Steven Rose

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

“O pecado da grande metáfora da seleção natural é sua dedução de que os organismos são passivos, soprados de um lado para outro do ambiente pelo acaso, em vez de serem atores ativos em seu próprio destino.

Segundo, a seleção natural, a evolução, não tem o poder de prever mudanças futuras; é um processo que só reage ao aqui e agora. Não há metas, tentativas de alcançar alguma perfeição metafísica. A seleção, em qualquer ocasião, só pode funcionar nos materiais que ela tem disponíveis. A evolução opera por acréscimos, por remendo contínuo. Não é capaz de redesenhar e construir a partir do início.”

“Os peixes, anfíbios, répteis e aves sobrevivem hoje porque são inteiramente ‘aptos’ para seus ambientes e estilos de vida – pelo menos tão aptos e ‘evoluídos’ quanto os seres humanos. Os processos de evolução que deram origem a seus ancestrais lhes garantiram isso. A linha evolutiva que levou os mamíferos e daí aos primatas e seres humanos descreve apenas uma das inúmeras trajetórias evolutivas que geraram todas as atuais formas vivas e que continuam a incentivar a adaptação em reação às contingências permanentemente em mutação do meio ambiente.”

“Para um não especialista, pisar nesse campo minado é claramente um perigo, mas o consenso atual pareceria datar a divergência de pré-humanos (as formas mais primitivas são conhecidas como hominoides; as mais recentes hominídeos) de seus primos chimpanzés em uns 6 a 7 milhões de anos, enquanto o Homo sapiens apareceu como um ser diferente dos outros hominídeos por volta de 200 mil anos atrás. Hoje, o H. sapiens é o único membro sobrevivente do gênero Homo, e é um ponto de discussão saber se os diversos outros membros fósseis do gênero coexistiram em diferentes épocas durante esse período de 6 milhões de anos ou se houve uma espécie Homo de cada vez, implicando em algum tipo se progressão linear. Durante esse período, no entanto, há o que pode ser interpretado como uma mudança sequencial no desenvolvimento dos crânios; não apenas mudanças no tamanho dos cérebros, determinadas pelo volume do crânio (medida como um molde endocraniano), mas também a retração da face e das órbitas oculares sob o crânio, em vez de se projetarem para fora como em outros símios. Isso permitiu a expansão dos lobos frontais (embora a alegação de que os seres humanos têm lobos frontais desproporcionalmente expandidos quando comparados a outros símios, vista até há pouco tempo como controversa, já tenha sido contestada). Os crânios mais antigos atribuídos à condição de H. sapiens já descobertos, em Hero, na Etiópia, foram datados de cerca de 160 mil anos atrás. No entanto, para quem está de fora, poderia parecer que quase cada fóssil descoberto implica mais espécies de hominídeos (uma revisão recente inclui uns vinte) irradiando-se por um período de cerca de 4 milhões de anos, depois da diferenciação original dos ancestrais dos grandes símios de hoje.”

 

Steven Rose (1938-2025), neurocientista, pesquisador e professor inglês em O cérebro no século XXI (2005)

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