foi um duro golpe na economia americana e mundial, afetando todos os segmentos industriais, principalmente a indústria automobilística. A revolução iraniana, que em 1979 depôs o Xá Reza Pahlevi, causou a Segunda Crise do Petróleo, sendo o Irã um grande produtor do recurso.
Ainda ao longo da década de 1970 vários fatores como leis trabalhistas mais abrangentes; regulamentos ambientais mais restritivos; aumento do custo das matérias primas; aumento médio dos salários dada a força de pressão dos sindicatos; fretes mais caros devido ao aumento do custo do combustível; etc. fizeram com que a taxa de retorno do investimento (lucro) das empresas fosse gradualmente caindo em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos.
Para fazer frente a esta queda nos lucros, as empresas utilizaram diversas estratégias. Algumas empresas adotaram o “global sourcing” (fornecimento global), adquirindo insumos de fornecedores com preços mais competitivos, localizados em outras regiões ou países, todavia diminuindo com isso o faturamento ou até provocando a falência dos vendedores locais. Grandes empresas e conglomerados como Apple, General Motors, Nike, Microsoft, Tesla, Adidas, Coca-Cola, etc., dadas as atrativas condições oferecidas pelo governo chinês, transferiram suas unidades, em parte ou sua totalidade, para a China. Ainda outros empreendimentos implantaram novas técnicas de administração e produção, como o “Sistema Toyota de Produção”, o “Lean Manufacturing”, etc., visando reduzir custos de produção. Paralelamente a todas estas providências de redução de custos, todo setor empresarial mundial investiu em automação, informática e também em robótica, para otimizar processos produtivos, aumentando a produtividade, e reduzir custos de mão de obra. Tudo, tendo em vista o objetivo básico do sistema capitalista, que é o aumento constante dos lucros.
O capitalismo chegou assim a uma situação em que a produção e a produtividade cresciam, mas os salários dos trabalhadores mantinham-se reduzidos ou em queda, como ocorria na pujante economia estadunidense desde o início dos anos 1980. Igualmente a transferência de um grande número de fábricas para outras regiões, e até para fora do país, provocou uma queda na massa salarial média na maior parte dos países – o Brasil é um exemplo desse processo.
Podemos, assim, formar o quadro da mais recente e talvez mais grave crise do capitalismo. De um lado, há uma produção de bens e produtos em constante aumento, com regular lançamento de novos itens, associados a campanhas publicitárias para impulsionar (ou pelo menos manter) o consumo. Todavia, o aumento da produção, mesmo que realizado de forma mais eficiente, com menos perda de insumos durante o processo produtivo, consome um volume maior de matérias primas, o que demanda mais exploração dos recursos naturais (mineração, uso de água, ampliação da agropecuária, mais geração de energia, mais poluição do ar, etc.).
O ideal de um “capitalismo sustentável”, do qual tanto se fala nos meios de comunicação, é por isso uma conta que não fecha. Para que o sistema continue existindo, é preciso manter a lucratividade crescente, o que só ocorre com mais consumo, o qual só é possível com mais produção, a qual só pode ocorrer com maior uso de recursos naturais. A ideia de uma “economia circular” só pode funcionar em certos setores da economia, não podendo integrar todo o sistema de produção e consumo. Em um setor ou outro, em uma empresa ou outra, sempre podem ocorrer falhas, onde então ocorre o “vazamento” de resíduos para fora do “círculo”; para o ambiente, gerando poluição. Não há produção-distribuição-consumo em sistema fechado, com resíduo zero. Sob o aspecto ambiental, mais cedo ou mais tarde, o sistema de produção capitalista se tornará inviável pela exaustão das fontes de insumos e matérias primas (a natureza). O matemático e economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) discutiu detalhadamente esta situação em sua teoria da bioeconomia.
