“A função da educação é
ensinar a pensar de forma intensa e crítica. Inteligência e caráter: esse é o
objetivo de uma verdadeira educação.”
Martin Luther King Jr., pastor batista e ativista político estadunidense
A Educação
sempre foi uma das maiores preocupações dos eleitores nos últimos 30 anos,
segundo pesquisa recente do Datafolha. Entre os eleitores jovens e com mais escolaridade,
a Educação é o fator mais citado. Em um país com um total de 46 milhões de
cidadãos matriculados no ensino básico – 79% dos quais na rede pública – a
educação influencia, com razão, o voto de 71% da população, segundo pesquisa
recente.
A
instrução pública tem sido o principal fator de avanço intelectual, cultural e
social da humanidade desde sua instituição no início do século XVIII na Europa
e sua consolidação no Ocidente no início do século XIX. Os avanços materiais e
culturais alcançados pela Europa, Estados Unidos, Japão e, mais recentemente,
pela China e outras nações asiáticas, só foram possíveis com planejamento,
significativos investimentos e gestão de longo prazo. No Brasil, a questão do
ensino público se tornou tema de preocupação do Estado e da sociedade durante o
governo provisório de Getúlio Vargas (1930-1934) e com a publicação do
Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932.
A
UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)
recomenda em seu Marco de Ação da Educação 2030 (Declaração de Incheon) que os
países invistam 4% a 6% de seu PIB em Educação. Depois da crise da Covid
(2020-2023) a instituição sugeriu um segundo parâmetro, segundo o qual as
nações deveriam destinar 15% a 20% dos gastos públicos totais ao setor
educacional – meta ainda não alcançada pela maioria dos países.
O Brasil
investe 5% a 5,5% de seu PIB na Educação. O Plano Nacional de Educação (PNE
2026) recomenda que o percentual do orçamento destinado ao setor seja ampliado
para 7,5% a 10% do PIB. No entanto, pressionado pelas metas financeiras
estabelecidas pelo próprio governo através do Arcabouço Fiscal em 2024, cujo
objetivo é cortar despesas para atender metas de endividamento público, foi estabelecido
um Novo Gatilho Fiscal que prevê para 2027 a retirada de R$ 16,6 bilhões da
Saúde e Educação, além de redução na oferta de bolsas de estudo e vagas no
ensino superior. Adicionalmente, com a revisão de gastos de longo prazo, o
governo também planeja corte de mais R$ 42,3 bilhões com a
Reformulação do Ensino Integral, até 2030. Estas as metas estabelecidas pelo
governo Lula, para atender os discutíveis objetivos do Arcabouço Fiscal,
substituto do Teto de Gastos, estabelecido no governo Temer. O candidato Flávio
Bolsonaro, se eleito, planeja maior participação do setor privado na Educação –
o que implica também em redução do orçamento da Educação.
Há décadas a Educação tem sido prioridade de uma sucessão de administrações – pelo menos nos Planos de Governo elaborados pelos marqueteiros dos então candidatos. Na prática quase tudo é diferente. Exemplo disso é a diminuição no número de novos professores do ensino médio ao longo dos últimos anos. Dados do Instituto SEMESP indicam que o grupo de professores até 24 anos teve uma redução de 17, 3 mil para 11,9 mil em dez anos (2015/2025). No mesmo período o número de professores com mais de 60 anos – educadores que em alguns anos estarão aposentados – cresceu em mais de 50%, passando de 18,2 mil para 37,3 mil. A previsão do instituto é que em 2040 o país terá um déficit de 235 mil docentes (atualmente o país tem um total de cerca de 2,4 milhões de professores).
