“O
pecado da grande metáfora da seleção natural é sua dedução de que os organismos
são passivos, soprados de um lado para outro do ambiente pelo acaso, em vez de
serem atores ativos em seu próprio destino.
Segundo,
a seleção natural, a evolução, não tem o poder de prever mudanças futuras; é um
processo que só reage ao aqui e agora. Não há metas, tentativas de alcançar
alguma perfeição metafísica. A seleção, em qualquer ocasião, só pode funcionar
nos materiais que ela tem disponíveis. A evolução opera por acréscimos, por
remendo contínuo. Não é capaz de redesenhar e construir a partir do início.”
“Os
peixes, anfíbios, répteis e aves sobrevivem hoje porque são inteiramente ‘aptos’
para seus ambientes e estilos de vida – pelo menos tão aptos e ‘evoluídos’
quanto os seres humanos. Os processos de evolução que deram origem a seus
ancestrais lhes garantiram isso. A linha evolutiva que levou os mamíferos e daí
aos primatas e seres humanos descreve apenas uma das inúmeras trajetórias
evolutivas que geraram todas as atuais formas vivas e que continuam a
incentivar a adaptação em reação às contingências permanentemente em mutação do
meio ambiente.”
“Para
um não especialista, pisar nesse campo minado é claramente um perigo, mas o
consenso atual pareceria datar a divergência de pré-humanos (as formas mais
primitivas são conhecidas como hominoides; as mais recentes hominídeos) de seus
primos chimpanzés em uns 6 a 7 milhões de anos, enquanto o Homo sapiens apareceu como um ser diferente dos outros hominídeos
por volta de 200 mil anos atrás. Hoje, o H.
sapiens é o único membro sobrevivente do gênero Homo, e é um ponto de discussão saber se os diversos outros membros
fósseis do gênero coexistiram em diferentes épocas durante esse período de 6
milhões de anos ou se houve uma espécie Homo
de cada vez, implicando em algum tipo se progressão linear. Durante esse
período, no entanto, há o que pode ser interpretado como uma mudança sequencial
no desenvolvimento dos crânios; não apenas mudanças no tamanho dos cérebros,
determinadas pelo volume do crânio (medida como um molde endocraniano), mas
também a retração da face e das órbitas oculares sob o crânio, em vez de se
projetarem para fora como em outros símios. Isso permitiu a expansão dos lobos
frontais (embora a alegação de que os seres humanos têm lobos frontais desproporcionalmente
expandidos quando comparados a outros símios, vista até há pouco tempo como
controversa, já tenha sido contestada). Os crânios mais antigos atribuídos à
condição de H. sapiens já descobertos,
em Hero, na Etiópia, foram datados de cerca de 160 mil anos atrás. No entanto,
para quem está de fora, poderia parecer que quase cada fóssil descoberto
implica mais espécies de hominídeos (uma revisão recente inclui uns vinte)
irradiando-se por um período de cerca de 4 milhões de anos, depois da diferenciação
original dos ancestrais dos grandes símios de hoje.”
Steven Rose (1938-2025), neurocientista, pesquisador e professor inglês em O cérebro no século XXI (2005)

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