Por outro lado – e este é o aspecto de imediato mais importante – a crise do capitalismo também se apresenta sob a forma de uma crescente financeirização da economia. Desde os anos 1980, grupos econômicos têm obtido ganhos maiores aplicando seus lucros no setor financeiro, nos vários tipos de papéis, do que investindo na ampliação ou construção de fábricas, lojas, casas, ou qualquer outro bem concreto. Os benefícios são maiores, se concretizam mais rapidamente e o risco é menor. Esta situação, no entanto, quase não gera novos empregos e, frequentemente, ainda resulta no fechamento de postos de trabalho já existentes.
Na fase atual do capitalismo temos assim o pior dos mundos para os trabalhadores. Indústrias se deslocam para outras regiões onde os custos de produção, entre eles a mão de obra, são menores. De uma maneira geral as empresas investem na informatização e automação, reduzindo postos de trabalho e aplicando parte substancial de seus lucros no mercado financeiro, não ampliando sua infraestrutura e estagnando ou até reduzindo a criação de novos postos de trabalho. O resultado disso é uma redução do número de empregos com registro e dos níveis salariais, aumentando o numero de trabalhadores subempregados e precarizados/uberizados. Na opinião dos especialistas, nas condições de desenvolvimento em que se encontra a economia de mercado, não existe a possibilidade de um aumento substancial no número de empregos, menos ainda dos postos de trabalho melhor remunerados. Ou seja, a situação geral do trabalhador médio só tende a ficar pior. Nestas condições, quem ainda terá recursos para consumir o que se produz? A quem o capitalismo venderá seus produtos e serviços; condição primordial para que o sistema continue existindo?
Para terminar fica a pergunta: por quanto tempo o sistema capitalista poderá persistir, antes que os recursos naturais acabem ou que os trabalhadores resolvam acabar com o sistema?
Para assistir o vídeo, acesse o link abaixo:
https://www.fronteiras.com/assista/exibir/o-lado-bom-da-vida-ela-sempre-se-renova
“O
Brasil defende a proposta elaborada por Zucman (economista francês), que prevê
um imposto global de 2% sobre o patrimônio de cerca de 3 mil super-ricos – o que
corresponde a US$250 bilhões (cerca de R$1,4 trilhão) de potencial de
arrecadação por ano.”
Artigo “Brasil fecha acordo por menção à taxação de super-ricos no G20”, piblicado no jornal Folha de São Paulo em 26/7/2024
https://www.guiadasartes.com.br/ottone-zorlini/obras-principais
“Segundo
Nietzsche, porém, esta é a raiz de um erro fundamental. Associa racionalmente o
fato ao valor ou significado; mas os factos não têm mais significado do que uma
pedra numa montanha ou um ruído isolado. Quanto à natureza, ela não tem
sentido, mas oferece a possibilidade de inúmeros significados, numa mistura de
crueldade e generosidade, alegria e sofrimento, prazer e dor – uma mistura sem
nome. O ‘homem’, por escolha, confere um sentido à natureza, à vida natural, às
coisas da natureza. O ‘homem’ não é um ‘ser’ que questiona incessantemente o
mundo e a si mesmo, mas um ser que cria significados e valores – o que ele faz
assim que nomeia as coisas, avaliando-as ao falar delas. Muito provavelmente,
só existem factos e coisas para e por essa avaliação. O conhecimento contribui
com um valor, dá significado aos objetos e às coisas? Não, diz Nietzsche contra
Hegel. Na verdade, como conhecimento ‘puro’ e abstrato, despoja o mundo de
significado. Quanto ao trabalho, Nietzsche concorda com Marx que ele tem e dá
sentido e valor, mas não o trabalho que fabrica produtos, apenas o trabalho que
é criativo.”
Henry Lefebvre (1901-1991) filósofo e sociólogo francês em Hegel, Marx e Nietzsche
Leia o romance "Lavoura Arcaica" (1975) do premiado escritor brasileiro Raduan Nassar (1935-), considerado por muitos o maior escritor brasileiro vivo.
A obra já foi traduzida para diversos idiomas e foi adaptada para o cinema pelo diretor Luiz Fernando Carvalho em 2001.
Acesse o livro no link Internet Archive abaixo:
https://archive.org/details/lavoura-arcaica-raduan-nassar/Lavoura%20Arcaica%20-%20Raduan%20Nassar/