Se a
profissão de professor perdeu sua atratividade para muitos jovens, suas causas
estão nas condições criadas pelos próprios governos. Na China a profissão tem
prestígio social e é comparada às de médico ou engenheiro, enquanto que no
Brasil alguns governos estaduais e municipais se utilizam de artifícios fiscais
para não pagarem o Piso Salarial Nacional do Magistério. Em Singapura o Estado
seleciona os melhores alunos do ensino médio para direcioná-los ao magistério,
custeando sua formação, inclusive a continuada, pagando salários
competitivos e garantindo progressão na carreira. Enquanto isso, “no país do
futuro e das promessas”, o professor recebe um salário baixo, sofre forte
desgaste físico e mental devido às condições de trabalho cada vez mais sujeitas
a formas precárias de admissão, com os contratos temporários. Na Finlândia os
professores do ensino fundamental têm mestrado pago pelo Estado, salários
equivalentes aos de altos funcionários públicos, pouca burocracia
administrativa e bastante liberdade em sala de aula. O professor brasileiro
precisa enfrentar atrasos e parcelamento nos baixos salários, infraestrutura de
ensino precária, culpabilização pelo fracasso da Educação, discursos de
perseguição (leia-se “escola sem partido”) e vários outros empecilhos. É até
admirável o que os professores do ensino público conseguem alcançar, dadas as
condições em que precisam atuar.
A
outra face da educação é seu resultado prático, ou seja, os benefícios auferidos
com o conhecimento e habilidades adquiridas no ensino. Neste aspecto a
realidade também é diferente daquela apresentada pela propaganda do governo, já
que dados recentes mostram que a população não vê seu aumento no grau de escolaridade
se refletir na sua renda. Segundo matéria publicada no jornal Valor em 17/09/26, uma pesquisa
realizada em 10 capitais brasileiras mostra que 73% da população dizem ser mais
escolarizados que seus pais. Desses, apenas 43% declaram ter renda superior à
geração anterior e somente 51% afirmam terem melhores condições de moradia.
Nem
sempre há relação direta entre o nível educacional e a melhoria das condições
de vida – renda e moradia – porque não há número suficiente de empregos melhor
remunerados. Mais decepcionante ainda é a situação daqueles estudantes que
tiveram que optar pelo FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e, terminando o
curso superior, não encontram emprego condizente, ainda com um financiamento
escolar por pagar. Como existem poucos postos de trabalho de mais alta
remuneração, as melhores posições são ocupadas pelos melhor preparados; aqueles
que puderam estudar mais, originários de grupos sociais mais abastados. Com
isso acabam se eternizando as divisões socioeconômicas. Segundo o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento
Social, extratos 25% mais pobres da população têm apenas 8,3% de
probabilidade de estar entre os mais ricos na vida adulta e apenas 1,3%
consegue chegar aos 10% mais ricos (renda entre R$ 4.500,00 a R$ 5.000,00 por
pessoa em 2026). As chances de os mais pobres permanecerem em seu grupo são de
48%.
A
situação ainda tem outro aspecto: a maioria dos estudantes que fez o ensino básico no Brasil e consegue cursar
faculdade no exterior não retorna ao país. Segundo recente pesquisa realizada pela associação Brazilian Student Association (Brasa), 70% dos brasileiros estudando fora do
país têm disposição para retornar, mas apenas 37% efetivamente o fazem. Mais oportunidades
de trabalho, melhor qualidade de vida e diferença salarial, são os principais
motivos de não retornarem ao Brasil.
O
antropólogo, sociólogo, escritor e ministro da Educação Darcy Ribeiro
(1922-1997) escreveu em sua obra “Sobre o Óbvio” (1986): “A crise educacional do Brasil da qual tanto se fala, não é uma crise, é
um programa. Um programa em curso, cujos frutos, amanhã, falarão por si mesmos”.
A frase ficou famosa e continua sendo utilizada por vários intelectuais, muitas
vezes sem citar a fonte, e representa a situação na qual o “país do futuro e
das promessas” se encontra depois de tantos anos. Apesar do idealismo de
educadores que marcaram o Ensino do país, como Anísio Teixeira, Paulo Freire,
Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Maria Nilde Masceillani e Fernando de
Azevedo, entre tantos outros que tinham entre seus objetivos a democratização do ensino, a formação
educacional de qualidade ainda continua sendo exclusividade de grupo reduzido
de cidadãos. Apesar das práticas positivas em alguns estados, como no Ceará,
Pernambuco e Piauí, os últimos resultados da pontuação do Brasil no PISA (Programme for International Student
Assessment) de 2025, mostram que o país pouco avançou nos últimos 10 anos.
Até
quando continuaremos sendo “o país do futuro e das promessas”, no qual os mesmos
grupos continuam estabelecendo as metas de toda a sociedade em todas as áreas?
Ricardo
E. Rose, 17/09/2026
(Ilustrações: Erich Heckel, 1883-1970)
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